AFP PHOTO / MAHMUD HAMS
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Sob crítica, Netanyahu diz que Hamas pôs crianças de Gaza na linha de fogo

Premiê disse à TV americana que as tropas não tiveram outra opção a não ser usar a força letal durante os protestos contra a abertura da Embaixada dos EUA em Jerusalém

O Estado de S.Paulo

15 Maio 2018 | 20h39

WASHINGTON - O primeiro-ministro israelense, Binyamin Netanyahu, acusou, nesta terça-feira, 15, o movimento islamita Hamas de colocar crianças na linha de fogo "deliberadamente", em meio a fortes críticas a Israel pelo massacre de dezenas de manifestantes palestinos na fronteira com Gaza.

Netanyahu disse à televisão americana que as tropas não tiveram outra opção a não ser usar a força letal durante os protestos contra a abertura da Embaixada dos Estados Unidos em Jerusalém, na segunda-feira, e a responsabilidade das mortes recai inteiramente sobre o grupo radical.

"Eles (Hamas) estão pressionando civis, mulheres, crianças, para que se aproximem da linha de fogo com o objetivo de obter vítimas", disse Netanyahu à emissora CBS.

"Nós estamos tentado minimizar as baixas, eles estão tentando causar baixas para pressionar Israel, o que é horrível", acrescentou. "Essas coisas são evitáveis. Se o Hamas não os tivesse empurrado para lá, não teria acontecido nada. O Hamas é responsável por fazer isso e o estão fazendo deliberadamente."

+Os problemas de Gaza são profundos e seu fim não está perto

Vários governos expressaram sua preocupação sobre o uso de armas de fogo contra os manifestantes, e o presidente turco, Recep Tayyip Erdogan, acusou o Estado judeu de "terror estatal". 

Mas Netanyahu disse que outros países teriam feito o mesmo para proteger suas fronteiras.

"Não sei de nenhum Exército que faria algo diferente se tivesse de proteger a sua fronteira contra pessoas que dizem 'vamos destruí-los e vamos invadir seu país'", disse. "Você tenta outras formas, todas as formas, tenta usar meios não letais e não funcionam (...) Tenta pegar debaixo do joelho, mas às vezes, infelizmente, não funciona", explicou.

O governo dos Estados Unidos também responsabilizou pelo derramamento de sangue o Hamas, que governa a Faixa de Gaza e não reconhece o direito de Israel de existir.

Israel agiu com moderação ante a provocação do Hamas, assegurou a embaixadora dos Estados Unidos na ONU, Nikki Haley, em uma reunião urgente do Conselho de Segurança sobre a violência em Gaza.

"A organização terrorista Hamas tem incitado a violência durante anos, muito antes de os Estados Unidos decidirem mudar a embaixada", disse.

Os disparos israelenses de segunda-feira na Faixa de Gaza provocaram a morte de "oito crianças menores de 16 anos" entre os mais de 50 palestinos mortos, afirmou Riyad Mansur, embaixador palestino na ONU. Um bebê de oito meses morreu após inalar gás lacrimogêneo durante os confrontos.

Israel enfrenta ainda uma onda de condenações e apelos a favor de uma investigação independente depois do banho de sangue em Gaza. 

Após o dia mais mortal do conflito entre Israel e palestinos desde 2014, Reino Unido, Alemanha, Bélgica e Suíça expressaram apoio à ideia de uma investigação independente proposta pelo secretário-geral da ONU, António Guterres, desde o fim de março, quando começou a mobilização em Gaza com incidentes violentos.

Mas Israel também recebeu o apoio de seu grande aliado americano no Conselho de Segurança da ONU, onde defendeu a "moderação" israelense diante dos manifestantes.

O presidente palestino, Mahmud Abbas, anunciou que chamou para consultas Hossam Zomlot, representante nos Estados Unidos da Organização para a Libertação da Palestina (OLP), afirmou um comunicado.

As relações já complicadas com a Turquia pioraram, com Ancara pedindo ao embaixador israelense que retornasse ao seu país e Israel respondendo da mesma maneira. Erdogan advertiu que uma cúpula islâmica na sexta-feira sobre os palestinos enviará "uma forte mensagem ao mundo".

Desde segunda-feira, a África do Sul chamou para consultas seu embaixador em Israel. A Irlanda convocou em Dublin o embaixador israelense, e foi seguida pela Bélgica, que convocou a embaixadora Simona Frankel, depois de chamar de "terroristas" todas as vítimas de Gaza, segundo Bruxelas.

A União Europeia e Londres pediram calma e, assim como Pequim e Paris, criticaram sobretudo o uso da força desproporcional por parte de Israel.

O Conselho de Direitos Humanos da ONU e a Anistia Internacional, considerados inimigos por Israel, se referiram às ações israelenses como "crimes de guerra". 

'Nakba'. Os palestinos da Faixa de Gaza e da Cisjordânia ocupada comemoraram a "Nakba" (a "catástrofe", em árabe) que representou, em sua visão, a criação do Estado de Israel, em 1948, e o êxodo de centenas de milhares de pessoas.

Dois palestinos morreram nesta terça-feira em confrontos pontuais e menos numerosos que na véspera.

A Faixa de Gaza é, desde o dia 30 de março, palco de um movimento de protestos chamados de "A grande marcha do retorno", que deixaram 115 palestinos mortos, a grande maioria por disparos de soldados israelenses. Um soldado israelense ficou ferido.

"A grande marcha do retorno" defende a reivindicação dos palestinos de retornarem às terras de onde fugiram, ou foram expulsos na criação de Israel, em 1948. Também denuncia o bloqueio imposto há mais de 10 anos à Faixa de Gaza por Israel para conter o Hamas.

A "Marcha do retorno" deveria terminar com a comemoração do "Nakba", mas a inauguração da embaixada dos Estados Unidos em Jerusalém agravou ainda mais a situação.

Os israelenses veem na decisão americana o reconhecimento de uma realidade histórica de 3 mil anos para o povo judeu. Os palestinos a consideram como o resultado do posicionamento radical adotado pelo presidente Trump a favor dos israelenses e supõe a negação de suas reivindicações sobre Jerusalém. 

Israel se apoderou de Jerusalém Oriental em 1967 e a anexou. Toda Jerusalém é sua capital "eterna" e "indivisível", afirma. Os palestinos, por sua vez, querem fazer de Jerusalém Oriental a capital do Estado ao qual aspiram.

Para a comunidade internacional, Jerusalém Oriental continua sendo um território ocupado. / AFP 

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