EFE/EPA/LUIS MIGUEL FONSECA
EFE/EPA/LUIS MIGUEL FONSECA

Sobreviventes do ataque jihadista em Moçambique relatam o horror do ataque à Palma 

Moradores de Palma, que sofreram ataques dos grupos extremistas islâmicos em 24 de março, contam como foi a fuga da cidade em meio à floresta até chegar à cidade portuária de Pemba

Emidio Jozine e Emma Rumney, Reuters

03 de abril de 2021 | 17h04

PEMBA - Luísa José, 52, mãe de cinco filhos, diz que ficou cara a cara com insurgentes ligados ao Estado Islâmico quando eles atacaram a cidade-polo de gás de Palma, ao norte de Moçambique, há 10 dias.


“Eu estava correndo para salvar minha vida ... eles vinham de todas as ruas”, disse ela à Reuters de um estádio na cidade portuária de Pemba, que abriga alguns dos milhares que fugiram da violência dos grupos extremistas islâmicos. “Eu os vi com bazucas. Eles usavam uniformes com lenços vermelhos ... amarrados na cabeça ”, disse ela.


Luísa José disse que os militantes invadiram rapidamente sua cidade natal, Palma, próxima a enormes usinas de gás avaliadas em cerca de US $ 60 bilhões, no Nordeste de Moçambique.

Em 24 de março, grupos armados atacaram a cidade portuária de Palma, matando dezenas de civis, policiais e soldados. Em barcos de pesca ou a pé, milhares de sobreviventes fugiram da localidade de 75.000 habitantes. Muitos foram acolhidos pelas Nações Unidas e ONGs, desidratados, descalços e em estado de choque, após vários dias no mato, sem nada para comer ou beber. Outros, principalmente mulheres e crianças, foram evacuados por aviões humanitários, bem como por embarcações. 


No entanto, milhares de pessoas continuam desaparecidas. Apenas 9.900 dos deslocados foram registrados em Pemba e outras partes da província de Cabo Delgado, de acordo com a agência humanitária da ONU OCHA.

Muitos ainda podem estar escondidos na floresta nas cercanias da cidade, disse o grupo internacional Médicos Sem Fronteiras, e aqueles que saíram contaram ter visto corpos de outras pessoas que morreram de fome ou desidratação ao longo do caminho.

Alguns também foram mortos por crocodilos ou morreram na lama profunda, segundo um empreiteiro, cujo funcionário testemunhou ambas as situações.

Cidade isolada 

A maior parte das comunicações com Palma foi cortada quando o ataque começou, e a Reuters não conseguiu verificar de forma independente os relatos das testemunhas.

Um porta-voz das forças de defesa e segurança de Moçambique recusou-se a comentar no sábado, enquanto as chamadas para a polícia nacional ficaram sem resposta.

A província de Cabo Delgado, onde Palma está localizada, acolhe desde 2017 uma insurgência islâmica ligada ao Estado Islâmico. Os confrontos entre os militantes e as forças do governo em torno de Palma continuaram na sexta-feira, disseram fontes de segurança à Reuters.

A África do Sul disse no sábado que os vizinhos de Moçambique se reunirão na próxima semana para discutir a insurgência.

O governo de Moçambique disse que dezenas de pessoas morreram no ataque a Palma, mas a escala total das vítimas e do deslocamento permanece incerta.


Fato Abdula Ali, 29, disse que foi separada do marido e dos três filhos no caos. Grávida de nove meses, ela não conseguiu acompanhar os outros moradores da cidade que fugiram, deixando  ela e seu bebê sozinhos na mata. Fato fez o parto ali mesmo, cortando o cordão umbilical com um galho de árvore, disse ela. 

No dia seguinte, segundo seu relato, ela se despiu de suas roupas encharcadas de sangue e encontrou outro grupo de pessoas que se revezou carregando-a para um local seguro. “Todo o meu corpo dói”, disse ela à Reuters em um hotel em Pemba.

Luisa José disse que passou quase cinco dias na mata, comendo tubérculos de mandioca amargos e bebendo de poças de água turva antes de chegar a Quitunda, uma vila para pessoas realocadas pelos megaprojetos de gás liderados por grandes empresas de petróleo, incluindo a empresa francesa Total.

De lá, diz ela, foi levada empresa Total, mas teve que deixar para trás mais de seis membros de sua família, incluindo o marido e uma filha, porque não havia espaço no barco.


A empresa francesa Total retirou na sexta-feira, 2,  toda a equipe de trabalho restante do local da usina próxima à Palma,  segundo depoimento à Reuters de duas fontes com conhecimento direto das operações, assumidas pelos militares. A Total não quis comentar o caso.


Luísa José não teve notícias de seus familiares desde que ela os deixou para trás. Eles estão entre os milhares presos em Quitunda, de acordo com trabalhadores humanitários e diplomatas. “Eles estão seguros? Eles têm abrigo? Eles vão voltar? Não sei ”, disse ela.? 

 

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