Anders Wiklund/News Agency/AFP
Anders Wiklund/News Agency/AFP

Suécia reconhece erros em não adotar lockdown no combate ao coronavírus

Sem medidas de distanciamento, e cita por Bolsonaro como exemplo, país registra taxa de mortalidade mais alta do mundo nas últimas semanas

Reuters e AFP, O Estado de S.Paulo

03 de junho de 2020 | 12h49

ESTOCOLMO — O responsável pela estratégia da Suécia no combate ao coronavírus admitiu que o país deveria ter adotado medidas mais contundentes de isolamento social para conter a pandemia

Em resposta a críticas crescentes sobre a posição do país, o arquiteto da resposta oficial de Estocolmo, baseada em ações voluntárias dos cidadãos, admitiu que uma abordagem mais dura poderia ter evitado o alto número de mortes registrado no país.

“Sim, acho que poderíamos ter feito mais do que fizemos na Suécia, claramente”, disse Anders Tegnell, epidemiologista-chefe da Agência de Saúde Pública sueca, à rádio Sveriges. “Se encontrássemos a mesma doença, sabendo exatamente o que sabemos hoje, acho que acabaríamos fazendo algo entre o que a Suécia fez e o que o resto do mundo fez.”

Em números absolutos, a Suécia tem menos mortos pela covid-19 do que que países como Reino Unido, Espanha e Itália — os epicentros da doença na Europa. No entanto, a taxa de mortalidade per capita sueca é a oitava maior do planeta. 

Em uma entrevista ao Estadão em 8 de maio, Tegnell sustentou que 25% estavam imunes em Estocolmo e rebateu críticas ao modelo adotado no país. “Já temos algo como 25% por cento da população imune, o que significa que atravessamos boa parte do caminho”, disse Tegnell na ocasião.

Considerando apenas a semana entre os dias 26 de maio e 2 de junho, no entanto, o país teve a maior taxa de mortalidade per capita do mundo: 5,29 mortes por milhão. No mesmo período, o Brasil teve 4,34 mortes por milhão de habitantes, segundo o site Our World In Data, que compila dados sobre a pandemia.

O comentário de Tegnell veio após meses de críticas a outros países europeus que adotaram lockdowns: até este momento, o governo sueco, de centro-esquerda, insistia que sua abordagem frente à doença era economicamente mais sustentável.

A insistência gerou uma série de questionamentos e críticas internacionais e domésticas, isolando Estocolmo no bloco europeu. Mais tarde nesta quarta, em uma entrevista coletiva, o epidemiologista deu um passo atrás sobre sua declaração e disse que continua a acreditar que a estratégia sueca é boa, "mas que há sempre melhorias que podem ser feitas".

Isolamento

No ápice da pandemia, a Suécia foi um dos poucos países em que cafés e restaurantes ficaram abertos, escolas para alunos abaixo de 16 anos funcionavam e onde amigos e parentes ainda podiam se reunir. 

As fronteiras continuaram abertas para visitantes europeus e o isolamento social era voluntário, apostando na cooperação do público. As estatísticas suecas mostram a fraqueza do plano: o país apresenta quase quatro vezes o total de mortos somado dos outros países nórdicos.

Enquanto os mortos por covid-19 no território sueco chegam a 4.468, com 38.589 casos confirmados, Noruega e Dinamarca, que adotaram medidas de isolamento, têm números bastante inferiores: 8.455 infectados  e 237 mortes, e 11.934 infectados e 580 mortes, respectivamente. 

Ambos os países começam a retomar gradualmente suas atividades e anunciaram, há pouco mais de uma semana, a reabertura de suas fronteiras. O acesso à Suécia, no entanto, continuará suspenso.

Na segunda-feira, o primeiro-ministro Stefan Lofven disse que criará uma comissão para investigar a resposta do governo à pandemia. O premier não respondeu aos pedidos de comentários feitos pela agência Reuters, mas sua ministra de Saúde e  Assuntos Sociais, Lena Hallengren, disse por escrito que Estocolmo "sempre esteve preparada para introduzir medidas mais abrangentes recomendadas pelas autoridades de saúde".

Segundo Tegnell, como quase todos os países europeus aderiram ao confinamento total, é difícil saber quais medidas poderiam ter sido mais eficazes na Suécia. Até o momento, a opinião pública no país vinha apoiando as diretrizes oficiais, mas políticos e diplomatas ouvidos pelo Financial Times apontam para uma mudança de opinião motivada principalmente pelo isolamento sueco, frente ao fechamento das fronteira pelos vizinhos.

"Nós temos uma cooperação nórdica muito profunda e íntima em diversos aspectos. As pessoas não estão muito felizes que os nossos vizinhos nórdicos estejam fechando suas fronteiras para nós e temem que nossa estratégia tenha tido os piores resultados possíveis”, disse um ex-diplomata ao jornal britânico.

Os diplomatas e políticos ouvidos pelo FT apontam que a insatisfação com a estratégia adotada coincide com uma mudança do tom da mídia local, que vem sendo mais crítica ao governo. Outros aspectos que geram insatisfação são o grande número de mortos em casas de repouso e a baixa testagem para a Covid-19 no país. Na semana passada, apenas um terço da meta de 100 mil exames semanais foi atingido.

Citada como exemplo por Bolsonaro

O país escandinavo foi citado por diversas vezes pelo presidente Jair Bolsonaro como exemplo no combate ao novo coronavírus por não ter decretado o lockdown.

De fato, a estratégia desenhada por Tegnell não incluiu a medida, que foi implementada em grande parte da Europa. Mas o governo impôs uma série de regras de distanciamento social, em especial na capital, Estocolmo.

Segundo o médico, ainda é difícil saber quais medidas exatamente funcionaram no combate ao novo coronavírus pelo mundo. Isso porque a maioria dos países implementou ao mesmo tempo muitas ações contra a Covid-19. "O problema disse é que você realmente não sabe qual das medidas que você tomou foram mais eficazes", disse.

Para Tegnell, agora que os países estão retirando as medidas uma por uma, será possível entender o que de fato funcionou e "o que, além do que fizemos, poderíamos ter feito além do fechamento total".

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