EFE/EPA/Ministério da Defesa do Taiwan
EFE/EPA/Ministério da Defesa do Taiwan

The Economist: China aumenta pressão militar sobre Taiwan

Incursões aéreas de Pequim nas proximidades da ilha elevam o risco de uma crise

The Economist, O Estado de S.Paulo

11 de outubro de 2021 | 05h00
Atualizado 11 de outubro de 2021 | 05h00

Foi uma provocação deliberada, programada patrioticamente. Em 1.º de outubro, dia nacional do país, a China lançou 38 aeronaves, incluindo caças e bombardeiros, na direção de Taiwan. As aeronaves entraram na Zona de Identificação de Espaço Aéreo (Ziea) da ilha, uma região-tampão em que intrusões causam alertas militares com frequência.

Foi o recorde diário no ano. Ao longo dos três dias seguintes, a China mandou outros 111 aviões. Em resposta, Taiwan lançou jatos, fez avisos de alerta e rastreou as aeronaves chinesas com sistemas de mísseis. O ministro da Defesa da ilha, Chiu Kuo-cheng, qualificou o evento como “a situação mais difícil que encarei nos mais de 40 anos de minha vida militar”.

Em 6 de outubro, a China não acionou nenhum avião militar na Ziea. Até então, nenhum voo tinha entrado no espaço aéreo taiwanês, que se estende por 12 milhas náuticas (cerca de 22 quilômetros) a partir da margem da ilha. Os intrusos normalmente chegam a até 35 milhas náuticas da costa taiwanesa. Mas autoridades americanas claramente compartilham da ansiedade de Chiu.

No dia 6, o secretário de Estado americano, Antony Blinken, pediu à China que cessasse sua atividade “provocativa” nas proximidades de Taiwan. Naquele mesmo dia, Jake Sullivan, o conselheiro de Segurança Nacional do presidente Joe Biden, expressou a preocupação americana na Suíça, em uma reunião com Yang Jiechi, o mais graduado diplomata da China e membro do Politburo que governa o país.

A China segue firme em seu curso. Sua mídia estatal descreveu as incursões como uma demonstração da habilidade do país de acionar “um ataque aéreo de guerra”. Nos dias recentes, a China tem intensificado exibições de sua crescente capacidade militar, especialmente no mar e no ar, como um aviso a Taiwan. A mensagem dos chineses é que, se Taiwan se recusar a aceitar sua reivindicação de soberania sobre a ilha, Pequim poderá usar a força. Chiu, um general aposentado, disse ao Parlamento taiwanês no dia 6 que a China terá capacidade de organizar uma invasão militar em larga escala até 2025, sob um custo que o Partido Comunista poderá considerar tolerável. 

A Ziea taiwanesa se estende sobre parte da costa da China, então não surpreende que aeronaves militares chinesas voem com frequência nesse espaço aéreo. Mas a China enviou seus aviões para sondar áreas da Ziea muito mais próximas à ilha, no entorno da região sudoeste do limite que ficou conhecido como “linha média”, uma fronteira informal na metade do Estreito de Taiwan, entre a ilha e o continente.

A China passou a realizar diariamente essas incursões aéreas nas proximidades da costa sul de Taiwan. Esses voos poderiam ter como objetivo exaurir as forças de defesa taiwanesas (a Aeronáutica de Taiwan é muito menor do que a chinesa) e condicioná-las a considerar normais essas grandes operações, facilitando para China disfarçar como um exercício a fase inicial de um ataque. 

Aferir as intenções da China é extremamente difícil. O país é dado a demonstrações de força quando considera que Taiwan chega perto demais de garantir sua independência permanente ou quando os EUA se aproximam da ilha. Exercícios militares recentes podem estar relacionados a desdobramentos desse tipo.

Neste ano, o governo Biden manifestou apoio a Taiwan publicamente à União Europeia, ao G-7, ao Japão e à Coreia do Sul. Setembro foi um mês especialmente incômodo: Taiwan solicitou adesão a um pacto de livre-comércio trans-Pacífico logo depois de a China fazer o mesmo pedido; e navios de guerra americanos e britânicos navegaram pelo Estreito de Taiwan. Em 15 de setembro, EUA, Reino Unido e Austrália estabeleceram um pacto de defesa, o Aukus, que é visto em Pequim como uma aliança com objetivo de manter a China sob controle. Nos dias que se seguiram, a China intensificou seus voos militares na Ziea de Taiwan. 

Se os aviões sobrevoarem o território terrestre da ilha, não está claro como Taiwan responderia. Tsai Ing Wen, a presidente de Taiwan, tem afirmado que os pilotos taiwaneses não serão os primeiros a atirar – a não ser que tenham ordens explícitas para isso. O mais recente Relatório Quadrienal de Defesa de Taiwan, publicado este ano, foi vago sobre o tema, afirmando somente que as respostas da ilha deveriam se intensificar à medida que as aeronaves chinesas se aproximarem da ilha. 

Alguns analistas duvidam que um caça taiwanês seja autorizado a disparar mais do que um tiro de aviso, mesmo que um avião chinês sobrevoe o território terrestre taiwanês. Em um artigo ainda não publicado, dois pesquisadores americanos, Bonny Lin, do Centro para Estudos Estratégicos e Internacionais, e David Sacks, do Council on Foreign Relations, citam reportagens taiwanesas afirmando que Taiwan pode ter dividido seu espaço aéreo em três zonas de engajamento militar: uma “zona de vigilância”, de 30 milhas náuticas; uma “zona de alerta”, de 24 milhas náuticas; e uma “zona de destruição”, de 12 milhas náuticas. Lin e Sacks afirmam que, se qualquer tipo de interação levar à morte de algum piloto, mesmo que por acidente, “ambos os lados teriam poucas condições” de manter as tensões sob controle. 

Nenhuma morte nesse tipo de situação ocorre desde 1958. Mas acidentes aconteceram na região. Em 2001, uma colisão aérea nas proximidades da costa sul da China, entre um caça chinês e um avião-espião da Marinha americana matou um piloto chinês. Avariada, a aeronave dos EUA pousou em uma base aérea militar da China.

Dez dias de tensão se seguiram até que a tripulação americana tivesse permissão para deixar as instalações. Vinte anos depois, um incidente desse tipo seria mais difícil de ser resolvido. As relações entre EUA e China estão consideravelmente piores. A China suspendeu comunicações oficiais com Taiwan após Tsai chegar à presidência, em 2016, e não endossar a visão das lideranças de Pequim de que só existe “uma China”. 

Se uma crise ocorrer nos céus de Taiwan, o sentimento nacionalista na China poderia complicar ainda mais as coisas. O Global Times, um chauvinista tabloide de Pequim, declarou em abril que, se o governo de Tsai continuar com seu comportamento “hostil” (e trabalhar proximamente com os EUA vale como hostilidade, sugeriu o jornal), caças chineses estariam preparados para cruzar os céus da ilha e desconsiderar a “linha vermelha” de seu espaço aéreo territorial. Tsai parece inabalável. 

Em uma edição próxima da Foreign Affairs, ela escreve que Taiwan espera “arcar com mais responsabilidades por ser um parceiro econômico e político próximo dos EUA e de outros países de pensamento parecido”. Ela alerta que a população da ilha “se levantará, caso a existência de Taiwan for ameaçada”. Essas palavras não impedirão os voos militares de Pequim, nem acalmarão os temores de que um acidente possa resultar em muito mais sangue derramado. / TRADUÇÃO DE GUILHERME RUSSO 

* © 2021 THE ECONOMIST NEWSPAPER  LIMITED. DIREITOS RESERVADOS.  PUBLICADO SOB LICENÇA. O TEXTO ORIGINAL EM INGLÊS ESTÁ EM WWW.ECONOMIST.COM

Tudo o que sabemos sobre:
China [Ásia]Joe BidenTaiwan [Ásia]

Encontrou algum erro? Entre em contato

Comentários

Os comentários são exclusivos para assinantes do Estadão.

O Estadão deixou de dar suporte ao Internet Explorer 9 ou anterior. Clique aqui e saiba mais.