Alex Brandon/AP
Alex Brandon/AP

Trump duela com especialistas sobre política contra o coronavírus

Presidente americano vem desautorizando e afastando muitos dos principais cientistas e especialistas em saúde pública de seu governo

Ashley Parker, Josh Dawsey e Yasmeen Abutaleb, The Washington Post

26 de março de 2020 | 08h00

WASHINGTON - Na segunda-feira, 23, durante a coletiva de imprensa diária sobre o coronavírus, o presidente Donald Trump tentou arrastar Deborah Birx, coordenadora da força-tarefa do coronavírus na Casa Branca, para um ataque à mídia junto com ele – uma convocação que ela habilmente dispensou abrindo um sorriso e falando sobre quanto havia aprendido nas últimas semanas sobre “distanciamento social e doenças respiratórias”.

Na terça-feira, durante uma entrevista virtual da Fox News com membros da força-tarefa, Trump tentou convencer Birx a criticar o governador de Nova York, Andrew Cuomo, do Partido Democrata, por causa do rápido avanço do surto de coronavírus no estado.

“Você está culpando o governador?”, Trump perguntou a Birx – uma pergunta que ela simplesmente ignorou, prosseguindo com sua fala.

O perigoso jogo de cena estrelado por Trump e uma de suas principais autoridades de saúde pública revela uma dinâmica tensa dentro da Casa Branca: um esquadrão de cientistas e especialistas – entre eles Birx e o infectologista Anthony Fauci – forçado a entrar em um desconfortável cabo de guerra com Trump sempre que promove uma visão de mundo baseada em dados e evidências, enquanto o presidente fala em cura “milagrosa”.

Trump vem desautorizando e afastando muitos dos principais cientistas e especialistas em saúde pública de seu governo. Ao mesmo tempo, vem escutando conselhos de consultores econômicos e vozes da comunidade empresarial, que estão exigindo que ele priorize a economia acima de tudo. 

Na terça-feira, Trump disse à Fox News que esperava reabrir o comércio do país até a Páscoa, em 12 de abril – uma perspectiva que contraria as recomendações dos especialistas, entre eles Fauci, os quais haviam dito que as medidas de distanciamento social provavelmente precisariam perdurar por pelo menos “várias semanas”.

Não é a primeira vez que o presidente contradiz publicamente os conselhos públicos ou privados de Fauci, diretor do Instituto Nacional de Alergia e Doenças Infecciosas.

Na noite de domingo, pouco antes da meia-noite, Trump chocou a comunidade científica com um tuite que prenunciava seu desejo de reabrir o país: “Não podemos deixar que a cura seja pior que o próprio problema”, escreveu ele.

O senador Lindsey Graham, republicano da Carolina do Sul, disse que conversou com Fauci na manhã de segunda-feira, logo depois de uma nova série de tuites do presidente ecoando ideias semelhantes, e que Fauci discordou da avaliação de Trump a respeito da crise.

“Ele acredita que devemos fazer mais, não menos”, disse Graham.

Em uma breve entrevista, Fauci – que se ausentou de vários eventos sobre o coronavírus antes de reaparecer em uma reunião da Casa Branca na noite de terça-feira – minimizou os sinais de tensão com Trump.

“A única coisa que posso dizer é que, toda vez que conversamos, ele ouve com atenção e pondera”, disse Fauci. “Ele é responsável por muito mais coisas do que eu”.

Este relato sobre as crescentes tensões entre o presidente e a comunidade científica é resultado de conversas com 15 altos funcionários do governo, assessores, consultores externos e outras pessoas com informações sobre as deliberações internas, muitos dos quais pediram anonimato para fazer avaliações francas.

Trump estabeleceu um processo gladiatório para gerenciar o coronavírus, no qual cada conselheiro e especialista argumenta veementemente por sua perspectiva (seja saúde pública ou crescimento econômico), criando uma dinâmica que faz com que Birx, Fauci e outros especialistas indiquem a Trump recomendações que o presidente não quer ouvir.

Durante a conferência de imprensa sobre coronavírus na segunda-feira, um jornalista perguntou a Trump se Fauci concordava com a ideia de retomar o funcionamento da economia, às expensas das medidas de distanciamento social que Fauci e outros estão prescrevendo desde o início.

“Bom, ele não concorda, não”, disse Trump, dando ênfase à aparente distância entre um consenso de saúde pública e um presidente que acha que a economia está diretamente ligada às suas chances de reeleição em 2020.

Uma pessoa familiarizada com as discussões da força-tarefa disse que Trump continuou insistindo em apresentar medicamentos não comprovados ou experimentais como panaceia – apesar de até agora existirem poucas evidências de sua eficácia e contra os conselhos dos próprios consultores científicos do governo – porque o presidente “quer que chegue logo esse momento mágico quando tudo vai acabar”.

Um empresário que participou de algumas discussões do governo e está familiarizado com as opiniões do presidente descreveu uma “tensão natural” entre os políticos e os médicos da força-tarefa, cuja mentalidade é “vamos salvar todas as vidas”, não importa quantas restrições sejam necessárias.

“O papel de um político é avaliar os riscos e benefícios e tomar as decisões”, disse essa pessoa. “Essa doença vai matar pessoas, mas a pobreza vai matar muito mais, por mais tempo”.

Ao contrário de Birx e Fauci, que se esforçaram para não criticar publicamente o presidente com demasiada severidade, muitas pessoas da comunidade científica em geral estão profundamente alarmadas com a retórica de Trump e as medidas propostas – e não escondem sua preocupação.

Na semana passada, o editor-chefe da revista Science escreveu que as exigências de Trump por uma vacina imediata contra o coronavírus – que deve levar um ano, se não mais – eram como pedir uma “dobra espacial” e exortou o presidente a “começar a tratar a ciência e seus princípios com respeito”.

Em uma série de tuites, Scott Gottlieb, ex-delegado da Food and Drug Administration (FDA - Administração de Alimentos e Medicamentos) de Trump, também alertou que, apesar do “desejo forte e compreensível de regressarmos a tempos melhores e a uma economia operante”, o fracasso em combater a propagação da covid-19, a doença causada pelo vírus, pode ser cataclísmico.

“Enquanto a covid-19 se espalhar descontroladamente, as pessoas mais velhas morrerão em proporções históricas, as pessoas de meia-idade estarão condenadas a longos períodos na UTI, os hospitais ficarão sobrecarregados e a maioria dos americanos terá pavor de sair de casa, comer fora, pegar metrô ou ir ao parque”, escreveu Gottlieb.

Enquanto isso, os Centros de Controle e Prevenção de Doenças (CDC, na sigla em inglês) têm tido notavelmente menos importância nos briefings diários da Casa Branca sobre coronavírus e vêm dando menos declarações à imprensa do que em surtos anteriores. Alguns funcionários do governo insistem que o CDC ainda desempenha um papel fundamental nas reuniões da força-tarefa.

O Departamento de Saúde e Serviços Humanos (HSS, na sigla em inglês) também vem perdendo poder desde que Trump nomeou o vice-presidente Mike Pence para supervisionar a reação do governo diretamente da Casa Branca. Embora os funcionários do HHS ainda participem de reuniões da força-tarefa e continuem engajados no combate ao vírus, eles ficaram de fora das principais iniciativas.

Por exemplo, eles não participaram da tomada de decisão de uma iniciativa de testes em drive-through liderada por Jared Kushner – genro e conselheiro de Trump. Além disso, a Agência Federal de Gerenciamento de Emergências (FEMA, na sigla em inglês) recentemente assumiu a coordenação da força-tarefa, isolando ainda mais o HHS. Inicialmente, o secretário Alex Azar e o diretor do CDC, Robert Redfield, estavam entre as principais autoridades que informavam Trump, mas não estão mais.

No entanto, dois altos funcionários do governo disseram que o papel da FEMA na resposta a desastres é apropriado para esta pandemia.

Ashish Jha, professor da Universidade de Harvard e diretor do Instituto Global de Saúde de Harvard, disse que, embora tenha ficado muito animado com o fato de Birx e Fauci permanecerem na órbita de Trump, o presidente nem sempre segue seus conselhos.

“O que dá para perceber é que, ainda que ele mantenha alguns cientistas por perto, muito do que sai da boca dele e da Casa Branca provavelmente não é o conselho que os cientistas estão dando”, disse Jha. “Tem muita coisa acontecendo lá na Casa Branca que a gente sente que não vem da determinação dos consultores científicos”.

Trump ainda expressa sentimentos calorosos em relação aos médicos da força-tarefa, principalmente Birx e Fauci. Em particular, ele disse que Fauci tem credenciais inatacáveis e exala conhecimento. De maneira geral, Trump também respeita os cientistas nas reuniões, permitindo que eles expliquem seus dados e fazendo uma série de perguntas. Birx muitas vezes traz gráficos e evidências para mostrar ao presidente, disseram autoridades.

Mas, nos últimos dias, o presidente vem ficando crescentemente irritado com as sutis correções de Fauci a suas falas e com entrevistas cada vez mais francas da imprensa.

Em uma entrevista à Science publicada online no domingo à noite, Fauci descreveu sua tentativa de lidar em tempo real com as frequentes distorções de Trump. “Não posso pular na frente do microfone e empurrá-lo dali”, disse Fauci. “OK, ele disse isso. Vamos tentar corrigi-lo para a próxima vez”.

Outras autoridades estão ficando irritadas com Fauci, em parte porque ele não está mais pedindo autorização para dar entrevistas, as quais às vezes são consideradas tentativas de promover seu próprio nome, e não o do presidente, disse um alto funcionário do governo.

Para Entender

Coronavírus: veja o que já se sabe sobre a doença

Doença está deixando vítimas na Ásia e já foi diagnosticada em outros continentes; Organização Mundial da Saúde está em alerta para evitar epidemia

Os conselheiros também estão irritados com alguns dos tuites e aparições na TV de Gottlieb, que assessora informalmente a força-tarefa, disseram dois funcionários do governo.

Trump é, em essência, um empresário, disse um republicano que tem contato frequente com a Casa Branca, explicando que, quando pressionado por dois polos concorrentes – o dos profissionais de saúde e o do empresariado – o presidente quase sempre fica do lado dos empresários.

Mas alguns aliados também tentaram convencer o presidente da magnitude da crise, alertando-o, em particular, que ele será pessoalmente responsabilizado se comprometer as medidas de saúde para tentar impulsionar a economia e houver um aumento nas mortes por coronavírus.

“Trump precisa resistir ao impulso de ouvir os economistas até derrotarmos o vírus”, disse Dan Eberhart, importante doador do Partido Republicano. “Se Trump tentar retomar a economia cedo demais e a pandemia continuar a se espalhando, este será seu legado, e será um legado de fracasso”.

“Por todos os meios possíveis”, acrescentou Eberhart, “espere, senhor presidente”. / Tradução de Renato Prelorentzou

Sarah Kaplan e Philip Rucker contribuíram com a reportagem. 

 

Tudo o que sabemos sobre:
Donald Trumpcoronavírus

Encontrou algum erro? Entre em contato

Comentários

Os comentários são exclusivos para assinantes do Estadão.

O Estadão deixou de dar suporte ao Internet Explorer 9 ou anterior. Clique aqui e saiba mais.