AP Photo/Evan Vucci
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Trump suaviza discurso sobre armas em troca de apoio contra imigração

Em Dayton e El Paso, onde ataques a tiros no fim de semana deixaram 31 mortos, presidente visitou sobreviventes e parentes de vítimas e voltou a dizer que apoiaria os processos de verificação de antecedente para portadores de arma

Beatriz Bulla, CORRESPONDENTE / WASHINGTON, O Estado de S.Paulo

07 de agosto de 2019 | 22h18

O presidente dos EUA, Donald Trump, viajou nesta quarta-feira a Dayton (Ohio) e El Paso (Texas) três dias depois dos ataques a tiros que deixaram ao menos 31 mortos em 13 horas, no fim de semana. Trump tem usado os episódios como uma forma de impulsionar um acordo com democratas em torno de leis mais rígidas sobre imigração – como a ideia de construir um muro na fronteira – em troca do apoio a discussões sobre mais controle de armas.

Desde domingo, Trump e sua retórica anti-imigração são alvo de críticas de opositores e de manifestantes, especialmente diante do caso de El Paso, tratado como crime de ódio em razão do manifesto contra imigrantes deixado pelo atirador. Mais de 80% dos habitantes da cidade texana na fronteira com o México têm origem latina. Protestos ocorreram na frente dos hospitais que o presidente visitou, com cartazes pedindo que ele “faça alguma coisa” e maior controle no acesso a armas.

A sugestão de um toma-lá-dá-cá, no entanto, incomodou democratas. Jerry Nadler, presidente da Comissão de Justiça da Câmara, comparou a ideia do presidente à Alemanha nazista. “Qual é a conexão entre verificações de antecedentes e reforma da imigração? Que temos de manter as armas fora das mãos de pessoas menos humanas que cruzam nossas fronteiras? Isso é nojento”, disse.

Nesta quarta-feira, o presidente voltou a dizer que apoiaria os processos de verificação de antecedente para portadores de arma. “As verificações de antecedentes são importantes. Não quero colocar armas nas mãos de pessoas mentalmente instáveis ou pessoas com raiva ou uma pessoa doente”, disse Trump, ao partir da Casa Branca para Ohio, primeira parada. Desta vez, ele não condicionou a questão ao debate sobre imigração.

Trump foi acompanhado da primeira-dama, Melania Trump, na visita a sobreviventes, parentes das vítimas e socorristas que trabalharam após os ataques.

Os democratas também alertaram que leis de “bandeiras vermelhas”, que aumentem a possibilidade de suspender judicialmente o direito de um cidadão específico de portar arma, não seriam suficientes. “Nós, democratas, não vamos nos contentar com meias medidas para que os republicanos possam se sentir melhor e deixar de lado a questão da violência armada”, disse o senador democrata Chuck Schumer em um comunicado.

Segundo a organização Gun Violence Archive, os EUA já viveram 255 ataques a tiros em 2019, mais do que o número de dias do ano. A cada um dos eventos, o debate sobre maior rigor no controle a armas ressurge, com polarização política entre republicanos e democratas. Os últimos são os que defendem uma legislação mais dura.

Se os ataques a tiros costumam reacender o debate sobre controle de armas, o caso de El Paso, para Trump, foi além. A retórica do presidente, presente no manifesto do atirador que escolheu moradores que faziam compras no supermercado como alvo, foi colocada sob maior escrutínio.

Antes de partir de Washington, Trump negou que suas falas impulsionem crimes de ódio – o presidente fez uma campanha eleitoral em 2016 associando a imigração ao aumento de criminalidade e, de forma recorrente, usa o termo “infestação” para se referir à entrada de estrangeiros no país.

Trump não recuou na plataforma política anti-imigração, mostrando que possui um interesse no acordo bipartidário, mas fez acenos à comunidade local com a viagem. A visita do presidente americano às duas cidades, especialmente a El Paso, após as tragédias nacionais não é trivial.  

Em fevereiro, Trump escolheu El Paso para dar início em sua campanha à reeleição em 2020, mostrando que o controle de imigração será tema central de sua plataforma política. Ao se referir à cidade, chegou a sugerir que El Paso era uma das mais perigosas do país, o que só teria mudado depois da instalação de barreiras na fronteira. As estatísticas o contradizem: El Paso é listada nos rankings públicos como uma das mais seguras dos EUA durante os últimos 20 anos e o crime tem caído desde a metade dos anos 90.

Na segunda-feira, o presidente apelou pela união do país e condenou o supremacismo branco. Analistas criticaram o fato de o “Trump do teleprompter” ser diferente do “Trump do Twitter”, numa indicação de que o presidente só baixou o tom na mensagem oficial preparada por seus assessores. De uma maneira ou outra, ele se viu obrigado a suavizar o discurso em comparação com outros momentos de crise.

Desde o caso de Charlottesville, em 2017, quando houve um ataque a manifestantes que protestavam contra supremacistas brancos e simpatizantes do neonazismo, Trump vem sendo cobrado para se posicionar de maneira mais enfática sobre o tema.

Na ocasião, o presidente americano preferiu dizer que havia muito ódio de “ambos os lados” e foi fortemente criticado. A Liga Anti-Difamação (ADL, na sigla em inglês) aponta que, em 2017, os casos de violência cometidos por grupos de extrema direita e supremacistas brancos representaram 59% do total de todos os ataques extremistas nos EUA. Um ano antes, eles eram responsáveis por apenas 20% dos casos.

Trump também precisou ocupar o palco político, enquanto os pré-candidatos democratas Beto O'Rouke e Joe Biden se apressaram em criticar a política divisiva do presidente americano. O texano chamou o presidente de racista – e Trump reagiu no Twitter. O presidente não é querido em El Paso, cidade natal de O'Rouke, onde só 25% dos eleitores o escolheram na última eleição. 

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