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Joe PUGLIESE / HARPO PRODUCTIONS / AFP
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Especialista em trauma coloca a entrevista de Meghan e Harry em perspectiva

Comentaristas descrevem a experiência do casal como 'trauma'. Mas, seguindo à risca o conceito, o trauma é um evento que altera sua mente, deixando você indefeso e apavorado

Benedict Carey, The New York Times - Life/Style

13 de março de 2021 | 05h00

A entrevista de Oprah Winfrey com o príncipe Harry e sua esposa, Meghan, a duquesa de Sussex, revelou divergências latentes dentro da família real e um profundo e permanente sentimento de perda sentido pelo príncipe após a morte de sua mãe em 1997, que se intensificou em meio à subsequente cobertura por tabloides. Harry, que se tornou um defensor conhecido das causas da saúde mental, sempre falou a respeito dessa perda e seu efeito em sua saúde mental.

O casal deixou a Grã-Bretanha em parte porque disseram que a família real não lhes daria apoio depois de repetidos ataques da imprensa à duquesa, que a deixaram se sentindo isolada e perturbada. Muitos na mídia e nas redes sociais estão interpretando sua decisão como resultado do “trauma” que Harry viveu com a perda de sua mãe, a princesa Diana, e que Meghan experimentou depois que ela se tornou parte da família real.

Mas usar esses termos de saúde mental a esmo traz o risco de criar um mal-entendido quanto ao que Harry e Meghan estão falando e o que estão pedindo. É claro que o casal viveu períodos de profunda angústia emocional e, no caso de Meghan, isolamento e talvez depressão. Ela descreveu “não querer mais viver”.

Mas trauma, no sentido clínico, significa algo diferente, de acordo com o Bessel van der Kolk, psiquiatra de Boston e autor de The Body Keeps the Score: Brain, Mind, and Body in the Healing of Trauma (O corpo registra tudo: cérebro, mente e corpo na cura do trauma, em tradução livre). Ele conversou com o The New York Times sobre como o trauma difere do sofrimento, embora o trauma possa ser a fonte do sofrimento.

NYT: O que pode ser qualificado como trauma, especialmente como trauma de infância?

BK: A definição estrita de trauma infantil não inclui a perda da mãe ou do pai. A rigor, um trauma é diferente de uma ruptura no sistema de comportamento de apego, embora muitas vezes os dois andem juntos, como fazem em casos de abuso físico ou sexual nas mãos de um cuidador. O sistema de comportamento de apego é uma dimensão diferente do trauma: trauma é um evento que impacta sua mente e o deixa desamparado e apavorado. O sistema de comportamento de apego define a quem pertencemos, quem está lá para nós, quem nos vê e cuida de nós.

Perder sua mãe quando criança certamente molda sua identidade porque um relacionamento central é rompido e seu senso de segurança fundamental é afetado.

A exposição a longos períodos de discórdia entre os pais força a criança a tomar partido e muitas vezes torna os filhos superprotetores de um pai ferido. Quando seus pais estão angustiados, os filhos muitas vezes se sentem responsáveis por administrar seu relacionamento parental da melhor maneira possível. Um garotinho que vê sua mãe sendo magoada ou humilhada pode muito bem desenvolver um profundo senso de cuidado, proteção e, possivelmente, um profundo sentimento de culpa por não ter sido capaz de fazer mais por ela.

NYT: Quais são os efeitos a longo prazo do trauma infantil?

BK: O medo de ser agredido é bem diferente de não ser visto ou notado - de ter a sensação de não pertencimento. Sentir-se indesejado e desprezado cria uma profunda sensação de se sentir abandonado e tende a fazer com que você sinta que também pode estar morto.

O abuso sexual e físico tende a colocá-lo em posição de alerta. Você automaticamente recua ao se envolver com outras pessoas, você pode sentir uma profunda sensação de ameaça ao se aproximar de outras pessoas. É muito difícil desativar esse instinto de alerta. Isso torna a pessoa extremamente cautelosa, cuidadosa para não ser pega na mesma situação nunca mais. No entanto, após traumas repetidos, algumas pessoas desenvolvem a sensação de que só servem para serem usadas, fazendo com que se tornem complacentes com seus agressores.

Ser tratado pelos familiares como irrelevante - o trauma do vínculo ou ser uma testemunha de padrões contínuos de abuso - cria outro tipo de padrão psicológico. A identidade das pessoas é formada em torno de perguntas como "O que eu fiz de errado?" ou “O que eu poderia ter feito diferente?” Essa se torna a preocupação central de suas vidas.

Os fatores importantes são quais são esses desafios e com que idade ocorrem. O caráter é formado nos primeiros 10 a 14 anos de vida. Esses anos são os mais críticos e, quanto mais cedo ocorre um trauma real, geralmente mais impacto duradouro ele tem. À medida que as pessoas envelhecem, elas se tornam mais independentes e podem tolerar mais a rejeição e mais o sofrimento emocional.

NYT: A mesma experiência que vira de cabeça para baixo a vida de uma criança pode ter um impacto menor na vida de outra criança?

BK: Sim. As pessoas têm impulsos muito diferentes, reações muito diferentes aos mesmos tipos de desafios. Mas o seu sistema de comportamento de apego - a quem você pertence, quem o conhece, quem o ama, com quem você brinca - é mais fundamental do que o trauma. Contanto que as pessoas se sintam seguras com as pessoas em seu ambiente imediato, em suas famílias, tribos ou tropas, elas são incrivelmente resistentes.

Arriscar ou desistir desses laços, como Harry fez, é um passo muito profundo. A posição padrão, psicologicamente, é ajustar seu comportamento e expectativas para se adequar à sua família de origem. É preciso muita coragem para romper esses laços e criar novas e mais frutíferas afiliações. / TRADUÇÃO DE ROMINA CÁCIA

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