REUTERS / Stringer
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Tumulto em aeroporto de Cabul deixa mortos; EUA interrompem retirada de americanos

A decisão foi tomada para retirar uma multidão que invadiu a pista do aeroporto internacional; pelo menos 60 países fizeram apelo para que o Taleban permita a saída de pessoas do país

Redação, O Estado de S.Paulo

16 de agosto de 2021 | 01h24
Atualizado 16 de agosto de 2021 | 13h30

WASHINGTON - Após o Taleban reassumir o controle do Afeganistão, um tumulto no aeroporto de Cabul deixou ao menos dez mortos nesta segunda-feira, 16, quando uma multidão tentava embarcar em aviões para deixar o país. O grupo invadiu a pista de decolagem e pessoas se penduraram em aeronaves em movimento, mostram vídeos em redes sociais.

Por causa do tumulto, os EUA interromperam temporariamente os voos de retirada de pessoas de Cabul, capital do Afeganistão, segundo uma autoridade americana à agência de notícias Reuters.

A decisão foi tomada para retirar as pessoas que invadiram a pista do aeroporto internacional, segundo a autoridade, que falou à Reuters sob condição de não ter a identidade revelada. Não foi informado quanto tempo duraria a pausa.

O vice-conselheiro de segurança nacional dos EUA, Jon Finer, afirmou que o país vai se concentrar em proteger o aeroporto e enviar forças adicionais ao local. O tumulto no aeroporto internacional de Cabul deixou mortos e causou o cancelamento de todos os voos comerciais.

De acordo com um fonte militar ouvida pela Associated Press, os EUA e o Taleban entraram em acordo para garantir a operação de retirada americana do aeroporto de Cabul sem interferência do grupo insurgente. O acordo foi firmado em um encontro cara a cara entre o general Frank McKenzie e líderes do Taleban em Doha, no Catar, no domingo. As duas partes concordaram com um "mecanismo de deconflicção", no qual a operação de retirada pode continuar sem interferência do novo governo.

Ainda segundo o militar, ouvido sob condição de anonimato pela agência americana, McKenzie teria dito aos rebeldes que não interferissem na operação e que as Forças Armadas dos EUA usariam de força para defender o aeroporto, se fosse preciso.

De acordo com um repórter do canal de notícias afegão TOLOnews, três pessoas morreram após se esconderem em uma das rodas e na asa de um avião e caírem em telhados de casas. Vídeo publicado nas redes sociais pelo jornal The New York Times mostra a correria da multidão para chegar à pista do aeroporto e o momento em que um avião que se prepara para decolar fica cercado de pessoas tentando fugir do país.

O jornal americano The Wall Street Journal afirma que três foram mortas a tiros. A agência de notícias Reuters cita relatos de testemunhas de que cinco pessoas foram mortas, sem dizer se as vítimas foram atingidas por disparos de armas de fogo ou pisoteadas durante a confusão.

As pessoas estão tentando deixar o país após o Taleban tomar a capital Cabul e voltar ao poder depois de 20 anos. O presidente fugiu do Afeganistão e o palácio presidencial foi tomado no domingo, 15.

Os voos comerciais foram cancelados, e apenas viagens militares ocorrem no local. "Por favor, não venha para o aeroporto", disse uma autoridade do aeroporto. Vídeos publicados nas redes sociais mostram várias pessoas tentando entrar em aeronaves que estavam prestes a deixar o Afeganistão.

Durante o tumulto, tropas dos EUA, que estavam no aeroporto para ajudar os cidadãos americanos a embarcarem, atiraram para o alto. "A multidão estava fora de controle", afirmou um oficial à Reuters. "O disparo foi feito apenas para neutralizar o caos."

Vídeos que registram a confusão na área de decolagem foram publicados em redes sociais:

Entre domingo e segunda, voos comerciais foram suspensos e grandes companhias aéreas, entre elas a Emirates e a United Airlines, anunciaram que, por enquanto, vão evitar o espaço aéreo afegão.

Vídeo mostra pessoas caindo de avião dos EUA que deixava Cabul

Um vídeo que circula nas redes sociais mostra duas pessoas caindo de um avião militar norte-americano C-17 que acabava de decolar do aeroporto de Cabul, capital do Afeganistão, nesta segunda-feira, 16.

Milhares de pessoas, tanto afegãos quanto estrangeiros que buscavam deixar o país, tomaram a pista do aeroporto desde domingo. Eles tentavam escapar do grupo que voltou ao poder em uma ofensiva relâmpago de dez dias, após quase duas décadas de intervenção norte-americana.

O vídeo foi postado no Twitter pela emissora saudita Al-Arabiya. 

 

Países fazem apelo

Os Estados Unidos e mais 60 países emitiram um comunicado conjunto neste domingo, 15, pedindo que cidadãos afegãos e estrangeiros tenham permissão para deixar o país se assim desejarem. Ao longo do domingo e da manhã desta segunda-feira, um tumulto no aeroporto de Cabul deixou mortos e feridos. 

 
“Devido à deterioração da situação de segurança, nós apoiamos, estamos trabalhando para garantir e pedimos que todas as partes respeitem e facilitem a saída segura e ordenada de estrangeiros e afegãos que desejam deixar o país”, diz o texto divulgado pelo Departamento de Estado americano. 

O Brasil não está entre as nações signatárias do documento. A lista inclui, entre outros países, França, Alemanha, Reino Unido, Portugal, Canadá, Japão, Coreia do Sul e Catar. Entre os governos sul-americanos, Chile, Colômbia, Paraguai e Guiana assinam o texto. 

O comunicado pede que estradas, aeroportos e postos de fronteiras permaneçam abertos. “O povo afegão merece viver com segurança, proteção e dignidade. Nós, da comunidade internacional, estamos prontos para ajudá-los”, conclui.

Nesta segunda-feira, 16, um dos porta-vozes do Taleban disse à Reuters que ainda é cedo para afirmar como o grupo vai governar o Afeganistão. “Nós queremos que todas as forças estrangeiras deixem o país antes de começarmos a reestruturar a governança.” 

'Situação pacífica' e diálogo com a Rússia

Autoridades do Taleban disseram nesta segunda que não receberam relatos de confrontos em todo o país desde que tomaram Cabul. "A situação é pacífica, de acordo com nossas informações", disse um dos principais membros do grupo extremista.

O encarregado russo para o Afeganistão, Zamir Kabulov, afirmou nesta segunda que o embaixador de seu país em Cabul se reunirá na terça-feira, 17, com os taleban e que a Rússia decidirá se reconhece ou não o governo do Taleban de acordo com suas "ações".

"Nosso embaixador está em contato com líderes taleban e amanhã se reunirá com o coordenador do Taleban", disse Kabulov à rádio Ekho Moskvy. "O reconhecimento ou não dependerá das ações do novo regime."/ REUTERS, AP e AFP

 

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