REUTERS/Mike Blake
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López Obrador usa relação com EUA para reforçar nacionalismo

Candidato de esquerda promete política de boa vizinhança com Donald Trump, mas exigirá respeito à soberania

Luciana Dyniewicz, Cidade do México, O Estado de S.Paulo

31 Dezembro 2017 | 05h00

CIDADE DO MÉXICO - A relação bilateral entre o México e os Estados Unidos de Donald Trump é outro tema que tem ganhado destaque nos discursos do candidato de esquerda Andrés Manuel López Obrador. Mesmo afirmando que, se eleito, procurará uma política de boa vizinhança, AMLO não mudou sua posição nacionalista.

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“Vou exigir que se respeite a soberania de nosso país”, disse o candidato na apresentação de seu programa de governo. A afirmação soou bem entre os mexicanos, que se sentem ofendidos pelo projeto de Trump de erguer um muro na fronteira.

O eleitorado também parece ter aprovado suas medidas populistas para diminuir a desigualdade, como o corte no salário do próprio chefe do Executivo. “O presidente receberá metade ou menos do que recebe (o atual mandatário) Enrique Peña Nieto”, afirmou AMLO, em novembro, para 10 mil pessoas que o assistiam no Auditório Nacional, na Cidade do México - o salário do presidente mexicano é de 208 mil pesos por mês, o equivalente a R$ 35 mil.

Na plateia, estava Alejandro Fernández, de 58 anos, que viajou 150 quilômetros para vê-lo. “Todos os países da América Latina já tiveram um governo de esquerda. O México, não. Devagar, podemos sonhar com uma mudança. Hoje, não temos o mínimo para subsistência e ele propõe reduzir os salários dos políticos de primeiro escalão”, afirmou Fernández.

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Para a militante Ruth Apolinar, de 40 anos, AMLO é “o único que pode fazer algo pelos mexicanos”. “Quando era prefeito, mostrou isso, com medidas sociais, como a pensão para adultos com mais de 68 anos.”

Desafio

Se o cenário político e social é favorável a López Obrador, mudanças nas regras eleitorais podem prejudicá-lo. Ao contrário do que ocorria até 2012, agora é permitido que candidatos independentes concorram. 

O professor de ciências políticas do Instituto Tecnológico Autônomo do México, Horacio Vives, afirma que essa alteração pode pulverizar votos entre diferentes candidatos de esquerda. “A chave desta eleição tem a ver com o sistema eleitoral. Marichuy (a indígena María de Jesús Patricio Martínez, também de esquerda) poderá tirar votos de AMLO. Ela não ganhará, mas poderá fazer com que ele seja derrotado de novo”, afirma.

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