Twitter/via REUTERS
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A iconografia do ataque terrorista a mesquita na Nova Zelândia

Atirador que deixou ao menos 49 mortos em Christchurch cobriu rifles, munições e colete com referências sobre batalhas históricas contra muçulmanos e símbolos supremacistas brancos

Jon Gambrell, Associated Press

15 de março de 2019 | 15h52

O autor do ataque a uma mesquita na Nova Zelândia durante as orações desta sexta-feira, 15, que deixou 49 mortos usou rifles cobertos de grafites de supremacia branca e ouviu uma canção glorificando criminosos de guerra servo-bósnio.

Esses detalhes destacam as crenças extremistas por trás de um massacre sem precedentes, transmitido ao vivo pela internet, que a primeira-ministra Jacinda Ardern chamou de "um dos dias mais sombrios da Nova Zelândia".

Parte do material postado pelo assassino se assemelha ao discurso de ódio proeminente em áreas obscuras da internet. Sob o suposto anonimato da web estava um homem que escrevia com naturalidade sobre os preparativos para realizar um ataque horrível.

• Músicas

Enquanto dirige para a mesquita, o atirador ouve uma música animada com letra sobre um destrutivo conflito nacionalista e religioso europeu. A canção nacionalista sérvia sobre a guerra de 1992 a 1995 que dividiu a Iugoslávia glorifica os combatentes sérvios e o líder político servo-bósnio Radovan Karadzic, preso pelo tribunal de crimes de guerra de Haia por genocídio e outros crimes de guerra contra muçulmanos bósnios.

Um clipe no YouTube desta mesma música mostra prisioneiros muçulmanos magérrimos em campos administrados por sérvios durante a guerra. "Cuidado com ustashas e turcos", diz a canção, usando termos depreciativos em tempo de guerra para croatas e muçulmanos bósnios.

Quando o atirador retornou ao seu carro após o ataque, a música "Fire", da banda inglesa de rock "The Crazy World of Arthur Brown", pode ser ouvida na gravação. O cantor grita: "Eu sou o deus do fogo do inferno!", enquanto o homem, um australiano de 28 anos, deixa o local.

• Símbolos

Ao menos dois fuzis usados na ataque fazem referências a Ebba Akerlund, menina de 11 anos morta em abril de 2017 em um ataque com carro em Estocolmo por Rakhmat Akilov, um terrorista usbeque de 39 anos.

A morte de Ebba  também é apontada no manifesto publico na internet pelo atirador como um dos eventos que influenciaram em sua decisão de iniciar uma guerra contra o que ele qualifica como os "inimigos da civilização ocidental".

O número 14 também foi inscrito nos fuzis do atirador. É uma referência a "14 palavras" que, segundo o Southern Poverty Law Center, é um slogan supremacista branco relacionado ao livro Mein Kampf (Minha Luta) de Adolf Hitler.

Ele também usa símbolos do Schwarze Sonne (Sol Negro), que "tornou-se sinônimo de uma miríade de grupos de extrema direita", segundo a mesma organização, que monitora grupos de ódio.

• Referências Históricas

Em fotos publicadas na véspera do ataque em uma conta no Twitter associada ao atirador - e compatíveis com as armas que aparecem no vídeo - há referências a "Vienna 1683", ano em que o Império Otomano sofreu uma derrota na Batalha de Kahlenberg. Também há uma inscrição de "Acre 1189", sobre as Cruzadas, nas armas.

Quatro nomes de sérvios que lutaram contra o domínio de 500 anos dos otomanos muçulmanos nos Bálcãs, escritos no alfabeto cirílico, também aparecem em partes dos fuzis usados pelo atirador.

O nome Charles Martel, que o Southern Poverty Law Center diz que os supremacistas brancos afirmam ter "salvado a Europa ao derrotar uma força muçulmana invasora na Batalha de Tours em 734", também estava no carregador de uma das armas. 

Também é possível ver a inscrição "Malta 1565", uma referência ao Grande Cerco de Malta, quando os malteses e os Cavaleiros de Malta derrotaram os turcos.

Os nomes de dois líderes militares húngaros do século 15, conhecidos por lutar contra o avanço dos otomanos, também são mencionados. O nome de John Hunyadi está escrito em um rifle, enquanto o nome de Mihaly Szilagyi Horogszegi está em uma das munições.

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