John Moore / Gettu Images / AFP
John Moore / Gettu Images / AFP

Abrigos detêm crianças com menos de 5 anos retiradas de pais na fronteira americana

Diretor de instituição explica que algumas delas choram até adormecer; governo Trump planeja abrir quarto local para recolhimento para crianças

O Estado de S.Paulo

20 Junho 2018 | 19h43

A administração Trump criou ao menos três abrigos onde são mantidos bebês e crianças imigrantes pequenas que foram retirados de seus pais na fronteira dos EUA com o México, segundo reportagem da Associated Press

Médicos e advogados que visitaram os abrigos no Vale do Rio Grande, no Texas, disseram que as instalações estavam Aparentemente bem, limpas e seguras, mas as crianças, que não tinham a menor ideia de onde estavam seus pais, estavam histéricas, chorando e agitadas. Muitas não tinham 5 anos e outras eram tão novas que nem sabiam falar. 

O governo, segundo a AP, também planeja abrir um quarto abrigo para receber centenas de crianças em Houston, segundo afirmaram lideranças da cidade na terça-feira.  O presidente  Donald Trump assinou nesta quarta-feira, 20, uma ordem executiva para encerrar o processo de separação de crianças de seus pais e responsáveis, mas não está claro se a abertura de novos abrigos será interrompida. 

Desde que a Casa Branca anunciou sua política de "tolerância zero" no início de maio, mais de 2,3 mil crianças foram tiradas de seus pais retidos na fronteira do México com os EUA, resultando em um grande fluxo de menores sob a responsabilidade do governo que precisam de cuidados. 

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A administração republicana já enfrenta críticas em meio à divulgação de imagens de algumas crianças mantidas em celas nas estações de processamento da Patrulha de Fronteira americana. Recebeu então novas críticas por criar novos lugares para manter crianças pequenas, alguns bebês, décadas depois de orfanatos terem sido eliminados devido a preocupações sobre o trauma que podem causar a uma criança. 

"Pensar que eles vão colocar crianças tão pequenas em um ambiente institucional? Quer dizer, é difícil para mim até mesmo conceber essa ideia", disse Kay Bellor, vice-presidente de programas do Lutheran Immigration and Refugee Service, que fornece assistência e outros cuidados a crianças imigrantes. "Crianças pouco maiores que bebês estão sendo detidas." 

Pela lei, crianças imigrantes viajando sozinhas devem ser enviadas para instalações gerenciadas pelo Deparamento de Serviços Humanos e Saúde em três dias após serem detidas. A agência é responsável por realocar os menores em abrigos ou lares adotivos até que eles sejam entregues a um parente ou um responsável na comunidade até as audiências na corte. 

Mas o secretário de Justiça, Jeff Sessions, anunciou no mês passado que o governo processará criminalmente qualquer pessoa que cruzar a fronteira dos EUA com o México ilegalmente, uma decisão que causou a separação de muitas famílias imigrantes e enviou grupos de centenas de jovens crianças para os cuidados do governo. 

As Nações Unidas, alguns congressistas democratas e republicanos e grupos religiosos criticaram duramente a política e a consideraram "desumana". 

Mas segundo Steven Wagner, um funcionário do Departamento de Saúde e Serviços Humanos, não é bem assim. "Temos instalações especializadas voltadas para fornecer cuidados às crianças com necessidades especiais e bem pequenas, que até 13 anos entrariam nessa categoria", disse."Essas não são instalações do governo em si, e elas têm um atendimento clínico de pessoas bem treinadas, e essas instalações atendem às requisições de agências de cuidados de criança. Temos equipes formadas por pessoas que sabem como lidar com essas necessidades, especialmente com os pequenos." 

 

Até agora, não é sabido onde exatamente são esses centros. "Em geral, nós não identificamos a localização de instalações permanentes de programas para crianças desacompanhadas", disse o porta-voz da agência Kenneth Wolfe. Os três centros - em Combes, Raymondville e Brownsville - foram rapidamente readaptados para atender às necessidades dessas crianças, algumas delas com menos de 5 anos.

A quarta instituição, planejada para Houston, poderá receber cerca de 240 crianças em um local usado anteriormente para abrigar desabrigados pelo furacão Harvey, explicou o prefeito Sylvester Turner. Ele explicou ter se encontrado com funcionários do programa Southwest Key Programs, de Austin, que gerencia alguns dos abrigos e pediu que o governo reconsidere seus planos. 

Na parte prática, a política de tolerância zero sobrecarregou a agência federal encarregada de cuidar do novo influxo de crianças que tendem a ser muito mais jovens do que os adolescentes que normalmente viajam para os EUA. Alguns detidos recentes são bebês, retirados de suas mães. 

"Os abrigos não são o problema, tirar as crianças de seus pais é que é o problema", disse Marsha Griffin, uma pediatra do sul do Texas que visitou algumas das instalações. 

Outras crianças imigrantes têm sido enviadas para outros locais. A mAbraior agência que mantém detidas crianças imigrantes nos EUA é a Bethany Christian Services, cujos 99 leitos disponíveis em Michigan e Maryland estão completos. 

O diretor-executivo da instituição, Chris Palusky, disse que a criança mais nova separada dos pais na fronteira tinha apenas 8 meses. A média das crianças cuidadas pelo local caiu de 14 para 7 anos nas últimas semanas, após a adoção da política de "tolerância zero" do governo Trump, explicou. 

As crianças pequenas, explicou Palusky, choram até adormecer. "E então elas acordam de seus sonos e começam a chorar de novo chamando por suas mães", relatou. "Eles absolutamente precisam de seus pais agora." / AP 

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