REUTERS/Agustin Marcarian
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As nuances da derrota histórica da esquerda na Argentina; leia análise

Consolidação da oposição acontece em meio à fragilidade da aliança governista, marcada pelas diferenças entre Alberto Fernández e Cristina Kirchner

Carlos De Angelis*, O Estado de S.Paulo

15 de novembro de 2021 | 10h00
Atualizado 15 de novembro de 2021 | 11h44

Em um país onde cada eleição parece ser disputada em um tudo ou nada, a Argentina se tingiu de amarelo, a cor do Juntos pela Mudança, adversário do governo do peronista Alberto Fernández

Os resultados das eleições primárias, apenas um mês atrás, praticamente se repetiram. Províncias onde o peronismo tradicionalmente vence, como Buenos Aires, La Pampa, Santa Cruz (berço do kirchnerismo) ou San Luis selaram a derrota da Frente de Todos, do presidente Alberto Fernández

A nível nacional, o triunfo da oposição foi de apenas 9,2%, mas o impacto deve ser lido na consolidação da oposição em meio à fragilidade da aliança governista, marcada pelas diferenças entre Alberto Fernández e Cristina Kirchner. Depois das eleições, a vice-presidente está enfraquecida, pois seu domínio no Senado é ameaçado, depois de perder em seis das oito províncias onde houve votação para o Senado.

Um motivo de alegria para a Frente de Todos é a recuperação parcial na província de Buenos Aires, que passou de uma derrota nas primárias por quatro pontos a menos de um ponto e meio porcentual, o que permite ao peronismo continuar controlando a Câmara dos Deputados pelas mãos de Sergio Massa.

Ao contrário das primárias em que o governo nacional presumiu que venceu as eleições sem muito esforço devido à péssima lembrança do governo de Mauricio Macri, para as eleições de domingo mobilizou todos os recursos disponíveis, inclusive o sarcasticamente denominado "plano prata", que consistia em contribuições para os eleitores que fossem votar, bem como uma campanha renovada liderada pelo catalão Antoni Rubí Gutiérrez.

Fato inusitado é o aumento do setor da extrema direita, liderado por Javier Milei e José Luis Espert, mas também a ascensão da esquerda radicalizada, que tem seu núcleo na FIT-U, que promete discussões de alta tensão na Câmara dos Deputados.

Uma das leituras possíveis das eleições é que a sociedade puniu o governo por sua gestão da pandemia, a alta da inflação e os problemas de segurança urbana. Outra leitura é que o país deu uma guinada à direita diante da proposta do peronismo de maior intervenção do Estado na vida econômica do país (como aumento de impostos e regulamentações de toda espécie).

Diante do novo cenário político, fica a questão de saber se a oposição revitalizada apoiará as medidas que o governo deve tomar para controlar os preços dos alimentos, frear a desvalorização da moeda e principalmente a negociação com o FMI, que obrigará o país a fazer pagamentos impossíveis de se cumprir. 

Os desafios da oposição não são menores: decidir quem é seu líder, num conflito entre o ex-presidente Macri e o prefeito da cidade de Buenos Aires, Horacio Rodríguez Larreta, ou seja, quem será o interlocutor de um governo que precisa urgentemente de acordos no Parlamento.

* Professor de Sociologia da Opinião Pública, Universidade de Buenos Aires

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