Mohammed Salem / REUTERS
Mohammed Salem / REUTERS

Ataque de Israel derruba prédio que abrigava redações da 'AP' e da Al-Jazeera em Gaza

Dez pessoas de uma mesma família morreram em bombardeio aéreo, a maioria menores de idade; escritórios da 'Associated Press' e da 'Al-Jazeera' foram atacados com aviso prévio

Redação, O Estado de S.Paulo

15 de maio de 2021 | 11h05
Atualizado 17 de maio de 2021 | 13h09

CIDADE DE GAZA - Um ataque aéreo israelense destruiu um prédio na Cidade de Gaza que abrigava escritórios da Associated Press, da Al Jazeera e apartamentos residenciais neste sábado, 15. O Exército de Israel alertou sobre o ataque com uma hora de antecedência e ordenou que o prédio fosse isolado. O bombardeio destruiu o imóvel de 12 andares, que desabou. 

A investida aconteceu horas depois que outro ataque aéreo israelense a um campo de refugiados na Cidade de Gaza matou pelo menos 10 palestinos da mesma família, sendo oito crianças, segundo o grupo militante Hamas

Também houve protestos palestinos na sexta-feira, 14, na Cisjordânia, onde as forças israelenses atiraram e mataram 11 pessoas, dizem os palestinos. 

A espiral de violência aumentou o temor de uma nova intifada palestina, em um momento em que não há negociações de paz há anos. Os palestinos lembraram neste sábado,15, o Dia da Nakba, diz em que  700 mil pessoas que foram expulsas ou fugiram de suas casas no que hoje é território de Israel durante a guerra de 1948. A data gera preocupações sobre mais inquietação entre os lados.

O ataque ao prédio que abriga os escritórios de veículos de imprensa ocorreu à tarde. O dono do imóvel recebeu um telefonema do Exército israelense avisando que o local era alvo da artilharia. A Al-Jazeera, a rede de notícias financiada pelo governo do Catar, transmitiu os ataques aéreos ao vivo enquanto o prédio desabava.

A Al-Jazeera não será silenciada”, disse uma apresentadora no ar. "Isso nós podemos garantir." 

A agência de notícias americana AP declarou estar "chocada e horrorizada". "Trata-se de um acontecimento incrivelmente perturbador. Nós evitamos por pouco uma terrível perda de vidas", disse o chefe da agência, Gary Pruitt, em nota.  “O mundo ficará menos informado sobre o que está acontecendo em Gaza por causa do que aconteceu hoje”, acrescentou.

A Casa Branca disse que advertiu Israel que é "crucial" garantir a segurança dos jornalistas. "Comunicamos diretamente aos israelenses que é uma responsabilidade crucial cuidar da segurança dos jornalistas e da mídia independente", disse Jen Psaki, porta-voz da Casa Branca, no Twitter.

Para Entender

As origens do conflito entre israelenses e palestinos

Conheça um pouco sobre a história do conflito entre israelenses e palestinos, cujo novo capítulo de confronto já deixou mortos de ambos os lados

Mortes em campos de refugiados

O ataque mais mortal até agora atingiu uma casa de três andares no campo de refugiados de Shati, na Cidade de Gaza, matando oito crianças e duas mulheres de uma mesma família. Mohammed Hadidi disse que sua mulher e cinco filhos foram comemorar o feriado Eid al-Fitr com parentes. Ela e três das crianças, de 6 a 14 anos, foram mortas, enquanto um de 11 anos está desaparecido. Apenas seu filho de 5 meses, Omar, sobreviveu.

Brinquedos infantis e um jogo de tabuleiro de Banco Imobiliário podiam ser vistos entre os escombros. “Não houve nenhum aviso”, disse Jamal Al-Naji, um vizinho que mora no mesmo prédio. "Você vê pessoas comendo e depois as bombardea?" disse ele, dirigindo-se a Israel. O chefe do grupo militante, Ismail Haniyeh, disse em um comunicado que houve "um massacre hediondo no campo de Al-Shati".

O tenente-coronel Jonathan Conricus, porta-voz militar, disse que o objetivo dos militares é minimizar os danos colaterais em ataques a alvos militares. Mas as medidas tomadas em outras investidas, como tiros de advertência para fazer os civis saírem, não foram "viáveis ​​desta vez".

 Entre os alvos nesses dois dias, de acordo com um comunicado do Exército, estava um dos quartéis-generais de Taufik Abu Naim, comandante das forças de segurança do Hamas, bem como vários "locais usados para disparos de foguetes" no norte e sul do enclave, além de "edifícios da inteligência militar" do Hamas.

Diplomacia americana em ação

O diplomata americano Hady Amr chegou à região na sexta-feira, 14, como parte dos esforços de Washington para arrefecer o conflito. O Conselho de Segurança da ONU deve se reunir neste domingo, 16, para discutir o tema. Israel já rejeitou uma proposta egípcia de uma trégua de um ano -- o Hamas havia concordado.

Desde a noite de segunda-feira, 10, o Hamas disparou centenas de foguetes contra Israel, que revidou com ataques à Faixa de Gaza com ataques. Até agora,  pelo menos 139 pessoas foram mortas, incluindo 39 crianças e 22 mulheres. Em Israel, oito pessoas foram mortas, incluindo um homem neste sábado, 15, quando um foguete atingiu Ramat Gan, um subúrbio de Tel Aviv.

Violência nas cidades mistas

O conflito repercutiu dentro de Israel. Cidades israelenses com populações mistas de árabes e judeus viram violência noturna, com turbas de cada comunidade lutando nas ruas e destruindo as propriedades umas das outras.

Na noite de sexta-feira, uma bomba incendiária atingiu a casa de uma família árabe no bairro de Ajami, em Tel Aviv, ferindo duas crianças. Um menino de 12 anos teve queimaduras na parte superior do corpo e uma menina de 10 anos foi tratada por um ferimento na cabeça, de acordo com o serviço de resgate Magen David Adom.

 

Encontrou algum erro? Entre em contato

Comentários

Os comentários são exclusivos para assinantes do Estadão.

O Estadão deixou de dar suporte ao Internet Explorer 9 ou anterior. Clique aqui e saiba mais.