George Frey/EPA/EFE
George Frey/EPA/EFE

Autoridades eleitorais dos EUA não encontram provas de fraude

O 'New York Times' entrou em contato com os escritórios das principais autoridades eleitorais de cada Estado americano para perguntar se havia suspeitas ou evidências de votação ilegal

Nick Corasaniti, Reid J. Epstein e Jim Rutenberg / The New York Times, O Estado de S.Paulo

11 de novembro de 2020 | 18h37

NOVA YORK - Autoridades eleitorais de dezenas de Estados americanos, representando ambos os partidos políticos, disseram não haver indício de que o resultado da corrida presidencial teria sido afetado por fraudes nem outras irregularidades, efetivamente rejeitando as alegações de fraude eleitoral feitas pelo presidente Donald Trump.

Nos últimos dias, o presidente, membros do seu governo, congressistas republicanos e seus aliados de direita alegaram falsamente que a vitória na eleição foi roubada de Trump, recusando-se a aceitar os resultados indicando o democrata Joe Biden como vencedor.

Mas o alto escalão das autoridades eleitorais de todo os EUA disse em entrevistas e declarações que o processo foi um notável sucesso, apesar do comparecimento recorde e as complicações de uma perigosa pandemia.

“É grande a capacidade humana de inventar falsidades a respeito das eleições", disse o republicano Frank LaRose, que atua como secretário de Estado de Ohio. “Os boatos e teorias da conspiração circulam descontrolados. Por alguma razão, as eleições fazem esse tipo de mitologia se reproduzir.”

O democrata Steve Simon, secretário de Estado de Minnesota, disse: “Não soube de um único caso de alguém que tenha defendido que um voto fosse contado quando não deveria ou que não fosse contado quando deveria sê-lo. Não houve fraude".

“O Kansas não teve casos generalizados ou sistemáticos de fraude eleitoral, intimidação, irregularidades ou problemas com a votação", disse uma porta-voz do republicano Scott Schwab, secretário de Estado do Kansas, em e-mail na terça-feira. “Estamos muito satisfeitos com o andamento da eleição até o momento.”

O New York Times entrou em contato com os escritórios das principais autoridades eleitorais de cada Estado na segunda e na terça-feira para perguntar se havia suspeitas ou evidências de votação ilegal. As autoridades de 45 Estados responderam diretamente ao Times. Em quatro dos demais Estados, o Times falou com outras autoridades relevantes ou localizou comentários públicos dos secretários de Estado; em nenhum lugar foram apontados problemas eleitorais substanciais.

As autoridades estaduais do Texas não responderam aos repetidos pedidos de contato. Mas uma porta-voz das principais autoridades eleitorais de Harris County, maior condado do Texas, com população superior a de muitos Estados, disse que os problemas foram pontuais e “a eleição transcorreu com muita tranquilidade". Na terça-feira, o vice-governador do Texas, o republicano Dan Patrick, anunciou um fundo de US$ 1 milhão para recompensar denúncias de fraude eleitoral.

Alguns Estados descreveram problemas menores, comuns a todas as eleições, dizendo que os estavam solucionando: alguns casos de votação ilegal ou repetida, alguns problemas técnicos e pequenos erros de matemática. As autoridades de todos os Estados estavam analisando a votação por conta própria, um componente padrão do processo de certificação.

O que a reportagem do Times trouxe à tona foi um esforço dos republicanos de muitos Estados em difundir as alegações do presidente no sentido de deslegitimar o sistema eleitoral americano.

Alguns republicanos chegaram até a criticar colegas de partido que, ao seu ver, não demonstraram dedicação suficiente no combate às fraudes. Na Geórgia, onde Biden está na frente, os dois senadores republicanos do Estado, Kelly Loeffler e David Perdue, que tentam a reeleição no segundo turno, pediram a renúncia do secretário de Estado, o republicano Brad Raffensperger. “O secretário de Estado fracassou em garantir eleições honestas e transparentes", disseram os senadores em declaração.

Na segunda feira, a campanha de Trump acelerou seus esforços jurídicos, dando entrada em um processo nos sete condados da Pensilvânia onde o presidente perdeu alegando que a votação pelo correio criou um sistema injusto e “escalonado" durante a eleição — mas o mesmo sistema funciona nos condados em que o presidente venceu. A campanha também apresentou um outro processo em Michigan.

O presidente se dedicou a uma saraivada de publicações no Twitter fazendo alegações falsas de irregularidades em Nevada e Pensilvânia, prevendo que triunfaria na Geórgia, onde está perdendo, e disse que Wisconsin “precisa de algum tempo com os advogados", sem explicar o que quis dizer com isso.

A democrata Nellie Gorbea, secretária de Estado de Rhode Island, disse que o grau de atenção dedicado à eleição tornaria a votação ilegal extremamente difícil. “Seria quase impossível cometer fraude nessa eleição por causa do número de pessoas ligadas no processo", disse ela.

Ainda assim, Trump revela uma obsessão com a fraude eleitoral desde 2016, quando alegou falsamente que votos roubados lhe custaram o triunfo no voto popular, quando foi derrotado nas urnas por cerca de 3 milhões de votos (mas obteve mesmo assim a maioria necessária no colégio eleitoral).

Após a eleição daquele ano, ele formou uma comissão para investigar fraudes eleitorais que se dissolveu em meio a acusações de sigilo, partidarismo e abuso de autoridade, sem ter encontrado nenhuma prova.

Este ano, o ataque de Trump contra o sistema eleitoral apostou na fabricação descarada de mentiras ou em exageros grotescos envolvendo o tipo de problema trivial que se observa em qualquer eleição.

Em Ohio, por exemplo, LaRose disse que embora casos esporádicos de irregularidades sejam habitualmente descobertos no Estado, não foi detectada uma fraude sistêmica.

“No passado, encaminhei esses casos aos procuradores locais e à Promotoria do Estado", disse ele. “Estamos falando de dezenas de pessoas, e não centenas. Não existe um nível aceitável de fraude eleitoral, e levamos cada um desses casos a sério.”

A tensão envolvendo a votação é palpável principalmente na Geórgia. A campanha de Trump e os dois senadores republicanos se queixaram da falta de transparência, algo que Raffensperger, o secretário de Estado, descreveu como “risível".

“Nós divulgamos os resultados preliminares de hora em hora, no mínimo", disse ele em pronunciamento. “Eu e meu gabinete realizamos coletivas diariamente com a imprensa, ou até duas vezes ao dia, para explicar os números. Assim sendo, essa acusação é risível.”

Ele acrescentou que casos menores e isolados de fraude são prováveis, mas não espera que sejam significativos o bastante para afetar o resultado.

Os esforços jurídicos de Trump foram enfraquecidos pela ausência de evidências significativas de fraudes e irregularidades, e a disposição em reconhecer o bom funcionamento das eleições por parte de autoridades eleitorais ligadas ao próprio partido republicano.

Em Michigan, a campanha de Trump moveu um processo, dizendo que seus observadores eleitorais não puderam acompanhar devidamente a contagem de cédulas em Detroit. Mas autoridades eleitorais da cidade negam a acusação, dizendo que havia dezenas de observadores ligados a ambas as campanhas no principal centro de contagem local.

Na semana passada, um juiz negou o pedido da campanha de Trump solicitando a interrupção da contagem com base em queixas ligadas a observadores, descrevendo as evidências apresentadas como “vagas” e “boatos".

As acusações de fraude feitas pelo presidente e seus aliados não foram vistas nos Estados em que Trump e seus colegas republicanos tiveram bom desempenho. / TRADUÇÃO DE AUGUSTO CALIL

Encontrou algum erro? Entre em contato

Comentários

Os comentários são exclusivos para assinantes do Estadão.

O Estadão deixou de dar suporte ao Internet Explorer 9 ou anterior. Clique aqui e saiba mais.