Kevin Lamarque/Reuters
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Biden veta financiamento a bancos russos e diz que invasão da Ucrânia está só no começo

Pronunciamento do presidente americano acompanha líderes ocidentais na tentativa de fazer a Rússia recuar da ideia de reconhecer territórios separatistas como Estados independentes

Beatriz Bulla / Correspondente, O Estado de S.Paulo

22 de fevereiro de 2022 | 16h30
Atualizado 22 de fevereiro de 2022 | 22h17

WASHINGTON - Os Estados Unidos, o Reino Unido e a União Europeia agiram em conjunto nesta terça-feira, 22, para punir a Rússia pela decisão de reconhecer enclaves separatistas no leste da Ucrânia e ordenar o envio de tropas à região. Em uma ação coordenada, americanos e europeus aplicaram sanções contra bancos russos, oligarcas e aliados do presidente Vladimir Putin. A mais significativa delas tem como objetivo vetar o acesso russo ao financiamento de sua dívida soberana – que é a capacidade do país de emitir dívida para se financiar. 

Em discurso na Casa Branca, Joe Biden declarou que as sanções contra a Rússia são o começo de uma série que pode se estender caso Putin avance sobre o território ucraniano. “A invasão da Ucrânia está só no início”, afirmou o presidente americano. “Ainda acreditamos que a Rússia está pronta para ir muito mais longe no lançamento de um ataque militar em massa contra a Ucrânia. Espero que estejamos errados sobre isso.”

Segundo Biden, Putin está criando uma lógica para tomar mais território à força. Na segunda-feira, Putin reconheceu a independência das regiões separatistas de Donetsk e Luhansk, no último desdobramento de uma crise que remonta ao fim da Guerra Fria

No discurso no qual anunciou que avançaria sobre a Ucrânia, Putin acusou o Ocidente de desrespeitar acordos do fim da União Soviética e mover a Otan para o leste, colocando a segurança da Rússia em risco. Segundo o líder russo, a possível entrada da Ucrânia na aliança atlântica seria o próximo passo da estratégia ocidental para ameaçá-lo. 

Discurso 

O presidente americano também criticou as menções de Putin a aliados da Otan no Leste Europeu em seu discurso de segunda-feira. “Ele atacou diretamente o direito da Ucrânia de existir. Ele ameaçou indiretamente territórios anteriormente ocupados pela Rússia, incluindo nações que hoje são democracias prósperas e membros da Otan e ameaçou com uma guerra a menos que suas exigências extremas fossem atendidas”, acrescentou Biden. 

O pacote de medidas anunciado nesta terça-feira por Biden é composto por sanções econômicas a dois bancos russos e a oligarcas, além de cortar do governo russo a possibilidade de levantar dinheiro no sistema financeiro ocidental. Segundo os EUA, essas instituições financeiras detêm mais de US$ 80 bilhões em ativos. As medidas congelam os ativos nos EUA e proíbem que empresas e cidadãos no país façam transações com os bancos, além de excluí-los do sistema financeiro. 

Para Entender

Como Putin preparou a economia russa para sanções desde a anexação da Crimeia

Desde que pagou um alto preço pela anexação da do território ucraniano em 2014, a Rússia tentou tornar sua economia à prova de sanções e isolamento.

As sanções pessoais foram direcionadas a cinco integrantes da elite do país: Aleksandr Bortnikov e seu filho, Denis; Sergei Kiriyenko e seu filho, Vladimir; e o CEO do Promsvyazbank, Petr Fradkov. 

Desde a anexação da Crimeia, Putin vem preparando a economia russa para resistir à pressão econômica internacional. O líder russo acumulou reservas monetárias e reduziu o uso de dólares, o que desafia a estratégia de europeus e americanos de tentar fazer o Kremlin pagar um preço alto pela ação na Ucrânia desta vez.

Mobilização europeia 

Na Europa, os bancos russos também foram alvo do governo britânico, já que há vários anos oligarcas e membros da elite do Kremlin destinam seus investimentos à City londrina.

Centenas de bilhões de dólares fluíram da Rússia para Londres e territórios ultramarinos do Reino Unido desde a queda da União Soviética, em 1991, e Londres se tornou a cidade ocidental preferida dos super-ricos da Rússia e de outras ex-repúblicas soviéticas.

Com isso, o premiê britânico, Boris Johnson, decidiu congelar ativos de cinco bancos russos (Rossiya, IS Bank, General Bank, Promsvyazbank e Black Sea Bank) e impor sanções a três oligarcas russos. Todos os ativos dos sancionados no Reino Unido ficarão congelados e os três indivíduos estão proibidos de entrar no país ou de manter negócios com empresas britânicas. 

União Europeia anunciou também nesta terça-feira planos para impor sanções à Rússia. Após uma reunião de ministros das Relações Exteriores em Paris, o chefe de política externa do bloco, Josep Borrell, delineou um plano que tem como alvo pessoas e entidades ligadas ao último movimento russo. 

Eles incluem 351 membros da Duma que votaram pelo reconhecimento, bem como “27 indivíduos e entidades que estão desempenhando um papel em minar ou ameaçar a integridade territorial, a soberania e a independência da Ucrânia”, disse Borrell.

Entre eles estão os tomadores de decisão, entidades de apoio financeiro ou material e bancos. Borrell também disse que a UE “terá como alvo a capacidade do estado e do governo russos de acessar nossos mercados e serviços de capital e financeiros”.

Até então, a sanção mais importante havia sido anunciada pelo chanceler alemão, Olaf Scholz, que suspendeu a licença para funcionamento do gasoduto Nord Stream 2, maior obra de infraestrutura transnacional envolvendo os dois países e que seria responsável por parte considerável do fornecimento de gás natural para a Alemanha.

Para Entender

Entenda a crise entre Rússia e Otan na Ucrânia

O que começou como uma troca de acusações, em novembro do ano passado, evoluiu para uma crise internacional com mobilização de tropas e de esforços diplomáticos

O anúncio das sanções não pareceu, inicialmente, mudar os planos russos. Mesmo após os anúncios de Alemanha e Reino Unido, o Conselho Superior da Rússia -- órgão do legislativo equivalente ao Senado -- autorizou o envio de soldados russos para a República Popular de Donetsk (RPD) e para a República Popular de Luhansk (RPL). 

Em declarações na TV, Putin afirmou que uma eventual entrada das tropas no território ucraniano dependeria "da situação no terreno"./NYT, REUTERS, AP e AFP

 

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