Ore Huiying / The Washington Post.
Ore Huiying / The Washington Post.

Casos de coronavírus disparam em Cingapura e ameaçam imigrantes

País era considerado modelo no combate ao coronavírus, mas total de infecatos em uma semana saltou de 300 para mais de dez mil

Shibani Mahtani, The Washington Post, O Estado de S.Paulo

23 de abril de 2020 | 15h14

Shekor chegou a Cingapura há uma década, aos 17 anos, um dos muitos trabalhadores imigrantes de baixa renda que impulsionaram o crescimento do país, construindo hospitais, linhas de metrô e o resort Marina Bay Sands.

Natural de Bangladesh , ele sofreu vários ferimentos relacionados ao trabalho em seus anos na produção de alumínio e em canteiros de obras. O mais recente, em 18 de março, deixou-o com uma dor lancinante no quadril esquerdo. Essa também foi a data em que as infecções por coronavírus em Cingapura começaram.

Conhecida como "A Pérola da Ásia", esta cidade-Estado de apenas 5,6 milhões de habitantes é hoje um dos maiores centros financeiros do mundo. Sua resposta rápida ao coronavírus fez epidemiologistas de todo mundo classificarem a reação do país como o “padrão-ouro” no combate à pandemia

Mas desde a semana, os casos dispararam. Eles saíram dos 313 quando Shekor se machucou, em 18 de março, para mais de 10 mil na quarta-feira, 22, após dois dias de saltos recordes. Milhares de novos casos - e quase 70% do total de Cingapura - estão concentrados em dormitórios que abrigam trabalhadores imigrantes como Shekor, que foram trancados em seus aposentos enquanto as autoridades buscam uma solução. 

Para Shekor, que deu apenas seu primeiro nome por medo de retaliação por parte de seu empregador, isso significa que não há acesso aos analgésicos de que ele precisa.

"Tudo é tão difícil para todos aqui", disse ele em uma entrevista por telefone ao Washington Post em seu dormitório coletivo, onde 25 mil pessoas vivem, e onde centenas foram infectadas. “Parece que eles só levam os mais graves ao hospital; os normais como eu, ninguém cuida de nós.”

A situação destaca a vulnerabilidade dos trabalhadores imigrantes, que em Cingapura representam um terço da força de trabalho. Seus riscos de infecção são exacerbados por alojamentos superlotados, má nutrição, acesso limitado a cuidados de saúde e equipamentos de proteção individual, salários baixos e, em alguns casos, discriminação.

No Golfo Pérsico, os aposentos dos trabalhadores também se tornaram pontos críticos de infecção. Como em Cingapura, muitos trabalhadores imigrantes são do sul da Ásia. Em outros lugares, os imigrantes africanos na China enfrentam discriminação e xenofobia, são proibidos de entrar em restaurantes ou são despejados de suas casas. 

Preconceito com imigrantes

A maior revista de língua chinesa de Cingapura, Lianhe Zaobao, publicou recentemente uma carta de um leitor que culpou os imigrantes pelos surtos, classificando seus países como "atrasados" e suas práticas sujas.

Em Cingapura, os críticos dizem que esses eventos revelaram uma arrogância entre as autoridades e a comunidade em geral, que deram como certo o seu sucesso inicial em manter baixos os números de infecções, ao mesmo tempo em que não se preparavam para a possibilidade de um surto entre os mais oprimidos.

"Nos primeiros dois meses, nos envolvemos em muitas felicitações", disse Alex Au, vice-presidente do grupo de direitos Transient Workers Count Too (TWC2). "Se alguém se importasse em olhar, os perigos já estavam lá."

As autoridades planejavam o combate à epidemia com foco apenas nos cidadãos, disse ele, distribuindo máscaras cirúrgicas, desinfetantes para as mãos e máscaras reutilizáveis ​​apenas para as famílias de Cingapura. Enquanto isso, residentes de Cingapura que retornavam dos Estados Unidos e do Reino Unido foram alojados em hoteis de quatro e cinco estrelas pagos pelo governo.

“Isso reflete a invisibilização deliberada do trabalhador estrangeiro; toda a maquinaria do estado opera como se ele não existisse ", disse Au.

A HealthServe, uma organização sem fins lucrativos que fornece assistência médica subsidiada aos trabalhadores imigrantes, disse que eles estavam ansiosos desde fevereiro por causa do vírus e seu nível de risco morando em locais superlotados. Mas uma mudança nos regulamentos do país fez com que médicos e enfermeiros voluntários da organização não pudessem mais trabalhar em período parcial, forçando a HealthServe a cortar os serviços em 90%.

"Essa era uma situação que achamos que viria, mesmo se esperássemos o melhor", disse Suwen Low, porta-voz da HealthServe.

Um porta-voz do Ministério da Mão de Obra disse em um comunicado à imprensa que as autoridades estão trabalhando para “reduzir o número de trabalhadores nos dormitórios e também implementar um plano de apoio médico”. 

Trabalhadores em serviços essenciais foram removidos dos dormitórios, disse o ministério, enquanto autoridades identificaram acomodações alternativas para outros, como acampamentos militares, pavilhões esportivos, blocos de moradias vazias e contêineres.

"Nossa prioridade imediata para os trabalhadores nos dormitórios é ajudá-los a se manter saudáveis ​​e minimizar o número de pessoas infectadas", disse Josephine Teo, ministra de recursos humanos de Cingapura, em entrevista coletiva na semana passada.

Em um discurso à nação na terça-feira, o primeiro-ministro de Cingapura, Lee Hsien Loong, começou notando que o número de novos casos na comunidade local se estabilizou antes de reconhecer o aumento acentuado e problemático no total de casos entre os imigrantes.

"Nós cuidaremos de você, assim como nós cuidamos dos cidadãos de Cingapura", disse ele. "Nós cuidaremos de sua saúde, seu bem-estar e seu sustento."

As autoridades também estão trabalhando com organizações como o Migrant Workers Center, que tem um programa de "embaixadores" que estão ajudando seus colegas e amigos a entender práticas de higiene, distanciamento social e aspectos práticos, como enviar remessas online. Yeo Guat Kwang, presidente do grupo, disse que o foco deve estar na melhoria das condições no futuro.

"Em retrospecto, todos seriam mais sábios", disse Yeo. "Mas esta é realmente uma pandemia global sem precedentes."

Segunda onda de infecções

Uma segunda onda de infecções por coronavírus começou a se enraizar em Cingapura em meados de março, semelhante a outros lugares da Ásia, como Hong Kong e Taiwan, quando residentes no exterior voltaram para a região quando os surtos se intensificaram na Europa e nos Estados Unidos. 

Mas enquanto Hong Kong conseguiu controlar esse pico, diminuindo o número de novos casos, e Taiwan registrou vários dias sem novos casos, Cingapura se tornou o país com o maior número de casos per capita do mundo.

Os trabalhadores imigrantes que sofrem o impacto do surto são predominantemente homens e empregados na construção e em outros setores de trabalho intensivo. O trabalhador típico da construção civil em Cingapura ganha cerca de US$ 430 por mês, enquanto a renda média mensal no país é de US$ 3.227.

focos de infecção foram identificados em muitos dormitórios. Mais de uma dúzia de dormitórios foram colocados em quarentena, o que significa que os trabalhadores não podem deixar seus quartos, enquanto quase todos os residentes estão proibidos de deixar as instalações, que são vigiadas pela polícia.

Os mais de 200.000 residentes em dormitórios agora estão ansiosos, entediados, isolados e assustados. Incapazes de comprar sua comida, cozinhar ou comprar cartões telefônicos para ligar para casa, eles dependem quase completamente de caridade.

Um trabalhador em um dos dormitórios mais atingidos, que só queria ser identificado por seu primeiro nome, Ali, recebeu tratamento para dor de garganta e febre antes do bloqueio e ficou em licença médica até 9 de abril. 

Ele recebeu um folheto com  “orientação para pacientes com infecção do trato respiratório” - um status que significa que ele precisa se isolar dos outros ou ser multado em US$ 7.000.

Isso era impossível em seu quarto para 12 pessoas, ele disse. A tosse de Ali persistiu, mas sob bloqueio, ele não pôde procurar atendimento médico por vários dias.

"Quem vai me dar algum tratamento ou ajuda?" ele disse em uma entrevista. "Estou com tanto medo de morrer antes de qualquer ajuda."

As autoridades dizem que os residentes dos dormitórios podem ter se infectado e contaminado outras pessoas em seus locais de trabalho ou em shopping centers, onde muitos se reúnem nos dias de folga. 

Nos dormitórios, antes do confinamento, os homens eram capazes de socializar um com o outro e cozinhar juntos, uma distração de seus trabalhos fisicamente extenuantes e a dificuldade de ficar longe de suas famílias.

Em uma entrevista na quinta-feira, Ali disse que finalmente conseguiu consultar um médico, que lhe deu xarope para a tosse e o testou para detectar o coronavírus. Ele não teve resposta. Seus 11 colegas de quarto estão tentando manter distância um do outro, mas é quase impossível. Em uma ida ao banheiro na quinta-feira à noite, ele descobriu que não havia sabonete para as mãos.

À noite, ele passa o tempo lendo livros de engenharia e conversando com sua família. "Contei a meu irmão sobre meus sintomas, e ele explicou à minha mãe em Bangladesh", disse ele. "Ela começou a chorar."

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