Carlos Barria/Reuters
Carlos Barria/Reuters

A horas de deixar o cargo, Trump concede clemência a Steve Bannon e outros aliados

O ex-estrategista-chefe da Casa Branca foi acusado de fraudar doadores políticos que apoiaram a construção de um muro na fronteira com México

Maggie Haberman, Kenneth P. Vogel, Eric Lipton e Michael S. Schmidt, The New York Times

20 de janeiro de 2021 | 02h40
Atualizado 20 de janeiro de 2021 | 07h25

WASHINGTON - Em um de seus últimos atos no cargo, o presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, concedeu clemência a aliados nesta quarta-feira, 20. A lista inclui Steve Bannon, seu ex-estrategista-chefe, e Elliott Broidy, um dos principais arrecadadores de fundos do presidente na campanha presidencial de 2016. Com a medida, Trump mantém o padrão de usar seu poder para recompensar os aliados que têm laços íntimos com ele.

A última rodada de indultos e comutações - 143 no total - se junta a outras dezenas feitas no mês passado, quando Trump perdoou aliados como Paul Manafort e Roger Stone, e quatro guardas da Blackwater condenados por ligação com a morte de civis iraquianos.

A ação de Trump, horas antes de sua saída da Casa Branca, mostra quantos de seus aliados e apoiadores estiveram envolvidos em casos de corrupção e em outros problemas jurídicos ao longo de sua presidência, e destacou novamente a disposição do presidente em usar seu poder para ajudá-los.

A decisão de conceder clemência a um número relevante de pessoas envolvidas em casos de corrupção de alto nível também representou um ataque final de Trump ao sistema de justiça criminal, a quem o presidente acusa de promover uma perseguição injusta a ele e seus aliados.

O perdão presidencial acontece enquanto o Senado se prepara para julgar segundo processo de impeachment aprovado contra Trump na Câmara - acusando-o de ter incitado a invasão ao Capitólio neste mês - e pode ser outro fator a influenciar a adesão de republicanos à condenação do presidente.

Trump detém o poder de emitir mais perdões - incluindo, teoricamente, para ele mesmo e membros de sua família - até o meio-dia de quarta-feira, quando seu mandato se encerra. Mas autoridades ligadas a Casa Branca dizem que não há previsão de que ele faça isso, apesar do presidente ter expressado interesse em se perdoar preventivamente.

De acordo com fontes ouvidas pelo The New York Times, o advogado da Casa Branca, Pat Cipollone, e o ex-procurador-geral, William Barr, advertiram o presidente contra o auto-perdão. Cipollone teria ainda alertado o presidente a não conceder clemência para legisladores republicanos que possam estar ligados à tomada do Capitólio.

Outro veto feito pelos aliados foi a concessão de perdão preventivo aos três filhos mais velhos do presidente, a seu genro e a Rudy Giuliani, seu advogado pessoal. De todos eles, o único investigado é Giuliani, por suposto lobby ilegal com o governo ucraniano, mas nenhum foi sequer acusado de qualquer delito.

Além de Bannon e Broidy, também receberam perdões ou sentenças comutadas de Trump vários ex-políticos condenados anteriormente. A lista inclui Rick Renzi, um ex-republicano da Câmara que foi sentenciado em 2013 a três anos de prisão em associação com um esquema de suborno envolvendo um acordo de troca de terras no Arizona; Robert Hayes, um ex-republicano da Câmara da Carolina do Norte que se confessou culpado em 2019 de mentir para o FBI; e Kwame Kilpatrick, um democrata e ex-prefeito de Detroit que foi condenado em 2013 por usar seu escritório para enriquecer a si mesmo e sua família por meio de extorsões, propinas e esquemas de manipulação de licitações.

Steve Bannon

O perdão a Steve Bannon é particularmente questionável porque, apesar do empresário ter sido acusado de um crime, ele ainda não foi julgado. Na maioria dos indultos e comutações concedidos pelos presidentes americanos, os beneficiados são condenados e sentenciados.

A Casa Branca planejava divulgar a lista dos agraciados com a clemência no início do dia, mas o debate sobre Bannon, que encorajou Trump a lutar publicamente pela certificação da eleição de 2020, foi parte do atraso, disseram as autoridades.

No final da tarde de terça-feira, os assessores estavam certos de que haviam impedido o perdão de Bannon. Mas por volta das 21h, Trump mudou de ideia e Bannon foi adicionado à lista.

Trump e Bannon falaram por telefone durante o dia, enquanto o presidente avaliava o perdão. Os aliados de Bannon tentavam pressionar para que isso acontecesse, enquanto seus detratores pressionavam o presidente para que ele não prosseguisse com a medida.

A decisão de Trump de conceder perdão a Bannon é a última reviravolta em um relacionamento complicado entre os dois que começou durante a campanha presidencial de 2016, desmoronou durante a época de Bannon como estrategista-chefe da Casa Branca e foi ressuscitado nos últimos meses, quando Bannon encorajou a candidatura de Trump a um segundo mandato e os esforços para derrubar a eleição.

Bannon foi indiciado e preso em agosto por promotores federais em Manhattan por acusações relacionadas ao dinheiro arrecadado para promover a construção do muro na fronteira com o México, uma das promessas de campanha de Trump.

Após o presidente ser impedido de construir partes do muro com fundos federais, um grupo de apoiadores, liderado por Bannon, reuniu-se para arrecadar o valor necessário para erguer parte da obra. O filho mais velho de Trump, Donald Trump Jr., chegou a participar de um evento promovido pelos aliados, que acabou recebendo US$ 25 milhões em doações. Segundo os promotores federais, Bannon usou US$ 1 milhão do valor arrecadado para suas despesas pessoais. Ele se declarou inocente.

Elliott Broidy

Broidy - um empresário da Califórnia que foi um dos principais angariadores de fundos para a campanha de Trump em 2016 antes de ser escolhido como vice-presidente de finanças do Comitê Nacional Republicano - se confessou culpado em outubro no caso de lobby estrangeiro.

Sua sentença de condenação deveria vir em uma audiência marcada para 12 de fevereiro.

Como parte de sua confissão de culpa, Broidy, 63, admitiu que aceitou US$ 9 milhões do financista malaio fugitivo Jho Low, parte dos quais foram pagos a um associado, para pressionar o governo Trump pela extradição de um dissidente chinês e retirar um caso relacionado a um esquema de peculato de um fundo da Malásia que os Estados Unidos acusaram Low de esquematizar.

Após a vitória de Trump, em 2016, Broidy iniciou agressivas conexões com a nova administração para políticos, executivos e governos em todo o mundo. Uma empresa de defesa de sua propriedade conquistou grandes contratos com os Emirados Árabes Unidos e Angola. E Broidy discutiu a possibilidade de uma visita a Mar-a-Lago, o resort privado do presidente na Flórida, para um político angolano de quem ele buscava receber pagamentos adicionais.

Ele também estava envolvido, junto com vários outros - incluindo o advogado do genro de Trump, Jared Kushner -, no que os promotores descreveram como um esquema para oferecer suborno em troca de clemência para um criminoso fiscal condenado, de acordo com documentos judiciais revelados em dezembro.

O Departamento de Justiça investigou o papel de Broidy no acordo, que parece ter ocorrido em 2017, mas ninguém foi acusado em relação a isso, nem Broidy enfrentou quaisquer acusações relacionadas aos seus esforços nos Emirados Árabes Unidos ou em Angola.

Lista ainda inclui rappers

Trump também concedeu clemência a Aviem Sella, um ex-oficial da Força Aérea Israelense que foi indiciado pelos Estados Unidos em 1987 sob a acusação de espionagem. Ele teria recrutado o espião condenado Jonathan Jay Pollard para coletar segredos militares dos EUA para Israel. Mas Israel nunca concordou em extraditá-lo para os Estados Unidos.

Também estava na lista Paul Erickson, ex-namorado da ativista russa Maria Butina, que foi brevemente puxado para a investigação de Trump por Robert Mueller, o advogado especial. Erickson foi condenado em julho passado por fraude eletrônica e lavagem de dinheiro e sentenciado a 84 meses de prisão por acusações relacionadas ao seu trabalho em 2017 em um negócio nos campos de petróleo de Bakken, na Dakota do Norte.

Dois rappers receberam clemência. Um deles foi Dwayne Michael Carter Jr., conhecido como Lil Wayne, que se confessou culpado em dezembro de possuir ilegalmente uma pistola Glock calibre .45 folheada a ouro e munição. O outro foi Bill Kapri, conhecido como Kodak Black, que foi condenado em 2019 a quase quatro anos de prisão depois de se declarar culpado de mentir em documentos ao tentar comprar armas.

Trump recusou conceder clemência a Sheldon Silver, ex-porta-voz da Assembleia estadual em Nova York, que foi para a prisão no verão passado por acusações de corrupção. Várias pessoas entraram em contato com Trump e seus assessores em apoio a Silver, incluindo Steve Witkoff, um investidor imobiliário em Nova York, disse um funcionário da Casa Branca.

Trump estava planejando seguir em frente com a clemência para Silver até que o The Times informou que ele estava considerando isso, o que gerou uma corrente de críticas dos republicanos em Nova York e um editorial no New York Post, pedindo ao presidente que não o fizesse.

Encontrou algum erro? Entre em contato

Comentários

Os comentários são exclusivos para assinantes do Estadão.

O Estadão deixou de dar suporte ao Internet Explorer 9 ou anterior. Clique aqui e saiba mais.