WHITE HOUSE / AFP
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Em reunião com Putin, Biden volta a ameaçar com sanções caso a Rússia invada a Ucrânia

Sem acordo para encerrar hostilidades, reunião entre os líderes não muda a situação tensa no Leste Europeu

Beatriz Bulla, Correspondente em Washington, O Estado de S.Paulo

12 de fevereiro de 2022 | 15h18
Atualizado 12 de fevereiro de 2022 | 17h00

WASHINGTON - Em uma conversa de uma hora e dois minutos, o presidente dos Estados Unidos, Joe Biden, disse ao presidente russo, Vladimir Putin, que os americanos e países aliados agirão de maneira decisiva para impor "rápidos e severos" custos à Rússia em caso de uma invasão da Ucrânia. Os dois líderes voltaram a ter uma conversa direta neste sábado, 12, um dia após os EUA alertarem para uma invasão iminente de Kiev por tropas russas.

"O presidente Biden foi claro com o presidente Putin que, embora os EUA continuem preparados para se envolver na diplomacia, em plena coordenação com nossos aliados e parceiros, estamos igualmente preparados para outros cenários", informou a Casa Branca, após o fim da ligação. 

Apesar de definida como "profissional e substantiva" pelos americanos, a conversa entre os dois líderes não representou mudanças na crise envolvendo a Ucrânia. "Não houve nenhuma mudança fundamental na dinâmica que vem se desenrolando há várias semanas", disse uma fonte do alto escalão do governo americano.

"Ainda não está claro se a Rússia está interessada em perseguir seus objetivos diplomaticamente, em oposição ao uso da força. Continuamos comprometidos em manter viva a perspectiva desescalada por meio da diplomacia. Mas também temos uma visão clara sobre as perspectivas disso, dadas as medidas prontamente aparentes que a Rússia está tomando à vista de todos, bem diante de nossos olhos", afirmou a mesma fonte. 

Segundo a Casa Branca, o Kremlin havia proposto que a conversa entre Putin e Biden acontecesse na segunda-feira, mas os EUA pediram para antecipar a ligação para este sábado. Desde sexta-feira, Washington elevou o tom dos alertas de segurança na região. Ontem, o Conselheiro de Segurança Nacional, Jake Sullivan, anunciou que os EUA acreditam que uma invasão da Ucrânia pela Rússia pode ocorrer "a qualquer momento". 

Na ligação, os dois líderes concordaram em manter suas equipes em diálogo nos próximos dias. Segundo fonte do governo americano, no entanto, "a Rússia pode decidir por uma invasão" mesmo assim.

Antes da conversa entre os dois líderes, o presidente da França, Emmanuel Macron, falou com Putin por telefone. Os dois se encontraram pessoalmente em Moscou na semana passada. O Secretário de Estado americano, Antony Blinken, também teve uma conversa com o ministro de Relações Exteriores da Rússia, Sergey Lavrov, durante a manhã.

Macron e Blinken pediram que Putin mostre que está disposto a seguir as negociações pela via diplomática com um recuo na presença de forças militares na fronteira. A mensagem é de que a condição para dialogar com a Rússia é aliviar a pressão militar.

"Falei com o ministro das Relações Exteriores (Sergey) Lavrov hoje para pedir uma resolução diplomática para o aumento militar não provocado da Rússia em torno da Ucrânia. Reiterei que novas agressões russas seriam recebidas com uma resposta transatlântica resoluta, massiva e unida", afirmou Blinken após a conversa com Lavrov. O ministro russo, por sua vez, disse que os EUA tentam provocar um conflito com uma "campanha de propaganda" sobre a agressão russa contra a Ucrânia.

Nas últimas 24 horas, Washington passou a se preparar para o que considera o pior cenário, o de invasão da Ucrânia pelos russos. Durante a manhã, ao descrever a situação, um funcionário do alto escalão do Departamento de Estado afirmou que a atuação do serviço consular americano é limitada em "zonas de guerra".

"Esperamos fervorosamente e continuamos a trabalhar intensamente para tentar garantir que a Ucrânia não se torne uma zona de guerra. No entanto, parece cada vez mais provável que seja para onde esta situação está se dirigindo, para algum tipo de conflito ativo", disse o diplomata a jornalistas. 

Pouco mais de uma hora antes da conversa entre Biden e Putin, o Pentágono anunciou que 160 membros da Guarda Nacional da Flórida que estavam na Ucrânia estavam sendo reposicionados para outros locais da Europa. Os soldados "assessoravam e treinavam" forças ucranianas, segundo o Pentágono. O destino das forças americanas que estavam na Ucrânia não foi divulgado. 

Paralelamente, o Departamento de Estado informou que a partir de domingo, 13, suspenderá os serviços consulares na embaixada americana em Kiev. Apenas serviços consulares de emergência continuarão ativos na cidade de Lviv, a mais de 500 quilômetros da capital ucraniana. "Esses desenvolvimentos significam para os cidadãos americanos que não é apenas hora de deixar a Ucrânia, já passou da hora de os cidadãos deixarem a Ucrânia", afirmou um alto funcionário da diplomacia americana.

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Disque Moscou

Antes da conferência com Biden, Putin teve uma chamada de uma hora e quarenta minutos com Macron, de acordo com informações da agência de notícias russa Interfax. O Kremlin não divulgou detalhes sobre a conversa entre os líderes mundiais, mas um comunicado da Presidência da França afirmou que o presidente russo não disse algo que indicasse a intenção de invadir a Ucrânia.

"Nós não vimos nenhum indicativo no que o presidente Putin disse de que ele vá iniciar uma ofensiva", disseram autoridades francesas após o término da chamada. "No entanto, estamos extremamente vigilantes e em alerta sobre a postura [militar] russa para evitar o pior", acrescentou.

Sobre o diálogo, o Palácio do Eliseu comunicou que Macron "transmitiu as preocupações de seus sócios europeus e aliados" sobre a ofensiva militar nos arredores da Ucrânia e advertiu que "uma escalada militar não é compatível com o diálogo sincero".

O Eliseu também informou que tanto Putin quanto Macron se mostraram dispostos a continuar o diálogo para colocar em prática os termos dos acordos de Minsk, firmados há sete anos entre Kiev e separatistas pró-Rússia, com participação de França, Alemanha e Rússia

No entanto, a linguagem usada por Paris não é tão clara quanto a de Washington quando se trata das intenções de Putin.

"Nós não damos um cheque em branco à Rússia, temos que permanecer vigilantes. Não há sinais de que eles vão para a ofensiva, mas estamos vigilantes para evitar o pior", disseram as fontes francesas.

Paris considera que Putin ainda não tomou uma decisão sobre um possível ataque à Ucrânia, o que justifica o diálogo que Macron mantém com o seu homólogo russo, mantendo-se vigilante para verificar se as suas palavras são corroboradas no terreno.

 

'Provocações' e 'auge da histeria'

Em meio a chamadas com os principais líderes ocidentais, Putin defendeu a posição russa no impasse ucraniano e denunciou o que classificou como "provocações" dos EUA no Leste Europeu.

Em conversa com Emmanuel Macron, Putin denunciou as "especulações provocativas sobre uma suposta 'invasão russa' da Ucrânia". O presidente francês tem sido um dos principais interlocutores ocidentais do líder russo nas últimas semanas.

Putin também criticou as "entregas em larga escala de armas modernas" à ex-república soviética, que criam "condições para possíveis ações agressivas das forças ucranianas" no leste do país, onde separatistas pró-Rússia controlam a região há oito anos.

Após a conversa com Biden, o assessor diplomático de Putin, Yury Ushakov, afirmou que os Estados Unidos atingiram o "auge" da "histeria" em relação às tensões relacionadas com a Ucrânia. "A histeria atingiu seu auge", disse durante coletiva de imprensa

Apesar da crítica, o assessor confirmou a versão anteriormente divulgada pela Casa Branca, de que tanto Putin quanto Biden concordaram em continuar dialogando para evitar um conflito.

/ Com EFE, REUTERS, AFP e AP

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