Crise na Ucrânia: Países se preparam para fluxo de refugiados em caso de guerra

Crise na Ucrânia: Países se preparam para fluxo de refugiados em caso de guerra

O governo americano afirma que a Rússia pode invadir o território ucraniano a qualquer momento, despertando os temores de uma guerra na região que levará a uma crise de milhões de refugiados

Redação, O Estado de S.Paulo

13 de fevereiro de 2022 | 19h50

À medida que aumentam as tensões na Ucrânia, países próximos se preparam para um possível fluxo de refugiados que deve surgir em caso de guerra. Nos últimos dias, o governo americano tem afirmado que a Rússia pode invadir o território ucraniano "a qualquer momento", enquanto os russos negam a intenção de invadir apesar da crescente concentração militar na fronteira.

O ministro de Interior da Polônia, Mariusz Kaminski, disse em publicação no Twitter neste domingo, 13, que o país está se preparando para lidar com “vários cenários" de um possível fluxo de refugiados. Atualmente, a Polônia abriga mais de um milhão de ucranianos – muitos deles se mudaram ao país para trabalhar. 

Krzisztof Kosinski, prefeito da cidade de Ciechanow, no leste da Polônia, disse no sábado, 12, que recebeu um pedido do governo regional para preparar acomodações para refugiados. "Nos pediram para indicar as instalações de alojamento para refugiados, o número de pessoas que seria possível acomodar, os custos envolvidos e o tempo de adaptação dos edifícios com uma recomendação de até 48 horas”, afirmou o prefeito, também no Twitter.

No final de janeiro, o vice-ministro de Interior da Polônia, Maciej Wasik, disse que o país se preparava para receber até um milhão de imigrantes ucranianos.

Segundo o governo americano, uma invasão russa pode resultar em um milhão a cinco milhões de refugiados, com muitos deles entrando na Polônia. As autoridades também alertaram sobre os enormes custos humanos possíveis, incluindo as mortes potenciais de 25.000 a 50.000 civis, 5.000 a 25.000 membros das forças armadas ucranianas e 3.000 a 10.000 membros das forças armadas russas.

Na última semana, o Reino Unido informou que colocou 1.000 soldados de prontidão para se deslocar para a Europa Oriental se houver uma crise de refugiados provocada por uma invasão russa.  

O primeiro-ministro nacionalista da HungriaViktor Orbán, alertou no sábado que uma invasão russa da Ucrânia poderia enviar centenas de milhares de refugiados ucranianos fugindo por meio da fronteira para seu país. O líder populista de direita comentou a situação durante um discurso anual que deu início à sua campanha política para as eleições parlamentares de 3 de abril.

Ele pediu uma resolução pacífica para as crescentes tensões na Europa. Orbán, que é um firme oponente de qualquer tipo de imigração, disse que era do interesse da Hungria "evitar a guerra", que, segundo ele, além de uma onda de refugiados ucranianos, causaria uma ruptura na economia de seu país.

Ao pedir uma resolução das tensões por meio do diálogo, Órban disse que se opõe aos planos da União Europeia de usar sanções contra a Rússia como dissuasão. “Sanções, políticas punitivas, palestras ou qualquer outro tipo de arrogância por parte das grandes potências estão fora de questão”, disse Orbán.

Orbán, que lidera a Hungria desde 2010, buscou uma das relações mais próximas com o presidente russo Vladimir Putin do que qualquer líder europeu. Desde a anexação da península ucraniana da Crimeia pela Rússia em 2014, a Hungria sob Órban se opôs consistentemente ao nivelamento das sanções da União Europeia contra Moscou, embora sempre tenha votado a favor delas.

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O que começou como uma troca de acusações, em novembro do ano passado, evoluiu para uma crise internacional com mobilização de tropas e de esforços diplomáticos

Israel prepara ajuda a comunidade judaica

Autoridades israelenses e grupos de ajuda humanitária também estão preparando planos para ajudar a comunidade judaica da Ucrânia em caso de guerra no país. A informação é do jornal americano Washington Post, que conversou com pessoas familiarizadas com o assunto. 

Apesar de estarem dispostas a agir se necessário, as autoridades israelenses disseram não esperar um cenário que exija transportes aéreos em massa. O país já serviu como suporte a judeus deslocados da Ucrânia em outros momentos, como em 2014.

Segundo o jornal israelense Ynet, Pnina Tamano-Shata, ministra de Imigração e Absorção de Israel (ramo do governo encarregado de facilitar a chegada de judeus de todo o mundo), disse que o país está "preparado para todos os cenários”.

Cerca de 100 mil judeus vivem na Ucrânia hoje, de acordo com Yael Branovsky, porta-voz da Sociedade Internacional de Cristãos e Judeus em Jerusalém. 

O Ministério das Relações Exteriores de Israel se recusou a comentar o assunto, dizendo apenas que está preparando os cidadãos israelenses residentes da Ucrânia para possíveis transtornos. A pedido de Israel, cerca de 4 mil israelenses que vivem no país se registraram na embaixada em Kiev desde o final de janeiro, segundo o porta-voz do ministério, Lior Haiat.

Na última sexta-feira, 11, o governo israelense comunicou que seus cidadãos deveriam considerar deixar a Ucrânia imediatamente, dizendo que iria começar a retirar familiares de funcionários da embaixada. 

A presença do judaísmo na Ucrânia remonta a mais de um milênio. As comunidades judaicas floresceram no país em diferentes períodos da história e chegaram a sofrer assassinatos em massa em alguns momentos, como na era czarista, em revoluções comunistas e no Holocausto.

Mais recentemente, o conflito em curso no leste da Ucrânia dividiu uma comunidade judaica de pelo menos 30 mil pessoas localizada na cidade de Donetsk. Pinchas Vishedski, que era o rabino-chefe da cidade até que a guerra o levou a fugir para a capital Kiev com muitos outros, disse que alguns membros judeus optaram por ficar no leste, especialmente os moradores mais velhos. Segundo ele, muitos deles se sentem confortáveis ​​vivendo na área dominada pelos russos.

Porém, a maioria da comunidade judaica fugiu dos combates: alguns foram imediatamente para Israel e outros se reassentaram principalmente em Kiev e arredores. Yael Branovsky, da Sociedade Internacional de Cristãos e Judeus em Jerusalém, conta que agências de ajuda judaica transformaram um acampamento de verão para jovens perto da capital em um centro de refugiados para famílias que muitas vezes chegavam com pouco mais que uma mala.

Invasão nos próximos dias

Após diversas tentativas de diálogos diplomáticos, incluindo uma ligação entre Joe Biden e Vladimir Putin no último sábado, os Estados Unidos mantêm a previsão de que um ataque russo deve ocorrer nos próximos dias.

O conselheiro de segurança da Casa Branca, Jake Sullivan, voltou a afirmar neste domingo que a Rússia pode invadir a Ucrânia "a qualquer momento" e pode criar um pretexto surpresa para um ataque enquanto o chanceler alemão, Olaf Scholz, se prepara para um encontro diplomático com o presidente russo.

Na sexta-feira, Washington havia alertado que a Rússia enviou, para o entorno da Ucrânia, forças militares suficientes para lançar uma ofensiva "a qualquer momento". Enquanto a Rússia continua a negar que planeja invadir seu vizinho e semanas de diplomacia frenética mostraram poucos sinais de progresso./ AP, REUTERS, NYT e W.POST

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