MARTIN BERNETTI / AFP
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Eleições no Chile: a vitória da política; leia a análise

País viu um dos principais líderes dos protestos sociais de 2019 vencer a eleição presidencial neste domingo

Pedro Abramovay e Talita Tanscheit*, O Estado de S.Paulo

20 de dezembro de 2021 | 20h00

Nenhum dos movimentos de protestos ao redor do mundo que se iniciaram a partir de 2011 com a Primavera Árabe teve um sucesso tão impressionante quanto os protestos de rua que tomaram o Chile em 2011.

O país assistiu no domingo 19 à vitória de um dos principais líderes daqueles protestos: o jovem líder estudantil, à época com 25 anos, torna-se agora o jovem presidente eleito, com 35 anos.

O que diferenciou o Chile de todos esses outros casos? A aposta na política. Mais especificamente, na política eleitoral. Enquanto muitos desses movimentos ao redor do globo transformaram a revolta contra os políticos no poder em revolta contra a política, no Chile a revolta contra as estruturas envelhecidas de poder virou a aposta na política.

Os jovens das manifestações deram origem a candidaturas independentes e, em 2013, ocuparam não só as ruas, mas o Parlamento. Nos anos seguintes, estes mesmos jovens fizeram apostas ainda mais altas, fundando organizações políticas. A presença desses grupos nos últimos anos, período pelo qual Chile passou por governos de centro-direita e de centro-esquerda, possibilitou que as reivindicações das ruas permanecessem presentes como alternativa política a um pacto político então existente. Um pacto que, se trouxe um desenvolvimento relativo para o país, manteve um nível assustador de desigualdade.

Assim, quando as ruas chilenas foram novamente ocupadas em 2019, havia organização política suficiente para que, mesmo diante da repressão brutal, se canalizasse a energia das ruas para a política.

Desta vez não se tratava apenas de conquistar cadeiras no parlamento, mas de substituir a Constituição escrita pelo ditador Augusto Pinochet por uma democrática.

Após um referendo e uma eleição para a Assembleia Constituinte que consagraram os movimentos das ruas, o Chile parecia caminhar para uma mudança de inspiração progressista. Mas apostar na política é estar preparado para lidar com oposições. E a oposição a um movimento que oferecia mudanças profundas em temas tão sensíveis não veio apenas das estruturas políticas tradicionais e que governam o Chile desde o fim da ditadura. Mas por meio de um discurso de ultradireita, personificado em José Antonio Kast, que fez do medo sua plataforma eleitoral.

Kast mobilizou as parcelas mais conservadoras do eleitorado chileno e terminou o primeiro turno à frente de Gabriel Boric. Ambos representavam uma ruptura com a alternância entre centro-direita e centro-esquerda no Chile. Kast trazendo um saudosismo da ordem ditatorial, Boric prometendo um futuro diferente, mas incerto. 

No domingo, o Chile saiu para votar em massa, na maior participação eleitoral dos últimos 30 anos. E o resultado foi favorável a Boric. Sua vitória é uma grande lição para os movimentos que representam a indignação ao redor do mundo. A superação dos pactos que mantém as desigualdades pode começar nas ruas, mas só tem chance de acontecer por meio da aposta na política e na luta democrática pelo poder.

As mudanças que Boric prometeu - e que estão sendo debatidas pela Constituinte - são muito profundas: um Estado de bem-estar social onde direitos fundamentais são garantidos à população, uma agenda climática articulada à inclusão social, o reconhecimento dos povos originários e a valorização das mulheres na vida política do país. Em seu discurso de vitória, Boric já sinalizou que o caminho passará pelo diálogo com todo o Chile. A política sempre foi a aposta dessa geração. Agora, farão isso a partir da cadeira presencial.

* São advogado e diretor da Open Society Foundations para América Latina e Caribe e Cientista Política e Pesquisadora do Observatório Político Sul-Americano (OPSA) do Instituto de Estudos Sociais e Políticos da Universidade do Estado do Rio de Janeiro (IESP-UERJ).

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