Marcos Correa/Brazilian Presidency via REUTERS
Marcos Correa/Brazilian Presidency via REUTERS

Em discurso, Bolsonaro adota metas climáticas concretas, mas sem plano para cumpri-las

Presidente brasileiro também reafirmou o pedido de mais recursos para viabilizar um combate mais assertivo da destruição florestal e proteger o ambiente

Beatriz Bulla, correspondente / Washington, O Estado de S.Paulo

22 de abril de 2021 | 10h53
Atualizado 22 de abril de 2021 | 14h06

Em discurso na cúpula do clima convocada pelo presidente americano, Joe Biden, o presidente Jair Bolsonaro se comprometeu a ampliar a verba para fiscalização ambiental, alcançar a neutralidade climática até 2050 e a acabar com o desmatamento ilegal até 2030. "Continuamos a colaborar com os esforços mundiais com a mudança do clima", disse Bolsonaro. O presidente adotou um tom mais conciliatório do que em outros encontros internacionais e reconheceu avanços de governos anteriores em relação ao clima

No momento da fala de Bolsonaro, o presidente americano Joe Biden não estava no encontro. O democrata se retirou da sala antes do início do pronunciamento do presidente argentino, Alberto Fernández. O Brasil foi o 19º a falar.  Não assistiu às falas do próprio Fernández, da chefe da Comissão Europeia, Ursula von der Leyen, do rei da Arábia Saudita, Salman bin Abdulaziz al-Saud, e de Bolsonaro. Não se sabe o motivo da ausência.

A determinação de antecipar em 10 anos a neutralidade climática no País, de 2060 a 2050, já havia sido indicada pelo presidente na carta que ele enviou a Biden na semana passada. Ele também repetiu o compromisso feito na carta com o fim do desmatamento ilegal nesta década. O compromisso deriva do Acordo de Paris, do qual o Brasil é signatário desde 2015. Ainda que o compromisso já existisse, americanos consideram que é importante ter o sinal do presidente do País de que irá trabalhar para implementá-lo.

"Determinei que a neutralidade climática seja alcançada até 2050, antecipando em dez anos a sinalização anterior (...). Entre as medidas necessárias destaco compromisso de eliminar o desmatamento ilegal até 2030, com a plena e pronta aplicação do nosso Código Florestal", disse. 

Mas o time de Biden vinha cobrando que o Brasil apresentasse mais do que o que escreveu na carta enviada, com indicação de medidas concretas e imediatas que mostrem como irá reduzir o desmatamento ainda neste ano. 

A comunidade internacional vê com ceticismo promessas de um governo considerado descomprometido com a questão ambiental. Durante o mandato de Bolsonaro, as notícias sobre o aumento histórico nas queimadas na Amazônia estamparam manchetes na imprensa do mundo inteiro. 

Em 2019, no entanto, no auge da crise de imagem do país sobre as queimadas, Bolsonaro adotou um discurso bem diferente do atual. Em pronunciamento na assembleia geral da ONU, na época, o presidente assumiu um tom desafiador e classificou como “falácia” a tese de que a Amazônia “é patrimônio da humanidade” e criticou o que chamou de “espírito colonialista” de países que questionaram o compromisso do País com a preservação ambiental. 

Desta vez, o presidente deixou de lado referências religiosas, ideológicas e embates com outras nações. Apesar de não desdobrar a estratégia para implementar o fim do desmatamento, como vinham cobrando os americanos, Bolsonaro incorporou no seu discurso a preocupação com as metas ambientais -- algo que vinha sendo cobrado pelo governo Biden.

Bolsonaro disse que o Brasil está na "vanguarda no combate à mudança do clima". "Tanto por nossas conquistas como pelos compromissos que estamos dispostos a assumir", afirmou. O comprometimento com a agenda ambiental vem após os EUA se juntarem a países europeus na pressão sobre o governo brasileiro. "Coincidimos com o seu chamado ao estabelecimento de compromissos ambiciosos", disse Bolsonaro a Biden.  Até o ano passado, os EUA tinham na Casa Branca um presidente que desdenhava da discussão climática. 

O presidente brasileiro disse que o país evitou a emissão de mais de 7,8 bilhões de toneladas de carbono na atmosfera nos últimos 15 anos e disse que o País merece "justa remuneração pelos serviços ambientais prestados por nosso bioma ao planeta", ao defender a criação de um mercado de carbono.

Ele também falou que o controle do desmatamento e redução de emissões será uma "tarefa complexa" e que "medidas de comando e controle serão parte da resposta". A despeito de dificuldades orçamentárias, disse, ele determinou a duplicação de recursos destinados às ações de fiscalização. 

"Diante da magnitude dos obstáculos, inclusive financeiros, é fundamental contar com a contribuição de países, empresas, entidades e pessoas dispostas a atuar de maneira imediata, real e construtiva na solução desses problemas. (...) A comunidade internacional terá oportunidade de cooperar na construção de nosso futuro comum", disse. 

O Brasil vinha pedindo verba para financiar o custo da proteção ambiental. O ministro do Meio Ambiente, Ricardo Salles, chegou a dizer aos americanos que precisaria de US$ 1 bilhão para reduzir a devastação da Amazônia em até 40% em 12 meses. Washington  deu sinais negativos ao pedido de dinheiro. Os americanos dizem que primeiro é preciso apresentar resultados.

O presidente brasileiro pediu "contribuição" internacional para financiar projetos ambientais, mas não falou de valores antecipados e também não condicionou isso a avanços nas metas climáticas. Os americanos disseram nas negociações prévias ao evento que não ofereceriam dinheiro ao Brasil antes de ver resultados, a despeito de pedidos expressos do governo brasileiro nesse sentido nos últimos meses.

"É preciso ter juro e remuneração pelos nossos serviços ambientais aos bioma do planeta", afirmou Bolsonaro. "O Brasil não apenas se destaca pelas ações do Brasil, mas está na vanguarda no combate à mudança do clima, tanto por nossas conquistas, quanto pelos compromissos que estamos dispostos a assumir...O Brasil participou com menos de 1% das emissões de gases do efeito estufa. No presente respondemos por menos de 3% das emissões de gases anuais", acrescentou.

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