Yui Mok/Pool via AP
Yui Mok/Pool via AP

Irritado com piadas de líderes globais, Trump abandona cúpula da Otan

Vídeo feito durante jantar oferecido pela rainha Elizabeth mostra o premiê canadense, Justin Trudeau, reclamando do comportamento do presidente americano; Boris Johnson e Emmanuel Macron riram

Redação, O Estado de S.Paulo

04 de dezembro de 2019 | 20h58

LONDRES - Donald Trump abandonou nesta quarta-feira, 4, a cúpula da Otan (Organização do Tratado do Atlântico Norte), em Londres. A decisão foi tomada abruptamente, após a divulgação de um vídeo, na noite anterior, que mostra alguns líderes da organização rindo do presidente americano. O desfecho melancólico da reunião, que marca os 70 anos da Otan e deveria discutir o avanço da China e o terrorismo global, mostra o desarranjo da aliança atlântica e como Trump é encarado com desdém nos bastidores.

“Quando as reuniões terminarem, voltarei para Washington. Não realizaremos uma conferência de imprensa no encerramento da (cúpula da) Otan, porque fizemos muitas nos últimos dois dias. Boa viagem a todos”, tuítou o presidente americano nesta quarta, que antes de embarcar publicou um vídeo com imagens de sua passagem por Londres e uma mensagem de despedida: “Obrigado, Otan”.

O clima de hostilidade na cúpula era palpável já na abertura, na terça-feira, quando Trump trocou farpas com o presidente francês, Emmanuel Macron. Na ocasião, Trump disse que a declaração de Macron sobre a “morte cerebral” da Otan, feitas em entrevista à revista The Economist, em novembro, era “insultante”. Diante de jornalistas, e frente a frente com o americano, Macron manteve o que disse.

Na mesma noite, o ambiente ficou ainda mais pesado com o vídeo dos líderes da Otan aparentemente ridicularizando o presidente americano. As imagens foram feitas durante um jantar oferecido pela rainha Elizabeth II, no Palácio de Buckingham, e foram divulgadas pela TV estatal canadense CBC. 

No vídeo, o premiê do Canadá, Justin Trudeau, reclama do comportamento de Trump, que no primeiro dia da cúpula falou com a imprensa por cerca de duas horas, dando longas entrevistas ao lado de Trudeau, de Macron e do secretário-geral da Otan, Jens Stoltenberg.

O premiê britânico, Boris Johnson, pergunta a Trudeau: “É por isso que ele se atrasou?” E o canadense responde: “Ele estava atrasado porque dá entrevistas coletivas de 40 minutos”, disse Trudeau para o grupo que incluía, além de Macron e Johnson, o primeiro-ministro holandês, Mark Rutte, e a princesa Anne.

No vídeo, Johnson e Macron riem e participam animadamente da conversa, apesar de não ser possível entender o que falam. Os líderes pareciam não perceber que estavam sendo filmados e o nome de Trump não é citado em nenhum momento.

Em resposta, além de cancelar a entrevista coletiva final e voltar para casa, Trump chamou Trudeau de “duas caras” e sugeriu ainda que o canadense estava irritado por ter recebido um puxão de orelha dos EUA para que aumentasse seus gastos com defesa, que hoje estão abaixo de 2% do PIB, meta acertada pelos países da Otan.

“Ele (Trudeau) é um cara legal, mas a verdade é que eu o cobrei pelo fato de que o Canadá não está contribuindo com 2% (do PIB para a Otan) e ele não está muito feliz com isso”, disse Trump.

Após a repercussão das imagens, Trudeau tentou amenizar a situação, afirmando que ele e Trump seguem mantendo uma “ótima relação”. “Tivemos uma boa reunião de trabalho ontem (terça-feira). Eu apenas fiz referência (no vídeo) ao fato de ter havido uma coletiva de imprensa que não estava programada antes de meu encontro com ele”, afirmou o premiê canadense. Questionado, Johnson fingiu que não sabia o que era o vídeo. “Não sei do que se trata”, afirmou o britânico. 

As divergências entre Trump e os líderes da Otan se refletiram na declaração final emitida nesta quarta, quando os líderes optaram por um texto comedido e muitas vezes ambíguo. Sobre a ascensão da China, que pela primeira vez constou de uma declaração da aliança atlântica, os 29 países disseram que ela representa desafios, mas também oportunidades.

Alvo de críticas

Não foi a primeira vez que Trump foi alvo de piadas em público. No ano passado, em seu discurso na abertura da Assembleia-Geral da ONU, os diplomatas deram risada da retórica hiperbólico do presidente americano. “Em menos de dois anos, meu governo conquistou mais do que qualquer governo na história deste país”, disse Trump. Diante das gargalhadas, ele respondeu surpreso: “Não esperava esta reação, mas tudo bem.”

Também não é a primeira vez que Trump se desentende com Trudeau. No ano passado, o presidente americano retirou o apoio dos EUA a uma declaração do G-7 preparada para a cúpula em Charlevoix, em Quebec, no Canadá. 

“Com base nas falsas declarações de Justin, em sua conferência de imprensa, e no fato de que o Canadá cobra tarifas enormes de nossos agricultores, trabalhadores e empresas, ordenei a nossos representantes não apoiarem o comunicado”, tuitou Trump, que já estava dentro do avião presidencial.

A falta de sintonia entre Trump e os principais líderes da Europa tem um novo capítulo marcado para agosto do ano que vem. Os EUA serão anfitriões da próxima cúpula do G-7, que está marcada para ocorrer em Camp David, casa de campo da presidência americana. 

Inicialmente, Trump havia ordenado que o evento ocorresse em um de seus resorts na Flórida, o clube de golfe Doral, mas concordou em mudar o local depois das críticas de que ele estaria usando o cargo de presidente para obter lucro pessoal.

Princesa evita Trump e Johnson foge de foto

Em evento com a rainha Elizabeth, Trump viu a princesa Anne, que estava no mesmo local, evitá-lo. A cena, que viralizou no Twitter, mostra como Elizabeth faz um movimento com as mãos em direção a Trump para que Anne, que está mais distante, o cumprimente.

Anne chacoalha os ombros e fica em seu lugar, com Trump olhando em sua direção. Anne, de 69 anos, é filha de Elizabeth, e mãe de dois netos da rainha. Já Johnson, teve de explicar porque estaria evitando aparecer em fotos com Trump.

Em plena campanha para as eleições legislativas, que ocorrem na próxima semana, o premiê britânico estaria temeroso em associar sua imagem com a do americano, muito impopular no Reino Unido. O Partido Conservador de Johnson lidera as pesquisas.

Em sua chegada à cúpula da Otan em Watford, no norte de Londres, Johnson afirmou que não tem evitado ser visto com o presidente americano. “Vou ser fotografado com todos os líderes possíveis”, afirmou. Na noite de terça, Johnson não foi receber Trump e a mulher dele, Melania, quando eles chegaram a uma recepção em sua residência oficial de Downing Street. / AP, REUTERS, W. POST e AFP

Encontrou algum erro? Entre em contato

O Estadão deixou de dar suporte ao Internet Explorer 9 ou anterior. Clique aqui e saiba mais.