EFE/Jorge Torres
EFE/Jorge Torres

Nicarágua deporta documentarista brasileira

Emilia Mello tinha sido presa no sábado com um grupo de estudantes quando seguia para a cidade de Granada para filmar um protesto contra o presidente Daniel Ortega

O Estado de S.Paulo

27 Agosto 2018 | 14h05

MANÁGUA - A documentarista brasileira Emilia Mello foi deportada no domingo na Nicarágua, 30 horas após ser presa no momento em que se preparava para filmar um protesto contra o presidente Daniel Ortega. O episódio ocorreu no sábado, quando ela viajava com um grupo de estudantes para a cidade de Granada, onde ocorreu a marcha. 

Ao menos 28 pessoas foram presas, a maioria universitários. Entre os detidos também estavam dois documentaristas nicaraguenses, Arielka Juárez e Ronny Cajina, um médico e um advogado, que foram liberados horas depois. Emilia foi levada ao Departamento de Migrações, de onde foi deportada.

O secretário executivo da Comissão Interamericana de Direitos Humanos (CIDH), Paulo Abrão, confirmou e que a brasileira, que também tem nacionalidade americana, deixou o país no domingo à tarde em um voo para El Salvador, que fez escala na Cidade do México e seguiu para Nova York. Segundo ele, Emilia foi interrogada durante horas e sofreu abusos psicológicos. As prisões provocaram críticas de entidades de defesa dos direitos humanos e da cultura.

A Associação Nicaraguense de Cinematografia (Anci) condenou a ação e considerou o ato uma forma de censura. “Isso estabelece um precedente muito perigoso para futuros cineastas que queiram tentar entrar no país para documentar o que sucede e contar ao mundo a história do que estamos vivendo e registrar qualquer violação dos direitos humanos”, diz a entidade.

Números alarmantes

Recentemente, a CIDH, ligada à Organização dos Estados Americanos (OEA), informou que 322 pessoas morreram em quatro meses de protestos contra o governo de Ortega, das quais 21 eram policiais e 23 crianças e adolescentes.

A estudante brasileira de medicina Raynéia Gabrielle Lima foi morta a tiros no final de julho. As autoridades nicaraguenses negam perseguição política, assim como o uso da força e da violência.

Os protestos na Nicarágua começaram no dia 18 de abril contra a reforma da Previdência, que acabou sendo revogada diante da pressão social. Mas as manifestações se intensificaram e houve repressão da polícia e de grupos paramilitares ligados ao governo.

Impasse e acusações

Ortega rejeitou a proposta feita por setores da sociedade civil - incluindo estudantes, agricultores, organizações de defesa dos Direitos Humanos e empresários - e pela Igreja Católica, de antecipar as eleições para acabar com a crise.

Líder da Revolução Sandinista de 1979 que derrotou a ditadura de Anastásio Somoza, Ortega é acusado até por ex-aliados de querer instalar o autoritarismo semelhante ao que ele combateu. Ele foi reeleito em 2016, mas a votação, sem a presença de observadores internacionais, foi questionada pela oposição.

Na sexta-feira, a CIDH alertou que os direitos humanos continuam sendo violados pelo governo nicaraguense, com “estigmatização e criminalização do protesto social”. / AGÊNCIA BRASIL

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