Paulo Whitaker/Reuters
Paulo Whitaker/Reuters

Racismo nos EUA, tradição no Brasil: cidades de São Paulo celebram confederados

Depois da Guerra Civil, milhares de sulistas derrotados se exilaram no País; por décadas, seus descendentes organizaram uma grande festa que atrai milhares de pessoas

Redação, O Estado de S.Paulo

14 de julho de 2020 | 04h00

Para Marina Lee Colbachini, de 35 anos, era uma tradição familiar. A cada primavera, ela se juntava às multidões que desciam para uma cidade do Sudeste do Brasil, vestia uma saia típica do século 19 e dançava ao som de música country. O tema do festival anual: os Estados Confederados da América. Quando ela se atentou para o evento, deixou de frequentá-lo.

Depois da Guerra Civil, milhares de sulistas derrotados vieram se exilar no Brasil, um país onde ainda existia a escravidão. Por décadas, seus descendentes organizaram uma grande festa que agora atrai milhares de pessoas para Americana e Santa Bárbara d’Oeste – cidades do interior de São Paulo próximas de Campinas – para comemorar tudo à maneira sulista. 

A bandeira confederada? Está por toda parte. Nos mastros e nas bugigangas. Pintada na pista de dança. Empunhada por homens vestidos como soldados da Confederação. Adornando o cemitério que abriga os restos mortais dos veteranos do Exército rebelde.

Agora, o acerto de contas racial que se seguiu à morte de George Floyd, nos EUA, inspira um reexame de valores no Brasil, assim como ocorreu com Marina. De um lado, a Fraternidade de Descendentes Americanos, o grupo que organiza a festa anual e cuida do cemitério dos confederados. Do outro, a União de Negros pela Igualdade, que vem liderando a iniciativa da comunidade para retirar a bandeira do festival.

Depois de perderem a guerra nos EUA, milhares de sulistas, com medo de viver sob o domínio do Norte e entre escravos libertos, estavam procurando oportunidades. Alguns foram para o México. Outros, para a Venezuela. Mas o Brasil, que não aboliria a escravidão por mais 23 anos, até 1888, parecia ser o mais atraente. “Eles (americanos) vieram para continuar com a posse de escravos”, diz Luciana Brito, historiadora da Universidade Federal da Bahia. 

Cláudia Monteiro, presidente da União de Negros pela Igualdade, raramente prestava muita atenção à festa. Ela passou 40 de seus 48 anos em Santa Bárbara d’Oeste e, para ela, o evento era só uma peculiaridade da cidade. No verão de 2015, ela e outro ativista começaram a falar sobre como Dylan Roof – assassino de nove fiéis de igrejas negras em Charleston, havia glorificado a bandeira confederada, que então foi retirada das repartições públicas da Carolina do Sul. No Brasil, as autoridades não estavam pedindo a remoção do símbolo. Ao contrário, apoiavam a festa. 

Um lado afirma que a Guerra Civil foi um conflito sobre a escravidão. O outro diz que era uma luta pela independência. A festa deste ano, marcada para abril, foi cancelada em razão do coronavírus. Mas, tanto Cláudia quanto João Leopoldo Padoveze, presidente da Fraternidade, que organiza o evento e se recusa a atender os pedidos dos ativistas, sabem que a bandeira vai voltar a tremular. 

“É a história da minha família”, diz Padoveze. “É racismo”, responde Cláudia. “Quem está certo e quem está errado?”, Padoveze questiona. “Temos visões diferentes de mundos diferentes”, garante a ativista. / WP, TRADUÇÃO DE RENATO PRELORENTZOU

Encontrou algum erro? Entre em contato

Comentários

Os comentários são exclusivos para assinantes do Estadão.

Tendências:

O Estadão deixou de dar suporte ao Internet Explorer 9 ou anterior. Clique aqui e saiba mais.