REUTERS/Bruno Kelly
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Roubo de armas em base da Venezuela teve a ver com mina de ouro

Militares levaram armamento a pedido de comerciante de Santa Elena de Uairén que teve mina tomada pelo ELN

Redação, O Estado de S.Paulo

26 de dezembro de 2019 | 06h00

CARACAS - Não foi um levante militar ou uma tentativa de golpe o que ocorreu no domingo, 22, no 513 Batalhão de Infantaria Selva Mariano Montilla, no município Gran Sabana do Estado venezuelano de Bolívar. Segundo o site Infobae, na verdade, a operação formada pelo tenente da reserva Josué Abraham Hidalgo Azuaje, o sargento da Guarda Nacional Bolivariana (GNB) Darwin Balaguera Rivas e um grupo de indígenas pemón tinha sido patrocinada por Andrés Antonio Fernández Soto, que queria reaver uma mina de ouro na região.

O tenente Hidalgo Azuaje foi passado para a reserva em 24 de fevereiro de 2018, sete meses depois de ter sido promovido. Ele e alguns companheiros foram alvo de investigações depois que a Direção de Contrainteligência Militar detectou, por meio de um chat, que eles estavam manifestando seu descontentamento com o que estava acontecendo com as Forças Armadas e até mesmo integravam um grupo rebelde que dizia se chamar a Espada de Deus.

O sargento Balaguera esteve no destacamento da Guarda Bolivariana em San Antonio del Táchira até 23 de fevereiro, quando cruzou para o território colombiano com um grande número de militares após reconhecer Juan Guaidó como comandante-chefe das Forças Armadas. Ali permaneceu em um hotel em Cúcuta com outros militares que tinham desertado ou haviam passado para a reserva.

Com o tempo, Balaguera começou a se desesperar com a falta de avanços para solucionar a situação do país. Foi para Cali depois de ser recrutado pelo tenente Hidalgo para roubar armas no Estado venezuelano de Bolívar. Balaguera disse que para chegar de Cali a Bolívar passou pelo Peru e depois pelo Brasil, em uma travessia de 12 dias. Foi desse fato que o ministro de Comunicações da Venezuela, Jorge Rodríguez, chegou à conclusão de que os governos do Peru e do Brasil estavam envolvidos no caso.

A ideia da chamada Operação Aurora foi idealizada por Fernández Soto, conhecido como Toñito. Balaguera disse que o conheceu em Paracaima (Roraima) e ele teria cerca de 42 anos. Toñito controlava uma mina com um grupo de indígenas pemóns que lhe foi tomada pelo Exército de Libertação Nacional (ELN), da Colômbia, e é muito conhecido na região porque tem várias lojas em Santa Elena de Uairén, na fronteira com o Brasil. Ele também teve estreita ligação com o indígena pemón Emilio González, a quem o governo – de forma fraudulenta – o destituiu da prefeitura de Gran Sabana, para a qual havia sido legitimamente eleito.

No domingo, o tenente Hidalgo, o sargento Balaguera e os indígenas entraram no depósito de armas do 513 Batalhão de Infantaria Selva Mariano Montilla e roubaram 112 fuzis AK 103 e munições. Em seguida, tentaram tomar o Comando 5102, Esquadrão de Cavalaria de Santa Elena e levaram como reféns o comandante e dois subalternos. Um soldado foi morto. Durante a fuga, se dividiram. Hidalgo partiu em uma caminhonete Hilux com 30 fuzis e os reféns, um dos quais conseguiu escapar.

Balaguera, por su vez, partiu com um caminhão e 82 fuzis. Durante a fuga, passou por um posto de controle e desceu para falar com os militares. Acabou discutindo com um militar e desencadeando um tiroteio. O motorista do caminhão e os indígenas fugiram com o caminhão e Balaguera acabou preso. 

Os que sobraram continuaram pelas trilhas e, na entrada do povoado de Paraitepuy de Roraima, abandonaram o caminhão. Dentro, ficaram 82 fuzis AK 103, 60 granadas 40 MM, 1 RPG e 6 caixas de munição 7.76.

Vários indígenas acabaram sendo presos e eles, assim como o sargento Balaguera, revelaram que não era uma sublevação. O ex-prefeito de Gran Sabana Ricardo Delgado disse que Balaguera e os indígenas, entre eles Juvencio Gómez, ex-deputado, foram torturados.

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