Yuri Gripas / Bloomberg
Yuri Gripas / Bloomberg

Tempos interessantes

Crises econômicas desviam a atenção dos problemas políticos e vice-versa

Moisés Naím *, O Estado de S.Paulo

23 Julho 2018 | 03h00

“Que você viva tempos interessantes.” Essa expressão, que parece uma bênção, na verdade é uma ironia perversa. Tempos interessantes costumam ser cheios de conflitos, instabilidade, perigo. 

Quem duvida que estejamos vivendo tempos interessantes? O que é mais interessante que a entrevista coletiva em Helsinque na qual o presidente Donald Trump afirmou para o mundo que confiava mais em Vladimir Putin do que nas próprias agências de informações? Estas insistem que têm provas definitivas de que o governo russo interferiu na eleição presidencial americana de 2016. Mas Putin disse a Trump que não foi assim e o presidente americano acreditou.

Por algumas horas.

A condenação a Trump foi tão intensa e generalizada que só lhe restou se retratar – a seu modo: no dia seguinte, convidou Putin para uma segunda reunião, em Washington.

Enquanto isso tudo acontecia, foram publicadas nos EUA duas notícias que, apesar da pouca difusão, terão enormes consequências para a Rússia, os Estados Unidos e a relação entre ambos. A primeira é que a Wood Mackenzie, uma respeitada empresa de análises energéticas, prognosticou que a demanda mundial de petróleo chegará a seu máximo histórico em apenas 18 anos, muito antes do que se esperava. A empresa assegura que “mudanças revolucionárias” no setor de transportes, especialmente o uso em massa de veículos elétricos e sem motorista, muito mais econômicos no consumo de energia, levarão a um pico da demanda de petróleo em 2036. A partir desse ano, o apetite do mundo pelo combustível fóssil começará a diminuir. Os hidrocarbonetos não desaparecerão como fonte de energia, mas sua importância declinará mais rapidamente do que supunham os especialistas. 

Que tem a ver essa notícia com a reunião de Helsinque? Tem a ver que a Rússia é um petro-Estado, um país cuja economia depende criticamente das exportações de petróleo e gás. Putin não conseguiu diversificar a economia e reduzir a dependência do país dos hidrocarbonetos. Assim, a queda na demanda mundial de seu principal produto de exportação terá um forte impacto negativo na vida dos russos. Obviamente, nas ditaduras a deterioração da situação econômica tem consequências políticas adversas e imprevisíveis.

A segunda notícia é um alerta do Instituto de Finanças Internacionais (IFI), organização privada com sede em Washington que recolhe e analisa informações sobre a saúde da economia mundial. Segundo o IFI, o mundo sofre uma grave overdose de endividamento. A dívida mundial cresceu com grande velocidade e alcança níveis nunca vistos. Em 2013, o volume da dívida acumulada era equivalente a 248% do tamanho da economia mundial. Hoje alcança 318%. 

O endividamento de uma pessoa, uma empresa ou um país não é problemático se o endividado tiver dinheiro para pagar os juros ou se tiver alguém que lhe empreste. Mas se os rendimentos não derem para cobrir os juros vencidos, ou se quem empresta perde a confiança na capacidade do devedor de pagar, então o emprestador para de emprestar. E tratará de recuperar de qualquer modo o que lhe é devido. Assim começam as crises financeiras.

Estaríamos então às portas de outra grave crise financeira, como a de 2008? Não necessariamente. O sistema financeiro mundial é hoje mais forte e está mais bem regulamentado. O alto endividamento pode ser mantido sem que se transforme em uma crise, desde que a economia mundial cresça e gere os ingressos necessários para pagar o serviço da dívida. A preocupação é que o crescimento econômico global, que vinha se recuperando, possa ser freado pela guerra comercial desfechada por Donald Trump. 

Laurence Fink, chefe do BlackRock, o maior gestor de fundos de investimento do mundo, acaba de advertir que o aumento das tarifas sobre importações imposto pela Casa Branca, assim como as represálias comerciais adotadas pelos países afetados por esse aumento, podem afetar o crescimento econômico e derrubar as bolsas. Jerome Powell, presidente do Fed, o banco central americano, diz o mesmo. 

Uma lição deixada pela crise de 2008 é que as doenças econômicas de um país contagiam outros com grande velocidade. Assim, o que acontecer com a economia americana se refletirá no restante do mundo e, sem dúvida, também na Rússia. E isso naturalmente afetará as relações entre os dois países. Outra lição é que as crises econômicas desviam a atenção dos problemas políticos, enquanto a instabilidade política tira a atenção das dificuldades econômicas. E isso está ocorrendo agora. 

Não é arriscado prognosticar que tempos ainda mais interessantes se aproximam. / Tradução de Roberto Muniz

* É escritor venezuelano e membro do Carnegie Endowment em Washington

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