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Trump cancela encontro com Kim por 'raiva e hostilidade' demonstradas por Pyongyang

Em carta endereçada ao líder norte-coreano, presidente americano disse que deseja se encontrar com ele no futuro, mas que agora não seria o momento apropriado; decisão foi tomada após críticas de conselheira de Kim ao vice-presidente americano, Mike Pence

Cláudia Trevisan, Correspondente / Washington, O Estado de S.Paulo

24 Maio 2018 | 10h53
Atualizado 24 Maio 2018 | 21h39

WASHINGTON - O presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, cancelou nesta quinta-feira, 24, a cúpula que teria com o norte-coreano Kim Jong-un no dia 12 de junho, no que seria o primeiro encontro da história entre líderes dos dois países. Em carta endereçada ao ditador, ele apontou "a tremenda raiva e hostilidade" de manifestações recentes do regime como justificativa de sua decisão.

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Mas o americano deixou a porta aberta para continuidade das conversas em torno do programa nuclear de Pyongyang: "Se você mudar sua opinião em relação a essa cúpula de suma importância, por favor não hesite em me telefonar ou escrever".

Coreia do Norte afirmou mais tarde, (já sexta-feira no horário local) que ainda estava disposta a dialogar com os Estados Unidos  e qualificou a decisão de Trump de "extremamente lamentável". 

Na carta, ele adota um tom respeitoso e se dirige a Kim como "Sua Excelência". Ao mesmo tempo, faz uma ameaça velada: "Você fala sobre sua capacidade nuclear, mas a nossa é tão massiva e poderosa que eu rezo a Deus para que nós nunca tenhamos que utilizá-la".

Depois de adotar um tom conciliador desde o anúncio da cúpula, o regime norte-coreano reagiu com agressividade nos últimos dias a declarações de integrantes do governo Trump, que fizeram paralelos entre o país e a Líbia de Muamar Kadafi.

O alvo mais recente foi o vice-presidente Mike Pence, classificado de "idiota político", "estúpido" e "ignorante" em comunicado de Pyongyang divulgado nesta quinta, horas antes de Trump cancelar o encontro. 

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No dia anterior, Pence disse em entrevista à Fox News que Kim poderia terminar como Kadafi caso não fechasse um acordo sobre seu programa nuclear com os EUA. O líder líbio abriu mão de suas armas nucleares em 2003. Oito anos depois, foi assassinado em um rebelião que teve apoio de forças americanas.

"Nós nunca vamos implorar aos EUA por diálogo", disse a vice-ministra de Relações Exteriores da Coreia do Norte, Choe Son-hui. "Se os EUA vão se encontrar conosco em uma sala de reuniões ou em uma confrontação nuclear é totalmente dependente da decisão e comportamento dos americanos."

Trump observou ter sido informado de que o encontro havia sido solicitado pela Coreia do Norte. "Eu aguardava com expectativa estar lá com você", afirmou, referindo-se a Cingapura, onde ocorreria a cúpula. "O mundo, e a Coreia do Norte em particular, perdeu uma grande oportunidade para a paz duradoura, grande prosperidade e riqueza."

Na semana passada, Pyongyang já havia atacado o chefe do Conselho de Segurança Nacional da Casa Branca, John Bolton, por ele ter sugerido o "modelo líbio" para as negociações com a Coreia do Norte. Segundo ele, o país deveria abrir mão de seu programa de uma vez - e não em etapas, em troca de contrapartidas - e aceitar um regime severo de inspeção.

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Na segunda-feira, Trump afirmou que a mudança de atitude de Kim ocorreu depois de seu segundo encontro com o presidente da China, Xi Jinping, no dia 8 de maio. O americano se disse "desapontado", mas ressaltou não saber se o chinês influenciou ou não o ditador. 

"O presidente Xi é um jogador de pôquer de primeira classe. Talvez nada tenha acontecido. Talvez tenha", observou, fazendo referência à habilidade política do líder comunista. 

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