REUTERS/Pilar Olivares
REUTERS/Pilar Olivares

Vulcão de Tonga provoca vazamento de óleo e tragédia ambiental no Peru

Com pescadores desesperados por vazamento, presidente Pedro Castillo anuncia decreto contra 'emergência climática' no país 

Redação, O Estado de S.Paulo

22 de janeiro de 2022 | 15h43
Atualizado 22 de janeiro de 2022 | 19h39

LIMA — O presidente peruano, Pedro Castillo, assinou nesta quinta-feira um decreto apontando como de interesse nacional a emergência climática no país, depois de um grave derramamento de petróleo na costa central. 

O acidente foi provocado pelo tsunami causado pela erupção no último sábado de um vulcão submarino em Tonga, arquipélago no Pacífico distante quase 10 mil km, e produziu impactos no meio ambiente e nos meios de sobrevivência de centenas de pescadores da região.

“Estamos em um momento muito crítico em termos ambientais. Estamos em um dos lugares atingidos pelo derramamento de petróleo ocorrido há alguns dias, e que provocou o desastre ecológico mais preocupante na costa peruana nos últimos tempos”, afirmou Castillo durante visita ao distrito de Ventanilla, ao norte de Lima, a região mais atingida pelo acidente.

Com o decreto de "emergência climática" por 90 dias, o governo prevê uma “gestão sustentável dos territórios afetados”, com os respectivos “trabalhos de recuperação e remediação” para mitigar a contaminação. O Ministério do Ambiente justificou a "emergência" na medida em que o derrame "constitui um evento súbito com impacto significativo no ecossistema marinho costeiro de elevada diversidade biológica" bem como "de elevado risco para a saúde pública".

A declaração de emergência indica que a execução do plano de ação imediato e de curto prazo está a cargo da petrolífera espanhola Repsol, proprietária do terminal da Refinaria La Pampilla, localizado no distrito de Ventanilla, na província de Callao, perto de Lima, onde ocorreu o desastre.

O derramamento  ocorreu quando ondas provocadas pela erupção do vulcão em Tonga atingiram um petroleiro que descarregava sua carga da refinaria, jogando o equivalente a 6 mil barris de petróleo no mar.

Segundo as autoridades, a área atingida compreende 1,7 milhão de m² em terra e 1,2 milhão de m² no mar — ao todo, 2,5 km de barreiras de contenção foram instaladas para conter o avanço da mancha, e 50 pessoas trabalham para retirar o petróleo.

O governo peruano classificou o derramamento como “o pior desastre ambiental” nos arredores da capital nos últimos anos, e afirmou que a empresa responsável pelo terminal, a espanhola Repsol, deverá indenizar o Estado: na segunda-feira, o Ministério do Meio Ambiente revelou que uma investigação já está em curso, e que a multa pode chegar a US$ 34,5 milhões (R$ 187 milhões).

“Não podemos fugir das responsabilidades, e no caso da empresa responsável pelo desastre ambiental, esperamos que se responsabilize”, declarou Castillo.

Uma porta-voz disse que a empresa não recebeu alertas da Marinha peruana sobre o risco de tsunami. “Não podemos dizer quem é o responsável”, disse Tine van den Wall Bake Rodríguez, chamando o derramamento de “lamentável incidente".

Indo além do acidente de sábado, Castillo quis marcar uma posição com o decreto em que passa a considerar de interesse nacional a emergência climática no Peru. Segundo o presidente, a medida permitirá ao governo tomar ações práticas para fazer frente às mudanças do clima.

“Estamos aqui não só para defender o mar, mas também para defender os rios, as grandes cidades e a população que quer que o Estado se lembre dela”, afirmou.

Estudos recentes apontam que o Peru é um país vulnerável a mudanças extremas do clima, com alagamentos, secas prolongadas e variações bruscas de temperatura. Um estudo da Organização Internacional de Migrações, aponta que um terço da população peruana vive em áreas de ocorrência de fenômenos extremos.

Dois anos de limpeza

No caso do derramamento, cerca de 1.500 pescadores se viram diretamente afetados pelo desastre, perdendo seus meios de subsistência por um período ainda desconhecido.

“Do que vamos viver agora?”, afirmavam os pescadores que participaram de um protesto na frente da refinaria La Pampilla, da Repsol,  acompanhado pela agência AFP.

Alguns estão no local desde o começo da semana, e reclamam dos impactos ambientais e econômicos do derramamento de petróleo.

“Queremos que reconheçam os danos. O derramamento foi causado por uma negligência dos senhores [da Repsol]”, disse Miguel Ángel Núñez à AFP. “Perdemos nossa fonte de trabalho e não sabemos quando isso vai terminar.”

Alguns temem que os impactos sejam sentidos por anos. “O derramamento afetou toda a biomassa da flora e da fauna. Eles não cumpriram seus planos de contingência e deixaram o vazamento sem contenção”, disse à AFP o pescador Roberto Carlos Espinoza.

Em média, cada pescador ganhava entre 50 e 120 sóis (R$ 70 e R$ 170) por dia. Segundo as autoridades ambientais, o Mare Dorium, de bandeira italiana, estava carregado com 985 mil barris de petróleo quando foi atingido pelas ondas provocadas pela erupção do vulcão em Tonga. Ao todo, 21 praias do litoral peruano foram atingidas, com inúmeros peixes e aves encontradas cobertas de óleo nas areias, na maior parte já sem vida.

Por enquanto, os únicos barcos na água são os dos responsáveis por retirar o petróleo, uma tarefa difícil e perigosa. “É muito duro, bastante tóxico, arde o rosto”, disse à AFP Pedro Guzmán, um dos trabalhadores na remoção do petróleo.

À AFP, o cientista ambiental Marino Morikawa disse que “com equipes adequadas e trabalhando de maneira correta, a limpeza demoraria ao menos dois anos”. / AFP e REUTERS

 

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