AP Photo/Ng Han Guan
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Xi Jinping reescreve passado da China em busca de terceiro mandato

Um novo resumo oficial da história do Partido Comunista provavelmente colocará Xi Jinping no mesmo patamar que Mao Tsé-Tung e Deng Xiaoping, fortalecendo sua reivindicação por uma nova fase no poder

Chris Buckley, The New York Times, O Estado de S.Paulo

08 de novembro de 2021 | 10h00
Atualizado 08 de novembro de 2021 | 12h27

A imagem resplandecente do principal líder da China, Xi Jinping, saúda os visitantes de exposições em museus que comemoram as décadas de crescimento do país. Biógrafos do Partido Comunista Chinês (PCC) vêm venerando sua ascensão, embora ele não tenha dado nenhum sinal de que irá se aposentar. A mais nova história oficial do partido dedica mais de um quarto de suas 531 páginas aos seus nove anos no poder.

Nenhum líder chinês dos últimos tempos está mais presente na história do que Xi, e conforme ele se aproxima de um momento crucial de seu governo, a preocupação com o passado agora se torna peça central de sua agenda política.

A assembleia de alto escalão que será aberta em Pequim nesta segunda-feira, 8, emitirá uma “resolução” que contará a história oficial dos 100 anos do partido e que provavelmente consolidará o papel de Xi como um líder que marcou época, ao lado de Mao Tsé-tung e Deng Xiaoping.

Embora trate ostensivamente de questões históricas, a resolução do Comitê Central – praticamente uma escritura sagrada para as autoridades – moldará a política e a sociedade chinesas nas próximas décadas.

O documento de referência sobre o passado do partido, apenas o terceiro de seu tipo, certamente se tornará o foco de uma intensa campanha de doutrinação. Ditará como as autoridades ensinarão a história da China moderna em livros, filmes, programas de televisão e salas de aula – o que encorajará censores e policiais a aplicar leis mais rígidas contra qualquer um que zombe ou simplesmente questione a causa comunista e seus “mártires”. Mesmo na China, onde o poder do partido é quase absoluto, tudo isso lembrará às autoridades e aos cidadãos que Xi está definindo suas vidas e exigindo sua lealdade.

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“Trata-se de forjar uma nova época para a China em torno do Partido Comunista e de Xi, época na qual ele aparecerá surfando na onda do passado em direção ao futuro”, disse Geremie R. Barmé, historiador da China radicado na Nova Zelândia. “Na verdade, não é uma resolução sobre a história passada, mas uma resolução sobre a liderança futura”.

Xi Jinping, líder supremo

Ao exaltar Xi, a resolução fortalecerá sua autoridade perante um congresso do partido no final do ano que vem, no qual ele provavelmente ganhará outro mandato de cinco anos. A aclamação orquestrada em torno do relato histórico, que deve ser publicado dias após o término da reunião do Comitê Central na quinta-feira, ajudará a deter qualquer questionamento sobre os feitos de Xi.

Xi, hoje com 68 anos de idade, é o líder mais poderoso da China em décadas e ganhou amplo apoio público por atacar a corrupção, reduzir a pobreza e projetar a força chinesa para o mundo. Ainda assim, membros do partido que buscam diminuir o domínio de Xi antes do congresso podem mirar no tratamento inadequado da pandemia de covid-19 ou nas tensões prejudiciais com os Estados Unidos.

Depois de publicada a resolução, tais críticas podem ser consideradas heresia. Na preparação para o encontro desta semana, artigos do principal jornal do partido enalteceram Xi como o líder “essencial” que derrotou a pandemia e outras crises.

Os comentários o exaltaram como o líder rigoroso e necessário para tempos tão perigosos, quando a ascensão da China pode ser ameaçada por riscos econômicos internos ou hostilidade dos Estados Unidos e outras potências ocidentais.

“Xi Jinping é, sem dúvida, a figura central no controle da maré da história”, diz um artigo da Xinhua, a agência de notícias oficial, sobre a futura resolução.

A resolução provavelmente apresentará um relato abrangente da China moderna que ajudará a justificar as políticas de Xi, dando-lhes a importância de destino histórico.

Mao levou o país a se levantar contra a opressão, Deng trouxe prosperidade e, agora, Xi está impulsionando a nação para uma nova era de força nacional, diz a cronologia da ascensão da China moderna que é apresentada em documentos do partido e é provável que seja consagrada na resolução.

Nos próximos anos, as prioridades de Xi irão se concentrar na redução das desigualdades de renda por meio de um programa de “prosperidade comum”, na diminuição da dependência chinesa à tecnologia importada e na continuidade da modernização de suas forças armadas para potenciais conflitos.

A estrutura ideológica de Xi

A concepção de história de Xi oferece “uma estrutura ideológica que justifica níveis cada vez maiores de intervenção partidária na política, na economia e na política externa”, disse Kevin Rudd, ex-primeiro-ministro australiano que fala chinês e teve longos encontros Xi.

Para Xi, defender a herança revolucionária do Partido Comunista Chinês também parece ser uma jornada pessoal. Ele expressou repetidas vezes o temor de que as autoridades e os cidadãos comecem a perder fé no partido à medida que a China se distancia cada vez mais de suas raízes revolucionárias.

“Para destruir um país, é preciso, antes de tudo, erradicar sua história”, disse Xi, citando um estudioso confucionista do século XIX. O pai de Xi, Xi Zhongxun, foi funcionário de alto escalão sob Mao e Deng, e a família sofreu anos de perseguição depois que Mao se voltou contra Xi Zhongxun.

Em vez de ficar desiludido com a revolução, como alguns de seus contemporâneos, o jovem Xi continuou fiel ao partido e argumentou que defender sua herança “vermelha” é essencial para a sobrevivência da instituição.

“Ele tem essa noção visceral de que, como filho do revolucionário Xi Zhongxun, não pode permitir que a revolução simplesmente se esfacele”, disse Rudd, hoje presidente da Asia Society.

Xi também citou várias vezes a União Soviética como um alerta para a China, argumentando que ela entrara em colapso porque seus líderes não conseguiram erradicar o “niilismo histórico” – relatos críticos sobre expurgos, perseguições políticas e erros que corroeram a fé na causa comunista.

A nova resolução refletirá esse orgulho defensivo do partido. Enquanto os títulos das duas resoluções de história anteriores falavam em “problemas” ou “questões”, o texto de Xi tratará das “principais conquistas e experiências históricas” do partido, de acordo com uma reunião preparatória no mês passado.

A resolução apresentará os 100 anos de história do partido como uma narrativa de sucesso e sacrifício heroico, indica uma série de artigos preliminares na mídia do partido. Tempos traumáticos como fomes e expurgos ficarão ainda mais relegadas a um pano de fundo sem muito foco – reconhecidos, mas não elaborados.

Xi “vê a história como uma ferramenta a ser usada contra as maiores ameaças ao governo do Partido Comunista Chinês”, disse Joseph Torigian, professor assistente da American University que estudou Xi e seu pai. “Ele também é alguém que vê que narrativas históricas concorrentes são perigosas”.

Muitos chineses abraçam a versão orgulhosa do passado do partido e lhe atribuem a melhoria de suas vidas. Em 2019, museus e memoriais com exposições sobre a revolução “vermelha” receberam 1,4 bilhão de visitantes – e Xi faz questão de ir a esses lugares durante suas viagens. Uma aldeia onde ele trabalhou por sete anos se tornou um local de peregrinações políticas organizadas.

“O ensino das tradições revolucionárias deve começar com as crianças”, disse Xi em 2016, de acordo com um compêndio recém-lançado de seus comentários sobre o tema. “Precisamos infundir genes vermelhos na corrente sanguínea e mergulhar nossos corações neles”.

Ao criar uma resolução histórica, Xi está imitando seus dois predecessores mais poderosos e oficialmente reverenciados. Em 1945, Mao supervisionou uma resolução que carimbava sua autoridade sobre o partido. E, em 1981, Deng orientou uma segunda resolução que reconhecia a destruição das últimas décadas de Mao e, ao mesmo tempo, defendia seu reverenciado status como o fundador da República Popular. E ambas as resoluções colocaram um limite na disputa política e na incerteza.

“Eles estavam criando uma estrutura comum, uma visão comum de passado e futuro para a elite do partido”, disse Daniel Leese, historiador da Universidade de Freiburg, na Alemanha, que estuda a China moderna. “Se você não unificar o pensamento das pessoas nos círculos de poder sobre o passado, é muito difícil gerar concordância sobre o futuro”.

Essa história celebra os sucessos de Xi na redução da corrupção, no combate à pobreza e no avanço das capacidades tecnológicas da China. Sua resposta à pandemia de covid, a qual começou na China no final de 2019, mostrou “uma visão aguda e uma tomada de decisão resoluta”, afirma o texto.

A nova resolução provavelmente elogiará Mao e Deng, mas, ao mesmo tempo, indicará que apenas Xi tem as respostas para a nova era de ascensão chinesa, disse Susanne Weigelin-Schwiedrzik, professora aposentada da Universidade de Viena que estuda o uso da história pelo partido.

“Ele é como uma esponja que pode escolher todas as coisas positivas do passado – o que ele acha que é positivo sobre Mao e Deng – e tomá-las para si”, disse ela sobre a representação que Xi faz do partido. Nessa narrativa, “ele é o próprio fim da história da China. Ele chegou a um nível que não pode ser superado”.  / TRADUÇÃO DE RENATO PRELORENTZOU

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