Carlos Barria/Reuters
Carlos Barria/Reuters

Comentário racista atribuído a Trump trava reforma migratória no Congresso

Segundo testemunhas de reunião com senadores na Casa Branca, Trump questionou entrada nos EUA de imigrantes vindos de ‘países de merda’, citando Haiti e El Salvador, e disse preferir cidadãos de lugares como a Noruega

O Estado de S.Paulo

12 Janeiro 2018 | 21h46

Washington - A frase do presidente americano Donald Trump sobre a entrada de imigrantes vindos de “países de merda” durante uma reunião bipartidária na Casa Branca travou a reforma migratória no Congresso, gerou reações negativas entre lideranças do Partido Republicano e ameaça provocar uma paralisação dos serviços do governo na próxima semana, quando será votado o orçamento federal dos Estados Unidos, em 19 de janeiro.

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Segundo o relato de testemunhas, Trump disse a frase na quinta à noite, quando se reunia com senadores e legisladores dos Partidos Republicano e Democrata na Casa Branca para definir um acordo bipartidário sobre imigração. “Por que todas essas pessoas de países de merda vêm para cá?”, perguntou Trump, de acordo com fontes do jornal The Washington Post

O senador democrata Dick Durbin, que estava presente no encontro, afirmou ao jornal que Trump se referia aos cidadãos do Haiti, de El Salvador e de países africanos. Trump também teria sugerido que os EUA deveriam receber imigrantes de lugares como a Noruega. “Ele disse essas coisas cheias de ódio, e as disse repetidamente. Fez essas declarações vis e vulgares”, afirmou Durbin à rede MSNBC.

Trump negou ter feito os comentários racistas. “A linguagem usada por mim na reunião sobre o Daca (programa para filhos de imigrantes ilegais) foi dura, mas não foi essa”, escreveu Trump em sua conta no Twitter. “Nunca disse nada depreciativo sobre os haitianos exceto que o Haiti é, obviamente, um país muito pobre e com muitos problemas”, escreveu. “Nunca mandei serem ‘retirados’ (dos EUA). É tudo invenção dos democratas. Eu tenho uma ótima relação com os haitianos”, completou.

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Com apenas uma frase, Trump provocou uma reviravolta em um acordo que parecia praticamente certo até quinta à noite, e travou as negociações no Congresso. Essa tem sido a tônica da presidência de Trump. “Os republicanos têm uma nova dor de cabeça por dia para resolver, com as frequentes mudanças de ideia e comentários de Trump”, disse ao Post Molly Reynolds, especialista em Congresso do Brookings Institution. 

Desta vez, a dor de cabeça é das grandes. Há uma semana da votação do orçamento federal no Congresso, figuras importantes do Partido Republicano demonstraram indignação com a frase de Trump. O presidente da Câmara, o republicano Paul Ryan disse: “A primeira coisa que me veio à cabeça foi: ‘essa frase é muito infeliz. Não ajuda muito’”. O mais longevo senador da história dos EUA, o republicano Orrin Hatch, disse que a frase era “inaceitável” e que pediu explicações à Casa Branca. 

A reunião de quinta-feira era uma tentativa de encontrar uma solução definitiva para milhares de beneficiários do Daca, um programa implementado na gestão de seu antecessor, Barack Obama, para regularizar temporariamente imigrantes em situação ilegal que chegaram aos EUA quando eram menores de idade.

Em setembro do ano passado, Trump suspendeu o programa. O Congresso tem até março para encontrar uma solução definitiva para os beneficiários do Daca. Os líderes republicanos defendem uma lei independente, mas os democratas querem agregar a proposta a um pacote sobre imigração, em troca da aprovação do orçamento federal, em 19 de janeiro. 

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Depois dos comentários de Trump, ficou mais difícil a aprovação, e mais provável uma paralisação dos serviços do governo. “Digamos que essa possibilidade estava na casa dos 40%, e ultrapassou a barreira dos 50%” disse Steve Bell, ex-assessor do orçamento do Senado do Partido Republicano. “Trump empurrou os democratas para um beco. Antes da frase, eles estavam em situação difícil, porque não conseguiram garantir a proteção para jovens imigrantes. Agora, a resposta é paralisar a votação”.

Revolta internacional. O Haiti e vários dos países ofendidos por Trump expressaram indignação por causa dos comentários atribuídos ao presidente dos EUA. O governo do Haiti considerou as declarações “inaceitáveis” e “racistas”. El Salvador exigiu “respeito à dignidade de seu povo nobre e valente”. A União Africana classificou de “perturbadoras” as declarações de Trump. A agência de Direitos Humanos da ONU afirmou que os comentários do presidente dos EUA são “chocantes e vergonhosos”, e só “podem ser definidos como racistas”. / AFP, NYT e W. POST, COLABOROU JAMIL CHADE

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