Olivier Douliery/AFP
Olivier Douliery/AFP

Biden encerra convenção democrata com promessa de tirar os EUA da crise

Experiência como vice e história de vida são apresentadas como fatores que tornam o candidato capaz de 'curar a nação'

Beatriz Bulla / Correspondente, Washington, O Estado de S.Paulo

21 de agosto de 2020 | 00h53
Atualizado 21 de agosto de 2020 | 12h10

Joe Biden tornou-se oficialmente o candidato democrata à Casa Branca na noite desta quinta-feira, 20, prometendo tirar os Estados Unidos de uma "época de escuridão". Na última noite da convenção do partido, Biden afirmou que será um "aliado da luz, não da escuridão" e atacou a condução do país durante a pandemia. 

Ele abriu seu discurso citando Ella Baker, ativista dos direitos civis americanos, com a frase "dê luz às pessoas e elas encontrarão seu caminho".  "Essas são palavras para o nosso tempo. O atual presidente envolveu a América nas trevas por muito tempo. Muita raiva. Muito medo. Muita divisão", disse Biden, no que foi considerado o discurso mais importante dos seus quase 50 anos de vida pública.

A ideia de unir o país foi o ponto central do discurso do democrata, que disse que "decência, ciência e democracia" estão nas cédulas de votação neste ano e prometeu ser um presidente que irá "curar" e "unir". "O presidente falhou em proteger a América e isso é imperdoável", disse.

"Embora eu seja um candidato democrata, serei um presidente americano", disse Biden. Ele prometeu trabalhar duro para os eleitores que não o apoiaram, tanto quanto para os que o votarem nele. Durante todos os dias da convenção, dos democratas falaram que Donald Trump é um presidente divisivo. Biden buscou se apresentar como contraste a Trump.  "Esse não é um momento partidário, deve ser um momento americano", disse Biden. 

Desde o início das prévias do partido, ele se apresenta como o nome capaz de criar uma coalizão de forças ampla o bastante para vencer Donald Trump. As crises econômica e sanitária aumentaram o grau de insatisfação com o governo Trump e fizeram o democrata ser confirmado com ares de favorito para ganhar a eleição.

Citando número de vidas e empregos perdidos, Biden afirmou que a situação não precisaria ser tão ruim. "Não está tão ruim no Canadá, no Japão, na maior parte do mundo", disse Biden, que prometeu uma ordem nacional para que todos usem uma máscara. O democrata afirmou que se Trump continuar na presidência, "casos e mortes vão continuar muito altos". "Famílias trabalhadores vão ter dificuldade e, ainda assim, os que estão no 1% mais rico irão ganhar dezenas de bilhões de dólares em novos incentivos fiscais", afirmou.

"Quatro crises, todas ao mesmo tempo", disse, ao citar recessão, pandemia, protestos raciais e mudanças climáticas. "Essa uma eleição que vai determinar como os EUA irão ser em muitos anos", disse Biden. "Apenas julgue esse presidente (Trump) baseado em fatos", completou. 

Ao final do discurso, Biden colocou uma máscara preta e se juntou à sua esposa, Jill, à vice, Kamala Harris e ao marido da senadora, Douglas Emhoff. Todos usavam máscaras e acenaram para eleitores que estavam dentro de carros estacionados e assistiram o discurso através de um telão em Wilmington, Delaware.

Sua história de trabalho na vida pública, perdas pessoais e resiliência foram apresentadas como fatores que o fazem capaz de “curar uma nação”. As palavras que foram usadas durante os quatro dias da convenção democrata para descrever Joseph Robinette Biden Jr. são “empatia” e “decência” – ambas usadas pelos democratas como um contraste em relação a Trump.

Se eleito, Biden será o presidente mais velho a tomar posse nos EUA, aos 78 anos (que serão completados em novembro). Ele está na vida política há 47 anos e chegou a ensaiar candidaturas à Casa Branca outras duas vezes. Em 1973, foi eleito pelo Senado por Delaware, Estado onde vive desde a infância, e foi reeleito seis vezes. Nasceu em Scranton, uma região da Pensilvânia identificada pela classe branca operária.

A mensagem do candidato democrata agora é a de que ele é não só o unificador do partido e da sociedade, como também o nome a conseguir salvar o país de uma crise sem precedentes. "Que a história possa dizer que o fim deste capítulo das trevas americanas começou aqui esta noite, quando o amor, a esperança e a luz se juntaram na batalha pela alma da nação", afirmou Biden.

Aos 30 anos, Biden perdeu a mulher e a filha caçula em um acidente de carro. Os outros dois filhos, Beau e Hunter, de 3 e 2 anos, sobreviveram. Casou-se com Jill Tracy, hoje conhecida como Jill Biden, com quem teve outra filha, Ashley.

Em 2015, a família chorou a morte de Beau, vítima de um câncer. “Deve ser Beau quem está concorrendo”, disse Biden em entrevista neste ano, ao lembrar dos apelos do filho, quando doente, para que o pai não desistisse da vida pública. Era Beau quem costumava apresentar o pai em eventos políticos. Neste ano, foram Ashley e Hunter que falaram sobre o pai. "Se você der o seu número de telefone a ele, ele irá te ligar. Como sabemos? É assim a nossa vida inteira", disseram os filhos, pouco depois de as quatro netas de Biden contarem que o avô telefona para elas todos os dias. 

As perdas o aproximam da dor de americanos que vivem o luto. O país contabiliza mais de 170 mil mortos pela covid-19, o número mais alto no mundo.

A noite foi dedicada à vida de Biden, com vídeos e depoimentos antigos, além do depoimento de Brayden Harrington, um jovem com gagueira, que o democrata conheceu durante a campanha. Biden era também gago durante a infância.

Biden foi um jovem ambicioso e autoconfiante. Lançou a primeira candidatura à presidência com 44 anos. A primeira campanha à Casa Branca foi desastrosa, em parte pelos atropelos do próprio democrata. Ele chegou a ser acusado de plágio em discursos de campanha, teve seu histórico acadêmico questionado e foi colocado contra a parede por ter inflado sua suposta participação em movimentos civis. Para tentar estancar o problema, Biden disse que havia feito coisas idiotas. “E eu vou fazer de novo”, afirmou na época.

Ele age de improviso. Seu jeito o leva a gafes, mas acabou sendo um ativo como vice-presidente do governo de Barack Obama. Na época, ele ficou conhecido por dizer o que pensava, mesmo quando discordava de Obama. Agora, ele diz que espera o mesmo de Kamala Harris: lealdade e questionamento.

Como vice-presidente, Biden ganhou poder pela ampla experiência em política externa no Senado e pela bagagem de visitas a Iraque e Afeganistão.

Ele impulsionou sua nomeação, em 2020, ao ser consagrado como o preferido do eleitorado negro e ganhar apoio do establishment partidário. Hoje, como um político da geração mais velha do partido e de centro, Biden enfrenta a resistência da ala progressista e da juventude democrata, que cobram mais diversidade. A resposta foi a promessa de ter uma mulher na vice-presidência, uma forma de abafar as acusações de uma ex-assessora de que ele teria cometido abuso sexual. Ele nega. Este não foi o único obstáculo para conquistar o apoio do partido. Biden tem um histórico no Congresso que vai de encontro com o que os democratas defendem atualmente, como o apoio ao uso de força militar no Iraque e a leis que possibilitaram políticas de encarceramento em massa. Ele já disse ter se arrependido.

Pouco antes do discurso de Biden, ex-pré candidatos do partido que disputaram a nomeação contra ele apareceram em vídeo, em um sinal da união das diferentes alas democratas. Os senadores Bernie Sanders, Amy Klobuchar, Elizabeth Warren, Cory Booker, o ex-prefeito Pete Buttiegieg, o empresário Andrew Yang e o ex-deputado Beto O'Rourke falaram de momentos compartilhados com Biden.

"Ele é empático, honesto e decente. Nesse momento em particular, meu Deus, é algo que esse país precisa e todos nós precisamos nos unir", disse Sanders.  Na sequência, Michael Bloomberg, bilionário e ex-prefeito de Nova York, também fez uma aparição em vídeo endossando Biden. 

O partido uniu-se para derrotar Trump, mais do que para apoiar Biden, mas ele fez movimentos para conseguir ampliar suas alianças. Se eleito, segundo ele mesmo prometeu, será um candidato de transição, abrindo as portas para uma nova geração em 2024.

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