Jon Super/Pool/AFP
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Boris Johnson dá sinais de ceder na questão da Irlanda do Norte para aprovar Brexit

Segundo fontes do gabinete, premiê esboça acordo com União Europeia que inclui abertura comercial da fronteira entre as duas Irlandas, mas pacto teria de ser aprovado pelo Parlamento

Redação, O Estado de S.Paulo

14 de setembro de 2019 | 06h00

LONDRES - O primeiro-ministro do Reino Unido, Boris Johnson, deu sinais na sexta-feira, 13, de que pretende ceder na questão da fronteira entre as duas Irlandas para aprovar um acordo para o Brexit.

Fontes do gabinete disseram ao jornal Financial Times que o premiê esboça um acordo com a União Europeia que inclua uma abertura comercial da fronteira entre Irlanda e Irlanda do Norte e a manutenção dos norte-irlandeses dentro de regras comerciais do bloco.

A tarefa não será fácil. O acordo teria de ser aprovado a toque de caixa pelo Parlamento britânico, que está em recesso após uma controvertida medida de Johnson, que sofreu seis derrotas seguidas no plenário na semana passada.

Além disso, o Partido Unionista da Irlanda do Norte (DUP), que faz parte da coalizão de Johnson, é radicalmente contra qualquer solução para o Brexit que mantenha o território unido à UE – o que, na prática, significa a reunificação da Irlanda.

O principal impasse para a aprovação de acordo para o Brexit, negociado pela ex-premiê Theresa May, é o chamado “backstop”, mecanismo que funciona como uma espécie de seguro que manteria a Irlanda do Norte nas regras alfandegárias da UE, caso não haja solução para o problema da fronteira entre as duas Irlandas.

Pelo Acordo de Sexta-Feira Santa, de 1998, que colocou fim ao confronto entre católicos e protestantes no território, não pode haver fronteira física entre as duas Irlandas. Mas, com o Brexit, o Reino Unido teria de restabelecer controles fronteiriços com a UE, já que a República da Irlanda é a única fronteira física entre o Reino Unido e o bloco. Assim, desde abril, quando May costurou o acordo com Bruxelas, a questão da Irlanda segue sem solução.

Diplomatas ainda mantêm cautela e dizem que há pontos importantes para serem resolvidos. O esboço é focado em alimentos e agricultura – o comércio de carne bovina e leite é especialmente suscetível a perturbações. Na sexta, Johnson disse estar “prudentemente otimista”. “Estamos trabalhando duro por um acordo”, afirmou.

Em Washington, a presidente da Câmara dos Deputados, Nancy Pelosi, alertou que os democratas no Congresso suspenderiam qualquer acordo comercial que o Reino Unido venha a assinar com o presidente Donald Trump se o Brexit comprometer o Acordo da Sexta-Feira Santa, um legado do ex-presidente Bill Clinton.

Johnson promoveu um acordo comercial com Washington como um dos incentivos para deixar a UE. Se a questão for barrada no Congresso americano, Johnson perderia um argumento forte para o Brexit.

A negociação entre Johnson e Bruxelas sobre a Irlanda do Norte pode também desferir o último golpe contra sua combalida coalizão e dar ao premiê a eleição antecipada que ele tanto defendeu nas últimas semanas. Se o DUP romper com os conservadores, em consequência de um acordo que mantenha a Irlanda do Norte alinhada à UE, Johnson teria de optar por um governo de minoria ou por novas eleições – o que, em tese, lhe favorece, já que o seu Partido Conservador lidera as pesquisas.

“É a única opção”, disse Thomas Wright, analista do Brookings Institution. “Isso pode não acontecer, mas oferece uma rampa de saída e é, basicamente, a única rampa de acesso oferecida.”

Negociação

Na segunda-feira, Johnson se reunirá pela primeira vez desde que assumiu o governo com o presidente da Comissão Europeia, Jean-Claude Juncker, e com o negociador-chefe da UE, Michel Barnier. Ambos disseram na sexta que esperam “propostas concretas” do governo britânico.

Na quinta-feira, Barnier estava pessimista. Ele disse não existir motivos suficientes para o início de novas negociações sobre um acordo para o Brexit. Em conversas privadas, segundo líderes do Parlamento Europeu, Barnier disse que Johnson ainda não apresentou uma alternativa para resolver a situação da fronteira das Irlandas, que permanece sendo o ponto mais delicado de um possível acordo para o Brexit. / NYT e AFP

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