Leo Baumgartner/Australian Defence Force via The New York Times
Submarino HMAS Sheean em porto da Tasmânia, na Austrália; país fechou acordo com EUA para construir embarcações nucleares  Leo Baumgartner/Australian Defence Force via The New York Times

China e EUA batalham pela influência no Pacífico em nova Guerra Fria

Americanos e seus aliados ocidentais tentam responder ao avanço militar e tecnológico chinês

Renata Tranches e Rodrigo Turrer, O Estado de S.Paulo

24 de outubro de 2021 | 05h00
Atualizado 24 de outubro de 2021 | 05h00

Durante a Guerra Fria, um espirro dado no Kremlin se transformava em um terremoto em Washington – e vice-versa. A lógica da contenção obrigava as nações envolvidas no conflito e seus aliados a responderem na mesma medida às ações dos adversários. 

Esse tipo de comportamento está de volta nas relações entre EUA e China. Os testes de mísseis hipersônicos, uma tecnologia inovadora e ainda experimental, a troca de farpas por Taiwan e a parceria trilateral entre EUA, Reino Unido e Austrália, a aliança Aukus, são os mais recentes temperos no caldeirão da tensão entre chineses e americanos. 

O Aukus prevê uma ampla gama de colaboração diplomática e tecnológica, da segurança cibernética à inteligência artificial, mas em seu núcleo está um acordo para iniciar consultas para ajudar a Austrália a adquirir uma frota de submarinos com propulsão nuclear (embora não com armas nucleares). 

Submarinos nucleares são mais rápidos, mais difíceis de detectar e mais letais do que os movidos a diesel. Atualmente, apenas seis países operam submarinos movidos a energia nuclear, e os EUA haviam compartilhado a tecnologia apenas com o Reino Unido.

A chegada dos submarinos australianos altera o equilíbrio do poder naval no Pacífico. “Passar de uma frota a diesel para uma nuclear é uma mudança de estratégia, não apenas de modos de propulsão”, afirma Toshi Yoshihara, professor da Universidade Tufts e autor do livro Red Star Over the Pacific, sobre a ascensão da China. “É uma maneira de projetar força nas rotas de navegação que alimentam o Estreito de Malaca até Taiwan, com capacidade de lançar mísseis de alcance mais longo. E aí reside a maior ameaça que irritou os chineses”, afirma. 

Para muitos analistas, os EUA não estão apenas compartilhando as joias da coroa da sua tecnologia militar, mas sinalizando  seu compromisso de longo prazo com o que chama de um “Indo-Pacífico livre e aberto”.

“O maior significado disso é que os Estados Unidos estão dando poder a seus aliados, e seus aliados vão se dobrar em relação aos Estados Unidos”, disse a Economist diz Michael Fullilove, do Lowy Institute, um centro de estudos em Sydney. “Muitos países da região que compartilham o sentimento de ameaça da China, gostaram disso.”

Um relatório publicado pelo centro de estudos Council on Foreign Relations sobre as rivalidades na Ásia sugere que as potências maiores tentarão proteger seus interesses – considerando sua interdependência econômica – enquanto gerenciam sua rivalidade. 

Os países menores tentarão exercer algum poder e aproveitar as vantagens dessa rivalidade, ao mesmo tempo em que tentam se proteger de qualquer precipitação. “Juntas, essas duas dinâmicas moldarão a geopolítica da região”, afirma o estudo.

“A necessidade é cimentar outro importante arranjo de defesa como parte de um esforço para equilibrar uma China cada vez mais poderosa e assertiva”, disse ao Estadão Andrew Latham, professor de relações internacionais da Macalester College, dos EUA. 

Um estudo divulgado em março pelo Stockholm International Peace Research Institute (Sipri), sobre transferências internacionais de armas, mostrou que as regiões da Ásia e da Oceania são as maiores importadoras, recebendo 42% das transferências globais, entre 2016 e 2020. Índia, Austrália, China, Coreia do Sul e Paquistão são os principais compradores.

Embora as importações de Taiwan tenham diminuído, seu governo fez várias compras de grande porte dos EUA em 2019, incluindo aeronaves de combate. “Para muitos Estados da Ásia e da Oceania, uma percepção crescente da China como uma ameaça é o principal motivador para as importações de armas”, disse Siemon Wezeman, pesquisador do Sipri. “Importações maiores estão planejadas, e vários países da região também pretendem produzir suas próprias armas.”

Pequim, diante da reação dos vizinhos, segundo Latham, está vendo sua janela de oportunidade se fechando. “Como a Alemanha em 1914, a China pode tentar um ataque enquanto a ‘chapa ainda está quente’, invadindo Taiwan. Se o fizer agora, pode ter sucesso. Se esperar, a derrota é quase certa.”

Na semana passada, os EUA realizaram exercícios militares no Estreito de Taiwan, em conjunto com o Canadá. Dias depois, o Financial Times revelou que os chineses testaram, em agosto, um míssil hipersônico com capacidade nuclear. Pequim negou e fontes em Washington disseram que a inteligência americana foi pega de surpresa com o teste.

Como na Guerra Fria, há uma tendência natural de equilíbrio em que nenhum dos lados quer iniciar uma grande guerra. Mas, às vezes, essas dinâmicas falham. 

Pequim, diante da reação dos vizinhos, segundo Latham, está vendo sua janela de oportunidade se fechando. “Como a Alemanha em 1914, a China pode tentar um ataque enquanto a ‘chapa ainda está quente’, invadindo Taiwan. Se o fizer agora, pode ter sucesso. Se esperar, a derrota é quase certa.” Com Pequim e o presidente Xi Jinping motivados a incorporar Taiwan à China, a chance de um deslize inesperado aumenta.

 

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Intenção de acordo Aukus é dar trabalho a Pequim; leia a análise

A intenção do tratado entre os EUA, a Austrália e o Reino Unido é incomodar, provocar gastos, movimentar a diplomacia e mobilizar forças - enfim, dar trabalho ao governo de Pequim, um dos polos da nova Guerra Fria

Roberto Godoy, O Estado de S.Paulo

24 de outubro de 2021 | 05h00
Atualizado 24 de outubro de 2021 | 10h46

Não, a ideia por trás do acordo militar Aukus não é dar à Austrália a possibilidade de lançar, de um submarino atômico submerso, um míssil nuclear contra alvos estratégicos no território da China. Ou mesmo a capacidade de disparar na direção dos novos e formidáveis porta-aviões chineses um punhado de mísseis de cruzeiro Tomahawk com suas cargas explosivas de 450 kg. Não, nada disso.

A intenção do tratado entre os EUA, a Austrália e o Reino Unido é incomodar, provocar gastos, movimentar a diplomacia e mobilizar forças - enfim, dar trabalho ao governo de Pequim, um dos polos da nova Guerra Fria.

Formalmente, a expectativa é a de que a Marinha australiana possa assumir mais efetivamente missões de reconhecimento, vigilância e patrulha de longo alcance, nas vastas porções oceânicas que cercam o continente-ilha. É uma zona fundamental de interesse chinês.

O Aukus permitirá a transferência completa da avançada tecnologia americana na construção de submarinos de ataque de propulsão nuclear. É um procedimento raro. Nos últimos 60 anos, só uma vez houve um processo tão amplo, resultado do compromisso bilateral dos EUA com o Reino Unido, que permitiu a entrada dos britânicos no restrito clube das potências atômicas no fim dos anos 50.

Os navios ainda não foram especificados, mas, de acordo com engenheiros navais dos dois principais estaleiros sob contrato do Departamento de Defesa dos Estados Unidos, devem contemplar modelos entre 6.700 toneladas e 8.700 toneladas de deslocamento, de 110 metros a 130 metros, e tripulação de 100 a 115 militares.

Com muitos recursos eletrônicos, serão armados com torpedos de 533 mm, mísseis antiaéreos e Tomahawk, com alcance de 1.300 km, além de serem equipados para dispersar minas pesadas e desembarcar equipes de forças especiais. Os projetos dos grupos General Dynamics e Huntington Ingalls podem incorporar aos sistemas de armas uma versão do míssil antinavio Harpoon com raio de ação no limite de 170 km.

Os submarinos envolvidos no acordo podem entrar em operação a partir de 2028 se tudo correr bem. "Serão necessários dois anos para cuidar dos contratos, das definições técnicas e da implantação da infraestrutura industrial. Depois disso, talvez mais quatro anos para até a entrega da primeira unidade", disse ao Estadão um engenheiro naval militar. Para o especialista, tudo vai depender da velocidade e da forma como o processo será conduzido pelos Estados Unidos.

O Aukus é um movimento de efeito amplo. Embora os mísseis de hipervelocidade tenham visibilidade maior, o fato concreto é que ninguém sabe o que fazer com eles. Nos testes, até agora, certos protótipos provaram que podem voar e eventualmente cobrir as distâncias pretendidas. Alguns deles erraram o ponto de impacto por 40 km, caso do sofisticado planador nuclear da China, que precisa do apoio de um foguete pesado no lançamento. É muito, mesmo para armas de grande poder de destruição. EUA e Rússia têm sido discretos em comentar resultados de longo prazo.

No momento, preocupa mais as potências ocidentais o crescimento da máquina de guerra convencional chinesa. O programa da Marinha, por exemplo, prevê a formação de uma frota de 355 navios de superfície. Destróieres de 6,6 mil toneladas, armados com três ou quatro diferentes tipos de mísseis, canhões de controle eletrônico e torpedos levam um helicóptero embarcado.

Das mesmas linhas de montagem saem fragatas e corvetas. Há também um programa de desenvolvimento de porta-aviões de 65 mil toneladas. Cada um terá uma ala aérea equipada com 40 aeronaves, entre caças supersônico e aviões de controle eletrônico. O ritmo de produção é diferencial. A meta de Pequim é ter a cada quatro anos um novo porta-aviões liderando um Grupo de Batalha de mais quatro navios, entre os quais um submarino, com grande poder de fogo.

Xadrez chinês

Há poucas informações a respeito da real cadência de produção e do tipo de submersíveis em desenvolvimento na China. A administração de Xi Jinping, entretanto, está fortemente empenhada no jogo de xadrez diplomático. Diante das ações navais ocidentais no eixo Indo-Pacífico e no Mar da China – onde só em 2021 estiveram se exercitando ao mesmo tempo as flotilhas de dois super porta-aviões nucleares americanos, apoiados por navios japoneses, sul coreanos e ingleses – tem respondido com demonstrações de força sobre o território dissidente de Taiwan.

E expandiu a influência em quadrantes distantes – na América Latina, como referência. A chancelaria chinesa mantém cooperação de Defesa com os governos da Venezuela e da Nicarágua. Técnicos militares chineses operam na Argentina uma reservada estação de rastreamento de satélites, instalada na Patagônia.

Todavia, o movimento potencialmente mais sensível é o da aproximação com El Salvador, na América Central. Pequeno, pobre, sem reservas minerais significativas, o país é um parceiro de Pequim. Os presidentes Nayib Bukele e Xi Jinping assinaram tratado bilateral estabelecendo a cooperação tecnológica na agricultura, saneamento, infraestrutura aeroportuária, rodoviária e portuária, sistemas digitais, energia e, discretamente, Defesa.

Na prática, o efeito do documento é a construção de uma arena de futebol, de uma grande biblioteca e da concessão de bolsas de estudos para formação de pesquisadores. A contrapartida veio rápida. O presidente Bukele reconheceu a legitimidade do pleito de Pequim por uma só China e retirou o apoio à dissidente Taiwan.

O valor da fatura, todavia, pode ser maior. Para o analista americano Christopher Hunter, a proximidade de El Salvador com o território dos Estados Unidos pode "colocar em xeque" a posição das administrações em Washington. O pesquisador sustenta que uma instalação militar conjunta sino-salvadorenha dotada de mísseis de médio alcance seria uma ameaça para a sede do Comando Sul do Pentágono, em Doral, na Flórida, e também para bases da Força Aérea em Tampa, no mesmo Estado. O centro de refino de petróleo de Houston, onde estão as quatro maiores reservas do país, seria um alvo.

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The Economist: Uma aliança contra a China

Acordo entre EUA, Reino Unido e Austrália é chance de conter a assertividade chinesa no Sudeste Asiático

The Economist, The Economist

25 de setembro de 2021 | 05h00

Quase dez anos atrás, o presidente Barack Obama visitou o Parlamento australiano para anunciar sua guinada para a Ásia. “Os EUA são uma potência do Pacífico e viemos para ficar”, declarou. Esta semana, a Casa Branca ecoará sentimentos semelhantes quando os líderes do Quad – EUA, Austrália, Índia e Japão – se reunirem presencialmente pela primeira vez. Haverá conversas sobre um “Indo-Pacífico livre e aberto”, cifra para o enfrentamento de uma China bastante assertiva. A retórica será bem conhecida, mas a reação talvez não seja: desta vez, amigos e inimigos podem acreditar que é para valer.

O motivo é o Aukus, um acordo anunciado na semana passada para que EUA e Reino Unido forneçam à Austrália pelo menos oito submarinos com propulsão nuclear. O negócio agitou as águas por causa de seu enorme tamanho e porque gerou uma desavença inconveniente com a França, que tinha seu próprio contrato de submarinos com a Austrália, que foi abandonado.

Esse episódio encobre o verdadeiro significado do Aukus, que é um passo em direção a um novo equilíbrio de poder no Pacífico. Em uma região onde as alianças, às vezes, pareceram frágeis, especialmente durante a presidência de Donald Trump, o Aukus marca o endurecimento das atitudes americanas. É um compromisso longevo e profundo: EUA e Reino Unido estão transferindo algumas de suas tecnologias mais sensíveis. A cooperação dos três países promete abarcar capacidades cibernéticas, Inteligência Artificial, computação quântica e muito mais.

Por isso, o governo de Joe Biden merece crédito. E, no entanto, o acordo ainda não constitui uma estratégia completa. As relações dos EUA com a China implicam bem mais do que um impasse militar. Na busca pela coexistência, os EUA também precisam conciliar a colaboração em questões como mudanças climáticas com a competição econômica. As peças que faltam envolvem todo o Sudeste Asiático, lar de alguns dos países mais vulneráveis à pressão chinesa. E aqui a política americana ainda está se arrastando.

Para que não pareça implicância, vejamos em primeiro lugar os méritos do Aukus. Depois da guinada de Obama, os aliados dos EUA na Ásia sofreram uma década de decepções. Os chineses tomaram e fortificaram ilhas e recifes no Mar do Sul da China, apesar das reivindicações de países como Filipinas e Vietnã. No ano passado, seus soldados enfrentaram os da Índia na fronteira. Seus aviões e navios de guerra estão sempre aumentando a pressão sobre Taiwan. A China puniu a Coreia do Sul por boicotes comerciais. Muitos países asiáticos estavam começando a temer que os EUA fossem muito inconsistentes e indiferentes para fazer contrapeso.

O Aukus então surge como uma refutação a essa impressão. Uma das dimensões é militar. Em meio às ilhas e rotas marítimas que são pontos de conflito com a China, os submarinos nucleares são mais versáteis do que os movidos a diesel. Eles podem reunir dados de inteligência, mobilizar forças especiais e passar meses à espreita em águas profundas no Pacífico ou no Índico, uma ameaça que os chineses terão de levar em consideração. Além disso, o Aukus prepara o terreno para que as forças americanas operem em torno da Austrália, o que poderia servir como um abrigo dos mísseis cada vez mais ameaçadores da China. O fato de a Austrália ter trocado o acordo francês pelo anglo-americano é uma evidência de seriedade estratégica.

A outra dimensão do Aukus é diplomática. Recentemente, a Austrália sofreu o impacto das táticas chinesas, especialmente depois que o país pediu uma investigação sobre a possibilidade de a covid-19 ter escapado de um laboratório chinês. Como punição por esta e outras queixas, a China impôs um embargo não oficial a uma série de exportações australianas. A beligerância da China é típica da diplomacia do “lobo guerreiro” que vem causando consternação em todo o Sudeste Asiático e além. Ao reforçar a Austrália, o Aukus envia um sinal à região: os EUA não hesitarão em apoiar aliados que resistam ao bullying chinês.

A questão é como os americanos deverão complementar o poder duro do Aukus com o necessário compromisso para negociar com a China e colaborar com ela. Biden sinalizou suas aspirações nesta semana, em seu discurso na Assembleia-Geral da ONU, em Nova York. Deixando claro que não queria uma Guerra Fria com a China (embora não tenha mencionado seu nome), o presidente pediu uma “diplomacia incansável” para resolver os problemas do mundo.

O Aukus ameaça esse objetivo. E, mesmo assim, no longo prazo, a China se unirá aos esforços mundiais para combater o aquecimento global, não como um aceno aos EUA, mas porque os considera de seu interesse. Ainda esta semana, a China disse que vai parar de financiar usinas termoelétricas a carvão no exterior. Foi uma promessa fácil, porque esse financiamento já havia diminuído, mas era uma decisão que a China poderia ter se negado a tomar, para sinalizar sua raiva.

Mais difícil será encontrar o equilíbrio em relação à concorrência comercial. A política econômica de Biden em relação à China pretende aumentar a segurança nacional criando empregos em casa, com uma Linha Maginot industrial, na regulamentação e na intervenção governamental. Seu “Build Back Better World”, um mecanismo para financiar o desenvolvimento (que ele batizou na ONU) é uma pálida imitação da Nova Rota da Seda chinesa.

Enquanto isso, a China, que já é o maior parceiro comercial da maioria dos países da região, está fortalecendo sua capacidade de moldar a arquitetura econômica e comercial do mundo. Está colocando seu pessoal em cargos importantes em instituições internacionais. E exportando suas normas regulatórias domésticas, assim como, digamos, sua reivindicação de jurisdição sobre disputas jurídicas internacionais. Esta semana, o país se inscreveu para entrar no sucessor da Parceria Trans-Pacífico (TPP), um pacto comercial que os EUA defenderam para combater a China e do qual depois se retiraram durante o governo de Trump.

O Sudeste Asiático olha para a China e vê prosperidade. Então, para que os EUA atuem como um contrapeso, será preciso ter destreza e imaginação. Um sinal de como os EUA estão muito aquém é que até mesmo o caminho mais óbvio – aderir ao sucessor do TPP – é visto em Washington como algo desesperadamente ambicioso. Quase tão preocupante quanto isto, enquanto os EUA estão buscando um equilíbrio extremamente complexo, a diplomacia de Biden com a França a respeito do Aukus e com seus aliados europeus a respeito da retirada do Afeganistão se mostrou inepta.

Então, celebremos o Aukus. Ao sinalizar para a China que sua assertividade terá consequências, o pacto procura deixar o Sudeste Asiático mais seguro. Mas lembremos que um acordo sobre submarinos com propulsão nuclear é apenas o primeiro passo de uma estratégia mais ampla para China que, a partir de agora, ficará cada vez mais difícil de implementar. / TRADUÇÃO DE RENATO PRELORENTZOU.

© 2018 THE ECONOMIST NEWSPAPER LIMITED. DIREITOS RESERVADOS. PUBLICADO SOB LICENÇA. O TEXTO ORIGINAL EM INGLÊS ESTÁ EM WWW.ECONOMIST.COM

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EUA miram há tempos expansão militar no Pacífico para conter a China; leia a análise

Discurso de Biden na ONU mostra nova fase da estratégia americana na Ásia

Gunther Rudzit*, O Estado de S.Paulo

22 de setembro de 2021 | 05h00

A declaração da formação da parceria no setor militar AUKUS (acrônimo em inglês para Austrália, Reino Unido e Estados Unidos), em 15 de setembro de 2021, seguido do anúncio por parte do governo australiano de romper o contrato com empresa francesa para a aquisição de submarinos diesel-elétricos não deveriam causar espanto. 

Desde 2012, no governo Obama, com a estratégia do “Pivô para a Ásia”, as atenções norte americanas já indicavam a mudança na percepção da ascensão chinesa. Se nos anos 1990 e 2000 o clima era de cooperação, novos negócios e mudanças políticas, nos anos 2010 já era de competição.  Desde o governo Trump, a China é vista como concorrente. Portanto, com as medidas tomadas pelo governo Biden, definitivamente, a China se torna uma inimiga, mesmo que não declarada.

Washington vem apoiando e criando estruturas políticas/militares na região Indo-Pacífico sem a participação chinesa há décadas. O exercício militar naval multilateral Milan vem sendo realizado desde 1995, inicialmente com Indonésia, Cingapura, Siri Lanka e Tailândia. Sua última edição, em 2018, contou com a participação de 17 marinhas, tanto do sudeste asiático, sul da Ásia, países africanos da costa do oceano Índico, península arábica e ainda Austrália e Nova Zelândia. E sem a China.

Outra iniciativa, que conta com participação direta americana, é o QUAD, sigla em inglês para Quadrilatral Security Dialogue, ou, Diálogo em Segurança Quadrilateral. Este grupo teve início após o exercício naval Malabar de 2007, que antes era somente entre Índia e Estados Unidos, e, naquele ano, teve a presença de Austrália, Japão e Cingapura. Foi uma iniciativa japonesa, que se manteve ao longo dos anos como um grupo não institucionalizado.

Contudo, na reunião em março deste ano, por iniciativa do presidente Biden, as ações do grupo estão se expandindo para outras áreas além da militar, como em meio ambiente e na área de tecnologia/cibersegurança. No comunicado final, novamente a China não é mencionada, mas a defesa da livre navegação no Mar do Sul da China com base nas leis internacionais, é direcionado a este país, que reivindica quase toda a região como território seu, construindo bases militares em pequenas ilhas artificiais.

Portanto, o que se percebe, é que definitivamente o governo americano busca não só conter os avanços chineses, como estruturar melhor seu arco de alianças com países no entorno da China. Mesmo que estas iniciativas custem certos distanciamentos de antigos aliados, como os europeus, e em particular, a França, cabe ressaltar que a nova dinâmica de equiparação militar está na Ásia, não mais na Europa.

Biden deve buscar estabelecer as linhas de contenção da China, não só em temas como Democracia e Direitos Humanos, mas de parcerias e alianças militares. Biden deve demonstrar que os Estados Unidos não estão sozinhos, e que estão dispostos a enfrentar os desafios chineses, principalmente no Mar do Sul da China.

*É professor de relações internacionais da ESPM, especialista em Segurança Internacional.

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Em meio a tensão militar entre China e EUA, Taiwan alerta para risco de conflito

Intensas atividades militares da China no estreito de Taiwan emergem como o novo ponto de pressão na relação cada vez mais acirrada com o território e com os americanos

Redação, O Estado de S.Paulo

05 de outubro de 2021 | 08h00
Atualizado 05 de outubro de 2021 | 15h56

TAIPÉ E PEQUIM - A presidente de Taiwan, Tsai Ing-wen, alertou, em um artigo publicado pela revista Foreign Affairs nesta terça-feira, 5, para consequências catastróficas caso a região caia sob o dominínio da China. Segundo ela, seu país está comprometido a defender a democracia "custe o que custar" contra as agressões chinesas.  

"A recusa de Taiwan em desistir, sua adoção persistente da democracia e seu compromisso de agir como uma parte interessada responsável (mesmo quando sua exclusão das instituições internacionais tornou isso difícil) agora estão estimulando o restante do mundo a reavaliar seu valor como uma democracia liberal na linha de frente de um novo choque de ideologias", escreveu a presidente. 

"À medida que os países reconhecem cada vez mais a ameaça que o Partido Comunista Chinês representa, eles devem compreender o valor de trabalhar com Taiwan. E devem se lembrar que, se Taiwan cair, as consequências serão catastróficas para a paz regional e o sistema de alianças democráticas. Seria um sinal de que na competição global de valores de hoje, o autoritarismo tem o controle sobre a democracia."

O artigo é publicado no momento em que as intensas atividades militares da China no estreito de Taiwan emergem como o novo ponto de pressão na relação cada vez mais acirrada com o território - considerado por Pequim uma província rebelde - e com os Estados Unidos.

Cerca de 150 aeronaves chinesas participaram de exercícios militares na região, demarcada por Taiwan como uma zona prioritária de defesa, provocando reações de Taipé, em meio a troca de acusações entre as duas superpotências sobre a responsabilidade de cada uma na instabilidade provocada na região.

Autoridades de Taiwan registraram a presença de 149 aeronaves chinesas no setor sul do estreito que divide os dois países, dentro da Zona de Identificação de Defesa Aérea. Oficialmente, a zona é considerada um espaço aéreo internacional, mas Taipé reivindica o direito de exigir que as aeronaves que por ali trafegam se identifiquem por motivos de segurança nacional. 

De acordo com o Ministério da Defesa do país, apenas nas ações de segunda-feira, 4, foram identificados 34 caças Shenyang J-16 e 12 bombardeiros Xian H-6, que têm capacidade de transportar armas nucleares. Em resposta, caças taiwaneses foram enviados para a área, e sistemas de defesa aérea foram postos em prontidão - apesar de nenhuma aeronave chinesa ter entrado no espaço aéreo do país.

Analistas apontam que as manobras chinesas passam algumas mensagens, como a de que Pequim vai continuar a pressionar Taiwan por uma eventual unificação do território, e também serve de alerta aos EUA e Taiwan para que ambos não avancem além dos limites impostos pelo governo chinês na região.

Durante os últimos dias, o órgão de Taipé responsável pelas relações entre os Taiwan e China exigiu que Pequim interrompesse o que chamou de "provocações irresponsáveis" e acusou o país de ser o "principal responsável" pelas tensões recentes. 

A atual tensão mostra como o estreito de Taiwan se tornou uma região sensível na disputa entre as principais potências internacionais. O movimento chinês ocorre depois de uma série de avanços americanos sobre a região do Indo-Pacífico, definida pelo presidente Joe Biden como foco de sua política externa - em grande parte com o objetivo de conter o expansionismo da China.

No mês passado, EUA, Reino Unido e Austrália anunciaram um novo pacto de segurança para "manter a paz na região Indo-Pacífica", batizada de aliança Aukus, que prevê a construção de uma frota de submarinos nucleares para os australianos. Também em setembro, dois porta-aviões americanos entraram no Mar do Sul da China e participaram de exercícios navais nos arredores da ilha japonesa de Okinawa, a cerca de 700 km de Taiwan. As operações contaram com a participação de embarcações de Reino Unido, Holanda, Canadá, Japão e Nova Zelândia.

Durante os exercícios militares, o Pentágono emitiu um comunicado no qual afirma que o aumento das atividades militares chinesas perto de Taiwan pode desestabilizar a região, além de elevar o risco de um erro de cálculo. "Nosso compromisso com Taiwan é sólido e contribui para a manutenção da paz e da estabilidade ao longo do estreito de Taiwan e ao redor da região", diz o texto.

Em resposta, Pequim culpou os EUA pela tensão, acusando Washington de agir de forma agressiva na região. Segundo analistas, as aeronaves chinesas que participaram dos exercícios estariam simulando ataques contra navios americanos.

"Taiwan pertence à China e os EUA não estão em posição de fazer essas declarações irresponsáveis. As declarações do lado americano violam seriamente o princípio de "uma só China" (...) e mandam um sinal extremamente errado e irresponsável", respondeu a porta-voz da chancelaria chinesa, Hua Chunying.

Apesar de as autoridades de Taiwan se considerarem uma nação independente, para Pequim o arquipélago para onde os nacionalistas fugiram ao serem derrotados na guerra civil é parte integrante de seu território. A China vê as parcerias militares taiwanesas com outras nações, como os EUA, como uma violação de sua própria soberania.

Em 1979, quando restabeleceram plenamente as relações diplomáticas com a China, os EUA concordaram em reconhecer Pequim como única representante do povo chinês. Apesar disso, Washington manteve uma aliança com Taipé, incluindo o fornecimento de armas, que em longo prazo busca evitar que a reunificação do território chinês leve Pequim a controlar o Estreito de Taiwan, vital para a navegação na região.

Em uma entrevista coletiva, a porta-voz chinesa criticou recentes planos de venda de armas americanas a Taiwan, e afirmou que esse tipo de ação "mina as relações entre EUA e China e a paz e a estabilidade da região".

"A 'independência de Taiwan' não leva a lugar algum. A China vai tomar todas as medidas necessárias para esmagar todas as tentativas relacionadas à 'independência de Taiwan'. A China tem uma vontade firme de salvaguardar sua soberania nacional e sua integridade territorial", declarou Hua Chunying./ AP, AFP e NYT

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EUA, Reino Unido e Austrália firmam acordo de defesa no Pacífico; China fala em ameaça à paz

Potências ocidentais vão armar Austrália com submarinos nucleares, o que provocou reação furiosa e imediata de Pequim, que chamou aliança de 'irresponsável'

Redação, O Estado de S.Paulo

16 de setembro de 2021 | 09h19
Atualizado 16 de setembro de 2021 | 15h10

O anúncio da parceria entre Estados UnidosReino Unido e Austrália para transferência de tecnologia militar - incluindo submarinos nucleares - para fortalecer a capacidade naval do grupo no Pacífico foi duramente criticado pela China nesta quinta-feira, 16. A aliança AUKUS, como foi batizada, foi entendida por Pequim como um desafio direto aos interesses chineses na região.

O porta-voz do Ministério dos Negócios Estrangeiros chinês, Zhao Lijian, disse nesta quinta-feira, 16, que o acordo entre os países ocidentais e da Oceania irá "prejudicar seriamente a paz e a estabilidade regionais, exacerbar uma corrida armamentista e dificultar os acordos internacionais de não-proliferação nuclear", informou o Global Times, um jornal chinês controlado pelo Partido Comunista. E completou:

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Esta é uma conduta totalmente irresponsável.
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Zhao Lijian, Porta-voz do Ministério dos Negócios Estrangeiros da China

A formação da aliança foi comunicada pelo presidente americano, Joe Biden, e pelos primeiros-ministros de Austrália e Reino Unido, Scott Morrison e Boris Johnson, respectivamente, durante uma cerimônia por videoconferência na noite da quarta-feira, 15. Inicialmente, o principal aspecto do acordo parece ser a aquisição de submarinos nucleares pela Austrália, o que permitiria ao país da Oceania realizar patrulhas de rotina que poderão passar por áreas do mar do sul da China, região que Pequim reivindica como sua zona exclusiva, até Taiwan.

Embora nenhum dos governantes tenha mencionado a China em seus comentários na quarta-feira, o movimento é amplamente visto como uma resposta ao poder econômico em expansão dos asiáticos, ao alcance militar e à influência diplomática. Acredita-se que os chineses tenham seis submarinos nucleares, com planos de aumentar a frota na próxima década.

Mesmo sem a menção direta, Lijan acusou os Estados Unidos e o Reino Unido de seguirem "padrões duplos" e usarem as exportações de equipamentos nucleares como uma "ferramenta em seus jogos geopolíticos", enquanto os advertia que devem "abandonar sua mentalidade antiquada da Guerra Fria" - termo que se repete nos discursos dos porta-vozes do ministério.

Submarinos nucleares são mais rápidos, mais difíceis de detectar e potencialmente muito mais letais do que os submarinos movidos a diesel, como os  que a Austrália planejava comprar da França - em uma negociação estimada em US$ 66 milhões (o equivalente a cerca de R$ 346,8 milhões), que agora fica ameaçada pela nova oportunidade aberta por EUA e Reino Unido. Atualmente, apenas seis nações operam submarinos movidos a energia nuclear, e os Estados Unidos haviam compartilhado a tecnologia apenas com o Reino Unido.

A medida é vista como um passo importante para a Austrália, que nos últimos anos tem hesitado em recuar em função dos principais interesses chineses. No entanto, o país tem se sentido cada vez mais ameaçado. Não por acaso, há três anos, a Austrália esteve entre as primeiras nações a proibir a Huawei, gigante chinês das telecomunicações.

Capacidade de ponta, mas sem armas nucleares

Biden disse que os esforços para permitir que a Austrália tenha submarinos movidos a energia nuclear garantiriam que eles tivessem "as capacidades de ponta de que precisamos para manobrar e defender-nos contra ameaças em rápida evolução".

"Trata-se de investir na nossa maior fonte de força, as nossas alianças, e atualizá-las para melhor responder às ameaças de hoje e de amanhã", disse Biden na Sala Leste, acompanhado por duas televisões que mostram os líderes britânicos e australianos. Para Boris Johnson, o novo acordo reforça seu esforço para desenvolver uma estratégia britânica global, com concentração no Pacífico, passo seguinte ao Brexit.

Os três líderes destacaram que os submarinos não estarão equipados com armas nucleares, mas serão apenas alimentados por reatores nucleares. "Deixem-me ser claro: a Austrália não procura adquirir armas nucleares ou estabelecer uma capacidade nuclear civil", disse Morrison.

No entanto, mesmo submarinos armados convencionalmente, tripulados por marinheiros australianos, poderiam alterar o equilíbrio do poder naval no Pacífico.

"Os submarinos de ataque são um grande negócio, e enviam uma grande mensagem", disse Vipin Narang, um professor do Instituto de Tecnologia de Massachusetts (MIT) que estuda o uso de armas nucleares e sistemas de lançamento entre as grandes potências. "Isto seria difícil de imaginar a cinco anos atrás, e teria sido impossível a 10 anos atrás. E isso diz muito sobre o comportamento da China na região".

Mísseis de cruzeiro Tomahawk

Mais tarde, Morrison ainda anunciou que o país também vai adquirir com os americanos mísseis de cruzeiro de longo alcance.

"Vamos aumentar a nossa capacidade de ataque de longo alcance, incluindo mísseis de cruzeiro Tomahawk que serão equipados nos destróiers da classe Hobart da Marinha Real Australiana", disse Morrison aos repórteres em Camberra.

Apesar do conflito aberto com a China, mais tarde, ao anunciar a compra do Tomahawk, o líder australiano reforçou um "convite aberto" ao presidente chinês, Xi Jinping, para retomar as conversações entre os dois países, que estão paradas atualmente.

"Há um convite aberto ao presidente Xi para discutir outras questões", disse ele.

Boris Johnson afirmou que os submarinos australianos irão contribuir para "a paz e a segurança no Pacífico". 

Numa visita na semana passada ao Sudeste Asiático, a vice-presidente Kamala Harris acusou Pequim de "ações que (...) ameaçam a ordem internacional baseada em regras", em particular suas reivindicações agressivas no mar do sul da China, onde as disputas territoriais entre o país e seus vizinhos têm sido frequentes nos últimos anos.

Representantes técnicos e navais dos três países irão passar os próximos 18 meses discutindo como modernizar as capacidades da Austrália e esclarecer os detalhes do acordo, incluindo o tipo e o preço dos submarinos.

'Passo estratégico'

Com a China construindo sua própria marinha e desafiando décadas de domínio militar dos EUA na Ásia, a criação de AUKUS pretende "enviar uma mensagem de tranquilidade e determinação para manter uma forte postura dissuasora", disse um oficial dos EUA, que falou sob condição de anonimato.

Mesmo que não transportem armas nucleares, os novos submarinos permitirão à Austrália levar a disputa "em um nível muito mais elevado", disse ele. 

"Os submarinos movidos a energia nuclear mantêm realmente um nível superior de furtividade, velocidade, maneabilidade, capacidade de sobrevivência e características de resistência realmente substanciais", disse o oficial. 

"Este é o maior passo estratégico que a Austrália deu em gerações", acrescentou.

Na Austrália, a ação foi considerada uma mudança memorável por alguns estrategistas. "A decisão australiana de ir por este caminho não é apenas uma decisão de adquirir um submarino de propulsão nuclear", disse Hugh White, professor na Universidade Nacional Australiana e antigo funcionário da defesa australiana. "É uma decisão de aprofundar e consolidar o nosso alinhamento estratégico com os Estados Unidos contra a China".

Ele acrescentou: "Isto aprofunda ainda mais a sensação de que temos uma nova Guerra Fria na Ásia e que a Austrália aposta que, nessa nova Guerra Fria, os Estados Unidos vão sair vitoriosos".

'Zangado e amargo'

O premiê australiano confirmou nesta quinta que o país não iria avançar na negociação por submarinos convencionais com a França. A transação tinha apoio do presidente francês, Emmanuel Macron.

Biden, numa tentativa de acalmar Paris, disse que a França é um "parceiro e aliado chave" no Indo-Pacífico.

O ministro da Defesa britânico, Ben Wallace, disse que o Reino Unido não pretende "antagonizar os franceses".

Contudo, o ministro dos Negócios Estrangeiros francês, Jean-Yves Le Drian, disse que a decisão de cancelar o acordo era "uma facada nas costas". "Estou muito zangado, e amargo.... Isto não é algo que os aliados façam", acrescentou. /AFP, NYT e W. POST

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