EFE/EPA/TOMMY CHIA/STENA BULK
EFE/EPA/TOMMY CHIA/STENA BULK

Reino Unido alerta Irã para 'sérias consequências' após captura de navio

Posicionamento foi dado em resposta à afirmação do Conselho Guardião do Irã, que afirmou que captura de navio foi 'ação recíproca'; Reino Unido detém petroleiro iraniano desde 4 de julho

Redação, O Estado de S.Paulo

20 de julho de 2019 | 10h08
Atualizado 20 de julho de 2019 | 16h55

TEERÃ - O Reino Unido alertou o Irã neste sábado, 20, que “haverá sérias consequências” para o país após a captura de um navio petroleiro britânico no estratégico Estreito de Ormuz. Em um comunicado emitido após uma reunião de emergência na noite de sexta-feira, o governo afirma que “aconselhou navios do Reino Unido a permanecerem fora da região por um período indeterminado”.

O ministro das Relações Exteriores e candidato ao cargo de primeiro-ministro, Jeremy Hunt, definiu como um "caminho perigoso de comportamento ilegal e desestabilizador" do Irã. Hunt afirma que conversou com o chanceler iraniano Javad Zarif. Pelo Twitter, escreveu que expressou sua "grande decepção porque haviam assegurado no sábado passado que o Irã queria desescalar a tensão, se comportaram no sentido oposto".  

A ministra da Defesa do Reino Unido, Penny Mordaunt, alegou em entrevista a um canal de televisão neste sábado que o Stena Impero foi interceptado em território do Omã, e não do Irã, classificando a medida como “um ato hostil”. Uma segunda reunião de emergência com o embaixador do Irã em Londres deve ocorrer na tarde do sábado.

As represálias foram dadas em resposta à afirmação do porta-voz do Conselho Guardião do Irã, Abbas Ali Kadkhodaei, que foi citado na agência de notícias semioficial Fars dizendo que "a regra de ação recíproca é bem conhecida na lei internacional" e que as atitudes do Irã para "confrontar a guerra econômica ilegítima e a apreensão de navios petroleiros é um exemplo dessa regra e baseada em direitos internacionais".

O conselho raramente comenta assuntos de Estado, mas, quando o faz, é visto como um reflexo das visões do líder supremo Aiatolá Ali Khamenei. Isso porque o conselho trabalha próximo a Khamenei, que tem a palavra final em todos os assuntos de Estado.

Em 4 de julho, a Marinha Real britânica tomou parte na apreensão de um navio-tanque iraniano carregando mais de 2 milhões de barris de petróleo bruto iraniano perto de Gibraltar, um território ultramarino britânico próximo à costa sul da Espanha. Autoridades no local inicialmente disseram que a apreensão ocorreu sob ordens dos Estados Unidos.

O Reino Unido disse que libertaria a embarcação se o Irã fosse capaz de provar que não estava infringindo sanções da União Europeia a embarques de petróleo para a Síria. No entanto, na sexta-feira, um tribunal em Gibraltar estendeu por 30 dias a retenção do navio de bandeira panamenha Grace.

Entenda o caso

Com 23 tripulantes a bordo, o navio de bandeira britânica Stena Impero foi apreendido pelo Irã na sexta-feira, 19. Radares marítimos mostram que ele se dirigia a um porto na Arábia Saudita. Nenhum dos tripulantes é de nacionalidade britânica ou americana; segundo comunicado da empresa proprietária do navio, Stena Bulk, há indianos, russos, filipinos e letãos.

A agência de notícias estatal IRNA também revelou na manhã deste sábado que o Irã havia apreendido a embarcação de bandeira britânica na sexta-feira após ela ter se chocado contra um barco de pesca iraniano - uma explicação que retratava a apreensão como uma tecnicalidade, em vez de uma retaliação no atual clima tenso.

Entretanto, o detalhe da colisão com um barco não fora citado na sexta-feira, quando a justificativa foi "não respeitar o código marítimo internacional". 

O diretor da Organização de Portos e Navegação da província de Hormozgan, que emitiu a ordem de apreensão do navio na sexta, explicou que uma investigação foi aberta neste sábado para apurar a causa do acidente entre o petroleiro e o barco pesqueiro. Até a conclusão da investigação, a tripulação deve permanecer a bordo do navio. "Se for necessário, com a solicitação das autoridades judiciais, a tripulação pode ser convocada para entrevistas técnicas", explicou Alahmorad Afifipur, que detalhou que o pesqueiro tentou se comunicar com o petroleiro, mas não houve resposta. 

Em Londres, o presidente do Comitê de Assuntos Externos da Câmara dos Comuns do Reino Unido, Tom Tugendhat, disse que ação militar para libertar o petroleiro seria "extremamente imprudente", especialmente porque a embarcação aparentemente foi levada a um porto bem protegido. Segundo autoridades do Irã, a embarcação se encontra no porto da cidade de Bandar Abbas, no sul do país, com a tripulação a bordo.

Tanto a França quanto a Alemanha solicitaram que o Irã libere imediatamente o petroleiro britânico. "Uma nova escalada (de tensão) seria muito perigosa para a região", advertiu Berlin. 

"Uma ação deste tipo prejudica a necessária desescalada das tensões na região do Golfo", escreveu Paris. A União Europeia lamentou que "nesta situação já tensa, esta notícia implica o risco de aumentar a escalada e mina o trabalho para resolver" a crise.

Tensões entre o Irã e o Ocidente vêm aumentando desde maio, quando os Estados Unidos anunciaram que estavam enviando um porta-aviões e tropas adicionais ao Oriente Médio, citando ameaças não especificadas representadas pelo Irã.

Na quinta-feira, o presidente americano Donald Trump informou que a Marinha dos EUA havia derrubado um drone iraniano que sobrevoava próximo a um de seus navios, também no Estreito de Ormuz. A informação foi negada pelo Irã, que afirmou não ter registrado abate de nenhum de seus drones

EUA e Irã também enfrentam tensões desde a retirada unilateral dos EUA do acordo nuclear, em 2018. A situação se agravou quando o Irã decidiu, no mês passado, que iria parar de cumprir as determinações do acordo/ AP, NYT, EFE e AFP

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