REUTERS/Dinuka Liyanawatte
REUTERS/Dinuka Liyanawatte

Cresce o budismo militante no Sudeste Asiático

Aumenta o número de ataques a muçulmanos na região instigados por monges radicais

Hannah Beech, THE NEW YORK TIMES, O Estado de S.Paulo

10 de julho de 2019 | 05h00

O monge budista estava sentado com as pernas cruzadas na frente do seu monastério em Gingota, ao sul do Sri Lanka, criticando “os males do islamismo”, quando uma bomba explodiu a uma distância próxima. Mas o venerável Ambalangoda Sumedhananda Thero, mal percebeu o ruído da explosão e continuou seu ataque: “os muçulmanos são violentos, são predadores”.

“O objetivo dos muçulmanos é se apropriar de todas as nossas terras e tudo o que valorizamos. Pense em todos os lugares que foram terras budistas: Afeganistão, Paquistão, Caxemira, Indonésia. Tudo foi destruído pelo islamismo”, disse.

Minutos depois, um ajudante chegou até ele, dizendo que alguém havia lançado um coquetel Molotov contra uma mesquita vizinha.

O monge fez um gesto de desdém. Sua responsabilidade era para com seu rebanho, a maioria budista do Sri Lanka. Os muçulmanos, que constituem menos de 10% da população do país, não eram sua preocupação.

Incitados por uma rede politicamente poderosa de monges carismáticos como Sumedhananda Thero, os budistas entraram na era do tribalismo militante, colocando-se como guerreiros espirituais que precisam defender sua fé contra uma força externa.

Suas queixas podem parecer estranhas: no Sri Lanka e em Mianmar, dois países que estão na frente de um movimento religioso-nacionalista, os budistas são a maioria da população. Mas os que defendem a crença purista da Theravada estão cada vez mais convencidos de que sua existência está ameaçada, particularmente por um Islã que vem lutando com os próprios extremistas violentos.

À medida que budismo e islamismo se chocam, uma parte dos budistas vem abandonando os princípios pacíficos de sua religião. Nos últimos anos multidões de budistas lançaram ataques letais contra populações muçulmanas minoritárias. Os ideólogos nacionalistas budistas usam a autoridade espiritual dos monges extremistas para reforçar sua base de apoio.

“Os budistas nunca nos odiaram tanto”, afirmou Mohammed Naseer, imã da Mesquita Hillur, em Gingota, que foi atacada por budistas em 2017. “Hoje seus monges difundem a mensagem de que não pertencemos a este país e devemos deixá-lo. Mas para onde iremos? Esta é nossa pátria”.

No mês passado, um poderoso monge budista iniciou uma greve de fome que resultou na renúncia de nove ministros do governo de Sri Lanka. O monge havia sugerido que os políticos muçulmanos foram cúmplices dos ataques lançados por militantes ligados ao Estado Islâmico no Domingo de Páscoa contra igrejas e hotéis do país, que deixaram mais de 250 pessoas mortas.

Em Mianmar, onde uma campanha de limpeza étnica forçou um êxodo da maioria dos muçulmanos do país, os monges budistas ainda advertem contra uma invasão islâmica, embora menos de 5% da população do país seja muçulmana. Durante o Ramadã, em maio, grupos budistas sitiaram locais de oração dos muçulmanos, que precisaram fugir.

Violência

Diante da imagem pacifista do budismo, ele não costuma estar associado à violência sectária. Mas nenhuma religião tem o monopólio da paz. E os budistas também partem para a guerra.

“Os monges budistas dirão que nunca justificarão a violência”, disse Mikael Gravers, antropólogo da Aarhus University, na Dinamarca, que tem estudado esse cruzamento de budismo e nacionalismo. “Mas ao mesmo tempo, dirão também que o budismo ou os Estados budistas têm de se defender por todos os meios”, acrescentou.

Como os budistas Theravada formam grandes maiorias nos cinco países onde sua fé é praticada – Sri Lanka, Mianmar, Camboja, Laos e Tailândia – é estranho eles se sentirem tão assediados. Mas o budismo, cujos praticantes formam somente 7% dos fiéis em todo o mundo, é a única religião cuja população não deve crescer em números absolutos nas próximas décadas, segundo o Pew Research Center.

Por outro lado, o número de muçulmanos que hoje constitui menos de um quarto da população mundial, vem crescendo rapidamente graças aos altos índices de natalidade. Segundo projeções do Pew Center, em 2050 haverá tantos muçulmanos no mundo quanto cristãos.

Mianmar

Milhares de pessoas se reuniram em Rangum, a maior cidade de Mianmar, em maio, quando o monge budista Ashin Wirathu, que estava preso por seus discursos de ódio, elogiou o Exército do país.

Desde agosto de 2017, mais de 700 mil membros da etnia Rohingya fugiram de Mianmar para Bangladesh. Por trás do êxodo estava uma campanha de limpeza étnica desencadeada pelo Exército e seus aliados, com multidões de budistas e as forças de segurança birmanesas submetendo os  Rohingya a massacres, estupros e destruição completa dos seus vilarejos.

Ashin Wirathu rejeitou a pregação da não violência da sua fé. Legisladores ligados aos militares mereciam ser glorificados como Buda, disse ele em um comício. “Somente o Exército protege nosso país e nossa religião”, afirmou.

Em outro protesto em outubro do ano passado, ele criticou a decisão do Tribunal Penal Internacional (TPI) de levar adiante um processo contra o Exército de Mianmar por sua perseguição dos Rohingya.

E então o monge fez um chamado às armas. “O dia em que o TPI chegar aqui eu terei uma arma nas mãos”, disse ele em entrevista a The New York Times.

Especialistas das Nações Unidas dizem que generais de alto escalão de Mianmar devem ser julgados por genocídio. Mas poucos membros do clero budista do país, que são a consciência moral, condenaram o banho de sangue. Pelo contrário, eles se referem aos Rohingya como invasores sub-humanos que depredam as terras budistas.

Em maio, o governo civil de Mianmar, que divide o poder com o Exército, emitiu um mandado de prisão contra Ashin Wirathu. As acusações não se fixaram no seu discurso de ódio contra uma religião minoritária, mas o monge foi acusado de comentários sediciosos contra Aung San Suu Kyi, laureada com o Nobel, que é a líder civil de fato da nação.

Embora Ashin Wirathu não faça muito esforço para se esconder e continue a postar vídeos na mídia social, a polícia diz que não consegue encontra-lo e o julgará à revelia.

Monges como ele fazem parte dessa ala extremista do nacionalismo budista. Mas clérigos mais respeitados também estão envolvidos.

Aos 82 anos, o venerável Ashin Nyanissara, conhecido como Sitagu Sayadaw, é o monge mais influente de Mianmar.  Em 1988 ele fez parte de um grupo de monges que abençoou o movimento pela democracia no país, que levou milhares de pessoas para as ruas em protestos pacíficos. Os dirigentes militares de Mianmar reagiram, massacrando centenas de pessoas.

Esse ato de violência foi um desprestígio para a junta militar. Outros protestos em favor da democracia liderados pelos monges, em 2007, aceleraram a transição política em que o poder hoje é compartilhado com o governo civil de Suu Kyi.

Depois da repressão de 1988, Sitagu Sayadaw se exilou no Tennessee, EUA, antes de voltar para seu país e abrir academias budistas e uma universidade monástica. O presidente Barack Obama e o papa Francisco se encontraram com ele. Ele participa de concílios inter-religiosos e sua sociedade missionária dirige centros de meditação no Texas, na Flórida e em Minnesota.

Mas quando centenas de milhares de Rohingya fugiram de seus vilarejos em chamas, ele se sentou diante de um público de oficiais do Exército e afirmou que “os muçulmanos quase compraram as Nações Unidas”.

O Exército e a vida monástica “não podem ser separados”, acrescentou.

Sitagu Sayadaw foi retratado em maio numa página do Facebook ligada ao Exército de Mianmar sorrindo em meio aos soldados. E ofereceu o maior sacrifício da sua fé: um exército de soldados espirituais em favor da causa nacional.

“Há mais de 400 mil monges em Mianmar. Se precisar deles, eu direi a eles. É fácil”, disse ele ao comandante das Forças Armadas.

“Quando uma pessoa tão respeitada como Sitagu Sayadaw diz alguma coisa, as pessoas ouvem”, disse Khin Mar Mar Kyi, antropóloga social na Universidade de Oxford, nascida em Mianmar.

Há alguns monges, embora seja uma minoria, que estão contestando o discurso de ódio monástico. Em Rangum, nas últimas semanas, defensores da paz entregaram rosas brancas para muçulmanos com o intuito de promover a harmonia entre as religiões.

“Os extremistas são uma pequena parte do budismo em Mianmar, mas são veementes”, afirmou Ashin Sein Di Ta, monge do monastério Asia Light.

“Temos de dizer claramente que se algum monge, mesmo um respeitado como Sitagu Sayadaw, defende assassinatos, ele deve ser expulso.” Mas num país onde eles são tão respeitados, é difícil questionar sua autoridade.

Direito budista

Quando militantes suicidas ligados ao Estado Islâmico explodiram bombas em igrejas e hotéis em Sri Lanka no Domingo de Páscoa, os budistas nacionalistas se sentiram vingados.

“Vínhamos alertando havia anos que os extremistas muçulmanos são uma ameaça à segurança nacional”, disse Dianthe Withanage, administrador do Bodu Bala Sena, o maior dos grupos nacionalistas budistas do Sri Lanka. “O sangue está nas mãos do governo por ignorar a radicalização do islamismo”, disse ele.

Depois de alguns anos de um governo de coalizão moderado, a união da fé e do tribalismo vem crescendo novamente em Sri Lanka. O defensor do movimento é Gotabaya Rajapaksa, ex-chefe da Defesa e candidato nas eleições presidenciais que devem se realizar este ano.

Ele tem prometido proteger a religião no país com a mais longa linhagem budista ininterrupta. Está determinado a reconstruir o Estado de segurança, criado durante as quase três décadas de guerra civil com a minoria Tâmil.

De 2005 a 2015 o Sri Lanka foi governado pelo irmão da Rajapaksa, Mahinda,  nacionalista convicto que justificou o fim brutal da guerra civil se retratando como o salvador espiritual da nação.

Templos decoraram suas paredes com fotos dos irmãos Rajapaksa. O dinheiro fluiu para os grupos radicais budistas que encorajaram os distúrbios sectários em que muçulmanos morreram. 

Um dos fundadores do Bodu Bala Sena (ou Exército do Poder Budista) recebeu terras em Colombo, a capital, para construir um centro cultural budista. O serviço de telecomunicações do país acrescentou a música tema do grupo à sua coleção de tons de chamada.

No ano passado, o líder do Bodu Bala Sena, Galagoda Aththe Gnanasara Thero, foi condenado a 6 anos de prisão. Mas em maio recebeu o perdão presidencial. No domingo, presidiu uma reunião de milhares de monges que pretendem que sua presença política esteja marcada nas próximas eleições.

Antes de ser preso, no ano passado, Gnanasara Thero colocou sua campanha num contexto histórico. “Temos sido os guardiães do Budismo há 2.500 anos. Agora é nosso dever, não só o dever dos monges de Mianmar, lutar para proteger nossa pacífica ilha contra o Islã”, disse ele em entrevista a The Times. / TRADUÇÃO DE TEREZINHA MARTINO

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