AP Photo/David J. Phillip
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Empresas faturam US$ 1 bilhão com abrigos para imigrantes nos EUA

Somente a Southwest Key ganhou US$ 955 milhões desde 2015, mas há uma dúzia de grupos administrando 30 instalações no Texas, enquanto outros cuidam de mais de 100 centros em 16 Estados; reagrupamento de famílias deve ampliar demanda

Manny Fernandez e Katie Benner, THE NEW YORK TIMES, O Estado de S.Paulo

23 de junho de 2018 | 05h00

O negócio de abrigar, transportar e cuidar de filhos de migrantes detidos ao longo da fronteira com o México não é um negócio de milhões de dólares. É um negócio de US$ 1 bilhão. A organização sem fins lucrativos Southwest Key Programs ganhou contratos federais de pelo menos US$ 955 milhões desde 2015 para operar abrigos e prover outros serviços para filhos de imigrantes sob custódia federal. 

Seu abrigo para crianças imigrantes num antigo supermercado do Walmart, no sul do Texas está sob investigação, mas Southwest Key é apenas um dos participantes do mundo lucrativo e cheio de segredos do negócio de abrigar migrantes. Cerca de uma dúzia de grupos opera sob contrato mais de 30 instalações apenas no Texas, com muitos outros operadores responsáveis por mais de 100 abrigos em 16 Estados. 

Se existe um centro do negócio de abrigos para migrantes nos EUA, ele talvez seja na região de quatro condados do Vale do Rio Grande, sul do Texas, onde cerca de uma dezena de abrigos ocupa antigas escolas, armazéns e centros médicos. Ali estão alguns dos maiores empregadores da região.

O que ocorre dentro de seus muros é com frequência altamente secreto. A recente separação de 2.300 filhos de migrantes de suas famílias, sob a política de “tolerância zero” do governo Trump, pôs sob os holofotes sobre essa indústria invisível, com imagens de crianças e adolescentes separados dos pais e detidos, provocando uma tempestade política. 

A decisão do presidente Donald Trump, na quarta-feira, de manter as famílias de migrantes juntas provavelmente significará mais milhões em contratos para operadores privados de abrigos, empresas construtoras e empreiteiros. Uma pequena rede de empresas que operam prisões privadas já está administrando centros de detenção familiar nos Estados do Texas e da Pensilvânia. A BCFS, uma rede global de grupos sem fins lucrativos, recebeu ao menos US$ 179 milhões em contratos federais desde 2015 com o chamado programa governamental para crianças estrangeiras desacompanhadas, criado para cuidar de jovens migrantes que entram no país sem parentes. 

Muitos dos contratados, alguns dos quais agências de ações emergenciais e núcleos religiosos de assistência, veem seu trabalho como ajuda humanitária para algumas das crianças mais vulneráveis do mundo. Mas grandes empreiteiros ligados a empresas de segurança também estão entrando no sistema, entre eles a General Dynamics, multinacional da indústria aeroespacial, e a MVM Inc., contratada pelo governo para fornecer seguranças para trabalhar no Iraque. 

A MVM, recentemente, postou anúncios procurando “trabalhadores bilíngues” do setor de viagens para cuidar de jovens na área de McAllen, sul do Texas. O trabalho é descrito como “acompanhar crianças filhas de imigrantes em voos domésticos e viagens terrestres durante o transporte para abrigos pelo país”. 

Expansão. O negócio vem crescendo desde que a separação de famílias atingiu larga escala, no mês passado. Por anos, mesmo durante o governo de Barack Obama, empresas contratadas abrigaram crianças apreendidas cruzando ilegalmente a fronteira desacompanhadas. Só no Texas, 15 abrigos receberam autorização do governo para se expandir, aumentando a sua capacidade de abrigar de 4.500 crianças para cerca de 5.300. 

 A corrida dos abrigos para receber crianças – e dinheiro  – provocada pelo aumento do número de crianças apreendidas desacompanhadas fez dessas instalações um novo alvo dos democratas, de defensores dos imigrantes e de um leque de funcionários e líderes comunitários municipais, estaduais e federais. 

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Alguns temem que a corrida expansionista impeça uma administração eficiente dos abrigos e cuidados com crianças e adolescentes já oprimidos por problemas emocionais e de saúde e por questões legais. Nos últimos anos, alguns abrigos para jovens migrantes tiveram problemas que não chegaram ao público: violações de leis anti-incêndio, processos por acusações de abuso e reclamações trabalhistas por falta de regulamentação e atraso de salário. 

Embora Southwest Key tenha atraído atenção por causa da política de Trump de separar famílias na fronteira, apenas 10% das crianças que estão em seus abrigos foram separadas de parentes. A grande maioria em suas instalações ainda é de crianças que chegam aos EUA sozinhas, principalmente da Guatemala e El Salvador. 

A capacidade da Southwest Key aumentou significativamente: em 2010, o grupo só conseguia receber 500 crianças por dia, em 10 abrigos. Hoje pode receber 5 mil crianças por dia, em 26 abrigos. Operadores de abrigos dizem que é um engano achar que eles mantêm jovens em instalações lotadas nas proximidades de pontos de entrada pela fronteira, nos quais migrantes são submetidos à triagem inicial.

Imagens de crianças em celas que circularam pela internet  recentemente foram feitas principalmente em postos da Polícia de Fronteira – administrados pelo governo. Abrigos como os da Southwest Key geralmente incluem dormitórios, salas de aula e centros médicos e de aconselhamento. / TRADUÇÃO DE ROBERTO MUNIZ

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