REUTERS/Carlos Garcia Rawlins
REUTERS/Carlos Garcia Rawlins

Entenda o massacre na escola da Flórida e o andamento das investigações

Ataque conduzido por Nikolas Cruz é considerado um dos piores da história moderna dos EUA, e fez com que a comunidade local pressionasse os políticos a reverem a legislação sobre o controle de armas

O Estado de S.Paulo

23 Fevereiro 2018 | 15h20

PARKLAND, EUA - O jovem Nikolas Cruz, de 19 anos, foi o autor de um dos piores massacres da história moderna dos EUA. No dia 14, ele chegou ao colégio Marjory Stoneman Douglas em Parkland, na Flórida, de Uber às 2h19 (locais), munido de um fuzil AR-15 semiautomático, de acordo detalhes fornecidos por autoridades.

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Um documento da polícia aponta que o agressor disparou o alarme de incêndio, justamente para atirar contra os estudantes quando eles estivessem abandonando o prédio, e “começou a atirar nos que viu nos corredores e no chão da escola”.

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Ele disparou contra os alunos em cinco salas de aula nos dois primeiros andares do edifício. Depois, descartou a arma, o colete à prova de balas que usava e a munição que carregava nas escadas, se misturou aos alunos que tentavam fugir do ataque e deixou o local. Cruz matou 12 pessoas no interior da escola e 3 do lado de fora, segundo o xerife Scott Israel, do condado de Broward. Outras duas vítimas morreram em hospitais próximos em razão da gravidade dos ferimentos.

Depois do ataque, Cruz caminhou até uma unidade do Walmart, comprou uma bebida no Subway e ainda parou no McDonald’s. Ele foi preso pelos policiais enquanto andava por uma rua residencial por volta das 15h41 (locais). O jovem foi acusado formalmente por 17 homicídios premeditados e está sendo mantido na penitenciária do condado de Broward, onde é observado de perto para evitar que cometa suicídio. Segundo autoridades, o fuzil AR-15 usado no ataque foi comprado legalmente em fevereiro de 2017.

Gordon Weekes, assistente do defensor público do condado, disse que os advogados envolvidos nas investigações ainda estão tentando reunir os detalhes sobre a vida de Cruz. O agressor tem um histórico de doença mental e é possivelmente autista ou tem dificuldade de aprendizagem.

Perfil do atirador

Nascido em setembro de 1998, Nikolas Cruz havia publicado nas redes sociais mensagens "muito alarmantes", indicou Israel. Um dia antes do ataque, o jovem postou um vídeo em uma rede social afirmando que "coisas ruins vão acontecer amanhã".

Ele era conhecido no colégio como um aluno "problemático", segundo várias testemunhas. "Teve problemas quando ameaçou estudantes em 2017. Acredito que lhe disseram que deveria abandonar o campus", declarou ao jornal Miami Herald Jim Gard, professor de matemática que teve Cruz como aluno. O jovem foi expulso da instituição por razões disciplinares.

O professor afirmou que Cruz parecia ser um aluno "quieto" e, depois do massacre, descobriu que vários estudantes afirmaram que ele era obcecado por uma menina da escola a ponto de "segui-la". Um estudante entrevistado pela emissora local WSVN-7 explicou que o jovem era "um menino com problemas" que possuía armas em casa e falava em usá-las.

O americano Ben Bennight, de 36 anos, disse que alertou o FBI sobre um comentário suspeito feito em um canal do YouTube em setembro cujo autor se chamava “nikolas cruz”. “Serei um atirador de escola profissional”, dizia a publicação. Bennight tirou uma foto do comentário e denunciou ao site de vídeos, que o removeu. Recentemente, o FBI confirmou que recebeu a informação, mas que não pôde identificar o autor do comentário.

Além disso, duas contas do Instagram que foram atribuídas a Cruz por alguns colegas de classe tinham imagens de armamentos, além de chapéus e bandanas que ele gostava de usar na escola. Também havia fotos de animais, incluindo um cachorro e um lagarto, e um sapo morto. Em resposta a um comentário publicado nesta imagem, o jovem disse que os sapos costumavam fugir quando o viam porque “matei muitos deles”.

A família que recebeu Nikolas Cruz em sua casa afirmou que ele era um jovem peculiar, mas que nunca pensou que seria um "monstro". "Nós tínhamos este monstro vivendo debaixo do nosso teto e não sabíamos", afirmou Kimberly Snead, uma enfermeira de 49 anos, ao jornal Florida Sun Sentinel.

Ele se mudou no fim de novembro para Parkland com James e Kimberly Snead, depois da morte de sua mãe por complicações provocadas por pneumonia. O jovem ficou órfão e era amigo do filho dos Snead.

A família descreveu o jovem como alguém que aparentemente cresceu sem a obrigação de realizar tarefas comuns. Não sabia cozinhar, lavar roupa, arrumar suas coisas ou até mesmo usar o micro-ondas. Segundo o casal, Cruz era um jovem solitário e queria ter uma namorada, mas estava deprimido pela morte da mãe.

"Eu disse que existiriam regras e ele seguiu todas", afirmou James Snead, de 48 anos, um veterano do Exército americano e analista de inteligência militar, segundo o jornal. "Ele era muito ingênuo. Não era estúpido, apenas ingênuo."

Kimberly Snead chegou a levar Cruz a um terapeuta cinco dias antes do massacre. Ele afirmou que estava disposto a receber tratamento se o plano de saúde aceitasse.

No dia do ataque, Cruz enviou mensagens ao filho dos Snead, que estudava na Marjory Stoneman Douglas, e disse que tinha algo a contar. No entanto, pouco depois afirmou que não era nada importante.

Vidas perdidas

Entre as 17 pessoas que morreram no ataque, estavam um professor de geografia, um nadador e estudantes prestes a se formar. Também estava o técnico de futebol, Aaron Feis, de 37 anos, o qual estudantes disseram que ficou ferido ao tentar proteger vários deles do ataque do atirador.

Os jovens que conseguiram escapar do massacre descreveram os momentos de desespero que viveram. O estudante Moises Lobaton estava na aula de psicologia quando os disparos começaram e relatou que os alunos tentavam se esconder o mais longe possível da porta. “Não havia espaço suficiente atrás da mesa. Não cabia todos”, disse.

As balas atravessaram o vidro da porta, ferindo ao menos três colegas dele, incluindo uma garota que “não se movia”. “Ela estava perto de uma poça de sangue, mas eu não conseguia dizer se era dela ou do menino ao lado”, descreveu. “Os tiros foram uma coisa que eu nunca esquecerei. Soavam como disparos de bombas, uma a uma”, contou Lobaton. “Se eu estivesse centímetros mais à direita, teria morrido.”

A brasileira Flávia Soares recebeu uma mensagem no WhatsApp da filha Júlia, de 14 anos, que a deixou em pânico: “Meu professor está morto. Reza muito mãe. Por favor. Tô com muito medo”. “Quando meu professor foi fechar a porta da sala de aula, ele levou um tiro. Eu estava de costas e, quando me virei, vi que ele estava no chão com a mão ensanguentada”, lembrou.

Ela ficou quase uma hora escondida, em silêncio. “Ouvimos gritos e começamos a chorar, porque achávamos que era o cara voltando, mas era a polícia”, afirmou. “O corredor estava coberto de sangue e vi os corpos de seis pessoas no chão. Nunca achei que isso fosse acontecer na minha escola.”

Júlia não sabia como iria voltar a frequentar o colégio. “Não vou mais me sentir segura. Vai ser muito estranho voltar para a sala em que meu professor morreu e para o corredor onde vi pessoas mortas.”

Pedidos por mudança

A comunidade escolar da Flórida pediu aos políticos locais ações para controlar a venda de armas e iniciou uma campanha com a hashtag “#NeverAgain” (Nunca mais, em tradução livre). Estudantes e parentes em Parkland disseram que o foco dado pelos legisladores ao tratamento de doenças mentais não era suficiente.

Lori Alhadeff, cuja filha Alyssa, de 14 anos, foi morta na Marjory Stoneman Douglas, fez um emocionante apelo por mais medidas. “Presidente Trump, precisamos de ações, precisamos de mudanças”, disse ela. “Tire essas armas das mãos dos jovens e tire-as das ruas.”

David Hogg, de 17 anos, questionou: “Se tivermos constantemente nossas crianças preocupadas em levar um tiro, o que falaremos no futuro?” Ele ainda reforçou: “É isso o que essas pessoas estão matando, nosso futuro.”

Primeiramente, o presidente Donald Trump atribuiu a ação de Nikolas Cruz a um distúrbio mental e à falta de vigilância, e chegou a acusar o FBI de não ter evitado o ataque, afirmando que o órgão dedica "tempo demais" a investigar a ingerência russa nas eleições de 2016.

Poucos dias depois, ele afirmou que apoiava os esforços do Congresso para aprovar uma legislação que “aperfeiçoe” o sistema de verificação de antecedentes na venda de armas no país. Democratas e alguns republicanos foram além e defenderam o veto à comercialização de fuzis militares, como o AR-15 usado no massacre.

Trump chegou a defender a proibição de dispositivos conhecidos como “bump stocks”, que permitem que um fuzil dispare rajadas como as armas semiautomáticas. “Assinei uma diretriz que solicita ao secretário de Justiça (Jeff Sessions) propor regulamentações para proibir todos os mecanismos que transformem armas legais em fuzis automáticos”, afirmou ele.

Em 2017, após o massacre de 58 pessoas durante um festival de música country em Las Vegas, a Casa Branca, políticos republicanos e até mesmo membros da Associação Nacional do Rifle (NRA) - o poderoso lobby das armas - haviam afirmado que os “bump stocks” deveriam ser submetidos a um controle maior.

Mas de todas as afirmações de Trump, a que mais despertou reações da população foi a sugestão de armar e treinar professores e funcionários de colégios durante uma reunião na Casa Branca com estudantes e parentes das vítimas do ataque em Parkland.

No dia seguinte, ele disse no Twitter que nunca falou sobre “dar armas aos professores”, mas sim que esse recurso seria limitado apenas aos profissionais que tenham recebido treinamento militar ou especial. Ele também ressaltou que a medida “resolveria o problema instantaneamente”, já que os educadores poderiam "contra-atacar se um selvagem doente entrar em um colégio com más intenções". "Os ataques acabariam!"

Trump disse ainda que quer ver ações direcionadas ao controle de armas, acrescentando que “o Congresso está em um momento no qual finalmente fará algo sobre esse assunto - espero”. “Vou pressionar fortemente para verificações completas de antecedentes com ênfase em saúde mental. Aumentar idade para 21 e acabar com a venda de bump stocks.”

Mas a insistência de Trump em armar os docentes provocou rejeição no setor. "Trazer mais armas para nossas escolas não faz nada para proteger nossos alunos e educadores da violência", disse Lily Eskelsen García, presidente da Associação Nacional de Educação (NEA).

Em resposta à sugestão do presidente, os profissionais de educação lançaram uma campanha na internet para promover suas ideias de prevenção a massacres. A hashtag #ArmMeWith (#MeArmeCom, em tradução livre), foi compartilhada milhares de vezes nas redes sociais com diferentes complementos.

Alguns pedem para ser armados "com recursos e o dinheiro necessário para ajudar os estudantes com problemas mentais, e não com armas", enquanto outros sugerem que gostariam de receber "livros, materiais escolares, tempo para resolver problemas emocionais dos estudantes e ampliar os relacionamentos".

O senador republicano pela Flórida Marco Rubio disse que está disposto a repensar sua oposição às propostas de controle de armas, se houver informações que indiquem que as políticas irão prevenir ataques a tiros. “Se vamos infringir a Segunda Emenda (da Constituição), precisa ser uma política que funcionará”, afirmou. / NYT, REUTERS, AFP, AP e EFE

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