Ruth Fremson/The New York Times
Ruth Fremson/The New York Times

Enxurrada de cédulas enviadas por correio explica demora na contagem de votos

Estados-chave usarão métodos bem diferentes para contar o número recorde de cédulas enviadas por correio. Mas elas podem indicar uma direção para o futuro

Stephanie Saul e Danny Hakim, The New York Times

04 de novembro de 2020 | 10h45

Os eleitores enviaram quase 64 milhões de cédulas por correio antes do dia da eleição, um recorde impulsionado por uma pandemia que certamente tornará a contagem de votos mais complicada neste ano, mas também poderá reformular as eleições americanas nos próximos anos.

A apuração começou. Mas haverá grandes diferenças entre os Estados-chave em como isso se desenrola, e potenciais desafios legais - particularmente da campanha de Trump - provavelmente complicarão ainda mais o processo.

Alguns Estados-chave, como a Carolina do Norte, vêm processando cédulas há semanas. As autoridades eleitorais esperavam que pelo menos 97% dos votos fossem contados na noite de terça-feira. Mas em um dos Estados mais disputados, a Pensilvânia, a campanha de Trump e os aliados republicanos impediram os condados de processar votos antes da eleição.

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A votação por correio este ano dobrou em relação a 2016 e, para muitos eleitores, a mudança tem sido uma revelação.

Em Atlanta, Frank Casaceli subiu correndo as escadas de uma biblioteca no campus da Universidade do Estado da Geórgia no domingo, colocou sua cédula de ausente em uma caixa oficial de coleta de votos do condado e rapidamente voltou para seu carro estacionado. Aos 42 anos, foi a primeira vez que ele votou.

“Normalmente trabalho 12 horas por dia”, disse Casaceli, explicando por que não havia votado nas últimas duas décadas. O fator de conveniência, dirigir até a caixa de coleta de votos em uma tarde de domingo sem trânsito e evitar as filas para as urnas, removeu um grande obstáculo à sua participação.

Casaceli votou em Trump, que passou grande parte da campanha de 2020 repreendendo pessoas como ele, que votaram por correio nos últimos dias da eleição. Trump voltou ao tema na segunda-feira em um comício em Fayetteville, Carolina do Norte.

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“Peguem suas cédulas e as enviem bem antes do dia 3, e façam a contagem antes do dia 3”, disse ele, enquanto atacava  uma recente decisão da Suprema Corte que rejeitou a tentativa de sua campanha de restringir a aceitação das cédulas da Pensilvânia que foram postadas no dia da eleição, mas chegarão aos gabinetes eleitorais até três dias depois.

“Que decisão, que coisa horrível que eles fizeram”, disse ele sobre o tribunal. “Vocês sabem que isso coloca nosso país em perigo? Vocês sabem o que pode acontecer durante esse longo período de tempo?” questionou. Então, respondendo à sua própria pergunta, ele disse: “Pode acontecer fraude como nunca visto antes”.

As alegações persistentes do presidente de uma eleição fraudulenta, no entanto, são infundadas. Porém, com mais democratas votando por correio do que republicanos, Trump tentou semear dúvidas em relação ao processo e à validade desses votos.

"Eu não me importo com o quanto Donald Trump tente, não há nada, nada que ele possa fazer para impedir o povo desta nação de votar, não importa o quanto ele tente”, disse o ex-vice-presidente Joe Biden em um comício em Pittsburgh. “Trump não quer que vocês votem. Ele não quer que os americanos votem. Ele acha que apenas pessoas ricas devem votar. E quando os Estados Unidos votarem, no entanto, o país será escutado."

Cinco Estados já votavam amplamente por correio nos anos anteriores à pandemia: Colorado, Washington, Oregon, Havaí e Utah. Agora, o resto do país parece estar se movendo nessa direção também, apesar da posição do presidente, as preocupações são de que os votos de ausentes tenham uma taxa de rejeição maior do que os votos presenciais ou histórias de cédulas que nunca foram entregues ou se perderam. (Os votos de ausentes e por correio são termos amplamente intercambiáveis.)

“Acredito que o uso da votação por correio nesta eleição continuará uma tendência de expansão da votação por correio que temos visto em todo o país. Em particular, os estados com listas eleitorais de ausentes permanentes provavelmente verão seus números aumentarem, o que pode eventualmente abrir caminho para eleições exclusivamente por correio”, disse Michael McDonald, professor de ciência política da Universidade da Flórida.

O total de votos por correspondência deste ano ultrapassará em muito os quase 64 milhões que as autoridades eleitorais registraram até segunda-feira. Algumas cédulas já chegaram aos gabinetes eleitorais de todo o país, mas ainda não foram inseridas no sistema. Outras foram enviadas por correio, mas ainda não foram entregues.

McDonald, que acompanha as estatísticas eleitorais, disse que, até terça-feira, pouco mais de 28 milhões de cédulas de ausentes solicitadas pelos eleitores não tinham sido devolvidas às autoridades eleitorais. Em uma análise postada em seu site, ele disse que essas cédulas eram, com razão, uma preocupação para os democratas, mas que ainda poderia haver tempo para a contagem de muitas delas.

Embora muitos Estados exijam que as cédulas cheguem aos gabinetes eleitorais até o fechamento das urnas na terça-feira, alguns permitem tempo extra, desde que as cédulas sejam postadas até o dia da eleição.

Cerca de 15 funcionários eleitorais no condado de Fulton, onde fica Atlanta, estavam ocupados na segunda-feira processando cédulas em uma grande sala na State Farm Arena - espaço emprestado ao condado pelo time de basquete Atlanta Hawks.

Amontoados em torno de bandejas de plástico branco do Serviço Postal dos Estados Unidos contendo dezenas de milhares de cédulas, os funcionários as abriam metodicamente, colocando cédulas e envelopes em pilhas separadas, depois digitalizando as cédulas em máquinas que pareciam grandes impressoras.

Enquanto a digitalização estiver em andamento, a contagem real dos votos não ocorrerá até o encerramento das urnas, mas ter as cédulas já digitalizadas é uma vantagem significativa.

Em contrapartida, os republicanos que controlam a legislatura da Pensilvânia frustraram os esforços dos líderes do condado e do governador para começar a processar as cédulas enviadas por correio, o que, como resultado, só começou no dia da eleição.

“A legislatura se recusou a dar aos condados o tempo de que precisam”, disse Amber McReynolds, CEO do National Vote at Home Institute, que defende o voto por correio, e ex-chefe do sistema eleitoral de Denver. “Quando o presidente começou a tuitar sobre voto por correio, praticamente perdemos toda a força que tínhamos com as legislaturas em alguns Estados. Eu realmente gostaria que não tivéssemos tido esses tuítes.”

Em meio às críticas de Trump a respeito da votação por correio, ele próprio votou como ausente este ano, como fez no passado - e assim como alguns de seus apoiadores.

Rose Bryant, uma aposentada de 68 anos que compareceu ao comício de Trump na segunda-feira em Fayetteville, disse "Eu não gosto disso" quando questionada a respeito da mudança para uma votação mais ampla por correio, embora ela e seu marido tenham votado como ausentes no passado. “É assim que os democratas encontram uma forma de trapacear”. / TRADUÇÃO DE ROMINA CÁCIA

 

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