David Mercado / Reuters
David Mercado / Reuters

Escolha de candidato reflete divisão no partido de Evo Morales

Os dois favoritos representam os polos de poder do MAS sobre os quais o ex-presidente da Bolívia se equilibrou durante 13 anos

Ricardo Galhardo, O Estado de S.Paulo

15 de dezembro de 2019 | 05h00

O Movimento ao Socialismo (MAS), partido do ex-presidente da Bolívia Evo Morales, ainda não abriu oficialmente o processo para a escolha do candidato à presidência, mas as conversas iniciais mostram que a indicação reflete as divisões internas da legenda que governou o país andino nos últimos 13 anos. 

Segundo fontes próximas à cúpula do partido os nomes mais cotados hoje são o do jovem líder cocaleiro Andrónico Rodríguez Ledesma, de 30 anos, e do ex-ministro da Economia e Finanças Luis Arce Catacora, de 56 anos. Por fora correm a atual e a ex-presidente do Senado, Eva Copa, de 32 anos, e Adriana Salvatierra, 30 anos, além do ex-chanceler David Choquehuanca, de 56 anos.

Os dois favoritos representam os dois polos de poder do MAS sobre os quais Evo se equilibrou ao longo de seus 13 anos de governo. Andrónico, vice-presidente das Seis Federações dos Trópicos, entidade sindical que reúne cocaleiros da qual Evo emergiu para a política e faz parte até hoje, era apontado como o sucessor natural do ex-presidente até a renúncia dele, sob pressão de manifestações populares e dos militares, em novembro. Ele representa a ala radical do MAS.

Já Luis Arce, um economista com sólida carreira acadêmica, é apontado como o artífice da política econômica que garantiu à Bolívia uma taxa de crescimento de 5% do PIB, em média, durante o governo Evo, reduziu a miséria a mais da metade e transformou o país andino no líder de crescimento econômico da América do Sul na última década. Arce representa a ala moderada do MAS. 

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“Não acho que o partido esteja unido. Evo tentará manter sua liderança definindo candidaturas e acho que isso pode afiar as contradições entre os mais radicais, leais a Evo e muito caudilhistas, e os mais democráticos e institucionalistas, que certamente querem fortalecer mais o partido do que o líder”, avalia o analista político Roberto Laserna, pesquisador do Centro de Estudos da Realidade Econômica e Social (Ceres) e presidente do centro de estudos Instituto Milênio.

Laserna aposta em Eva Copa, recém-empossada presidente do Senado, responsável por articular o apoio do MAS ao projeto de lei enviado pela presidente interina Jeanine Áñez que garantiu a realização de novas eleições e abriu o caminho para a pacificação da Bolívia após dois meses de turbulências e confrontos que levaram à morte de dezenas de pessoas

“A presidente do Senado atrai muita atenção: ela é hábil em negociar, pragmática e realista, é aimara (mesma etnia de Evo) e de El Alto (região onde o MAS tem grande penetração)”, disse Laserna. “Andrónico é muito jovem e não tem uma longa história sindical. Subiu por causa de sua proximidade com Evo. Acho que isso cria ciúmes na velha guarda camponesa.” 

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Salvatierra surgiu como favorita, mas seu nome perdeu força pelo fato de ela ter nascido no Chile. Hoje é mais cotada para ser a vice da chapa. 

As divisões internas no MAS sempre existiram e permearam todo o período do partido no governo, mas vieram à tona com mais força depois da queda de Evo. Nos dias após a renúncia do ex-presidente, lideranças moderadas do MAS, entre elas ex-ministros, chegaram a cogitar até mesmo a criação de um novo partido para tentar se afastar dos grupos radicais que dão suporte à sigla. Baixada a poeira, o clima hoje no partido é de disputa interna, mas com manutenção de uma unidade pragmática, pelo menos até a nova eleição.

No dia 7, o MAS realizou um congresso que escolheu Evo como chefe da campanha do partido à presidência. Da Argentina, onde está exilado, o ex-presidente pretende manejar a escolha de seu sucessor. Sua primeira manifestação foi um pedido de unidade. “Elegeremos um candidato unitário e novamente ganharemos as eleições em primeiro turno. Obrigado por não me abandonarem, eu sempre estarei com vocês. Juntos seguiremos fazendo história como neste momento. Unidos venceremos!”, escreveu o ex-mandatário em uma rede social.

Ainda não foi fixada uma data para a realização de novas eleições. Em novembro, o Congresso aprovou um projeto de lei que dá prazo de 5 meses para a nova votação depois de uma longa negociação entre o governo interino e o MAS. 

O mais provável adversário do Movimento ao Socialismo deve ser o líder cívico de extrema direita Luiz Fernando Camacho, que comandou as manifestações populares que levaram à queda de Evo

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