Pete Marovich/NYT
Pete Marovich/NYT
Imagem Lourival Sant'Anna
Colunista
Lourival Sant'Anna
Conteúdo Exclusivo para Assinante

Novo normal na política

Convenção democrata abriu mais espaço para os negros e latinos e para propostas consideradas 'progressistas'

Lourival Sant'Anna, O Estado de S.Paulo

23 de agosto de 2020 | 03h00

A convenção democrata foi chamada de “não convencional” por ter sido realizada remotamente. Ao explicitar a estratégia para eleger Joe Biden e Kamala Harris, ela foi também reveladora do estado da democracia americana, suscitando uma pergunta inevitável: será esse o novo normal da política?

A estratégia de toda campanha eleitoral é moldada pela escolha entre ampliar e mobilizar o eleitorado. A prioridade de disputar o eleitorado empurra as posições para o centro, onde estão os indecisos. A de fidelizar a base envolve tornar claras as posições que realçam a identidade e as diferenças frente ao adversário.

Depois da queda do Muro de Berlim, em 1989, o Partido Democrata, como as legendas de esquerda da Europa, aderiu à ortodoxia econômica antes monopolizada pela direita. Para se diferenciar, os republicanos passaram a dar mais ênfase às questões sociais, como imigração, criminalidade, casamento de homossexuais e direito ao aborto.

Ao cobrir as eleições americanas de 2008, 2012 e 2016, testemunhei os dilemas de muitos eleitores, que confiavam no desempenho econômico de um candidato e se identificavam com as convicções morais de outro. Claro que o apelo da fé religiosa e dos dogmas falava mais alto com enorme frequência.

Ninguém soube explorar melhor o uso político da identificação cultural do que Steve Bannon, fundador do site de ultradireita Breitbart News, estrategista da campanha do presidente Donald Trump em 2016 e seu assessor por sete meses na Casa Branca. Acusado de desviar dinheiro doado para a construção do muro na fronteira com o México, Bannon foi detido na quinta-feira e liberado sob fiança.

A eleição de Barack Obama em 2008 foi facilitada pelos traumas causados pela Guerra do Iraque e a crise financeira sob o governo de George W. Bush, e pelo voto dos negros e parte dos latinos. Quatro anos depois, a maioria dos americanos aprovou a recuperação econômica e reelegeu Obama. Em 2016, embora a economia continuasse muito bem, Hillary Clinton não foi capaz de mobilizar o voto dos negros e de parte dos latinos a ponto de compensar o deslocamento de parte dos trabalhadores brancos em direção a Trump.

Este ano, como ficou claro na convenção, a prioridade dos democratas é assegurar que os seus eleitores não só declarem aos pesquisadores que votarão em Joe Biden e Kamala Harris, mas efetivamente votem. Com esse objetivo, a convenção abriu mais espaço para os negros e latinos e para propostas consideradas “progressistas”, como a substituição do petróleo por fontes renováveis de energia, proteção dos imigrantes, controle de armas, direitos dos homossexuais e ao aborto – temas que, em eleições passadas, os democratas evitavam enfatizar, por receio de perder votos.

Biden citou o New Deal, programa de maciça intervenção estatal do presidente democrata Franklin Delano Roosevelt para resgatar a economia da Grande Depressão, entre 1933 e 1939. E prometeu centralizar no governo federal os testes, rastreamento de contatos e suprimentos hospitalares contra a pandemia.

Na tentativa de atrair votos independentes e de republicanos descontentes com Trump, os democratas procuraram retratar o presidente como alguém que não está à altura do cargo. A presença expressiva de líderes republicanos serviu para caracterizar essa disputa não como entre dois partidos, mas como um esforço para resgatar valores considerados americanos, como a decência, a diversidade e a liderança.

A verdade é que há poucos votos para disputar: pesquisa CNN do domingo passado por exemplo confere 50% a Biden e 46% a Trump. Só 4% indefinidos. Essa eleição se torna o ponto mais alto na polarização identitária, em que se torna quase impossível não ter uma posição, por ser uma luta entre o “bem” e o “mal”, entre princípios da existência humana. É possível que venha a ser também o ponto de inflexão se Trump for derrotado e o Partido Republicano voltar a ser o que era antes.

Encontrou algum erro? Entre em contato

Comentários

Os comentários são exclusivos para assinantes do Estadão.

Tendências:

O Estadão deixou de dar suporte ao Internet Explorer 9 ou anterior. Clique aqui e saiba mais.