Gabinete da Presidência de Taiwan/AP
Gabinete da Presidência de Taiwan/AP

Taiwan confirma presença de tropas dos EUA para treinar soldados locais; China critica

Presidente de Taiwan diz ‘ter fé’ que americanos defenderão ilha em caso de ataque chinês; Pequim afirma que princípio de uma única China é a base das relações sino-americanas

Redação, O Estado de S.Paulo

28 de outubro de 2021 | 04h26
Atualizado 28 de outubro de 2021 | 21h28

TAIPÉ - A presidente de Taiwan, Tsai Ing-wen, confirmou nesta quinta-feira, 28, que tropas dos Estados Unidos estão na ilha, em um número reduzido, para treinar o exército taiwanês e disse ter fé que os militares americanos vão intervir em caso de um ataque da China

Pequim reagiu imediatamente, criticando fortemente a ação. "Nós nos opomos firmemente a qualquer forma de intercâmbios oficiais e contatos militares entre Estados Unidos e Taiwan", disse à imprensa o porta-voz da diplomacia chinesa, Wang Wenbin.

Essa é a primeira vez que Taiwan confirma a presença militar americana na ilha, corroborando relatórios anteriores. "Temos uma ampla gama de cooperação com os EUA com o objetivo de aumentar nossa capacidade de defesa", disse Tsai à CNN em entrevista que foi ao ar nesta quinta-feira, 28. Questionada sobre quantos membros do serviço dos EUA são implantados em Taiwan, ela disse apenas que "não são tantos quanto as pessoas pensam".

A confirmação ocorre no momento em que China aumenta a pressão militar e política contra a ilha, incluindo repetidas missões de aviões de guerra chineses na zona aérea de Taiwan. Questionado sobre o comentário de Tsai, o ministro da Defesa de Taiwan, Chiu Kuo-cheng, disse a repórteres que as interações com os militares americanos são "muito numerosas e frequentes" e acontecem há muito tempo. “Durante esses intercâmbios, qualquer assunto pode ser discutido”, disse. 

No entanto, ele acrescentou que as forças dos EUA não estão permanentemente baseadas, ou guarnecidas, em Taiwan. Se estivessem, isso poderia ser um pretexto para a China atacar a ilha. Chiu também pontuou que Taiwan deve estar preparada para se defender e não pode depender inteiramente da ajuda de outros países caso a China lance um ataque contra a ilha.

Em um editorial, o jornal nacionalista chinês Global Times considerou que a ilha, "com a presença de soldados americanos em Taiwan, cruzou uma linha vermelha". No início do mês, uma fonte do Pentágono confirmou pela primeira vez a presença de tropas americanas em Taiwan.

Até agora, no entanto, nenhum líder desta ilha havia admitido esta presença, publicamente, desde a saída da última guarnição americana em 1979. Foi neste ano que os EUA cortaram relações diplomáticas com Taipé em favor de Pequim. Como a maioria dos países, os EUA não têm laços diplomáticos formais com a ilha, mas consideram Taiwan como aliado internacional. 

Na quinta-feira da semana passada, 21, o presidente americano, Joe Bidendisse que os EUA “defenderiam Taiwan” e estariam comprometidos com a ilha em caso de eventual ofensiva da China. 

No começo do mês, o Ministério das Relações Exteriores da China disse que os Estados Unidos deveriam cessar os laços militares e as vendas de armas para Taiwan para evitar relações bilaterais prejudiciais. Em resposta ao posicionamento mais recente de Biden, a China também afirmou que “não há espaço para compromissos ou concessões” em relação à Taiwan, ilha que o regime chinês considera uma província rebelde.

Preocupação

Na quarta-feira 27, Biden disse que os EUA estão "profundamente preocupados com as ações coercitivas e agressivas da China (...) no estreito de Taiwan". As tensões foram aumentando, em meio às incursões aéreas chinesas perto deste país. Estas ações "ameaçam a paz e a estabilidade regionais", acrescentou Biden, conforme uma gravação de suas declarações obtida pela agência France Press

O secretário de Estado americano, Antony Blinken, também provocou a ira de Pequim, ao defender na terça-feira 26 a "participação significativa" de Taipei nos órgãos da ONU e na cena internacional. "A exclusão de Taiwan mina o importante trabalho da ONU e de suas agências", frisou, insistindo em que a contribuição da ilha é necessária para abordar "um número sem precedentes de desafios globais".

É provável que a delicada questão de Taiwan fragilize ainda mais as relações entre Estados Unidos e China, que passam por seu ponto mais baixo em anos. A China considera Taiwan como uma de suas províncias, embora não controle a ilha de 23 milhões de habitantes, e prometeu reunificá-la - à força, se necessário. 

"O princípio de uma única China é a base das relações sino-americanas", ressaltou o porta-voz da diplomacia chinesa nesta quinta-feira. "Os Estados Unidos não devem subestimar a forte determinação do povo chinês em defender sua soberania e integridade territorial", advertiu Wang.

Batalha por influência no Pacífico

Durante a Guerra Fria, um espirro dado no Kremlin se transformava em um terremoto em Washington – e vice-versa. A lógica da contenção obrigava as nações envolvidas no conflito e seus aliados a responderem na mesma medida às ações dos adversários. 

Esse tipo de comportamento está de volta nas relações entre EUA e China. Os testes de mísseis hipersônicos, uma tecnologia inovadora e ainda experimental, a troca de farpas por Taiwan e a parceria trilateral entre EUA, Reino Unido e Austrália, a aliança Aukus, são os mais recentes temperos no caldeirão da tensão entre chineses e americanos. / AFP, AP e  REUTERS

 

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