AP Photo/Ng Han Guan
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China se opõe às sanções contra Rússia e chama ações dos EUA de 'imorais'

Porta-voz da chancelaria critica governo Biden e Otan por instalarem armas ofensivas perto da Rússia: 'Já pensaram nas consequências de encurralar uma grande potência?'

Redação, O Estado de S.Paulo

23 de fevereiro de 2022 | 11h37
Atualizado 23 de fevereiro de 2022 | 13h23

PEQUIM — A China acusou os Estados Unidos de criar "medo e pânico" sobre a crise na Ucrânia e sugeriu que o apoio dos EUA e da União Europeia à expansão da Organização do Tratado do Atlântico Norte (Otan) deixou o presidente Vladimir Putin com poucas opções, e que os chineses se opõem às sanções impostas contra a Rússia, reiterando uma posição chinesa de longa data.

A porta-voz do Ministério das Relações Exteriores, Hua Chunying, pediu negociações para reduzir as tensões que crescem rapidamente. Segundo ela, os EUA estão alimentando as tensões ao fornecer armas defensivas à Ucrânia, sem mencionar o posicionamento de até 190.000 soldados russos na fronteira ucraniana. Hua também não mencionou os esforços dos EUA, França e outros para envolver a Rússia diplomaticamente.

Os laços com a Rússia se estreitaram sob o comando do líder chinês Xi Jinping, que recebeu o presidente russo, Vladimir Putin, em negociações em Pequim no início deste mês. Os dois lados emitiram uma declaração conjunta apoiando a oposição de Moscou a uma expansão da Otan nas ex-repúblicas soviéticas e apoiando a reivindicação da China à ilha autônoma de Taiwan.

Pequim não vê as sanções como “a melhor maneira de resolver problemas”, disse a porta-voz Hua Chunying em uma entrevista a jornalistas em Pequim nesta quarta-feira, 23. Ela também criticou os EUA e a Otan por instalarem armas ofensivas perto da Rússia, perguntando se “eles já pensaram nas consequências de encurralar uma grande potência”.

A crise na Ucrânia forçou a China a um delicado ato de equilíbrio, pois busca apoiar a Rússia contra os EUA, ao mesmo tempo em que se apresenta como uma potência global responsável. O presidente americano, Joe Biden, impôs sanções a Moscou por reconhecer a independência das duas autoproclamadas repúblicas separatustas ucranianas e prometeu que mais viriam. Outros aliados dos EUA, como União Europeia, Japão e Reino Unido, também atingiram a Rússia com medidas econômicas punitivas.

Os EUA vão bloquear duas grandes instituições financeiras da Rússia, o VEB (banco público de desenvolvimento equivalente ao BNDES brasileiro) e o banco militar Promsvyazbank (PSB), juntamente com 42 de suas subsidiárias. O governo dos EUA também vai restringir a negociação da dívida soberana do país, que impedirá Moscou de arrecadar dinheiro no Ocidente. Também serão sancionados membros da elite russa e seus parentes.

Já a União Europeia anunciou sanções contra 351 legisladores da Duma (Câmara Baixa do Parlamento russo), que votaram a favor do reconhecimento das regiões separatistas. Os membros da Duma que são alvo das sanções passam a ter quaisquer bens na UE congelados e ficam proibidos de viajar aos países do bloco. Além dissso, 27 autoridades e instituições russas de Defesa e do setor bancário e financeiro também foram sancionados, com o objetivo de limitar o acesso de Moscou aos mercados financeiro e de capitais da UE.

Hua disse que os EUA são “culpados” pela situação da Ucrânia, afirmando que o governo americano estava “colocando lenha na fogueira enquanto apontava o dedo para outras pessoas que tentavam apagar o fogo”. "Esse ato é irresponsável e imoral", disse a porta-voz sobre os movimentos dos EUA.

A China frequentemente critica a política de sanções dos EUA, também impostas a Pequim por questões como denúncias de abusos de direitos humanos na região de Xinjiang, no extremo oeste chinês, e medidas para prender ativistas pró-democracia em Hong Kong. Hua também comparou as ações dos EUA com as da China, que ela disse serem mais construtivas.

Para Entender

Entenda a crise entre Rússia e Otan na Ucrânia

O que começou como uma troca de acusações, em novembro do ano passado, evoluiu para uma crise internacional com mobilização de tropas e de esforços diplomáticos

"Ao contrário dos EUA, que estão enviando armas, aumentando as tensões e aumentando a possibilidade de guerra, a China tem pedido a todas as partes que respeitem e valorizem as preocupações legítimas de segurança umas das outras", disse Hua, que conduziu o briefing diário do Ministério das Relações Exteriores pela primeira vez desde setembro. "Temos feito esforços para resolver a questão por meio de negociações e consultas para proteger a paz e a estabilidade regionais."

A China não se pronunciou diretamente sobre o reconhecimento das regiões separatistas, uma questão delicada para sua política interna, assim como nunca reconheceu formalmente a anexação pela Rússia da Península da Crimeia, em 2014. A península fora cedida à Ucrânia na era soviética e sua anexação foi uma represália de Moscou à instalação de um governo pró-Ocidente em Kiev. 

China pensando em Taiwan

O resultado da crise na Ucrânia é visto como tendo ramificações para a China sobre sua ameaça de invadir Taiwan, um aliado próximo dos EUA, e sua disputa de fronteira com a Índia e suas reivindicações nos mares do sul da China e leste da China, onde levantou preocupações sobre o conflito com o Japão, as Filipinas e outros.

Hua disse que aqueles que acusam a China de contradizer sua posição de respeitar a soberania nacional e a integridade territorial em relação aos movimentos da Rússia em direção à Ucrânia foram “impulsionados por segundas intenções ou deliberadamente distorcendo ou interpretando mal a China”.

“Para entender correta e objetivamente a situação da Ucrânia e buscar uma solução racional e pacífica, é necessário entender os méritos da questão da Ucrânia e abordar adequadamente as preocupações legítimas de segurança dos países relevantes com base na igualdade e no respeito mútuo”, disse Hua.

Putin promete resposta e Ucrânia se prepara

Em resposta às sanções impostas pelos países, Putin ameaçou com condenações. "Os interesses da Rússia e a segurança de nossos cidadãos são incondicionais para nós", afirmou o presidente russo em vídeo divulgado nesta quarta.

Falando no Dia dos Defensores da Pátria, um feriado que celebra as forças armadas da Rússia, Putin não mencionou explicitamente a Ucrânia. Mas repetiu uma frase familiar na crise atual, culpando a “atividade militar do bloco da Otan” pelos perigos do mundo e dizendo que os apelos da Rússia para construir um sistema equitativo de segurança internacional “continuam sem resposta”.

As falas, levaram a Ucrânia a se preparar para um conflito, com o planejamento de um estado de emergência de 30 dias e mobilização de militares reservistas."Nosso exército está pronto" para se defender contra um ataque das forças russas, disse Oleksiy Danilov, chefe do conselho de defesa e segurança nacional da Ucrânia.

Os Estados Unidos utilizaram o termo "invasão" pela primeira vez de forma oficial na última terça-feira, para descrever a entrada de tropas através da fronteira ucraniana. O movimento aconteceu após Putin reconhecer a independência das regiões de Donetsk e Luhansk, controladas por separatistas apoiados pela Rússia desde 2014.

Com a escalada dos útimos dias, o secretário de Estado dos EUA, Antony Blinken, cancelou uma reunião com o ministro das Relações Exteriores da Rússia, Sergei Lavrov, agendada para o final da semana. Horas depois, a secretária de imprensa da Casa Branca, Jen Psaki, disse que não havia planos de uma cúpula entre Biden e Putin. "A diplomacia não pode ter sucesso a menos que a Rússia mude de rumo”, disse./ W.POST, NYT, AP e REUTERS

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