Bryan R. Smith/AFP
Bryan R. Smith/AFP

Estimulada por protestos antirracismo, 'Juneteenth' ganha as ruas nos EUA

Nova York, Washington, Chicago e Miami foram palco de atos para festejar a data, que não é um feriado nacional, mas passou a ser alvo de muitos pedidos para ganhar esse status

Redação, O Estado de S.Paulo

20 de junho de 2020 | 03h16

WASHINGTON -  "Juneteenth", a celebração do fim da escravidão nos Estados Unidos, que ocorre a cada dia 19 de junho, teve neste ano talvez sua edição mais vibrante, com eventos em todo o país.

Desta vez, ela ganhou ainda mais força com os protestos antirracismo iniciados após a morte de George Floyd, um homem negro que foi asfixiado por um policial branco no dia 25 de maio em Minneapolis, causando uma onda de indignação em todo o planeta.

Várias cidades americanas, como a própria Minneapolis, além de Nova York, Washington, Chicago e Miami foram palco de atos para festejar a data, que não é um feriado nacional, mas passou a ser alvo de muitos pedidos para ganhar esse status.

O Juneteenth comemora quando, no dia 19 de junho de 1865, um general da União, Gordon Granger, leu uma ordem federal declarando liberdade para escravos negros em Galveston, no estado do Texas, dois anos e meio após o presidente Abraham Lincoln ter assinado a Proclamação de Emancipação.

Até agora, era lembrada por muitos afro-americanos com piqueniques e refeições familiares como no 4 de julho (feriado nacional de independência do país), mas neste ano, devido à morte de George Floyd, o número de adeptos se multiplicou como nunca.

Atos em Washington

A capital dos EUA, Washington, foi palco de mais de 20 eventos ao longo do dia relacionados à data especial. Jogadores de times locais de basquete, os Wizards, da NBA, e os Mystics, da WNBA, participaram de uma passeata que terminou no memorial Martin Luther King Jr., às margens do rio Potomac, e na qual muitos participantes usaram camisas do movimento Black Lives Matter (Vidas Negras Importam).

Não muito longe dali, outro grupo de dezenas de pessoas fez outra passeata ao longo da Mall, a esplanada entre a Casa Branca e o Capitólio.

Entre o obelisco em homenagem a George Washington, primeiro presidente dos Estados Unidos (1789-1797), e o Museu Nacional de História e Cultura Afro-Americana, os manifestantes montaram mesas para incentivar as pessoas a se inscreverem para votar nas eleições gerais de 3 de novembro.

"Se você não votar, você não conta" e "Olhe, ouça, leia, proteste, vote" eram algumas das mensagens escritas nos cartazes presentes.

Entre os participantes estava Laura, uma engenheira civil de 47 anos que contou à Agência EFE que não sabia sobre a data até quase um ano atrás.

"Sou uma das poucas pessoas que não sabia da minha própria história, sabia que estávamos livres com Abraham Lincoln, mas não que houve dois anos de atraso no Texas", disse.

Moradora de Baltimore, no estado vizinho de Maryland, ela afirmou que preferiu ir a Washington, no Distrito de Columbia, para se fazer ouvir pelas maiores autoridades do país.

"Eles precisam nos ver e ouvir nossas vozes", ressaltou.

Nova York 

Enquanto isso, em Nova York, milhares de pessoas foram às ruas para uma passeata na qual a maioria das pessoas usava roupas pretas.

"Estou aqui porque todas as vidas dos negros são importantes, estamos tentando conseguir justiça e igualdade para os negros. Estamos aqui para apoiar nossos irmãos e irmãs, e todos aqueles que vieram aqui hoje vieram para lutar, para conseguir justiça para os negros", disse um dos participantes, Michael, em frente à prefeitura, onde o protesto começou.

Michael foi para a passeata usando uma camisa preta com a frase "I can't breathe" ("Não consigo respirar"), as últimas palavras ditas por George Floyd antes de morrer com o pescoço pressionado por um policial que o havia detido sob a acusação de usar uma nota falsa de US$ 20 em um mercado.

Além desse protesto, que aconteceu em Manhattan e contou com quase 2.000 participantes, houve um maior que começou no bairro do Brooklyn e atravessou o East River, com os manifestantes gritando "Black Lives Matter" e pedindo a retirada de verbas para a polícia.

Miami

Em Miami Beach, "Lift Every Voice and Sing", música de John Johnson e James Weldon, também conhecida como o "hino nacional afro-americano", foi tocada nesta sexta-feira em comemoração ao "Juneteenth".

A cantora Nicole Henry emocionou as mais de 100 pessoas que se reuniram na primeira vez que a prefeitura da cidade celebrou uma festa que não está no calendário oficial dos Estados Unidos.

"Rezo para que continuemos esta revolução moral, para acabar com o racismo e as práticas discriminatórias que têm seguido a escravidão. Essas práticas têm sido institucionalizadas em todos os níveis da educação, da vida social e econômica", disse a cantora.

O governador da Flórida, Ron Desantis, também se juntou às celebrações e proclamou o "Dia da Independência de 19 de junho".

Trump se pronuncia

Já na Casa Branca, o presidente Donald Trump fez uma declaração na qual enfatizou: "O Juneteenth nos lembra a inimaginável injustiça da escravidão e a alegria inigualável que deve ter acompanhado a emancipação".

"É uma lembrança de uma praga em nossa história e uma celebração da capacidade inigualável de nossa nação de triunfar sobre a obscuridade" disse. /EFE

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