U.S. Government/Digital Globe/via Reuters
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EUA fazem perícia em drones e mísseis utilizados em ataques na Arábia Saudita

Objetivo é tentar localizar a procedência dos ataques para atestar possível envolvimento do Irã na ofensiva; caso positiva, americanos estudarão retaliações

Redação, O Estado de S.Paulo

17 de setembro de 2019 | 16h46

WASHINGTON - Analistas da inteligência e investigadores militares dos Estados Unidos estão examinando partes dos mísseis e suas rotas de voo, recuperados na Arábia Saudita, que podem fornecer dicas sobre a origem e trajeto de voo após ataques em duas estações de petróleo do país, no qual tanto os sauditas quanto os EUA responsabilizam o Irã.

Análises forenses de partes dos mísseis encontrados nos locais dos ataques, um deles estando quase intacto, segundo autoridades americanas, são o alvo das investigações.

O objetivo principal é descobrir até que ponto o Irã está envolvido, caso se descubra que o lançamento dos mísseis foi feito em solo iraniano. 

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Mísseis usados contra sauditas são montados por mulheres e têm inscrições religiosas

Os houthis recebem armas do Irã – da mesma forma como as forças sauditas têm ao menos 32 fornecedores em 18 países, entre os quais o Brasil

Para isso, imagens de satélite da destruição do campo de petróleo e da usina de refinamento da produtora estatal Saudi Aramco, que teve metade da produção comprometida, também passam por análises. Os americanos pretendem rastrear o caminho dos mísseis, por meio de rotas encontradas por radar de ao menos alguns dos mísseis de cruzeiro de altitude baixa. 

O governo americano discute agora sobre qual ação retaliatória deve tomar, se tomar, e se alguma resposta por parte dos EUA soaria como abaixar a cabeça à Arábia Saudita, criticada pela maioria da comunidade internacional pelo autoritarismo, quebra de acordos e violação de direitos humanos, especialmente após o caso do assassinato do jornalista Jamal Khashoggi.

Trump já foi criticado por uma suposta subserviência a Arábia Saudita, ao escrever em sua conta no Twitter que aguardava notícias do reino para então decidir como os EUA iriam proceder.

O secretário de defesa americano, Mark Esper, e o general Joseph F. Dunford Jr., chefe do Estado Maior dos EUA, apresentaram um leque de opções militares a Trump em reunião na segunda-feira. Presume-se que sejam alvos para bombardeio os centros de lançamento de mísseis e de ciber-operações secretas, além de estoques, a fim de desabilitar ou cessar a estrutura petrolífera do Irã.

Com o objetivo de "analisar uma resposta" aos ataques do fim de semana, o secretário de Estado americano, Mike Pompeo, viajou nesta terça à Arábia Saudita, segundo anúncio do vice-presidente, Mike Pence

Uma grande preocupação é assegurar que qualquer ataque seja proporcional e não aumente o conflito, particularmente nas vésperas do encontro de chefes de Estado em Nova York para a Assembleia Geral da ONU.

Por outro lado, os oficiais americanos também expressaram a preocupação de não fazer nada, pelo menos abertamente, em resposta aos ataques que acabaram com metade da produção de petróleo de um dos principais aliados de Washington no Oriente Médio.

Autoridades americanas afirmam não ter dúvidas sobre a autoria iraniana dos ataques, como a tecnologia e seus componentes, mesmo o grupo rebelde Houthi, do Iêmen, ter reivindicado a autoria dos ataques.

Para Entender

Quem são os houthis e por que o Irã é responsabilizado

Grupo rebelde do Iêmen apoiado pelo Irã reivindicou a autoria de explosões em duas bases sauditas de refinamento de petróleo

Ainda não foram divulgados detalhes se os ataques foram planejados pelo Irã e lançados por aliados na região, ou se os mísseis e drones saíram de território iraniano.

Pentágono pede cautela

Mesmo com o anseio de uma resposta militar, caso seja comprovado o envolvimento do Irã, em privado o Pentágono pressiona por cautela e tenta acalmar um cenário tenso que pode levar os EUA a um conflito sangrento com o Irã, num momento em que o Departamento de Defesa tenta debelar conflitos no Oriente Médio e equiparar sua competição militar com a China.

Fontes da Defesa afirmam que alertaram para o custo elevado de um conflito entre os países, que colocaria em risco 70 mil militares americanos que servem no Oriente Médio. 

Trump chegou a ser ambíguo sobre suas declarações a respeito do caso. Em um primeiro momento, afirmou que os EUA estavam "armados e carregados" para retaliações. Em seguida, declarou não querer "guerra com ninguém", reforçando que havia indícios do envolvimento do Irã.

O ceticismo do Departamento de Defesa com as políticas de Trump para o Irã não é novo. O Pentágono teve ressalvas à decisão do presidente de abandonar o acordo nuclear, no ano passado, e retomar as sanções contra o país.

Em junho, depois de um drone americano ter sido abatido no Estreito de Ormuz, Trump autorizou um ataque ao Irã e retrocedeu minutos antes

Enquanto o impasse continua, o Pentágono mantém em análise um repertório de medidas que não necessariamente incluem o uso da força. Uma delas é o aumento do número de tropas no Oriente Médio e o reforço do poderio militar americano na região. / NYT, W. POST e AFP

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