Jonathan Nackstrand/AFP
Imagem de Alfred Nobel ilustra entrada do Museu Nobel em Estocolmo Jonathan Nackstrand/AFP

Guia para entender o prêmio Nobel da Paz

Veja como a premiação foi criada e algumas curiosidades sobre ela

Redação, O Estado de S.Paulo

07 de outubro de 2019 | 08h00

O prêmio Nobel da Paz é concedido, desde 1901, a homens, mulheres e organizações que trabalharam para o progresso da humanidade, conforme o desejo de se criador, o inventor sueco Alfred Nobel. Ele é lembrado como o patrono das artes, das ciências e da paz que, antes de morrer, no limiar do século 20, transformou a nitroglicerina em ouro.

Este ano, o laureado foi o primeiro-ministro da Etiópia, Abiy Ahmed, "por seus esforços para alcançar a paz e a cooperação internacional, principalmente por sua iniciativa decisiva destinada a resolver o conflito na fronteira com a Eritreia".

Em 2018, a jovem yazidi Nadia Murad e o ginecologista congolês Denis Mukwege ganharam o Nobel da Paz por seus esforços contra o uso da violência sexual como arma de guerra. No ano anterior, ganhou a Campanha Internacional para a Abolição de Armas Nucleares, por chamar a atenção para as consequências do uso do armamento e chegar a um acordo pelo fim das armas nucleares. Em 2017, em razão de seus esforços para obter um acordo de paz com as Farc (Forças Armadas Revolucionárias da Colômbia), o ex-presidente colombiano Juan Manuel Santos levou o prêmio.

Surgimento do prêmio

Os prêmios Nobel nasceram da vontade do sábio e industrial sueco Alfred Nobel (1833-1896), inventor da dinamite, de conceder grande parte de sua fortuna aos que trabalham por "um mundo melhor".

O prestígio internacional destas recompensas se deve muito às somas generosas concedidas aos ganhadores - atualmente nove milhões de coroas suecas (US$ 910 mil) -, que são divididos entres os premiados, caso haja mais de um.

Alfred Nobel registrou sua vontade em um testamento assinado em Paris em 1895, um ano antes de sua morte em San Remo, Itália. Segundo o documento, deixava um capital de 31,5 milhões de coroas suecas, que equivaleria, levando em conta a inflação, a cerca de 2,2 bilhões de coroas suecas atuais (US$ 222 milhões).

Os rendimentos deveriam ser distribuídos a cada ano entre as pessoas que, no decorrer dos 10 meses anteriores, tivessem realizado "o maior benefício à humanidade". 

As categorias do prêmio

O testamento estipulava a distribuição desse crédito em cinco partes iguais: "A primeira parte a quem tiver feito a descoberta ou a invenção mais importante no campo da Física; a segunda a quem tiver realizado a descoberta ou progresso mais importante em Química; a terceira a quem tiver conseguido a descoberta mais importante no âmbito da Fisiologia ou da Medicina; a quarta a quem tiver produzido a obra mais destacada de tendência idealista no campo da Literatura; a quinta a quem tiver trabalhado mais ou melhor em favor da fraternidade entre os povos, da abolição ou da redução dos exércitos permanentes e da realização ou difusão de congressos pela paz".

Legalmente, o testamento não designava um beneficiário específico da fortuna. Por isso, após sua leitura em janeiro de 1897, membros da família Nobel o criticaram veementemente.

A Fundação Nobel

Além disso, Alfred Nobel designou em seu testamento os diferentes comitês que atribuem os prêmios a cada ano: a Academia Sueca para o de Literatura, o Karolinska Institutet para o de Medicina, a Real Academia Sueca de Ciências para o de Física e o de Química, e um comitê de cinco membros especialmente eleitos pelo Parlamento norueguês para o da Paz.

No entanto, não explicou as modalidades que cada comitê deveria seguir para atribuir os prêmios em sua disciplina. Foram necessários mais de três anos para resolver esta questão, com a criação da Fundação Nobel, encarregada de administrar o capital dos prêmios, enquanto os diferentes comitês se ocupam da atribuição.

E o Nobel de Economia?

Em 1968, coincidindo com seu tricentenário, o Banco Central da Suécia (Riksbank), o mais antigo do mundo, criou um prêmio de Economia em memória a Alfred Nobel, colocando à disposição da Fundação Nobel uma soma anual equivalente ao montante dos outros prêmios.

Retorno

O ano de 2019 marca o começo da ressurreição para a Academia Sueca, que entrega o Nobel de Literatura e que ficou exposta em 2018 ao tráfico de influência e às denúncias de agressão sexual.

A academia teve que adiar o anúncio do Nobel 2018 - algo inédito em 70 anos de história - ante a ausência do quórum requerido, em razão das renúncias em massa. Por isso, na quinta-feira haverá duas medalhas de ouro, uma para 2018 e a outra para 2019, cada uma acompanhada de um cheque de 9 milhões de coroas suecas (US$ 910 mil).

Isso depende, claro, de que os laureados aceitem o prêmio, desvalorizado a seus olhos, adverte Madelaine Levy, crítica do jornal Svenska Dagbladet.

Após o escândalo sexual, havia poucas dúvidas de que a academia outorgaria ao menos um prêmio a uma mulher, segundo os oráculos.

"Os prêmios Nobel, sobretudo os de Literatura e Paz, sempre são controversos", afirma Olivier Truc, autor de L'affaire Nobel (O caso Nobel). A consagração de Bob Dylan em 2016 havia indignado os ortodoxos. Em 2017, o prêmio ao escritor britânico de origem japonesa Kazuo Ishiguro, que reunia mais consenso, foi visto como uma reparação.

Polêmica

A origem do escândalo foi a publicação, em novembro de 2017, de testemunhos anônimos nos quais uma personalidade do mundo da cultura, próxima à Academia Sueca, era acusada de agressões sexuais, assédio e estupro.

As revelações, que surgiram semanas depois da acusação contra o produtor de cinema americano Harvey Weinstein e o lançamento do movimento #MeToo, apontavam para o francês Jean-Claude Arnault, casado com a poetisa Katarina Frostenson, membro da Academia. Arnault foi condenado a dois anos e meio de prisão por estupro. Katarina teve de abandonar sua cadeira.

A onda expansiva provocou uma avalanche de renúncias na Academia Sueca, corrompida pelos clãs e pelas vaidades. A tal ponto que o rei Carl XVI Gustaf, protetor da instituição, precisou intervir, algo incomum nesta democracia na qual a monarquia tem um papel de etiqueta. Desde então, a academia se renovou quase completamente, modificou seu estatuto e prometeu mais transparência em seu funcionamento. / AFP

Notícias relacionadas

    Encontrou algum erro? Entre em contato

    De Hitler a Michael Jackson, veja alguns candidatos inusitados ao prêmio

    Em seus quase 120 anos de existência a premiação tem sua cota de candidaturas pouco prováveis, exageradas ou claramente absurdas

    Redação, O Estado de S.Paulo

    08 de outubro de 2019 | 08h00

    OSLO - Apresentado como "o príncipe de Paz na Terra", Adolf Hitler foi cogitado para o Nobel da Paz há 80 anos, pouco antes do início da 2.ª Guerra, uma amostra de como é fácil fazer uma indicação ao prêmio mais prestigioso do mundo.

    Do Führer até o astro pop Michael Jackson, em seus quase 120 anos de existência o Nobel da Paz tem sua cota de candidaturas pouco prováveis, exageradas ou claramente absurdas. Veja algumas delas abaixo.

    Hitler

    Em janeiro de 1939, o social-democrata sueco Erik Brandt sugeriu ao Comitê Nobel norueguês que concedesse o prêmio a Hitler, alegando seu "ardente amor pela paz", sendo que a Alemanha nazista havia acabado de anexar a Áustria e invadir regiões da então Checoslováquia conhecidas como Sudetos.

    A carta de Brandt provocou um escândalo na Suécia, onde muitos não perceberam o sarcasmo. Brandt explicou que queria protestar contra a nomeação do então primeiro-ministro britânico, Neville Chamberlain, artífice dos acordos de Munique de 1938, pelos quais a Checoslováquia foi cedida em parte aos alemães.

    Para Entender

    Guia para entender o prêmio Nobel da Paz

    Veja como a honraria foi criada e os nomes cotados para este ano

    A proposta finalmente foi retirada, mas Hitler permanece no registro de candidatos ao Nobel. Essa história "mostra o quão perigoso pode ser usar a ironia em um ambiente político acalorado", disse o historiador Asle Sveen.

    Stalin e Mussolini 

    O caso também ilustra a facilidade com que uma pessoa ou organização, quaisquer que sejam seus méritos, pode competir pelo prêmio. 

    O Comitê Nobel aceita todas as propostas. As únicas condições são que elas sejam enviadas antes da data-limite de 31 de janeiro e que provenham de uma das milhares de pessoas com direito a fazê-lo, como parlamentares e ministros de todos os países, ex-contemplados, alguns professores universitários e/ou membros atuais ou passados do Comitê Nobel.

    "Há tantas pessoas que têm direito a propor um nome que não é difícil ser indicado", disse o secretário do comitê, Olav Njolstad.

    Em 1935, Benito Mussolini foi proposto - então, sem ironias - por acadêmicos alemães e franceses meses antes de a Itália invadir a Etiópia.

    Josef Stalin, um dos vencedores da 2.ª Guerra, também foi proposto em duas ocasiões, em 1945 e 1948. Uma vez recebidas as indicações, apenas algumas delas passam à lista resumida que é examinada pelo comitê e seus assessores.

    "Nem Hitler, nem Stalin, nem Mussolini foram considerados seriamente para o prêmio Nobel da Paz", disse o historiador Geir Lundestad, ex-secretário do comitê. "O que mais me surpreende é que muitos ditadores de todo o mundo se abstiveram de ser nomeados."

    Como o número de indicações explodiu nas últimas duas décadas, a ponto de superar os 300 aspirantes por ano atualmente, não surpreende que haja algumas surpresas. "Uma ou duas" candidaturas se distinguem por seu lado louco "em intervalos regulares", destacou Njolstad.

    Michael Jackson

    A lista de candidatos é mantida em sigilo durante pelo menos 50 anos, mas uma pessoa ou instituição que lança uma candidatura pode divulgar sua proposta. 

    Sendo assim, sabe-se que Michael Jackson entrou na corrida pelo Nobel da Paz em 1998.

    "Os parlamentares romenos que propuseram Michael Jackson julgaram esta nomeação bastante séria, mas tampouco foi estudada pelo comitê", disse Lundestad.

    O caráter insólito de uma candidatura depende da visão e dos tempos, e os méritos de um indivíduo podem desaparecer com os anos.

    Fifa

    No entanto, algumas candidaturas provocam reações de surpresa, como a do sérvio Slobodan Milosevic, mais tarde julgado por genocídio, ou da Federação Internacional de Associações de Futebol (Fifa), proposta em 2001.

    A bola de futebol "permitiu estabelecer boas relações entre os povos", argumentou o então deputado sueco por trás dessa candidatura.

    Não foi precisamente uma ideia nova, já que o francês Jules Rimet, considerado o "pai" da Copa do Mundo de Futebol, também tinha sido proposto em 1956, lembrou o jornalista Antoine Jacob, autor de Histoire du Prix Nobel (História do Prêmio Nobel).

    "Os nomes de artistas aparecem regularmente, mas é uma tendência mais recente", disse Njolstad.

    Donald Trump x Greta Thunberg

    Seu antecessor, Lundestad, já tinha mencionado em 2001 a ideia de que estrelas pop envolvidas em grandes causas - como Bob Geldof, Bono Vox e Sting - poderiam algum dia ser premiadas.

    Entre as indicações conhecidas este ano para o Nobel, que será anunciado no dia 11 de outubro, estão duas figuras públicas de pensamento antagônico: o presidente americano, Donald Trump, e a jovem sueca Greta Thunberg, representante da luta mundial contra as mudanças climáticas.

    "É bastante fácil ser nomeado", disse Lundestad. "É muito mais difícil ganhar", acrescentou. / AFP

    Encontrou algum erro? Entre em contato

    As polêmicas envolvendo os ganhadores

    Alguns premiados despertam dúvidas quanto ao verdadeiro trabalho realizado; você acha que o comitê do Nobel está certo em manter o prêmio a essas pessoas? Vote na nossa enquete

    Redação, O Estado de S.Paulo

    09 de outubro de 2019 | 08h00

    O prêmio Nobel da Paz é concedido aos que trabalham em prol de um mundo melhor e do progresso da humanidade. Pelo menos era esse o desejo de Alfred Nobel, inventor da honraria. Mas alguns ganhadores - de diversas categorias e não apenas o da Paz - despertaram dúvidas quanto o real motivo de serem escolhidos, se de fato o mereciam e até mesmo se a descoberta premiada é verdadeira. Veja alguns desses casos abaixo.

    Fritz Haber - Nobel de Química (1918)

    Fritz Harber foi premiado em 1918 com o Nobel de Química por descobrir como criar amônia a partir de gases de nitrogênio e hidrogênio. 

    Seu método foi utilizado para fabricar fertilizantes e impulsionar a agricultura no mundo. Contudo, a mesma descoberta foi usada durante a 1.ª Guerra, quando Harber supervisionou o primeiro grande ataque químico da história em Ypres, na Bélgica, em 1915, que matou milhares de soldados das tropas aliadas.

    Johannes Fibiger - Nobel de Medicina (1926)

    O cientista dinamarquês Johannes Fibiger ganhou o Nobel de Medicina em 1926 por descobrir que uma lombriga causava câncer em ratos. Havia apenas um problema: isso não era verdade. 

    Para Entender

    Guia para entender o prêmio Nobel da Paz

    Veja como a honraria foi criada e os nomes cotados para este ano

    Fibiger insistiu em suas pesquisas que desenvolveram câncer os ratos que ingeriram larvas das lombrigas ao comer baratas. Na época, os juízes do prêmio acreditavam que a informação fazia sentido. Mais tarde, descobriu-se que os animais desenvolveram a doença, na verdade, por falta de vitamina A.

    Paul Mueller - Nobel de Medicina (1948)

    O cientista suíço Paul Mueller ganhou o Nobel de Medicina em 1948 por descobrir que o DDT (diclorodifeniltricloroetano) era um pesticida poderoso que poderia matar muitas moscas, mosquitos e besouros em um curto espaço de tempo. 

    Apesar de o composto se provar muito eficaz ao proteger diversos cultivos e combater doenças provocadas por insetos, como a malária, descobriu-se também que ele não era algo tão positivo assim. 

    Em 1960, ambientalistas descobriram que o DDT estava envenenando a vida selvagem e o meio ambiente. Os Estados Unidos baniram a substância em 1972 e, 29 anos depois, o uso dela foi proibido por um tratado internacional.

    António Egas Moniz - Nobel de Medicina (1949)

    O português António Egas Moniz inventou em 1949 a lobotomia, com o objetivo de tratar doenças mentais. O método se tornou muito popular e, ao fim da cerimônia, foi qualificado como “uma das descobertas mais importantes já feitas na terapia psiquiátrica”. 

    Contudo, a prática teve graves efeitos colaterais. Alguns pacientes morreram e outros tiveram sérios danos ao cérebro durante o procedimento.

    Henry Kissinger - Nobel da Paz (1973)

    Conhecido como um dos premiados mais polêmicos, Henry Kissinger ganhou o prêmio em 1973 pelos esforços para o fim da Guerra do Vietnã

    Mas críticos apontam o envolvimento de Kissinger na Operação Condor enquanto era secretário de Estado americano e os bombardeios contra o Vietnã como elementos para questionar a escolha dele como ganhador.

    Mahatma Gandhi - Nobel da Paz (não recebido)

    O líder indiano Mahatma Gandhi, considerado um pivô da luta contra a violência, foi indicado para o Nobel da Paz mais de uma vez. Mesmo assim, nunca ganhou. 

    O comitê da premiação, que raramente admite um erro, acabou mais tarde reconhecendo que não premiar Gandhi foi uma falha. Em 1989 - 41 anos após a morte do indiano - a instituição prestou um tributo a Gandhi enquanto concediam o Nobel da Paz daquele ano a Dalai Lama.

    Aung San Suu Kyi - Nobel da Paz (1991)

    A ex-líder de Mianmar, Aung San Suu Kyi, ganhou o Nobel da Paz em 1991 por sua “luta pela democracia e direitos humanos” em seu país. 

    Mas em 2017, investigadores da ONU emitiram um relatório no qual acusavam Aung de promover uma campanha de “limpeza étnica” contra a minoria muçulmana rohingya.

    Rigoberta Menchútum - Nobel da Paz (1992)

    Rigoberta Menchútum ganhou o Nobel da Paz em 1992 por seu trabalho por justiça social e conciliação étnico-cultural, calcada no respeito aos direitos dos povos indígenas. Ela escreveu um livro em que relatava as atrocidades cometidas contra os maias.

    Contudo, após a premiação, levantou-se a questão de que a ativista poderia ter aumentado as histórias para tornar o livro mais emocionante.

    Yasser Arafat - Nobel da Paz (1994)

    Yasser Arafat ganhou o Nobel da Paz em 1994 por seu trabalho, ao lado do então premiê israelense, Yitzhak Rabin, e o então ministro das Relações Exteriores, Shimon Peres, nos acordos de Oslo, que criaram “oportunidades para um novo desenvolvimento em direção à fraternidade no Oriente Médio”.

    Muitos críticos condenam a premiação por vê-lo como um terrorista com “longo legado de promoção da violência”. Além disso, destacam a complicada relação de Arafat com o Hamas, as alegações de corrupção e a aversão a se comprometer com as proposições dos acordos de Oslo.

    Wangari Maathai - Nobel da Paz (2004)

    Wangari Maathai ganhou o Nobel da Paz em 2004 por sua contribuição em questões relacionadas ao desenvolvimento sustentável, democracia e paz. 

    A premiação, no entanto, foi ofuscada após uma declaração da ativista a um jornal queniano. Na ocasião, ela afirmou que a aids foi desenvolvida por cientistas ocidentais para dizimar a população da África.

    Barack Obama - Nobel da Paz (2009)

    O ex-presidente americano Barack Obama ganhou o Nobel da Paz em 2009 por seus esforços extraordinários em fortalecer a diplomacia internacional e a cooperação entre pessoas. 

    Contudo, a nomeação dele ocorreu apenas 12 dias após tomar posse como presidente americano. Muitos acusaram o comitê do Nobel de tomar uma decisão política ao premiá-lo.

    Ellen Johnson Sirleaf - Nobel da Paz (2011)

    Ao lado de outras duas mulheres, Ellen Johnson Sirleaf ganhou o Nobel da Paz em 2011 “por sua luta não-violenta pela segurança das mulheres e pelos direitos das mulheres de participar dos trabalhos da construção da paz” quando era presidente da Libéria.

    Em 2012, durante uma entrevista ao jornal britânico Guardian, ela se viu envolvida em uma polêmica ao defender as leis de seu país que determinam como crime práticas homossexuais.

    Juan Manuel Santos - Nobel da Paz (2016)

    O presidente da Colômbia, Juan Manuel Santos, ganhou em 2016 o Nobel da Paz por suas tentativas de estabelecer um acordo de paz com as Forças Armadas Revolucionárias da Colômbia (Farc)

    A polêmica desta vez está no fato de que a guerrilha, parte fundamental do acordo, não foi premiada junto ao mandatário. / Agências internacionais

    Tudo o que sabemos sobre:
    Prêmio Nobel da PazPrêmio Nobel

    Encontrou algum erro? Entre em contato

    De medalhas dissolvidas a prêmios leiloados, veja curiosidades sobre a premiação

    Um prêmio pode ser retirado de alguém? Já roubaram a medalha de algum ganhador? Saiba essas e outras questões

    Redação, O Estado de S.Paulo

    10 de outubro de 2019 | 08h00

    ESTOCOLMO - Por que não há Nobel de Matemática? O comitê do Nobel concede prêmio póstumo? A honraria pode ser retirada de alguém? É possível leiloar uma medalha do Nobel? Confira as respostas para essas questões e outras curiosidades sobre o prêmio Nobel e suas categorias.

    Medalhas de ouro dissolvidas

    Quando os nazistas invadiram a Dinamarca em abril de 1940, o Instituto Niels Bohr se preocupou com o destino das medalhas que os cientistas alemães Max von Laue e James Frank, ganhadores do Nobel de Física em 1914 e 1925, respectivamente, haviam guardado lá para evitar que fossem confiscadas.

    “No império de Hitler, era quase um pecado capital tirar ouro do país, e como o nome de Laue estava gravado na medalha, se as forças invasoras a tivessem descoberto teria havido consequências muito sérias para ele”, escreveu em 1962 o químico húngaro George de Hevesy, que trabalhava no Instituto.

    Para Entender

    De Hitler a Michael Jackson, veja alguns candidatos inusitados ao Nobel da Paz

    Em seus quase 120 anos de existência a premiação tem sua cota de candidaturas pouco prováveis, exageradas ou claramente absurdas

    Ao invés de enterrá-las, De Hevesy dissolveu as duas medalhas de ouro 23 quilates com água régia, um dos poucos reagentes capazes de atacar o nobre metal. Armazenada em uma prateleira do seu laboratório, a solução laranja passou despercebida pelos nazistas.

    Uma vez terminada a guerra, De Hevesy - que ganhou o Nobel em 1943 - provocou a precipitação do ouro em 1950, o que permitiu à Fundação Nobel entregar novamente as medalhas aos dois laureados alemães em 1952.

    Prêmios em família

    A história da família francesa Curie se funde com a dos prêmios Nobel. Em 1903, o casal Pierre e Marie Curie ganhou o prêmio de Física, e em 1911 Marie Curie recebeu o de Química, tornando-se o primeiro casal premiado. 

    Em 1935, a filha deles, Irene Joliot-Curie, e seu marido, Frédéric Joliot, ganharam o prêmio de Química. A irmã mais nova de Irene, Eve Curie, casou-se com Henry Richardson Labouisse, o qual, como diretor do Unicef, recebeu o Nobel da Paz em 1965.

    Outros casais já foram recompensados. Em 1974, o sueco Gunnar Myrdal foi contemplado com o Nobel de Economia e, oito anos depois, sua mulher, Alva, ganhou o da Paz

    Para Entender

    Guia para entender o prêmio Nobel da Paz

    Veja como a honraria foi criada e os nomes cotados para este ano

    Pais e filhos também acrescentaram seus nomes na história do Nobel, como os Bohr. Niels, o pai, ganhou o prêmio de Física em 1922, e Aage Niels, o filho, em 1975.

    Premiados que não foram à cerimônia

    Desde 1901, cinco ganhadores do Nobel da Paz não puderam participar da cerimônia em Oslo. Em 1936, o jornalista e pacifista alemão Carl von Ossietzky não foi pois estava em um campo de concentração nazista. Em 2010, o dissidente chinês Liu Xiaobo foi preso e, portanto, sua cadeira, na qual o prêmio foi depositado, ficou simbolicamente vazia. 

    Em 1975, o físico e dissidente soviético Andrei Sakharov foi representado por sua mulher, Elena Bonner. Oito anos depois, o sindicalista polonês Lech Walesa não viajou para Oslo por medo de não poder retornar ao seu país. 

    Em prisão domiciliar, a líder da oposição de Mianmar, Aung San Suu Kyi, que recebeu o prêmio em 1991, foi autorizada pelo conselho militar governante a viajar para Oslo, mas se absteve de ir com medo de não poder voltar.

    Nobel dado pode ser retirado?

    Um prêmio Nobel não pode ser retirado do ganhador em nenhuma circunstância. Contudo, alguns já tiveram suas medalhas desaparecidas em circunstâncias bizarras, trágicas ou espetaculares.

    Matemática deixada de lado

    Por que não existe um Nobel de Matemática? Pesquisadores da década de 1980 cunharam uma lenda: Nobel procurou vingar-se do amante de uma de suas própria amantes, o matemático Gösta Mittag-Leffler, embora nada sustente essa hipótese. 

    A explicação mais plausível para essa ausência é dupla. Em 1895, quando Nobel escreveu seu testamento, uma recompensa na área da matemática já existia na Suécia e, aparentemente, ele não via o benefício de instituir um segundo. Além disso, no início do século 20, as elites e a opinião pública favoreciam as disciplinas aplicadas.

    Confusão em plena Guerra Fria

    O nome dos laureados está gravado no verso das medalhas, exceto nos prêmios da Paz e de Economia, que o carregam nas laterais. Esta pequena diferença aumenta as possibilidades de confusão.

    Para Entender

    As polêmicas envolvendo Obama e outros ganhadores do Nobel da Paz

    Alguns premiados despertam dúvidas quanto ao verdadeiro trabalho realizado; confira

    Os premiados com o Nobel de Economia em 1975, o russo Leonid Kantorovish e o americano Tjalling Koopmans, voltaram aos seus países com as medalhas “erradas”, relata o site da premiação.

    Como os dois países estavam em plena Guerra Fria, foram necessários quatro anos de esforços diplomáticos para que as medalhas chegassem às mãos de seus verdadeiros proprietários.

    Prêmios leiloados

    A medalha de ganhador do Nobel da Paz de 1926 do francês Aristide Briand foi vendida após a morte dele por € 12,2 mil em 2008.

    Seis anos depois, o bilionário russo Alisher Usmanov adquiriu por US$ 4,1 milhões, sem contar as comissões, a medalha de James Watson, um dos descobridores da estrutura do DNA e autor de declarações polêmicas sobre a inteligência dos africanos.

    A compra acabou sendo um negócio próspero para o biólogo americano, já que o comprador decidiu devolver a medalha posteriormente.

    Roubo de medalhas

    O Ecomuseu da cidade francesa de Saint-Nazaire não conseguiu desfrutar durante muito tempo da medalha de Aristide Briand que comprou. Ela foi roubada em 2015 e desde então não se tem notícias dela.

    Na Índia, ladrões se apoderaram em 2017 da medalha do Nobel da Paz Kailash Satyarthi em sua casa. Tratava-se de uma cópia - a verdadeira estava exposta em um museu - e foi rapidamente recuperada.

    Menos sorte teve o Nobel de Literatura de 1913, Rabindranath Tagore, cuja medalha foi roubada em 2004 e continua em paradeiro desconhecido.

    Prêmio após a morte?

    Desde 1974, os estatutos da Fundação Nobel estipulam que um prêmio não pode ser concedido postumamente, a menos que a pessoa morra após ser anunciada como ganhadora.

    Antes disso, apenas dois nomes - ambos cidadãos suecos - haviam sido recompensados após a morte: o diplomata Dag Hammarskjöld (Nobel da Paz em 1961) e o poeta Erik Axel Karlfeldt (Nobel de Literatura em 1931). 

    Em 2011, após anúncio do prêmio de Medicina, a Assembleia Nobel do Instituto Karolinska soube da morte de um ganhador, o canadense Ralph Steinman, que morreu apenas três dias antes. No entanto, a instituição decidiu manter seu nome na lista dos vencedores mesmo assim.

    Um presente para Goebbels 

    Em 1943, o ganhador do Nobel de Literatura de 1920 Knut Hamsun deu de presente o seu prêmio ao ministro da propaganda nazista Joseph Goebbels.

    O escritor norueguês e simpatizante nazista foi condenado por traição quatro anos depois e passou o resto de sua vida em instituições mentais. Até hoje não se sabe o que aconteceu com a medalha dele. / AFP

    Tudo o que sabemos sobre:
    Oslo [Noruega]Prêmio Nobel da Paz

    Encontrou algum erro? Entre em contato

    Participe do quiz e veja o quanto você sabe sobre o prêmio

    Você acha que sabe tudo sobre o Nobel? Teste seus conhecimentos e descubra

    Redação, O Estado de S.Paulo

    10 de outubro de 2019 | 09h42

    Você acha que sabe tudo sobre o prêmio Nobel? Teste seus conhecimentos com o nosso quiz e descubra.

    Aproveite também para conferir o especial sobre a premiação: 

     De Hitler a Michael Jackson, veja alguns candidatos inusitados ao prêmio

     As polêmicas envolvendo Obama e outros ganhadores

    • De medalhas dissolvidas a prêmios leiloados, veja curiosidades sobre a premiação​

     

     

    Notícias relacionadas
      Tudo o que sabemos sobre:
      Prêmio NobelPrêmio Nobel da Paz

      Encontrou algum erro? Entre em contato

      Premiê da Etiópia, Abiy Ahmed ganha Nobel da Paz 2019

      Honraria foi concedida 'por seus esforços para alcançar a paz e a cooperação internacional, principalmente por sua iniciativa decisiva destinada a resolver o conflito na fronteira com a Eritreia'. Você concorda? Vote na nossa enquete

      Redação, O Estado de S.Paulo

      11 de outubro de 2019 | 06h00
      Atualizado 11 de outubro de 2019 | 15h55

      OSLO - O Nobel da Paz 2019 foi concedido nesta sexta-feira, 11, ao primeiro-ministro da Etiópia, Abiy Ahmed, de 43 anos, pivô da reconciliação entre o país e a Eritreia. Ele recebeu o prêmio "por seus esforços para alcançar a paz e a cooperação internacional, principalmente por sua iniciativa decisiva destinada a resolver o conflito na fronteira com a Eritreia", afirmou a presidente do Comitê Nobel, Berit Reiss-Andersen.

      A Etiópia está "orgulhosa como país" com o anúncio do prêmio, disse o chefe de governo local no Twitter, destacando que isso é o "reconhecimento" do trabalho do premiê em favor da "cooperação, unidade e coexistência". Para o secretário-geral da ONU, António Guterres, a aproximação entre a Etiópia e a Eritreia impulsiona a estabilidade na região.

      O anúncio foi na contramão de diversas casas de aposta, onde o nome mais cotado para ganhar o Nobel da Paz este ano era o de Greta Thunberg.

      O prêmio significará um impulso para o governante, que enfrenta uma onda crescente de violência entre diferentes grupos em seu país, onde estão previstas eleições legislativas em maio de 2020.

      "Honrado e feliz" pelo reconhecimento, Ahmed agradeceu a um "prêmio concedido à África". "Imagino que outros líderes na África pensem que é possível trabalhar nos processos de construção da paz em nosso continente", disse o jovem líder etíope em uma breve conversa por telefone com as instituições do Nobel.

      Quem é Ahmed?

      Abiy Ahmed rompeu com quase duas décadas de conflito entre seu país, o segundo mais populoso da África, e a Eritreia, seu pequeno e isolado vizinho.

      Para Entender

      De Hitler a Michael Jackson, veja alguns candidatos inusitados ao Nobel da Paz

      Em seus quase 120 anos de existência a premiação tem sua cota de candidaturas pouco prováveis, exageradas ou claramente absurdas

      Quando se tornou primeiro-ministro da Etiópia em 2018, deixou claro que desejava retomar o processo de paz paralisado, trabalhando em estreita cooperação com o presidente da Eritreia, Isaías Afwerki.

      As duas nações compartilham laços étnicos e culturais profundos, mas até julho de 2018 elas estavam presas em uma espécie de guerra fria, conflito que separou famílias, complicou a geopolítica e custou a vida de mais de 80 mil pessoas durante dois anos de violência na fronteira.

      Para Entender

      Sabe de tudo sobre o prêmio Nobel? Faça o quiz e descubra

      Teste seus conhecimentos e veja o quanto você sabe sobre a premiação

      Embora ainda haja trabalho a ser feito para garantir uma paz duradoura, o Comitê do Nobel, na Noruega, observou em sua citação que "Abiy Ahmed iniciou reformas importantes que dão a muitos cidadãos a esperança de uma vida melhor e de um futuro melhor".

      Berit observou que Ahmed ainda não havia sido contatado por telefone. "Se ele está me vendo agora, gostaria de transmitir meus mais calorosos parabéns", disse ela.

      Por que o trabalho de Ahmed é importante?

      O acordo de paz assinado há mais de um ano entre Ahmed e Afwerki se traduziu lentamente em medidas concretas para reconectar as duas nações. Mas isso tem sido apresentado como um exemplo de como as mudanças históricas podem ocorrer mesmo nos conflitos mais antigos e intratáveis. 

      Para Entender

      As polêmicas envolvendo Obama e outros ganhadores do Nobel da Paz

      Alguns premiados despertam dúvidas quanto ao verdadeiro trabalho realizado; confira

      As relações diplomáticas entre Etiópia e Eritreia foram retomadas, e os dois líderes e altos funcionários dos dois países se reuniram diversas vezes para discutir como se reconectar.

      "A paz não surge apenas das ações de uma das partes", disse Berit ao anunciar o prêmio. "Quando o primeiro-ministro Abiy estendeu a mão, o presidente Afwerki a agarrou e ajudou a formalizar o processo de paz entre os dois países."

      Vale ressaltar que as telecomunicações entre os dois territórios foram restauradas, permitindo que as famílias que foram divididas na guerra entrassem em contato. 

      Para Entender

      Guia para entender o prêmio Nobel da Paz

      Veja como a honraria foi criada e os nomes cotados para este ano

      Nos dias que se seguiram a esse avanço, alguns etíopes telefonaram para números da Eritreia aleatoriamente e vice-versa, apenas para falar com alguém do outro lado, simplesmente porque podiam. Outros rastrearam pais, irmãos e amigos.

      Quando o primeiro voo comercial da Ethiopian Airlines de Adis Abeba para a capital da Eritreia, Asmara, pousou no dia 18 de julho de 2018, os passageiros que saíram do avião ficaram de joelhos e beijaram o chão. 

      Duas irmãs separadas do pai na guerra, presas em lados opostos da fronteira, o abraçaram pela primeira vez após 20 anos de crescimento sem ele. / AFP e NYT

      Encontrou algum erro? Entre em contato

      Quem é o ganhador do Nobel da Paz, Abiy Ahmed

      Criado em uma casa sem eletricidade, ex-militar, ele foi alçado ao poder em 2017 pelo partido que controla a Etiópia há décadas, e promoveu reformas que mudaram o país

      Somini Sengupta, New York Times, O Estado de S.Paulo

      11 de outubro de 2019 | 07h22

      ADIS ABEBA - Na manhã do seu primeiro dia de aula, aos 7 anos, Abiy Ahmed, o agora premiê da Etiópia que ganhou o prêmio Nobel da Paz, ouviu a mãe sussurrando em seus ouvidos. "Você é único, meu filho. Você vai acabar no palácio. Então, quando você for para a escola, lembre-se de que um dia você será alguém que servirá à nação", disse ela.

      Parecia uma uma profecia absurda para um garoto que vivia em uma casa sem eletricidade em uma pequena vila etíope, mas ela deu um beijo em sua cabeça e o levou até a porta da escola. 

      Agora, com 43 anos, Abiy Ahmed não apenas está no palácio do governo como primeiro ministro, como ganhou um Nobel da Paz e se tornou o líder mais admirado da África: um homem que diz que quer mudar o país de dentro para fora - e rápido.

      Depois de assumir o cargo em março de 2018, ele acabou com duas décadas de hostilidades com o mais antigo inimigo da Etiópia, a Eritreia.

      Além disso, ele começou a abrir uma economia estatal rigidamente controlada, promete eleições multipartidárias em um país conhecido por prender dissidentes e decapitar os críticos mais estridentes: membros da diáspora etíope, que há muito organizam insurgências à distância. 

      A tarefa de Abiy é enorme. A Etiópia é a segunda nação mais populosa da África, com mais de 100 milhões de pessoas, em uma parte do continente onde as potências mundiais estão lutando por influência.

      O mesmo acontece com os riscos: milhões de jovens descontentes, pobreza generalizada, uma violenta luta por recursos entre os grupos étnicos da Etiópia e uma série de detratores dentro do governo que estão ameaçados por muitas mudanças - ou irritados por não haver mudanças suficientes.

      As alterações de Abiy são uma grande largada para a Etiópia, um país que por décadas adotou o modelo de governo que se assemelha ao da China, enfatizando o crescimento econômico liderado pelo Estado e com a supressão de divergências políticas.

      Mas Abiy sabe que seu país é esmagadoramente jovem, com idade média de 18 anos e sede de liberdade política e econômica.

      "Fechar uma porta é a pior abordagem", disse ele ao The New York Times, em Los Angeles, entre as reuniões de construção de pontes com etíopes que vivem nos Estados Unidos.

      As mudanças na Etiópia

      Muitas das promessas de Abiy continuam sendo a de abertura e liberdade. Ele ainda precisa suspender restrições à sociedade civil e não está claro como as eleições multipartidárias podem acontecer, como prometeu, em um país onde uma coalizão governante e seus aliados têm controle amplo sobre quase todas as instituições - e ocupam todos os assentos do Parlamento.

      A deputada Karen Bass, democrata da Califórnia, que se encontrou com Abiy no final de agosto, elogiou suas mudanças, mas alertou para os riscos de demandas crescentes.

      "Ele entregou uma série de mudanças, mas se a vida não mudar para todos, as pessoas vão ficar impacientes", disse ela. "As pessoas têm expectativas irreais."

      Mais do que apenas mudar a maneira como a Etiópia é dirigida, Abiy diz que quer mudar a maneira como os etíopes se vêem.

      "Construir pontes, derrubar muros" é um refrão constante em seus discursos, instando os etíopes a atravessar suas barreiras religiosas e étnicas para se verem como compatriotas, em vez de rivais.

      "Nós apenas nos culpamos", disse ele ao New York Times em 2018, mal escondemos nossa angústia. "Nós apenas nos odiamos." Ele chama isso de "pensamento em grupo".

      A dificuldade é evidente. A violência interétnica deixou quase um milhão de pessoas deslocadas de suas casas.

      Abiy encarna a mistura da Etiópia. Seu pai era muçulmano e Oromo, o maior grupo étnico do país. Os oromos têm sido marginalizados por décadas. Sua mãe era da etnia Amhara e cristã ortodoxa, e ela se converteu ao Islã quando se casou.

      Abiy se tornou protestante. Ele fala dos "ideais de amor, perdão e reconciliação".

      "Não é uma linguagem política. É uma linguagem religiosa ”, observou Ephraim Isaac, um intelectual etíope de estudos religiosos que se encontrou com Abiy logo depois que ele assumiu o cargo.

      Politicamente, Abiy é um privilegiado. Ele ingressou no exército aos 13 anos e criou a agência governamental de segurança cibernética em um país com rígido controle da internet. 

      Ele também se juntou à coalizão de governo que derrubou o domínio militar em 1991 e que dirige a Etiópia desde então. Seu partido, a Frente Democrática do Povo de Oromo, desempenhou um papel de oposição interna na coalizão.

      Em vez de esconder os sussurros de sua mãe, ele diz que os encampou. "Um dia eu serei seu chefe", lembra ele dizendo a altos funcionários, mesmo quando era um estafeta do governo, de nível médio.

      O acordo de paz entre Etiópia e Eritreia

      Então, em 2017, os protestos de jovens jovens Oromos, fartos de um governo dominado por grupos étnicos menores e mais poderosos, quase derrubaram o governo. O então primeiro ministro, Hailemariam Desalegn, renunciou. 

      Abiy, um Oromo, foi elevado ao posto de primeiro-ministro, em grande parte porque era visto como sendo a melhor chance de acalmar os protestos e manter o país unido.

      Imediatamente, ele pediu desculpas pelos assassinatos de manifestantes pelas forças do governo. Suspendeu a proibição de grupos de oposição e perdoou um dos prisioneiros políticos mais destacados de seu país.

      A paz com a Eritreia se tornou uma prioridade. Ele pediu que aqueles que tinham contato com a Eritreia - um dos países mais diplomaticamente isolados do mundo - entrassem em contato em seu nome. Ele queria conversar.

      Abiy disse que a ajuda veio de muitos líderes estrangeiros, incluindo o líder de fato dos Emirados Árabes Unidos, o príncipe herdeiro Sheikh Mohammed Bin Zayed, que desfruta de grande influência em Asmara, capital da Eritreia.

      Abiy disse que uma das maiores prioridades do príncipe herdeiro era a paz entre a Etiópia e a Eritreia, e teve o cuidado de acrescentar que também havia conversado com vários líderes africanos.

      A inovação no impasse veio do lado de Abiy. No início de junho, ele concordou em entregar à Eritreia uma cidade fronteiriça disputada por mais de 20 anos.

      No mês seguinte, os dois países declararam oficialmente o fim da guerra. Em meados de julho, o antigo presidente da Eritreia, Isaias Afwerki, visitou a Etiópia pela primeira vez em duas décadas. 

      Em um gesto de boa vontade, Abiy deu a ele um camelo, o animal nacional da Eritreia. Em setembro, os pontos de passagem de fronteira foram reabertos, abrindo caminho para o comércio.

      Abiy diz que não quer permanecer no palácio para sempre. Ele prometeu eleições competitivas mais limites de mandato para o primeiro-ministro.

      "Eu não sou rei", disse Abiy. “Meu objetivo final é ver eleições democráticas na Etiópia. Se isso acontecer, sentirei que cumpri meu objetivo. "

      Agora, os partidos políticos de oposição estão livres para operar, mas Abiy não disse quando e como ele vai propor leis que ampliem a participação política dos grupos da sociedade civil.

      "Damos a eles direitos para operar em nosso país. Também lhes daremos responsabilidade, porque o pensamento em grupo existe, a emoção existe ”, afirmou. "Nossa porta está aberta, mas vamos vigiar nossa porta."

      Leenco Lata, um dissidente político que retornou recentemente à Etiópia após 25 anos em exílio auto-imposto em Oslo, parabenizou Abiy Ahmed por tentar mudar o sistema de dentro para fora - algo que ele nunca viu no país antes.

      "Há uma luta dentro do governo, e a ala pró-reforma está no controle", disse Lata, que chefia uma organização política chamada Frente Democrática de Oromo.

      "Acredito no compromisso deste governo em instituir a ordem democrática neste país. Mas estou preocupado porque os obstáculos são enormes", acrescentou. "A cultura autocrática profundamente arraigada do país precisa ser reformada."

      A mudança de dentro para fora

      Abiy enfrenta forte resistência em casa - nos serviços de segurança e nos partidos políticos que há muito detêm o poder. Mas ele viajou aos Estados Unidos para remover um espinho de longa data do lado dos líderes da Etiópia: seus exilados.

      "O caos, a crise, o conflito no país, de alguma forma, estão relacionados à diáspora", disse ele. "Essa energia negativa opera na destruição do nosso país."

      Para conquistar dissidentes no exterior, ele está apelando para a saudade deles. Cerca de 23.000 etíopes no exterior foram efetivamente impedidos de voltar para casa por causa de suas atividades políticas. Abiy Ahmed retirou essas restrições.

      Como sinal dessa nova abertura, ele disse que os etíopes no exterior - milhares de pessoas que não pisavam no país há anos por medo de serem presos - poderiam ir para casa sem necessidade de visto no ano novo etíope.

      “A diáspora, a maioria deles, vive aqui fisicamente, mas a alma deles está lá. Virtualmente dia e noite eles estão na Etiópia ”, afirmou. "Eles nunca esperam vir para a Etiópia, para serem convidados para a Etiópia."

      Ele então realizou uma conferência com os exilados em uma ginásio de basquete na Universidade do Sul da Califórnia, parte de sua passagem por três cidades nos Estados Unidos com grande quantidade de imigrantes etíopes.

      As arquibancadas estavam lotadas. Alguns usavam camisetas com o rosto de Abiy Ahmed. Uma mulher colocou duas bandeiras no cabelo - uma etíope e a outra eritreia. Eles cantavam e aplaudiam quando Abiy Ahmed subiu ao palco.

      O primeiro-ministro exibia um blazer branco com lapelas bordadas em preto. Ele acenou, tocou seu coração com a mão, pregou.

      "Em vez de odiar e guardar rancor, precisamos nos unir em paz e amor", disse ele à multidão. “Quando vocês vão ajudar a Etiópia?”. Ele perguntou e pediu para que contribuíssem com o que ele chamava de “dinheiro macchiato” - pelo menos um dólar por dia - para ajudar a Etiópia a prosperar.

      E então ele ouviu. Um após o outro, dezenas de etíopes se manifestaram para destilar suas queixas. 

      Abraham Agonafer, um motorista de ônibus de Vancouver que foi até o comício em busca de respostas, pegou o microfone, vestindo as fotos de quatro jovens em sua camiseta. Eles eram estudantes que haviam desaparecido há muitos anos, disse ele. Ele queria que o primeiro ministro descobrisse o que aconteceu.

      "É por isso que vim até aqui", disse o homem mais tarde. "Suas reformas, elas me dão esperança."

      Encontrou algum erro? Entre em contato

      Entenda a relação de hostilidade entre Etiópia e Eritreia

      Premiê etíope ganhou o Nobel da Paz deste ano por seus esforços em resolver o conflito entre os dois países

      Redação, O Estado de S.Paulo

      11 de outubro de 2019 | 11h29

      A reconciliação entre Etiópia e Eritreia, pela qual o primeiro-ministro etíope, Abiy Ahmed, recebeu o Prêmio Nobel da Paz nesta sexta-feira, 11, ocorreu em 2018, após 30 anos de guerra da independência e hostilidades. Entenda o assunto abaixo.

      Independência da Eritreia

      Em 1962, o imperador etíope Haile Selassie anexou a Eritreia, então entidade autônoma federada da Etiópia.

      Em maio de 1991, após 30 anos de guerra contra o poder central, os rebeldes da Frente Popular de Libertação da Eritreia (FPLE) se aliaram à Frente Popular de Libertação de Tigré (FPLT) de Meles Zenawi, capturaram Asmara e instalaram um governo liderado pelo presidente Isaias Afeworki. Os rebeldes haviam participado da derrubada do regime de Megistu Haile Mariam, em Adis Abeba. 

      Para Entender

      Conheça Abiy Ahmed, premiê da Etiópia e ganhador do Nobel da Paz

      Criado em uma casa sem eletricidade, ele foi alçado ao poder em 2017; leia

      A Eritreia se tornou oficialmente independente no dia 24 de maio de 1993. Por meio de um acordo entre o FPLE e o FPLT, o país recuperou o controle dos portos de Massawa e Assab, deixando a Etiópia sem acesso ao Mar Vermelho.

      Conflito sangrento

      Em maio de 1998, os dois vizinhos entraram em guerra por algumas centenas de quilômetros de deserto ao longo de sua fronteira comum.

      A Eritreia acusou a Etiópia de ter alterado a linha da fronteira em cerca de 1 mil km, o que não ficou claro com a independência. Os etíopes, por outro lado, acusaram os eritreus de violar seu território ao invadir Badme, noroeste da Etiópia.

      Para Entender

      De Hitler a Michael Jackson, veja alguns candidatos inusitados ao Nobel da Paz

      Em seus quase 120 anos de existência a premiação tem sua cota de candidaturas pouco prováveis, exageradas ou claramente absurdas

      Passados dois anos, após o fracasso das negociações, a Etiópia lançou uma vasta ofensiva.

      Um acordo de paz, assinado em dezembro de 2000 em Argel, encerrou o conflito que deixou 80 mil mortos. Uma zona de segurança temporária de 25 km de extensão foi estabelecida na fronteira e supervisionada pela ONU.

      Mediação internacional 

      Em abril de 2002, em colaboração com o Tribunal Internacional de Arbitragem de Haia, uma comissão encarregada de delimitar a nova divisão estabeleceu territórios para cada parte, atribuindo a região disputada de Badme à Eritreia. A decisão foi considerada "totalmente ilegal e injusta" pela Etiópia.

      Para Entender

      Sabe de tudo sobre o prêmio Nobel? Faça o quiz e descubra

      Teste seus conhecimentos e veja o quanto você sabe sobre a premiação

      No fim de 2004, a Etiópia declarou aceitar o princípio do acordo e exigiu ajustes, o que a Eritreia rejeitou. A ocupação da cidade de Asmara e a necessidade de se defender da Etiópia foram argumentos utilizados pelo presidente Isaias, no poder desde 1993, para justificar um dos regimes mais repressivos do mundo.

      Em 2005, foram registrados movimentos constantes de tropas na área de fronteira. Confrontos periódicos faziam temer o ressurgimento de um conflito em larga escala.

      A paz 

      Em junho de 2018, o novo primeiro-ministro etíope, Abiy Ahmed, que iniciou reformas sem precedentes, anunciou sua disposição de encerrar a disputa.

      A Etiópia estava aberta a implementar o acordo de paz de 2000 e as conclusões da comissão na fronteira.

      Para Entender

      Guia para entender o prêmio Nobel da Paz

      Veja como a honraria foi criada e os nomes cotados para este ano

      No dia 8 de julho, foi realizada em Asmara uma reunião histórica entre Ahmed e o presidente da Eritreia, algo impensável algumas semanas antes.

      No dia seguinte, os dois líderes assinaram uma declaração comum que encerrou o estado de guerra. Em 16 de setembro, Etiópia e Eritreia assinaram um acordo de paz na Arábia Saudita. / AFP

      Encontrou algum erro? Entre em contato

      Por que Greta Thunberg não ganhou o Nobel da Paz?

      Comitê decidiu dar o prêmio ao premiê da Etiópia, Abiy Ahmed, mas será que a ativista ambiental tinha chances reais de ganhar?

      Redação, O Estado de S.Paulo

      11 de outubro de 2019 | 09h26

      A jovem ativista ambiental sueca Greta Thunberg era um dos nomes mais citados quando se falava sobre o ganhador do Nobel da Paz 2019. O prêmio coroaria o ano para a adolescente de 16 anos, no qual ela deixou de ser apenas uma estudantes sentada sozinha do lado de fora do Parlamento da Suécia para se tornar líder de um movimento global, inspirando milhões de pessoas pelo mundo a se unir a ela nos pedidos por ações de combate às mudanças climáticas.

      Mas ao invés de dar o prêmio à menina sueca, o Comitê do Nobel o concedeu nesta sexta-feira, 11, ao primeiro-ministro da Etiópia, Abiy Ahmed, por seus esforços em “alcançar a paz e a cooperação internacional”.

      O processo de seleção do ganhador do prêmio é altamente secreto. A única coisa que se sabia era que o comitê havia recebido 301 indicações. Os nomes são divulgados apenas pelas pessoas que o indicaram. Greta foi indicada por três deputados noruegueses.

      Para Entender

      De Hitler a Michael Jackson, veja alguns candidatos inusitados ao Nobel da Paz

      Em seus quase 120 anos de existência a premiação tem sua cota de candidaturas pouco prováveis, exageradas ou claramente absurdas

      É muito difícil prever quem vai ganhar, mas isso não impede as pessoas de tentar e/ou apostar em um determinado nome. Até a noite de quinta-feira, véspera do dia do anúncio, Greta liderava a disputa nas casas de aposta.

      Como os apostadores puderam estar tão errados?

      Vários fatores acabaram prejudicando a jovem, de acordo com especialistas no Nobel. Alguns argumentam, por exemplo, que ainda não há um consenso de que exista uma relação entre mudanças climáticas e conflitos armados.

      Outros analistas defendem que as mudanças climáticas causam tensão em certas regiões, o que pode levar à instabilidade política e a condições que poderiam culminar em um conflito.

      Ativistas ambientais já ganharam o Nobel da Paz?

      Ativistas ambientais já foram premiados anteriormente. Em 2007, o Painel Intergovernamental sobre Mudanças Climáticas (IPCC) e o ex-vice-presidente americano Al Gore ganharam “por seus esforços em construir e disseminar o conhecimento sobre a mudança climática causada pelo ser humano”. 

      Para Entender

      Guia para entender o prêmio Nobel da Paz

      Veja como a honraria foi criada e os nomes cotados para este ano

      Já em 2004, o prêmio foi dado a Wangari Maathai por “sua contribuição para o desenvolvimento sustentável, a democracia e a paz”. Em 1970, foi para Norman Borlaug, chamado muitas vezes de “pai da revolução verde”.

      Especialistas explicam, no entanto, que hoje isso é mais difícil de acontecer, já que o comitê procura ser mais fiel aos desejos do fundador do prêmio, Alfred Nobel. Em seu testamento, ele disse que o Nobel da Paz deveria ir para quem trabalhasse para avançar na “abolição ou redução de exércitos”, o que acabou sendo interpretado como um pedido ligado à paz e conflitos.

      Para Entender

      Sabe de tudo sobre o prêmio Nobel? Faça o quiz e descubra

      Teste seus conhecimentos e veja o quanto você sabe sobre a premiação

      Será que Greta ganha um dia?

      Parte dos especialistas argumentam que ainda é muito cedo para Greta ganhar um Nobel e que ainda faltam realizações de peso para ela se destacar entre outros nomes. A própria jovem disse que não protesta para “receber prêmios”.

      Questionada nas redes sociais sobre o que estaria fazendo no momento do anúncio do Nobel da Paz nesta sexta, ela respondeu que faria o que faz todas as sextas: protestando contra as mudanças climáticas. / W.POST

      Encontrou algum erro? Entre em contato

      O Estadão deixou de dar suporte ao Internet Explorer 9 ou anterior. Clique aqui e saiba mais.