Jason Szenes / EFE
Apesar das polêmicas, o avanço de um processo de impechment de Trump ainda é improvável Jason Szenes / EFE

Entenda o processo que pode levar ao impeachment de Trump

É possível que o presidente americano seja deposto? Como fica o cenário das eleições americanas de 2020? Fique por dentro dessa e de outras questões com este conteúdo especial

Redação, O Estado de S.Paulo

26 de setembro de 2019 | 07h38
Atualizado 01 de novembro de 2019 | 09h52

Depois de admitir que pediu para o novo governo da Ucrânia investigar Joe Biden - um dos principais democratas na corrida presidencial dos Estados Unidos de 2020 -, foi tornada pública a transcrição do telefonema entre o presidente americano, Donald Trump, e o ucraniano Volodmir Zelenski

O documento confirma que o republicano pediu ao líder ucraniano para investigar Biden, seu possível principal rival no pleito. A Câmara dos Deputados já liberou a abertura de inquéritos que podem levar ao impeachment de Trump.

Trump ofereceu se encontrar com Zelenski na Casa Branca depois de o ucraniano prometer conduzir a investigação sobre Biden e seu filho Hunter, que trabalhou na diretoria de uma empresa de gás ucraniana quando o pai era vice-presidente dos EUA. 

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Situação no Congresso

Apesar disso, o avanço de um processo de afastamento do presidente no Congresso ainda é improvável. Primeiro, o impeachment teria de ser aprovado pela maioria da Câmara dos Deputados, mas os democratas ainda não têm os votos, embora estejam cada vez mais próximos dos 218 votos necessários.

Segundo estimativa do site Politico, 216 deputados democratas são a favor do impeachment, 19 são contra - nenhum republicano até agora mudou de lado. 

De qualquer maneira, para condenar o presidente, o segundo passo seria uma condenação no Senado. A oposição tem apenas 47 de 100 senadores e precisaria do apoio de 67, ou seja, 14 senadores republicanos teriam de abandonar Trump. 

Leia abaixo a transcrição (em inglês) da conversa entre Trump e Zelenski divulgada pela Casa Branca:

A abertura de um processo, entretanto, teria impacto imprevisível na eleição, até mesmo para Biden, que teria de explicar a pressão atribuída a ele para derrubar em 2016 Viktor Shokin, procurador-geral ucraniano que investigava uma empresa na qual trabalhava seu filho Hunter. / NYT e W.POST

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Guia para entender a polêmica entre Trump, a família Biden e a Ucrânia

Como a acusação de Trump contra Biden e suspeitas democratas contra o republicano envolvem o país europeu e uma empresa de gás

Redação, O Estado de S.Paulo

23 de setembro de 2019 | 11h06

WASHINGTON - Depois de admitir no fim de semana que pediu para o novo governo da Ucrânia investigar Joe Biden - um dos principais democratas na corrida presidencial de 2020 - o presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, tenta mudar o foco da mais recente polêmica que o envolve na política americana.

Para isso, tanto o republicano quanto seu advogado pessoal, Rudy Giuliani, e outros aliados passaram a divulgar que o verdadeiro problema nesta história seria uma possível atividade corrupta envolvendo Hunter Biden, filho do político democrata.

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Leia abaixo tudo o que sabemos e o que não sabemos sobre o envolvimento do ex-vice-presidente e de seu filho na Ucrânia.

- O que levou à atual polêmica?

Na semana passada, a imprensa americana divulgou que um funcionário de inteligência do governo fez uma denúncia anônima sobre Trump. Essa fonte reportou a seus superiores que o presidente teria discutido detalhes sigilosos com o presidente da Ucrânia, Volodmir Zelenski

Segundo o Wall Street Journal, Trump pediu oito vezes a Zelenski no telefonema que os ucranianos investigassem a atuação do filho de Biden na diretoria de uma empresa de gás e ajudassem Giuliani na investigação sobre supostas irregularidades de Hunter Biden na companhia. 

Trump disse que não houve nada de inapropriado no telefonema, mas admitiu ter citado Biden nas conversas.

- Como ela pode afetar Trump?

Após a denúncia anônima do funcionário da inteligência dos EUA, o Conselho Nacional de Inteligência deveria ter notificado a Câmara, controlada pelos democratas, e o Senado, controlado pelos republicanos, sobre o caso, o que não ocorreu. 

Parlamentares de oposição dizem que o diretor interino do conselho, Joseph Maguire, se recusou a compartilhar detalhes da suposta transgressão para proteger Trump. Maguire será ouvido pela Comissão de Inteligência da Câmara nesta semana.

Além disso, democratas já estavam investigando esse telefonema para determinar se Trump e Giuliani estavam ou não pressionando o governo ucraniano a ajudar na campanha republicana de 2020.

- Joe Biden fez alguma coisa errada?

A questão é saber se Biden usou seu cargo de vice-presidente dos EUA (exercido entre 2009 e 2017) para ajudar uma empresa ucraniana do setor energético para qual seu filho trabalhou ao pressionar pela demissão de um promotor - cujo gabinete supervisionou uma investigação sobre o oligarca que era dono da empresa.

De acordo com reportagem do New York Times, não há evidencias de que o ex-presidente americano tenha tentado ajudar intencionalmente seu filho Hunter ao se posicionar a favor da demissão do promotor.

Na verdade, ex-assessores de Biden disseram que ele nunca fez nada para impedir outros esforços de investigação contra o oligarca Mykola Zlochevski - incluindo ações de outros funcionários do governo Obama para que os EUA apoiassem as investigações criminais das autoridades ucranianas e britânicas, e possivelmente uma investigação nos EUA, contra a empresa de energia Burisma Holdings e seu proprietário por possível lavagem de dinheiro e abuso de função.

- Quais são as evidências citadas por Trump?

O presidente americano tem sido vago sobre os detalhes de suas alegações, com exceção de um ponto: ele e seus aliados alegam que Biden ameaçou reter cerca de US$ 1 bilhão em garantias de empréstimos dos Estados Unidos se os líderes da Ucrânia não demitissem o promotor. 

No fim de semana, a campanha de Trump divulgou vídeos de Biden relembrando a ameaça contra a Ucrânia: "Eu disse: 'estamos indo embora em seis horas'.

"Se o promotor não for demitido, vocês não receberão o dinheiro", afirmou Biden durante um evento de 2018 patrocinado pelo Conselho de Relações Exteriores.

O procurador-geral da Ucrânia, Viktor Shokin, foi retirado do cargo pelo Parlamento ucraniano. Sua demissão fora solicitada não apenas por Biden e outros membros do governo Obama, mas por outros governos ocidentais e credores internacionais. 

Isso porque Shokin foi repetidamente acusado de ignorar casos de corrupção em seu escritório e entre a elite política ucraniana e foi criticado por não tornar públicos esses casos.

- Hunter Biden fez alguma coisa errada?

Hunter Biden não foi acusado de irregularidades relacionadas ao seu trabalho para Burisma, que pagou até US$ 50mil por mês em alguns meses por seu serviço no conselho de administração.

Ele disse em comunicado este ano que nunca discutiu seu trabalho para a Burisma com seu pai.

Mas ele foi criticado por grupos de fiscalização de governos nos EUA e na Ucrânia pelo que caracterizam como a percepção de um conflito de interesses e por permitir o uso do nome de sua família para melhorar a reputação da Burisma e de Zlochevski.

Desde 2012, Zlochevskyienfrenta uma longa lista de acusações de lavagem de dinheiro e sonegação de impostos, incluindo a supervisão de concessões de lucrativas licenças de gás para suas empresas enquanto era chefe do Ministério ucraniano de Ecologia e Recursos Naturais sob o governo do ex-presidente Viktor Yanukovych, alinhado com a Rússia.

Quando Hunter Biden ingressou no conselho da Burisma, ele não tinha experiência na Ucrânia. Ele tem um histórico profissional que inclui vários cargos que se cruzam com a carreira política do pai.

Quando Joe Biden representou Delaware no Senado, Hunter trabalhou para uma empresa emissora de cartão de crédito no Estado. Ele também trabalhou no Departamento de Comércio no governo do presidente Bill Clinton e como lobista de várias universidades, associações e empresas.

- O esforço de Joe Biden contra o promotor ajudaram a Burisma?

Os aliados de Zlochevski ficaram aliviados com a demissão de Shokin, cujo afastamento foi apoiado pelo então vice-presidente americano, segundo pessoas com conhecimento sobre o caso ouvidas pelo NYT.

Shokin não investigava profundamente Zlochevski ou a Burisma. Mas os aliados do oligarca dizem que o promotor ameaça levar o caso mais a sério para pedir subornos a Zlochevski e sua equipe.

Shokin foi substituído por um promotor chamado Yuri Lutsenko, a quem o ex-vice-presidente Joe Biden se referiu como "alguém que era íntegro na época".

Os representantes de Zlochevski também ficaram satisfeitos com a escolha, concluindo que poderiam trabalhar com Lutsenko para resolver as questões legais envolvendo o oligarca, disseram fontes.

Apesar de Lutsenko inicialmente adotar uma linha dura contra a Burisma, a empresa anunciou dez meses depois de o promotor assumir o cargo que a investigação contra ela havia sido encerrada completamente e que não havia mais alegações criminais pendentes contra Zlochevski e suas empresas.

O oligarca, que havia fugido do país em meio a investigações de promotores anteriores, foi removido por um tribunal ucraniano da "lista de procurados" e retornou ao país.

Este ano, no entanto, o gabinete de Lutsenko decidiu reiniciar a investigação sobre Zlochevski. O NYT informou que o promotor havia se comunicado com o advogado pessoal de Trump, Rudy Giuliani, que se tornou uma das principais vozes na acusação de corrupção contra os Biden. 

Aliados do ex-vice-presidente dos EUA e de Zlochevski acusam Lutsenko e Giuliani de tentar politizar uma questão já resolvida. O novo governo da Ucrânia substituiu Lutsenko no mês passado. / NYT e W. POST

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Guia do impeachment: veja o passo-a-passo para depor o presidente dos EUA

A presidente da Câmara dos Deputados dos EUA, Nancy Pelosi, abriu um processo de impeachment contra Donald Trump

Redação, O Estado de S.Paulo

24 de setembro de 2019 | 20h32

O escândalo envolvendo o presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, a respeito de uma ligação feita ao presidente da Ucrânia, Volodymyr Zelenski, com o objetivo de pedir uma investigação contra o filho do ex-vice presidente e pré-candidato democrata Joe Biden em troca de ajuda militar, levou à abertura de um processo de impeachment nesta terça-feira, 24, pela presidente da Câmara dos Deputados dos EUA, a democrata Nancy Pelosi.

A discussão do impeachment já fazia parte da rotina da Comissão de Justiça da Câmara desde abril, após a divulgação do relatório do ex-procurador Robert Mueller relacionado à obstrução de justiça, além de suspeitas de gasto de dinheiro público em propriedades e hotéis de Trump e pagamento de propinas para que detalhes de sua vida pessoal não fossem expostos.

Porém, o anúncio desta terça foi a primeira movimentação feita por Pelosi, que sempre pediu cautela aos congressistas.

Entenda como funciona o processo de impeachment nos EUA

Diferenças do Brasil

Ao contrário do Brasil, nos EUA a Comissão de Justiça da Câmara não precisa votar entre si e dar um parecer ao impeachment. O papel da Comissão é investigar o teor das denúncias e apresentar artigos concretos ao presidente da Câmara.

Após a apresentação do texto, a Câmara pode abrir um painel especial para a votação do impeachment ou levar a discussão diretamente ao plenário da Casa.

O processo também pode ser iniciado pelo caminho oposto, como já aconteceu anteriormente, quando o plenário da Casa votou em primeiro lugar e pediu à Comissão para que abrisse uma investigação com os itens apresentados.

No plenário, se ao menos um dos artigos do impeachment for votado pela maioria dos deputados, de um total de 435 pessoas, o processo inteiro automaticamente é levado ao Senado americano para votação.

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Ainda não está claro se uma resolução de impeachment seria aprovada no plenário da Câmara. Segundo contagem do jornal The New York Times, 185 deputados votariam a favor, 76 votariam contra ou estão indecisos, e 174 não responderam.

Caso o julgamento chegue ao Senado, o presidente não é retirado temporariamente do posto, diferentemente do Brasil. O impeachment equivale a um indiciamento, e só pode ser aplicado após a decisão dos Senadores.

Andamento no Senado

Ao chegar no Senado, o julgamento do impeachment é supervisionado pelo presidente da Suprema Corte.

Uma parte dos deputados assume o papel de promotores. O presidente tem o apoio de advogados de defesa, e os senadores assumem o papel de júri.

Se ao menos dois terços da Casa votar a favor do impeachment, o presidente é retirado de seu cargo. Há 100 senadores na Casa, entre eles 53 republicanos, pró-Trump, e 45 democratas, além de dois independentes.

Trump poderia concorrer nas eleições de 2020 mesmo sofrendo impeachment?

Se o processo for aprovado somente na Câmara, sim, já que equivale a um indiciamento e Trump permaneceria na presidência até a aprovação no Senado, caso ocorresse. Então, não iria interferir no processo eleitoral. 

Caso o impeachment seja aprovado no Senado como uma decisão final, o que nunca ocorreu na história dos EUA, cabe à interpretação dada pelos congressistas à Constituição americana. 

O cenário, entretanto, é pouco provável, já que Trump possui maioria no Senado.

Quais são as regras para um julgamento no Senado?

Não há regras estabelecidas. Em vez disso, o Senado aprova uma resolução primeiro estabelecendo os procedimentos de um julgamento. "Quando o Senado decide quais serão as regras a serem seguidas em um julgamento, eles vão elaborando mais sobre elas a medida que o processo vai seguindo", explicou Gregory B. Craig, que ajudou na defesa do ex-presidente Bill Clinton em seu procedimento de impeachment e mais tarde atuou como conselheiro da Casa Branca no governo de Barack Obama.

Por exemplo, explica Craig, as regras iniciais nesse caso concederam aos republicanos na época quatro dias para justificar a condenação, seguidos de quatro dias para a equipe jurídica do presidente defendê-lo. Essas foram essencialmente declarações de abertura do processo. O Senado decidiu então ouvir as testemunhas e se seria ao vivo ou gravado em vídeo. Eventualmente, o Senado permitiu que cada lado apresentasse várias testemunhas para serem gravadas em vídeo.

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As regras adotadas pelo Senado no julgamento de Clinton - incluindo aquelas que limitavam o número de testemunhas e a duração dos depoimentos - tornou mais difícil provar um ponto em específico em comparação com um julgamento normal em um tribunal federal, segundo explicou o ex-deputado Bob Barr, republicano da Geórgia que atuou na Câmara na época do julgamento e é ex-procurador americano.

"O impeachment é uma criatura em si", disse Barr. "O júri em um caso criminal não define as regras para um caso e não pode decidir quais evidências eles querem ver e o que não querem."

Quais são os padrões para um impeachment e remoção do cargo?

A Constituição não especifica muito sobre isso, tornando o impeachment e a remoção muito mais uma questão de desejo político, segundo analistas legais.

Por exemplo, a Constituição não dá detalhes sobre como os legisladores devem escolher como interpretar o que pode ou o que não pode constituir passível de impeachment "traição, suborno ou outros crimes e contravenções graves". Da mesma forma, não existe um padrão estabelecido sobre quais provas precisam ser apresentadas.

O Senado é obrigado a conduzir um julgamento?

A Constituição prevê claramente que se a Câmara destituiu um funcionário federal, o Senado deve então abrir um procedimento para conduzir um julgamento. Mas não há um mecanismo óbvio de fiscalização se o senador Mitch McConnell, líder da maioria republicano, simplesmente se recusar a convocá-lo, como ele se recusou a permitir uma audiência de confirmação e votação sobre uma indicação de Obama do juiz Merrick Garland, para preencher uma vaga na Suprema Corte em 2016.

Walter Dellinger, professor de Direito da Duke University e ex-procurador-geral interino do governo Clinton, disse que não está claro se seria McConnell ou o juiz John G. Roberts Jr. - presidente da Suprema Corte dos EUA - quem detém a autoridade de convocar o Senado com o objetivo de avaliar os artigos de impeachment aprovados pela Câmara.

De qualquer forma, ele pondera que a maioria republicana no Senado pode simplesmente votar para encerrar imediatamente o caso sem considerar as evidências, se quiser. / NYT e W. POST

 

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Veja a tradução da transcrição completa da conversa entre Trump e Zelenski

Presidente dos Estados Unidos implicitamente pediu ajuda ao presidente da Ucrânia para acelerar investigação sobre seu principal opositor nas eleições de 2020

Redação, O Estado de S.Paulo

25 de setembro de 2019 | 20h50

A Casa Branca divulgou nesta quarta-feira, 29, a transcrição da conversa entre o presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, e o da Ucrânia, Volodmir Zelenski, em 25 de julho, que pode levar ao impeachment do republicano.

O documento, que foi escrito com relatos de oficiais do governo americano que acompanharam a ligação, mostra detalhes da conversa que indica que Trump teria pedido auxílio de Zelenski para investigar o ex-vice presidente dos EUA e pré-candidato democrata Joe Biden, além de seu filho, Hunter Biden, na época funcionário de uma empresa de energia ucraniana. 

Leia a íntegra da transcrição:

Trump: Parabéns pela vitória. Nós todos acompanhamos dos Estados Unidos e você fez um grande trabalho. A forma como você veio de trás (na disputa) como alguém que não tinha muita chance e terminou vencendo facilmente é um grande feito. Parabéns.

Zelenski: Você está completamente certo, senhor presidente. Nós tivemos uma grande vitória e trabalhamos duro por isso. Trabalhamos muito, mas eu queria te confessar que eu tive uma oportunidade de aprender contigo.

Usamos algumas de suas habilidades e sabedoria, e conseguimos usá-las como exemplo para as nossas eleições. E, sim, é verdade que essas foram eleições únicas.

Estávamos numa situação única em que fomos capazes de alcançar um sucesso único. E posso te dizer o seguinte: na primeira vez, o senhor me ligou para parabenizar quando eu ganhei a eleição presidencial.

E agora o senhor está me ligando quando meu partido venceu as eleições legislativas. Acho que deveria me candidatar mais frequentemente para você continuar me ligando e falarmos com mais constância.

Trump: (risos) Essa é uma ideia muito boa. Acho que o seu país está muito feliz com isso.

Zelenski: Bom, sim. Para te falar a verdade, estamos tentando trabalhar duro, porque queremos drenar um pântano (da corrupção) aqui no nosso país. Trouxemos muitas pessoas novas. Não os velhos políticos, nem os políticos normais, porque nós queremos ter um novo formato e um novo tipo de governo. Você é um grande professor para nós nisso.

Trump: Bom, é muito gentil de sua parte dizer isso. Eu vou dizer que nós fazemos muito pela Ucrânia. Dedicamos muito esforço e muito tempo. Muito mais do que os países europeus estão fazendo e eles deveriam estar ajudando vocês mais do que estão.

A Alemanha não faz quase nada por vocês. Tudo o que eles fazem é falar, e eu penso que é algo que é um assunto do qual você realmente deveria falar com eles . Quando eu estava falando com Angela Merkel, ela mencionou a Ucrânia, mas não faz nada (sobre o assunto).

Muitos dos países europeus estão fazendo a mesma coisa, então eu acho que é algo que você deveria prestar atenção. Mas os Estados Unidos estão muito, muito bem com a Ucrânia.

Eu não diria que é necessariamente recíproco, porque estão acontecendo coisas que não são boas, mas os Estados Unidos estão sendo muito, muito bons com a Ucrânia.

Zelenski: Sim, você está completamente certo. Não apenas 100%, mas na verdade 1000% certo e eu queria te contar o seguinte: de fato, eu falei com Angela Merkel e eu me encontrei com ela. E eu também me encontrei e conversei com Macron.

E eu disse a eles que eles não estão fazendo o tanto que precisam para fazer quanto a questão das sanções (contra a Rússia). Eles não estão aplicando as sanções. Eles não estão trabalhando o tanto que deveriam trabalhar pela Ucrânia.

A questão é que, ainda que logicamente, a União Europeia deveria ser nossa maior parceira, na prática os EUA são um parceiro muito maior que a União Europeia. E eu sou muito grato a você por isso, porque os Estados Unidos estão fazendo muito pela Ucrânia.

E estão fazendo muito mais que a União Europeia, especialmente quando estamos falando de sanções contra a Rússia.

Eu também gostaria de te agradecer pelo seu grande apoio na área de defesa. Estamos prontos para continuar a cooperar para os próximos passos. Especificamente estamos quase prontos para comprar mais javelins (lançador de mísseis antitanque portátil ) dos Unidos Unidos com propósito de defesa.

Trump: Eu gostaria de pedir um favor a você, no entanto, porque o nosso país está passando por um bocado (de problemas) e a Ucrânia tem muitas informações sobre isso.

Gostaria que você descobrisse o que aconteceu com toda a situação com a Ucrânia, eles mencionam uma Crowdstrike (empresa de segurança cibernética que investigou os ataques aos servidores de e-mail do Partido Democrata nas eleições de 2016)… Acho que você tem um de seus milionários... e dizem que a Ucrânia tem o servidor.

Há muitas coisas que aconteceram, toda essa situação... Eu penso que você está se cercando das mesmas pessoas. Gostaria que o procurador-geral (William Barr) ligasse para você ou o seu pessoal e eu gostaria que você fosse a fundo nisso.

Como você viu ontem, todo esse absurdo acabou com uma fraquíssima performance de um homem chamado Robert Mueller, uma performance incompetente, mas eles dizem que muito disso começou com a Ucrânia. Seja lá o que você puder fazer, é muito importante que você faça isso, se possível.

Zelenski: Sim, é. É muito importante para mim tudo o que você mencionou antes. Para mim, como presidente, é muito importante, e nós estamos abertos para qualquer cooperação futura. Estamos prontos para abrir uma nova página na cooperação em relações entre os Estados Unidos e Ucrânia.

Para esse propósito, eu já retirei nossa embaixadora dos Estados Unidos e ela será substituída por um embaixador muito competente e muito experiente que vai trabalhar muito para garantir que as nossas duas nações continuem se aproximando.

Também gostaria, e espero, que ele tenha sua confiança e, tendo relações pessoais com você, para que possamos cooperar ainda mais.

Queria lhe dizer pessoalmente que um dos meus assistentes falou com o Sr. Giuliani (advogado pessoal de Trump) recentemente e estamos esperando que o Sr. Giuliani possa viajar para a Ucrânia e vamos nos encontrar assim que ele chegar aqui.

Eu apenas queria te garantir mais uma vez que você terá apenas amigos conosco. Eu vou garantir que eu me cerco com os melhores e com as pessoas mais experientes.

Eu também gostaria de te contar que somos amigos. Somos grandes amigos, e você, Sr. Presidente, tem amigos no nosso país, então podemos continuar nossa parceria estratégica.

Eu também planejo me cercar com boas pessoas, e, além dessa investigação, eu garanto como presidente da Ucrânia que todas as investigações serão feitas aberta e francamente. Isso eu posso te garantir.

Trump: Bom, porque eu ouvi que você tinha um promotor que era muito bom e ele foi afastado, e isso é bastante injusto. Muitas pessoas estão falando sobre isso: da maneira que ele foi afastado e vocês (ucranianos) tinham muitas pessoas ruins envolvidas nisso.

Sr. Giuliani é um homem muito respeitado. Ele foi o prefeito de Nova York, um grande prefeito, e eu gostaria que ele te ligasse. Eu vou pedir a ele que te telefone junto com o procurador-geral (William Barr).

O Rudy sabe muito bem o que está acontecendo e ele é um rapaz muito capaz. Se você puder falar com ele , seria ótimo. A ex-embaixadora da Ucrânia nos Estados Unidos, a mulher, era um problema e as pessoas com quem ela estava lidando na Ucrânia eram problemáticas, então eu só queria que você estivesse a par disso.

A outra coisa (é que) há muita conversa sobre o filho do Biden, que Biden parou a acusação e muitas pessoas querem investigar isso, então qualquer coisa que você puder fazer com o procurador-geral (William Barr) seria ótimo.

Biden andou por aí se gabando que ele parou a investigação, então se você puder verificar isso… Parece horrível para mim.

Zelenski: Eu gostaria de te falar sobre o promotor (ucraniano). Primeiramente, eu entendo e estou ciente da situação. Desde que ganhamos a maioria absoluta no Parlamento, o próximo promotor geral (da Ucrânia) será 100% meu candidato, quem será aprovado pelo Parlamento e vai começar como novo promotor em setembro.

Ele - ou ela- verificará a situação, especificamente para a empresa que você mencionou nesta questão (de Biden).

A questão da investigação do caso na verdade se trata de recuperar a honestidade (na Ucrânia), então nós vamos tomar conta disso e vamos trabalhar na investigação do caso.

Além disso, gostaria de gentilmente te pedir se você tem alguma informação adicional que você poderia nos prover.

Seria muito útil para a investigação, para ter certeza que vamos administrar a justiça no nosso país.No que diz respeito a embaixadora da Ucrânia nos Estados Unidos da Ucrânia, e se eu me lembro, o nome dela é Ivanovich.

Foi bom que você foi o primeiro, quem me contou que ela é uma embaixadora ruim porque eu concordo 100% contigo.

A atitude dela em relação a mim foi longe de ser a melhor, como ela admitiu ao antigo presidente que ela estava do lado dele. Ela não me aceita muito bem como novo presidente.

Trump: Bom, ela vai passar por algumas coisas. Eu vou fazer com que o Sr. Giuliani te ligue e eu também vou fazer com que o procurador geral Barr ligue e nós vamos ir a fundo disso.

Estou certo de que você vai conseguir. Ouvi que o promotor estava sendo tratado muito mal e ele era um promotor muito justo, então boa sorte com tudo. Eu prevejo que sua economia vai melhorar. Você tem muitos ativos. É um grande país. Eu tenho muitos amigos ucranianos, são pessoas incríveis.

Zelenski: Gostaria de te avisar que eu também tenho alguns amigos ucranianos que vivem nos Estados Unidos. Na verdade, a última vez que eu viajei para os Estados Unidos, eu fiquei em Nova York perto do Central Park e eu fiquei na Trump Tower. Eu vou falar com eles e espero os ver de volta, no futuro.

Eu também queria te agradecer pelo seu convite para visitar os Estados Unidos, especificamente Washington.

Por outro lado, eu também quero te garantir que nós vamos lidar seriamente com o caso (de Biden) e vamos trabalhar na investigação.

Sobre a economia, há muito potencial para os nossos dois países e uma das questões que são muito importantes para a Ucrânia é dependência energética.

Acredito que podemos ser bem-sucedidos e cooperar em independência energética com os Estados Unidos. Já estamos trabalhando em cooperação. Estamos comprando petróleo americano, mas eu estou muito esperançoso de um encontro futuro. Iremos ter mais tempo e mais oportunidades para discutir essas oportunidades e conhecermos melhor. Gostaria de te agradecer muito pelo seu apoio.

Trump: Bom. Então, muito obrigado e eu agradeço. Eu vou avisar ao Rudy e ao procurador geral Barr para ligarem  para você. Obrigado. Sempre que quiser vir à Casa Branca, sinta-se livre para ligar. Nos dê um dia e eu vou trabalhar nisso. Eu estou esperando te ver.

Zelenski: Muito obrigado. Eu ficaria muito feliz em ir e ficaria feliz de te conhecer pessoalmente e te conhecer melhor. Estou esperando pelo nosso encontro e eu gostaria também de te convidar para visitar a Ucrânia e vir para a cidade de Kiev, que é uma bela cidade.

Nós temos um belo país que te receberia bem. Em outro lado, acredito que no dia 1º de setembro nós estaremos na Polônia e podemos nos encontrar na Polônia.

Depois disso, poderia ser uma boa ideia para você visitar a Ucrânia. Podemos tanto pegar o meu avião e irmos para a Ucrânia ou pegar o seu avião, que provavelmente é muito melhor que o meu

Trump: OK, podemos ver isso aí. Estou esperando para te ver em Washington e talvez na Polônia, porque eu acho que estaremos por lá nesta data.

Zelenski: Muito obrigado Sr. Presidente.

Trump: Parabéns pelo bom trabalho que você fez. Todo o mundo está assistindo. Não estou certo se foi uma zebra, mas parabéns.

Zelenski: Obrigado, Sr. Presidente. Adeus. / TRADUÇÃO DE LUIZ RAATZ E LEVY TELES DOS SANTOS, ESPECIAL PARA O ESTADO

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Quem é Volodmir Zelenski, presidente ucraniano que pode motivar impeachment de Trump

Novato na política, ex-humorista chegou ao cargo mais alto do país com uma campanha que imitava seu antigo programa de TV e o apresentava com um paladino anticorrupção

Andrew Kramer / The New York Times, O Estado de S.Paulo

25 de setembro de 2019 | 15h33

WASHINGTON - Quando era ator na Ucrânia, Volodmir Zelenski interpretou um professor idealista cujo discurso contra a corrupção foi filmado por seus alunos e publicado na internet. Após se tornar viral, o personagem acaba sendo eleito para a presidência do país.

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O quadro fez parte de um programa de comédia no país, mas a mensagem de luta contra as negociações feitas nos bastidores se mostrou tão popular que Zelenski criou um partido político com o nome do seu programa de TV - Servo do Povo - e tornou-se presidente ucraniano de verdade, com uma campanha que imitava seu antigo programa e que foi construída em cima de sua imagem de paladino anticorrupção.

Agora, Zelenski, um novato político de 41 anos que assumiu o país em maio, está no meio de um possível processo de impeachment nos Estados Unidos que gira em torno da hipótese de o presidente americano, Donald Trump, tê-lo pressionado para que traísse os princípios que o levaram até o posto mais alto de seu país.

Trump e seu advogado pessoal, Rudy Giuliani, disseram publicamente que o ex-vice-presidente americano Joe Biden deveria ser investigado pelas conexões de seu filho com uma empresa ucraniana de energia. 

Recentemente, o presidente americano reconheceu ter mencionado as acusações de corrupção em um telefonema com Zelenski em 25 de julho, intensificando as alegações dos democratas no Congresso de que o presidente americano pressionou inadequadamente um governo estrangeiro para minar um de seus principais opositores na corrida presidencial de 2020.

E a confusão cresceu depois que altos funcionários do governo disseram que Trump ordenou pessoalmente a suspensão de US$ 391 milhões em ajuda à Ucrânia nos dias anteriores à ligação entre os dois. Uma das grandes questões é se Trump usou fundos vitais para a Ucrânia - um país que luta contra separatistas pró-Rússia - para tentar encontrar irregularidades de seu rival político nos Estados Unidos.

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O presidente americano descreveu sua conversa com o presidente ucraniano como "totalmente apropriada" e disse que não há "um quiprocó" envolvendo a ajuda americana para a Ucrânia e a investigação sobre os Biden. Mas, embora a questão tenha colocado Zelenski em uma situação desconfortável, ele não anunciou novas investigações sobre Biden ou seu filho.

Na verdade, durante seu telefonema com Trump em julho, Zelenski disse que o novo governo ucraniano tinha uma política de não intervir no sistema de justiça criminal do país, segundo um assessor presidencial, Andri Yermak.

Yermak, que discutiu a ligação durante uma entrevista em agosto - antes da conversa se tornar um foco de investigações do Congresso nos Estados Unidos - disse que já havia transmitido a mesma mensagem a Giuliani, que pressionava abertamente as autoridades ucranianas a investigar Biden.

"Eu sei que Zelenski, em conversa com Trump, disse o mesmo: que o princípio do novo governo da Ucrânia é a abertura, o respeito à lei e nenhum tipo interferência do governo no sistema judicial", disse Yermak sobre o telefonema entre os dois presidentes.

A polêmica colocou Zelenski - que deve se reunir com Trump nesta quarta-feira à margem da Assembleia-Geral das Nações Unidas - no centro da polêmica que se tornou o impasse entre Trump e os democratas do Congresso querem tira-lo do cargo.

Em interações anteriores entre autoridades ucranianas e americanas, Washington havia dado instruções para seus colegas de Kiev sobre a importância de acabar com a influência política nos tribunais do país, um problema na maioria das ex-repúblicas soviéticas. Essa prática tem até um nome - "justiça telefônica" -, que se refere às ligações clandestinas feitas por políticos a promotores e juízes.

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Como a acusação de Trump contra Biden e suspeitas democratas contra o republicano envolvem o país europeu e uma empresa de gás

Neste caso, porém, os papéis foram trocados, mas o novo governo ucraniano não cedeu às pressões de Trump, segundo um diplomata ocidental de alto escalão com base em Kiev que tem conhecimento das iniciativas de Trump e Giuliani em relação ao governo europeu.

Ainda segundo essa fonte, os encontros com Trump e Giuliani deixaram Zelenski e seus assessores um pouco chocados.

A pressão de Giuliani por uma investigação sobre Biden começou antes da posse de Zelenski em maio, colocando o novo governo em uma posição difícil, disse Serhi Marchenko, vice-chefe de gabinete do ex-presidente da Ucrânia.

"Se ajudarmos o governo Trump em algum processo que prejudique Biden, a longo prazo prejudicaremos as relações com os democratas", disse Marchenko. "Se ajudamos os democratas, irritaremos Trump."

Giuliani pressionou os ucranianos a investigar o filho mais novo de Biden, Hunter, que fazia parte do conselho de uma empresa de energia ucraniana, Burisma, e também as ações do ex-vice-presidente.

Os aliados de Trump argumentam que Biden tentou proteger a empresa quando pediu que o principal promotor da Ucrânia - que havia investigado a companhia - fosse demitido em 2016.

Pessoas familiarizadas com o telefonema de Trump com Zelenski em julho disseram que o presidente dos EUA insistiu várias vezes para que ele conversasse também com Giuliani.

Zelenski inicialmente rejeitou os apelos de Giuliani por uma reunião sobre uma investigação de Biden.

Depois disso, o principal assessor do ucraniano, Yermak, disse que ligou para Giuliani para transmitir a resposta do governo, que era essencialmente a sua promessa da campanha de não interferir no sistema de justiça do país.

Após o telefonema em 25 de julho entre Zelenski e Trump, Yermak disse que se encontrou com Giuliani em Madri. Na entrevista de agosto, Yermak disse a Giuliani que o novo governo em Kiev "garantiria a todos dentro do país e aos cidadãos e empresas estrangeiros uma justiça aberta e honesta".

Yermak disse que explicou que, sob o novo governo, o sistema de justiça seria justo e aberto para investigar possíveis crimes, mas que o governo não iria intervir.

Giuliani, no entanto, disse deixou de falar com Yermak "bastante confiante de que eles iriam investigar" Biden.

Agora que esses contatos se tornaram um ponto no debate no Congresso americano sobre a conduta de Trump, Zelenski e os membros de seu governo deixaram de falar sobre o caso. Yermak e outras autoridades recusam dar entrevistas, aparentemente para não serem envolvidos na batalha política cáustica americana.

É provável que a questão da corrupção volte à tona na reunião com Trump nesta quarta. Como se quisesse ressaltar o tema, Zelenski postou um vídeo na internet antes de partir para as Nações Unidas que pedia aos ucranianos que ligassem para um telefone especial do governo se algum funcionário público solicitasse propina.

"A Ucrânia é uma democracia muito jovem, como uma criança", disse Daria Kaleniuk, diretora do Centro de Ação Anticorrupção. “Os Estados Unidos são adultos. Mas às vezes as crianças se comportam como adultos e os adultos como crianças. ”

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A conversa que pode levar ao impeachment de Trump em 7 pontos

Transcrição divulgada pela Casa Branca do telefonema entre os presidente de Estados Unidos e Ucrânia não mostra um pedido explícito de ajuda, mas indica que Donald Trump pressionou Volodmir Zelenski

Redação, O Estado de S.Paulo

25 de setembro de 2019 | 14h54
Atualizado 25 de setembro de 2019 | 21h37

A Casa Branca divulgou nesta quarta-feira, 25, uma transcrição aproximada da conversa por telefone no dia 25 de julho entre os presidentes dos EUA, Donald Trump, e Ucrânia, Volodmir Zelenski.

Para Entender

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Estes são os principais pontos do documento que devem ser levados em consideração:

1 - Não há uma menção explícita a uma troca de favores

A ideia de que Trump divulgaria um documento que o mostrasse envolvido em um acordo explícito de troca de favores com um governo estrangeiro sempre foi irreal, mas vale ressaltar: não há um pedido explícito de ajuda feito pelo republicano na transcrição.

2 - Trump menciona que os EUA são 'muito, muito bons para a Ucrânia'

Os relatos sugeriam que Trump conversou com Zelenski sobre a investigação de Biden, mas que não havia uma contrapartida explícita - e que Trump não mencionou que ele estava retendo centenas de milhões de dólares em ajuda militar à Ucrânia.

Mas o documento indica que Trump fez questão, bem no começo da ligação, de dizer a Zelenski o quão bom os Estados Unidos são para a Ucrânia. "Vou dizer que fazemos muito pela Ucrânia", diz Trump. "Nós gastamos muito esforço e muito tempo."

Em seguida, Trump diz duas vezes que os EUA foram "muito, muito bons para a Ucrânia" e sugere que a Ucrânia não estava cumprindo sua parte no acordo.

"Os Estados Unidos têm sido muito, muito bons para a Ucrânia", diz Trump. "Eu não diria que é recíproco necessariamente porque coisas que não são boas estão acontecendo, mas os EUA têm sido muito, muito bons para a Ucrânia".

Para Entender

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Isso é significativo porque, mesmo na ausência de um pedido de contrapartida, Zelenski poderia acreditar que a ajuda ou alguma outra forma de assistência estava ligada às suas decisões.  O comentário de Trump de que o relacionamento não é "recíproco" também sugere que a Ucrânia não está fazendo o que deveria.

3 - Trump pergunta sobre as investigações

Depois que Zelenski responde, os próximos comentários de Trump tratam de investigações que ele gostaria de ver. 

O primeiro envolve a investigação sobre Rússia feita por Robert Mueller e outra a CrowdStrike, uma empresa de segurança na internet com sede nos EUA que analisou inicialmente a violação dos servidores do Comitê Nacional Democrata em 2016 e apontou para dois grupos de hackers que seriam vinculados à Rússia.

"Gostaria que você nos fizesse um favor, porque nosso país passou por muita coisa e a Ucrânia sabe muito sobre isso", disse Trump, em referência a essas investigações. "Tudo o que você puder fazer, é muito importante que você faça se for possível", diz Trump sobre a CrowdStrike.

Depois o presidente completa: "A outra coisa: fala-se muito sobre o filho de Biden, que Biden interrompeu a investigação e muitas pessoas querem descobrir sobre isso, então o que puder (descobrir) com o procurador-geral seria ótimo... Parece horrível para mim."

A forma como Trump fala sobre essas questões e seus comentários sobre como os EUA foram "muito, muito bons" para a Ucrânia tornam a conversa anda mais sugestiva.

4 - Uma ameaça explícita não seria a única violação

Muito se falou sobre se Trump ofereceu uma troca explícita de favores com a Ucrânia. E essa é uma pergunta importante, tanto porque autor da denúncia anônima contra o presidente alegou que houve algum tipo de "promessa" quanto porque pode ser especialmente prejudicial para Trump.

Mas mesmo sem falar explicitamente em uma contrapartida, o diálogo é grave. Trump pediu algo que pode ser interpretado como uma ajuda estrangeira para sua campanha de reeleição em 2020.

Trump também reteve quase US$ 400 milhões em ajuda à Ucrânia pouco antes da ligação telefônica. Os Estados Unidos estão em uma posição de poder em relação à Ucrânia devido a essa ajuda. E na ligação, Trump pede repetidamente à Ucrânia para fazer coisas específicas.

É difícil imaginar que Zelenski poderia interpretar esse conjunto de circunstâncias de forma que não fosse uma forte sugestão e até uma ameaça velada. 

Para Entender

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Mas não será surpreendente se nunca for descoberto um pedido explícito de contrapartida. Não é assim que Trump age, explicou Michael Cohen - seu antigo advogado - em um depoimento. Cohen disse que quando Trump está falando sobre coisas desagradáveis, ele "não dá ordens; ele fala em código".

É difícil acreditar que Zelenski não conseguiria decodificar o possível código usado por Trump no telefonema.

5 - A transcrição não absolve Trump e será uma peça importante do caso

A transcrição não indica um pedido explicito de contrapartida por Trump, mas não é a absolvição que o presidente americano disse que seria.

Isso porque a denúncia anônima envolve vários eventos e não apenas uma comunicação, como disse o inspetor-geral da comunidade de inteligência, Michael Atkinson, na semana passada ao Congresso. 

Este é o evento mais conhecido envolvendo Trump e Ucrânia, mas há muitas incógnitas. Ainda não se sabe quais outros eventos podem estar envolvidos, muito menos o que aconteceu neles.

O fato de Trump ter divulgado a transcrição da ligação e não da denúncia sugere que essa evidência é percebida como melhor para ele do que o resto. Também pode ser um balão de teste para ver como a ligação é recebida antes de tomar uma decisão sobre a divulgação da denúncia completa.

Também é importante lembrar que a transcrição não é uma descrição literal da conversa. É um memorando da Casa Branca feito com base nas anotações e lembranças dos funcionários da sala. Um aviso na transcrição aproximada adverte que vários fatores "podem afetar a precisão do registro, incluindo más conexões de telecomunicações e variações de sotaque".

Leia abaixo a transcrição (em inglês) da conversa entre Trump e Zelenski divulgada pela Casa Branca:

A defesa da Casa Branca até aqui centrou-se na ideia de que eles só queriam que a Ucrânia erradicasse a corrupção - ainda que esses casos de suposta corrupção sejam totalmente úteis a Trump.

Vale notar, no entanto, que Zelenski é o primeiro a levantar a questão da corrupção, dizendo a Trump: "Bem, sim, para dizer a verdade, estamos tentando trabalhar duro porque queríamos drenar o pântano (de corrupção) aqui em nosso país" (Zelenski curiosamente usa o a frase "drenar o pântano" de corrupção, um mantra repetido diversas vezes por Trump).

Não é de surpreender que Zelenski tenha levantado essa questão, já que a corrupção na Ucrânia é uma grande preocupação no Ocidente há anos. Mas a Casa Branca provavelmente usará isso como um argumento a favor de Trump.

7 - Comentários intrigantes sobre embaixadora dos EUA exonerada e o promotor da Ucrânia

Viktor Shokin é o procurador-geral da Ucrânia que foi demitido em 2016 graças aos esforços do então vice-presidente dos EUA Joe Biden e outros líderes ocidentais. 

A equipe de Trump argumentou que isso era corrupto porque Shokin estava investigando uma empresa de energia ucraniana, a Burisma Holdings, que empregava o filho de Biden, Hunter Biden (autoridades dos EUA e da Ucrânia disseram que a investigação estava parada quando Biden ajudou a forçar Shokin a ser demitido).

Mas, apesar de o promotor ser amplamente criticado, tanto na Ucrânia quanto em outros lugares, por ser muito permissivo em relação a casos de corrupção, Trump parece estar do lado dele.

"Bom porque ouvi dizer que você tinha um promotor muito bom e ele foi demitido e isso é realmente injusto", diz Trump no telefonema. "Muita gente está falando sobre isso, a maneira como eles demitiram seu promotor e o fato de ter algumas pessoas muito ruins envolvidas."

Trump acrescenta depois: "Ouvi dizer que o promotor foi muito mal tratado e que ele era um promotor muito justo, com boa intenção em tudo".

Trump também critica sua ex-embaixadora na Ucrânia, Marie Yovanovitch, que os democratas disseram ter sido exonerada pelo governo Trump em uma retaliação política. Ela foi tirada do cargo em maio, dois meses antes do previsto para retornar aos EUA.

"A ex-embaixadora dos Estados Unidos, era uma má notícia e as pessoas com quem estava lidando na Ucrânia eram más notícias, então eu só quero que você saiba disso", diz Trump.

Zelenski diz que gostou de Trump ter sido o primeiro a avisá-lo sobre Yovanovitch antes desta ligação. Trump responde, talvez até em tom ameaçador: "Bem, ela vai passar por algumas coisas". / THE WASHINGTON POST

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Impeachment nos EUA já atingiu três presidentes, mas nenhum foi deposto

Os democratas Bill Clinton, em 1998, e Andrew Johnson, em 1868 foram absolvidos pelo Senado; em 1974, Nixon renunciou antes da votação

André Marinho, especial para o Estado, O Estado de S.Paulo

25 de setembro de 2019 | 07h00

A presidente da Câmara dos Deputados dos Estados Unidos, Nancy Pelosi, solicitou nesta terça-feira, 24, a abertura de um processo de impeachment contra o presidente Donald Trump. A gota d'água para o pedido de Pelosi foi a denúncia de um telefonema que Trump teve com o presidente da Ucrânia, Volodymyr Zelenski, para articular no país uma investigação contra o filho do ex-vice presidente e pré-candidato democrata, Joe Biden

Previsto nos artigos I e II da Constituição dos EUA, o dispositivo do impeachment só foi usado contra três presidentes na história do país. Dois deles, Andrew Johnson, em 1868, e Bill Clinton, em 1998, foram alvos do processo na Câmara dos Deputados, mas foram absolvidos pelo Senado. Já Richard Nixon, em 1974, renunciou antes mesmo da votação no Congresso. 

A origem do instrumento, no entanto, remonta a alguns séculos antes. Em 1787, durante convenção na Filadélfia, a elite política americana debatia maneiras de impor limites ao poder presidencial. O objetivo era impedir que líderes usassem a própria máquina da democracia para instituir um governo autoritário. 

Foi em meio a essas discussões que Alexander Hamilton, considerado um dos pais fundadores da República dos EUA, descreveu as condições para o impeachment: "ofensas que derivam da má conduta de homens públicos ou, em outras palavras, do abuso ou violação da confiança pública". 

Desde então, diferentes crises políticas colocaram o cargo presidencial em risco. Confira abaixo:

Para Entender

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Como a acusação de Trump contra Biden e suspeitas democratas contra o republicano envolvem o país europeu e uma empresa de gás

Bill Clinton

Em 1997, a estagiária da Casa Branca, Monica Lewinsky, que na época tinha 22 anos, confidenciou a uma funcionária do Pentágono que havia mantido um relacionamento extra-conjugal com o então presidente Bill Clinton. Era o início do escândalo que consumiria mais de um ano de debates acalorados em Washington e culminaria no impeachment do democrata. 

Em janeiro de 1998, após o caso ir à público, Clinton garantiu, em rede nacional, que "não teve relações sexuais com aquela mulher, a senhorita Lewinsky". A declaração chamou atenção do procurador Kenneth Starr, que investigava acusações de assédio sexual contra o presidente feitas pela servidora pública Paula Jones

Meses depois, após as apurações indicarem evidências de que houve o relacionamento, Clinton ficou encurralado. Em 17 de agosto, com semblante aflito, sentado em um cômodo privado da Casa Branca, ele voltou à TV para admitir: "Tive relações inapropriadas com a senhorita Lewinsky".

A confissão serviu de deixa para a oposição. Em 8 de outubro, a Câmara dos Deputados, controlada pelos republicanos, autorizou a abertura do inquérito contra o presidente. Dois meses depois, em 19 de outubro, a Casa aprovou o impeachment, por perjúrio e obstrução de Justiça.        

O processo chegou ao plenário do Senado em fevereiro de 1999. Por 55 votos (45 democratas e 10 republicanos), Clinton foi inocentado da acusação de perjúrio. No caso da obstrução, o placar foi mais apertado: 50 a 50. 

O imbróglio acabou revitalizando a imagem pública do democrata. Em um levantamento conduzido pelo instituto Gallup em meio ao processo, divulgado em dezembro de 1998, a aprovação de Clinton alcançou 73%, frente a uma rejeição de 25%. 

Richard Nixon

Três décadas antes, foi um republicano o alvo do fantasma do impeachment. Em 1974, Richard Nixon era o protagonista de um dos maiores escândalos da história política dos EUA, o Watergate. O nome se referia ao prédio que sediava o comitê Nacional do Partido Democrata, em Washington, invadido em 1972 por cinco homens. 

O objetivo do grupo era grampear telefones do escritório para obter informações comprometedoras sobre a cúpula da legenda. A princípio, o incidente foi tratado como um caso de segurança pública, mas os jornalistas Bob Woodward e Carl Bernstein, do jornal The Washington Post, descobriram que um dos homens constava na lista de pagamentos do comitê de reeleição de Nixon. 

Após dois anos de investigações, com a ajuda de uma fonte anônima conhecida como Garganta Profunda, os repórteres reveleram um esquema de espionagem comandado por assessores do presidente. As apurações também mostraram que uma série de gravações que poderiam implicar Nixon haviam sido editadas. 

O republicano até tentou bloquear a divulgações dos áudios, mas a Suprema Corte decidiu, por unanimidade, que ele deveria torná-los públicos. A decisão incentivou a Câmara dos Deputados a deflagrar o impeachment contra Nixon. Mas o inquérito não foi para frente: em 8 de agosto de 1974, o presidente renunciou ao cargo e abriu caminho para a posse do vice-presidente, Gerald Ford. No mês seguinte, Ford anunciou o perdão de todos os supostos crimes de seu antecessor, que nunca foi julgado pelo caso Watergate. 

Andrew Johnson

As cicatrizes da sangrenta Guerra de Secessão, que opôs os estados abolicionistas do Norte aos escravagistas do Sul, ainda nem haviam sido fechadas quando, em 1868, o democrata Andrew Johnson se tornou o primeiro presidente americano alvo de impeachment. 

Johnson, que assumira a presidência após o assassinato do republicano Abraham Lincoln, tinha um plano de reconstrução pós-guerra considerado muito leniente pelos republicanos em relação aos sulistas. Insatisfeito com a oposição no próprio gabinete, o presidente demitiu o secretário de guerra Edwin M. Stanton, um republicano radical, sem consultar o Congresso. 

Com a medida, a Câmara dos Deputados iniciou os procedimentos de impeachment contra Johnson, que acabou absolvido no Senado por muito pouco: 35 senadores votaram por removê-lo e 19 por inocentá-lo. O placar, no entanto, ficou abaixo dos dois terços necessários para a deposição. 

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Como a crise entre Trump, Biden e Ucrânia fez democratas apostarem no impeachment

Denúncia envolvendo a Ucrânia é mais fácil de ser vendida pelos democratas ao público cético

Amber Phillips/ Washington Post, O Estado de S.Paulo

25 de setembro de 2019 | 06h00

WASHINGTON - A presidente da Câmara dos Deputados, Nancy Pelosi, democrata pela Califórnia, decidiu apoiar a abertura de investigações para o impeachment do presidente Donald Trump depois de meses de resistência. 

Uma denúncia anônima de um agente de inteligência envolvendo Trump e a Ucrânia parece ser o fator que precipitou a decisão dos democratas céticos quanto à eficácia do impeachment na Câmara – mas por quê?

Rússia e ofensas a deputadas

No primeiro semestre, uma investigação de quase dois anos constatou que Trump saudou a ajuda da Rússia nas eleições de 2016 e pode ter atuado na obstrução da justiça depois que assumiu o cargo. 

Para Entender

Guia para entender a polêmica entre Trump, a família Biden e a Ucrânia

Como a acusação de Trump contra Biden e suspeitas democratas contra o republicano envolvem o país europeu e uma empresa de gás

Em julho,  Trump usou linguagem racista para atacar quatro mulheres, congressistas democratas. Pelosi e outros poderosos democratas da Câmara se opuseram ao impeachment apesar de tudo isso. Até agora.

É possível que a decisão de Pelosi tenha sido forçada pelos fatos.  Trump diz que não fez nada de impróprio, mas os republicanos do Senado enfrentam dificuldades para defendê-lo.

Talvez os líderes democratas da Câmara sentissem que não tinham escolha a não ser apoiar o processo de impeachment que já está sendo encaminhado no Comitê Judiciário. 

Convencimento dos mais céticos

Também é possível que Pelosi finalmente tenha encontrado algo com o qual ela possa convencer um público cético quanto ao impeachment.

As acusações a Trump têm muitas camadas, mas são mais fáceis de se compreender do que o descoberto pelo conselheiro especial Robert Mueller sobre a Rússia.

Não havia um definitivo “sim, Trump violou a lei ao fazer x, y e z”, nas 448 páginas do relatório Mueller. Em vez disso, ele pintou a imagem detalhada de um presidente que pode ter obstruído a justiça no sentido legal e cuja campanha deu as boas-vindas à ajuda da Rússia, mas não alcançou a definição legal de conluio com um poder estrangeiro. Há muitas nuances no relatório Mueller que não cabem em um adesivo de para-choque.

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Filho de Joe Biden muda rumos de eleição americana

Ao acusar Trump de abuso de poder por pedir à Ucrânia dados sobre negócios de seu filho, democrata precisará explicar tema incômodo

Em contraste, as alegações da Ucrânia podem ser resumidas em uma frase.  “O presidente dos Estados Unidos pode ter usado sua posição para pressionar um país estrangeiro a investigar um oponente político, e ele buscou usar dólares dos contribuintes americanos como alavanca para fazê-lo”.

Investigações devem ser lentas

Ainda não se sabe o que há na denúncia original do informante. Mas a essência geral é que Trump = corrupção. Se Pelosi precisava de uma ação de Trump para aprimorar a frase, talvez seja esta.

Outra razão pela qual as alegações da Ucrânia romperam a barragem do impeachment pode ser o fato de os investigadores do Congresso terem sentido que não tinham mais opções para responsabilizar Trump por seus atos. Ele e sua administração impediram, ignoraram e zombaram das intimações do Congresso. Será que ir à justiça para conseguir informações faria com que o Congresso parecesse ainda mais fraco?

Alguns legisladores democratas estão tão desesperados por respostas que começaram a considerar o poder há muito adormecido do desprezo inerente, ou multar funcionários que não cooperam ou até mesmo levá-los à cadeia. O impeachment, disse Adam Schiff, presidente do Comitê de Inteligência da Câmara, no domingo, “pode ser a única solução equivalente ao mal que a conduta dele representa”.

 

 

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Filho de Joe Biden muda rumos de eleição americana

Ao acusar Trump de abuso de poder por pedir à Ucrânia dados sobre negócios de seu filho, democrata precisará explicar tema incômodo

Redação, O Estado de S.Paulo

22 de setembro de 2019 | 06h00

WASHINGTON - A menção do filho do ex-vice-presidente americano Joe Biden, Hunter Biden, nos telefonemas entre o presidente americano Donald Trump e o ucraniano Volodmyr Zelenski já impacta a sucessão presidencial de 2020. Os telefonemas tornaram-se um problema para Trump depois de que um funcionário de inteligência notificou seus superiores que o presidente tinha falado de segredos de Estado com um líder estrangeiro

Quando Trump falou no telefone com Zelenski no fim de julho, disse ao colega que a Ucrânia poderia melhorar sua imagem se fossem encerrados alguns casos de corrupção que “inibiam a interação com os EUA”, segundo fontes que conheciam o teor da chamada. 

O que nenhum dos dois governos disse publicamente na época é que Trump foi mais fundo - especificamente, pressionando o presidente ucraniano a reabrir uma investigação de corrupção envolvendo o filho de Biden. 

Subitamente, Biden se confronta com duas realidades conflitantes: o presidente que ele espera derrotar no ano que vem, e a quem descreve como moralmente incapaz para o cargo, está sob escrutínio por um comportamento que para muitos beira a traição. Mas a história está inextricavelmente ligada ao filho de Biden - um dos temas que o democrata se sente mais desconfortável em discutir sob os holofotes.

O desafio de tirar vantagem desse momento político sem ser enredado pelo rival ficou evidente nas respostas dadas por Biden a repórteres na sexta-feira, em Iowa. Primeiro, ele reagiu defensivamente; mais tarde, numa declaração formal de sua campanha, denunciou decididamente as ações de Trump.

Quando Biden entrou na corrida presidencial, ele desencadeou muitas críticas sobre os negócios e ligações de Hunter no exterior. A campanha de Biden esperava que o assunto esfriasse, porém isso não será fácil se os democratas da Câmara se empenharem no impeachment de Trump. 

Advogado de Trump pediu investigação a ucranianos

Dias após os dois presidentes conversarem, o advogado pessoal de Trump, Rudy Giuliani, encontrou-se com um assessor do presidente ucraniano em Madri e citou dois casos específicos que acreditava que a Ucrânia deveria atrás. 

Um era uma investigação sobre um magnata ucraniano do gás de cuja empresa o filho de Biden, Hunter, fizera parte da diretoria. Outro era uma acusação de que democratas se juntaram a ucranianos para divulgar informações sobre o Paul Manafort, ex-presidente da campanha de Trump na eleição de 2016.

“Seu país deve aos EUA, e a ele mesmo, descobrir o que realmente aconteceu”, disse Giuliani a Andrei Yermak, o assessor do presidente ucraniano, na reunião em Madri. Yermak, segundo Giuliani, disse que os ucranianos estavam dispostos a prosseguir com as investigações. 

O assessor reiterou o pedido ucraniano de uma reunião com Trump, explicando que seria um importante sinal à Rússia do apoio de Washington à Ucrânia. Falei com ele sobre o pacote completo”, disse Giuliani. Yermak não quis comentar o assunto.

Trump pode ter usado cargo para benefício político

Novas revelações sobre a dupla pressão sobre a Ucrânia - de Trump e de Giuliani - alimentam as especulações sobre se Trump usou seu governo para forçar um país estrangeiro a tomar medidas contra seus opositores políticos. 

Especialistas em segurança nacional consideraram “altamente inapropriadas” as eventuais pressões de Trump sobre a Ucrânia. “Pedir ajuda um governo estrangeiro para manchar a imagem de um rival político abre as portas para intervenções externas em nossa política e eleições”, disse David Kramer, ex-funcionário do Departamento de Estado no governo de George W. Bush.

A um ex-funcionário do governo, Trump disse que “o que estamos fazendo na Ucrânia não tem sentido e apenas irrita a Rússia”. Segundo o funcionário, a posição do presidente é a de que os EUA precisam aceitar o fato de que os russos devem ser nossos amigos, e o funcionário acrescentou: “Além disso, quem liga para a Ucrânia?”. 

Giuliani queria informações sobre filho de Biden

Giuliani pressionou funcionários ucranianos a renovarem a investigação sobre as atividades de Hunter Biden, que foi assessor na empresa de gás quando seu pai era encarregado da política ucraniana-americana. 

Em particular, Giuliani alega que Hunter defendeu o afastamento de um promotor que investigava acusações de corrupção contra o dono da empresa de gás. Yuri Lutsenko, ex-procurador-geral ucraniano, disse à Bloomberg News que não há provas de conduta errada de Joe ou Hunter Biden.

Giuliani disse que há mais para ser revelado, acrescentando que seu objetivo é impedir que Biden seja presidente sem antes esclarecer sua atuação na Ucrânia.

Republicanos podem pressionar Biden sobre Ucrânia

Embora as audiências se concentrem o comportamento do presidente, a ala republicana na Casa vai também amplificar as questões sobre as ações de Biden quando ele estava no governo.

As notícias chegam também num momento em que rivais democratas de Biden, desesperados para ganhar força, estão esquecendo os escrúpulos em atacá-lo duramente. 

E, embora alguns possam fechar com Biden, considerando desleal e potencialmente ilegal atacar um companheiro democrata , outros podem se questionar sobre se Biden é o melhor candidato democrata para conter Trump.

“Criticamos diariamente Trump e dizemos que seu governo é o mais corrupto da história dos Estados Unidos”, disse Grant Woodward, advogado e um antigo consultor democrata de Iowa. “Vai ser problemático para Biden se tiver de responder a perguntas sobre si mesmo.” /WASHINGTON  POST

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Análise: Para os republicanos todos são culpados, menos o presidente

Apesar de toda a discussão sobre a complexidade da controvérsia em torno das conversas do presidente Donald Trump com o presidente da Ucrânia, a realidade é bastante simples

Philip Bump / The Washington Post , O Estado de S.Paulo

24 de setembro de 2019 | 06h00

Apesar de toda a discussão sobre a complexidade da controvérsia em torno das conversas do presidente Donald Trump com o presidente da Ucrânia, a realidade é bastante simples. Trump, de acordo com reportagem do Post e do Wall Street Journal, pressionou repetidamente o presidente ucraniano, Volodymyr Zelensky, empossado em maio, para investigar o ex-vice-presidente Joe Biden e seu filho Hunter.

Logo após Trump colocar essa pressão sobre o presidente ucraniano, seu governo suspendeu a ajuda militar à Ucrânia que havia sido aprovada pelo Congresso, só dando continuidade a ela depois que um delator da comunidade de inteligência entrou com uma queixa aparentemente focada na conversa de Trump com o presidente da Ucrânia.

Em pouco tempo, os aliados de Trump - até agora bem treinados em rejeitar preocupações sobre sua presidência - entraram em ação. Em uma série de entrevistas na televisão e no rádio, eles identificaram a verdadeira transgressão no caso, culpando uma grande série de pessoas e organizações em um esforço para subestimar ou apagar perguntas sobre Trump.

Joe Biden

Biden tem sido o alvo mais comum dos defensores de Trump e do próprio Trump. A maneira como essas defesas são apresentadas, porém, varia.

Na manhã de domingo, o secretário de Estado, Mike Pompeo, apareceu no Face the Nation, da CBS News. Pompeo, um firme defensor de seu chefe, sugeriu que a situação não era realmente complicada: Biden fez algo errado.

O problema com essa teoria? O problema central da teoria do erro de Biden é a falta de provas de que Biden tenha feito algo errado. Embora seja fácil ver como as demandas de Biden sobre o promotor ucraniano possam ser vistas como um esforço para ajudar seu filho, não há evidências de que o papel de Hunter Biden tenha sido a motivação para a demissão, de que Biden tenha agido sozinho ao fazer a demanda, que ele sabia de uma investigação ou mesmo que existia uma investigação sobre a empresa. Em vez de reescrever a análise da situação por parte dos nossos verificadores de fatos, vamos apenas indicar o artigo.

E notaremos que defender um promotor que tem maior probabilidade de combater duramente a corrupção pareceria uma escolha estranha. 

Hunter Biden é o verdadeiro malfeitor

O secretário do Tesouro, Steven Mnuchin, marchou ousadamente para um campo minado ao conversar com Jake Tapper da CNN no domingo.

“O que considero inapropriado é o fato de o vice-presidente Biden, na época, ter feito negócios muito significativos na Ucrânia”, disse Mnuchin sobre a controvérsia. “Da minha parte, considero isso preocupante. E, para mim, talvez seja esse o problema que deva ser mais investigado.”

O problema com essa teoria? Embora certamente seja justo questionar a adequação do filho de um vice-presidente em parceria com uma empresa estrangeira, também há alguma hipocrisia nessas críticas, nesse caso. E, como acima, não há evidências de que o papel de Hunter Biden tenha motivado as exigências de Biden.

A Ucrânia é o verdadeiro malfeitor

Trump e seus aliados têm repetidamente apontado a Ucrânia e a política ucraniana para defender o presidente desde que ele assumiu o cargo. À medida que surgiam perguntas sobre as interações da campanha de Trump de 2016 com participantes russos, a equipe de Trump tentou gerar uma teoria compensatória de que a Ucrânia estava trabalhando para dar um incentivo a Hillary Clinton.

Em entrevista ao apresentador de rádio conservador Hugh Hewitt, na segunda-feira, o senador Lindsey Graham, republicano, sugeriu que o papel da Ucrânia deveria ser ampla e atentamente examinado.

O problema com essa teoria? As teorias sobre as tentativas da Ucrânia de influenciar a política dos EUA ou as eleições de 2016 têm demonstrado consistentemente que lhes falta mérito.

A teoria de que a Ucrânia estava “despejando informações” em 2016 se concentra em dois incidentes. Em um deles, um contratado do Comitê Nacional Democrata procurou ajuda de pessoas da Embaixada da Ucrânia para se informar sobre o trabalho do então gerente de campanha de Trump, Paul Manafort, naquele país. No outro, evidências de que Manafort havia recebido pagamentos secretos de um partido político pró-russo foram divulgadas por uma organização ucraniana em agosto de 2016, levando à sua demissão da campanha.

Em nenhum dos casos há evidências de um esforço de cima para baixo da Ucrânia para ajudar Clinton. Ambos se concentram nos esforços para revelar informações sobre Manafort, cujos pagamentos por seu trabalho para a Ucrânia levaram a condenações por lavagem de dinheiro e fraude. Ele agora está na prisão.

O denunciante é o verdadeiro malfeitor

Essa história chamou a atenção nacional depois que o governo Trump tentou impedir o Congresso de ter acesso à denúncia original de um informante dentro da comunidade de inteligência. Refletindo meses de ataques aos agentes do FBI que investigaram as interações da campanha de Trump com a Rússia, os aliados de Trump lançaram o denunciante como um “espião” do “estado profundo” (o estado dentro do estado) que se comportou de maneira desonrosa ao trazer a história à tona.

O problema com essa teoria? Mesmo que o denunciante fosse a própria Hillary Clinton, isso não mudaria o conteúdo da conversa que Trump teve com Zelensky.

A mídia é o verdadeiro malfeitor

Em um evento no Texas no fim de semana, o senador John Cornyn, republicano do Texas, identificou quem ele considera seu próprio culpado na situação: os repórteres cobrindo a história.

“Estou um pouco preocupado com o fato de que aparentemente alguns dos relatórios iniciais vieram de alguém que não tinha conhecimento de primeira mão, e isso meio que se espalhou como um incêndio”, disse Cornyn sobre a história. “Muita especulação. Prefiro esperar até que tenhamos acesso às informações reais para fazer um julgamento.”

O problema com essa teoria? A maneira mais simples de prejudicar as reportagens da mídia chamando-as de incorretas ou excessivamente apressadas é divulgar a queixa do denunciante e a transcrição da ligação de Zelensky, para que a reportagem possa ser comparada com a realidade. Até agora, o governo não o fez.

Não havia nada de errado, afinal!

Esse é o ângulo adotado por Trump. No domingo, ele afirmou que a ligação com Zelensky foi uma “conversa bela, calorosa e agradável", na qual ele não pressionou Zelensky. Mais tarde, ele tuitou “notícias de última hora” para esse efeito, virando as coisas de volta para Biden mais uma vez.

O problema com essa teoria? O público americano está sendo chamado a decidir em quem acreditar, em Trump ou nas reportagens da imprensa. A afirmação de Trump de que nada de impróprio aconteceu depende, por enquanto, de aceitar sua palavra sobre a da mídia e de nossas fontes. Essa é uma grande aposta para Trump. / TRADUÇÃO CLAUDIA BOZZO

 

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Gilles Lapouge: Trump e a relação duvidosa com a Ucrânia

Presidente dos EUA teria pedido ao líder ucraniano para investigar filho de Joe Biden, um dos principais rivais de Trump nas eleições de 2020

Gilles Lapouge, O Estado de S.Paulo

24 de setembro de 2019 | 05h00

A Ucrânia estava calma desde que substituiu o presidente Petro Poroshenko por um comediante, Volodimir Zelenski, que chegou ao poder há seis meses. A estreia de Zelenski foi como um sonho. Tudo sorria para ele. Seu estilo era refrescante, depois de anos de corrupção. Poroshenko foi incapaz de pôr fim ao conflito que sufoca Donbass (região no extremo leste da Ucrânia), ainda dilacerada pelo confronto entre o exército ucraniano e os “separatistas” apoiados, obviamente, pela Rússia. Esse conflito de Donbass deixou 12 mil mortos.

A paz em Donbass foi, é claro, o primeiro grande obstáculo que o simpático Zelenski precisava atravessar. Para os ucranianos, vinha antes da luta contra a corrupção, a conspiração dos oligarcas e até a melhoria do padrão de vida. A Rússia já havia engolido a Crimeia alguns anos atrás. A Ucrânia não iria oferecer Donbass também.

Esse medo aumentou à medida que se aproximava a cúpula de Donbass, a chamada Cúpula da Normandia, reunindo presidentes da Ucrânia e da Rússia, além da França e a chanceler alemã, Angela Merkel. Os manifestantes reuniram-se em Kiev, capital da Ucrânia, para manifestar sua desconfiança pela reunião. Eles não eram muito numerosos, mas bastante virulentos.

O medo deles: que Zelenski, em sua franqueza, se deixasse devorar pelo astuto e mau Putin. E os dois europeus responsáveis por facilitar esse contato não lhes inspiram confiança, especialmente Macron, que nunca escondeu seu desejo de acabar com o ostracismo com o qual o Ocidente acabrunha Putin, após a invasão russa do Crimeia. E Merkel, pensam, não é muito melhor.

E será que a operação de sedução lançada em Moscou por Zelenski obteve resultados? Nem um pouco, pensaram os descontentes em Kiev. Os sorrisos de Zelenski não suavizaram Putin. Além disso, ele, em sua ingenuidade de político iniciante, cometeu um erro: expressou fortemente seu desejo de conseguir um acordo com a Rússia.

E o que ele recebeu de Moscou com sua amabilidade? Nada. A custo, houve uma pequena troca de prisioneiros. É por isso que a miraculosa popularidade de Zelenski enfrentou seu primeiro problema: grupos protestando para ditar a ele seu “roteiro”: “Atenção, perigo! Se você quer demais a paz, acaba perdendo a guerra”.

Zelenskyi portanto, tem “uma primeira pedra no sapato”. Aparentemente, há uma segunda: as conversas que teriam ocorrido, no início deste verão, entre ele e o presidente americano, Donald Trump.

Trump teria falado com o ucraniano Zelenski e também com Vladimir Putin para que Kiev relance as investigações de corrupção que poderiam prejudicar espetacularmente Joe Biden, o ex-vice-presidente de Obama que pode ser um candidato democrata perigoso para Trump nas eleições de 2020.

O filho de Joe Biden, Hunter, trabalhou entre 2014 e 2019 no conselho de administração de uma empresa petrolífera da Ucrânia. Resumindo: uma investigação sobre o filho poderia prejudicar o pai. Essa seria a história de Trump quando telefonou para Zelenski, esperando que fossem reabertas as investigações sobre Hunter como meio de enlamear Joe.

Tudo isso é um pouco romanesco e turvo. Mas Trump nos acostumou a esses ares. Lança acusações ou empreitadas tão bizarras, tão rocambolescas, que os países observadores não o levam a sério. Só um pouco depois, percebemos que as acusações ou as exigências de Trump não eram tão extravagantes assim. É nesse sentido que sempre se pergunta se Trump é um grande desajeitado ou não, embora ele provavelmente nunca tenha lido O Príncipe, de Maquiavel, e seja um discípulo distante, engenhoso e um tanto primitivo do gênio político da Florença dos Médici. / TRADUÇÃO DE CLAUDIA BOZZO

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Análise: Trump e a empáfia de quem se considera invencível

Pressão de Trump e de seu advogado pessoal Rudy Giuliani para influenciar o líder ucraniano revela um presidente convencido de que é invencível

Philip Rucker, Robert Costa e Rachael Bade / W. POST, O Estado de S.Paulo

23 de setembro de 2019 | 05h30

WASHINGTON - Quando o depoimento do procurador especial Robert Mueller enterrou em 24 de julho a esperança democrata de um impeachment, o presidente americano, Donald Trump, disse não haver conluio e pediu reparação das acusações de que ele tinha conspirado com a Rússia para vencer a eleição.

No dia seguinte, Trump possivelmente agiu em conluio com outro país nas eleições de 2020, pressionando o presidente da Ucrânia, Volodmir Zelenski, para descobrir informações contra o ex-vice-presidente Joe Biden

A pressão de Trump e de seu advogado pessoal Rudy Giuliani para influenciar o líder ucraniano revela um presidente convencido de que é invencível. Aparentemente, ele não estava só disposto, mas ansioso para usar o vasto poder dos EUA para prejudicar um adversário político, confiante de que ninguém irá impedi-lo. 

Para Entender

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Ao acusar Trump de abuso de poder por pedir à Ucrânia dados sobre negócios de seu filho, democrata precisará explicar tema incômodo

Enquanto a investigação de Mueller não colocou Trump diretamente envolvido nas atitudes russas para prejudicar a eleição de 2016, o presidente foi um participante ativo do episódio ucraniano, que veio a público após uma denúncia anônima de um funcionário de inteligência do governo americano. 

O escrutínio em torno do telefonema trouxe novos riscos para a presidência de Trump e pode levar alguns deputados na Câmara a abrir procedimentos de impeachment contra o republicano. 

A frustração dos democratas com sua inabilidade em controlar Trump e sua conduta está começando a aumentar. Muitos dizem que o sistema de freios e contrapesos não tem funcionado, e mesmo as cortes não tomam decisões acertadas. O sentimento de Trump de estar acima da lei é reforçado pelo tempo de mandato.

Ele tentou se livrar da investigação da Rússia sem enfrentar as consequências. Usou o governo para lucrar com seus negócios e bloqueou a habilidade do Congresso de supervisioná-lo, também sem consequência. 

Agora ele supostamente usou dinheiro público e a força militar americana para extorquir um governo estrangeiro e forçá-lo a investigar um opositor político. Não está claro quais consequências ele enfrentará, nem se isso de fato vai ocorrer.

 

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    O que mudou para os democratas optarem pelo impeachment de Trump?

    Para analistas políticos e especialistas, há três razões principais para a decisão; veja e entenda quais são elas

    Redação, O Estado de S.Paulo

    26 de setembro de 2019 | 10h18

    WASHINGTON - Contrária, durante meses, à abertura de um processo de impeachment contra Donald Trump, a líder da Câmara dos Deputados dos Estados Unidos, Nancy Pelosi, anunciou na quarta-feira, 25, o início do inquérito que pode tirar o presidente americano do poder. A ação levanta uma série de dúvidas no país sobre o que mudou no cálculo da oposição democrata para convencê-la a dar sequência ao processo.

    Analistas políticos e especialistas apontam que três razões foram consideradas por Pelosi: a gravidade do fato e o fácil entendimento para o público em geral da violação cometida por Trump, chamada por ela de "traição", o apoio da ala mais moderada do Partido Democrata e o emocionante discurso de John Lewis, ícone do movimento pelos direitos civis no país.

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    Entenda abaixo os fatores que fizeram os democratas mudarem de ideia e passarem a buscar o impeachment de Trump.

    Caso de fácil compreensão

    A investigação sobre o suposto conluio entre integrantes da campanha de Trump à presidência e o governo da Rússia durante as eleições de 2016 era confusa demais. Havia uma infinidade de protagonistas e subtramas que distraíam a opinião pública do caso principal.

    A polêmica conversa por telefone entre Trump e o presidente da Ucrânia, Volodmir Zelenski, tem o perfil oposto, segundo Mark Peterson, professor de Política da Universidade da Califórnia, o que facilita o entendimento do eleitor, seja ele republicano ou democrata, sobre o que de fato aconteceu.

    No dia 25 de julho, durante uma ligação, Trump pediu a Zelenski que trabalhasse com seu advogado pessoal, Rudy Giuliani, ex-prefeito de Nova York, e com o procurador-geral dos EUA para investigar a conduta de Joe Biden, vice-presidente do país no governo de Barack Obama e um dos principais candidatos às primárias democratas para as eleições de 2020.

    O alvo, na verdade, era o filho do ex-vice-presidente, Hunter, que assessorou uma empresa de gás ucraniana.

    Dias depois da ligação, Trump ordenou a suspensão de um repasse de US$ 400 milhões em assistência militar para a Ucrânia, um movimento que os democratas consideram uma tentativa do presidente de pressionar Zelenski a atender seu pedido.

    "É uma história mais simples. Trump, como presidente dos EUA, usou sua função de líder da nossa política externa para influenciar o presidente de outro país, a Ucrânia, que depende muito dos EUA, com o objetivo de promover seus próprios interesses políticos", resumiu Peterson.

    Apoio da ala mais moderada

    Ao longo dos últimos meses, Pelosi barrou as tentativas de seus aliados mais radicais de abrir um processo de impeachment contra Trump e argumentava que, como líder da maioria democrata na Câmara dos Deputados, seu papel era evitar qualquer decisão que prejudicasse o partido nas eleições de 2020.

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    Impeachment nos EUA já atingiu três presidentes, mas nenhum foi deposto

    Os democratas Bill Clinton, em 1998, e Andrew Johnson, em 1868 foram absolvidos pelo Senado; em 1974, Nixon renunciou antes da votação

    Pelosi também estava preocupada com os democratas mais moderados, que ocupam cadeiras de distritos onde Trump saiu vitorioso em 2016, mas que venceram seus rivais republicanos nas eleições legislativas de 2018. O temor era que um pedido precipitado de impeachment transformasse o partido em extremista, na visão de potenciais eleitores indecisos.

    Contudo, na noite de segunda-feira, sete democratas moderados surpreenderam ao publicar um artigo de opinião no jornal Washington Post para pedir o impeachment de Trump em razão da polêmica ligação com o presidente da Ucrânia.

    "Essas acusações são uma ameaça contra todos aqueles que um dia juramos proteger", dizia o título do artigo.

    Os democratas foram eleitos em 2018 e todos têm experiência nos setores militar e de inteligência dos EUA, o que dá a eles autoridade para dizer que a conversa telefônica entre Trump e Zelenski representa uma ameaça à segurança nacional do país.

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    Como a acusação de Trump contra Biden e suspeitas democratas contra o republicano envolvem o país europeu e uma empresa de gás

    A ala acredita que tem a obrigação patriótica de tirar Trump do poder, deixando Pelosi sem forças para dizer “não” aos mais radicais do partido. A presidente da Câmara dos Deputados não tinha outra opção a não ser seguir com o processo de impeachment.

    "Agora eles acreditam que a história está ao lado deles para fazer o correto", avaliou em entrevista à agência de notícias Efe Mark J. Rozell, da Faculdade de Política da Universidade George Mason.

    Discurso de John Lewis

    O congressista afro-americano John Lewis é uma das vozes mais influentes entre os democratas. Há mais de 50 anos, ele acompanhou Martin Luther King quando este fez o famoso discurso "Eu tenho um sonho", durante a Marcha de Washington em 1963.

    Quando Lewis, de 79 anos, começou a falar de sua cadeira no Congresso na quarta-feira, todos estavam atentos.

    "Não devemos esperar. Agora é o momento de atuar. Fui paciente enquanto testávamos outros caminhos e ferramentas. Nunca encontraremos a verdade a menos que usemos o poder outorgado à Câmara dos Deputados. O futuro da nossa democracia está em jogo", disse Lewis.

    Para José Parra, ex-assessor do ex-líder democrata no Senado Harry Reid e especialista em comunicação pública, o discurso de Lewis foi um fator determinante.

    "Lewis tem um manto de autoridade que todos usam como ponto de referência. Ele não era tão favorável ao impeachment antes. E acho que ver sua mudança esclareceu a situação para muitos democratas que estavam em dúvida", argumentou Parra. / EFE

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    Análise: Por que influência política importa em um governo estrangeiro

    Inquérito de impeachment contra o presidente dos EUA, Donald Trump, tem como base pedido feito por ele ao presidente da Ucrânia para interferir nas eleições americanas

    Katie Rogers, New York Times

    01 de novembro de 2019 | 08h00

    WASHINGTON - Um telefonema em 25 de julho, entre o presidente Donald Trump e o presidente da Ucrânia, é a base para o inquérito de impeachment para constatar se Trump reteve a ajuda militar dos EUA até que autoridades ucranianas investigassem o ex-vice-presidente Joe Biden e seu filho Hunter.

    Na semana passada, o chefe de gabinete interino da Casa Branca, Mick Mulvaney, reconheceu efetivamente o quid pro quo, embora ele tenha dito que a ajuda em parte dependia da investigação da Ucrânia de desmascarar a teoria de Trump de que a Ucrânia, não a Rússia, foi responsável por invadir e-mails do Partido Democrata em 2016. A teoria é politicamente útil para Trump, porque mostraria que ele foi eleito presidente sem a ajuda da Rússia.

    Mulvaney não se desculpou em seus comentários. “Tenho uma notícia para todos: superem isso”, disse Mulvaney a repórteres na Casa Branca. “Haverá influência política na política externa”. (Mais tarde, ele voltou atrás e disse que seus comentários foram mal interpretados.)

    Leitores pediram ao The New York Times para explicar por que, exatamente, a interferência de outra nação no processo democrático é uma questão tão séria.

    Aqui estão algumas respostas.

    Para Entender

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    Por que não queremos países estrangeiros envolvidos em nossas eleições?

    Outros países têm seus próprios interesses, e esses interesses nem sempre correspondem aos nossos, disse Trevor Potter, fundador do Campaign Legal Center, um grupo apartidário que trabalha para garantir eleições justas.

    “Muitos países são rivais do nosso e do nosso sistema democrático”, disse Potter. Ele citou como dois exemplos principais a China e a Rússia, países que Trump sugeriu publicamente que poderiam ajudá-lo a alcançar seus objetivos políticos. “Em alguns casos, eles desejam políticas que os ajudem e, portanto, nos prejudiquem. Em outros casos, porém, eles só querem que fracassemos.”

    Autoridades do governo Trump - mas não o próprio presidente - alertaram pública e repetidamente governos estrangeiros para não se intrometerem nas eleições dos EUA.

    Existem proteções contra esse tipo de coisa?

    Sim. A possibilidade de uma nação estrangeira obter acesso e influência sobre o processo democrático dos EUA tem sido uma preocupação desde os primeiros dias da república.

    Durante a Convenção Constitucional na Filadélfia, no verão de 1787, os delegados debateram que tipo de comportamento mereceria que um presidente fosse removido de seu cargo. George Mason sugeriu o padrão de “altos crimes e delitos”, que se mantém até hoje. Um dos altos crimes que os autores tinham em mente era aceitar dinheiro de uma potência estrangeira, ou o que Alexander Hamilton dizia ceder “ao desejo das potências estrangeiras para ganhar uma ascendência indevida em nossos conselhos”.

    Em resumo, os autores da Constituição viram poucas ameaças maiores do que um presidente corrupto vinculado a forças do exterior.

    Para Entender

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    Qual foi o quid pro quo no telefonema da Ucrânia?

    Trump negou qualquer contrapartida explícita - um favor ou vantagem concedida ou esperada em troca de algo - em seu telefonema com o presidente ucraniano, Volodmir Zelenski. Ele se referiu repetidamente a ele como uma conversa “perfeita”.

    Mas vários elementos da chamada poderiam ter sido usados como moeda de troca por Trump.

    Um deles foi a ajuda militar dos EUA, que chegou a quase US$ 400 milhões em assistência de segurança para ajudar a Ucrânia a combater a agressão russa em sua fronteira oriental. O outro foi uma proposta de reunião do Salão Oval entre Zelenski e Trump, muito desejada por Zelenski como uma poderosa demonstração de apoio dos EUA em um momento em que a Ucrânia está sob ameaça da Rússia.

    De acordo com um resumo do telefonema divulgado pela Casa Branca, Trump levantou duas questões depois que Zelenski falou de sua necessidade de ajuda dos EUA. “Gostaria que você nos fizesse um favor, porém”, disse Trump, mudando de conversa, para pedir a Zelenski que investigasse os Biden, bem como a teoria da conspiração.

    Zelenski respondeu que seu procurador-geral examinaria tais questões e pediu a Trump que fornecesse qualquer informação adicional que pudesse ajudar na investigação.

    Então qual é o problema?

    Num nível mais básico, pedir ajuda a outro governo - existindo ou não uma contrapartida - significaria que Trump estaria em dívida com outro país.

    Fazer isso em particular é especialmente alarmante, disse Potter, porque a decisão do governo Trump de suspender temporariamente a ajuda militar para um país que precisa se armar contra a Rússia vai diretamente contra os interesses de segurança nacional dos EUA.

    “Se o presidente da Ucrânia concordou em fazer isso, ele tem algo sobre a cabeça do presidente dos Estados Unidos”, disse Potter. “Isso realmente deixa o presidente vulnerável à chantagem política."

    Isso é ilegal?

    Pedir ajuda a um estrangeiro em uma campanha política dos EUA é ilegal, o que Ellen Weintraub, chefe da Comissão Federal de Eleições, deixou bem claro.

    “Se um governo estrangeiro está investindo recursos na produção de algo que terá valor para uma campanha aqui nos Estados Unidos, isso é um problema”, disse Weintraub em entrevista à ABC News.

    Isso não é um negócio costumeiro?

    Não. Tanto as administrações presidenciais republicana e democrata resistiram à ideia de conseguir ajuda de potências estrangeiras para obter vantagens políticas.

    Em 1992, quando o Presidente George H.W. Bush ficou para trás nas pesquisas em sua campanha de reeleição contra Bill Clinton, um grupo de legisladores republicanos sugeriu às autoridades da Casa Branca que pedissem aos governos britânico e russo que desenterrassem informações pouco lisonjeiras sobre as ações de Clinton protestando contra a Guerra do Vietnã durante seu tempo em Londres, e prestar atenção para uma visita que ele fez a Moscou.

    “Eles queriam que contatássemos russos ou britânicos para buscar informações sobre a viagem de Bill Clinton a Moscou”, escreveu James A. Baker III, chefe de gabinete de Bush, em um memorando na época. “Eu disse que não poderíamos fazer isso de forma alguma.”

    Dez ex-chefes de gabinete de cinco ex-presidentes - Ronald Reagan, os dois Bush, Clinton e Barack Obama - disseram todos que considerariam tal perspectiva inaceitável.

    Mas isso não significa que os russos não tenham tentado. A União Soviética ofereceu ajuda a Adlai Stevenson para que ele participasse de uma terceira corrida presidencial (depois de ser derrotado duas vezes) em 1960, proposta que ele recusou. O embaixador soviético também se ofereceu para ajudar a financiar a campanha de Hubert Humphrey em 1968, provocando outra rejeição. E Leonid Brezhnev disse a Gerald Ford que ele “faria todo o possível” para ajudá-lo a vencer em 1976, um comentário que Ford ignorou sem levar a sério.

    Os EUA não se intrometem em outros países?

    Sim.

    A CIA ajudou a derrubar líderes eleitos no Irã e Guatemala na década de 1950 e apoiou golpes violentos em vários outros países na década de 1960. Planejou assassinatos e apoiou governos anticomunistas brutais na América Latina, África e Ásia. A CIA plantou desinformações e, às vezes, usou dinheiro como forma de alcançar os objetivos da política externa.

    Mas especialistas argumentaram que os esforços modernos dos EUA não são moralmente equivalentes aos da Rússia. Nas últimas décadas, os esforços dos EUA foram voltados para a promoção de candidatos que contestam líderes autoritários. Os esforços russos, de sua parte, destinam-se a semear discórdia.

    “Muitas vezes nos consideramos e nos destacamos como exemplo de como outros países devem se comportar”, disse Potter. “Quando temos batalhas internas ou as coisas dão errado aqui, é muito mais difícil fazer isso.”

    Ele acrescentou: “Os países podem explorar isso e dizer: ‘Podemos ser ruins, mas os Estados Unidos não são melhores’”.

    Isso aconteceu em eleições anteriores dos EUA?

    Mais ou menos.

    O único impeachment envolvendo política externa ocorreu no caso de um senador, William Blount, acusado em 1797 de planejar a transferência de partes da Flórida e do território da Louisiana para a Grã-Bretanha. A Casa decidiu o impeachment de Blount, mas ele fugiu de Washington. O Senado optou por expulsá-lo, em vez de condená-lo no julgamento. / TRADUÇÃO DE CLAUDIA BOZZO

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    Guia para entender o inquérito de impeachment contra Trump

    Veja o que a votação de quinta-feira significa e como o processo chegou nesse ponto

    Redação, O Estado de S.Paulo

    01 de novembro de 2019 | 09h49

    A Câmara dos Deputados dos Estados Unidos aprovou nessa quinta-feira, 31, por 232 votos a 196 as regras para a abertura formal do inquérito de impeachment contra o presidente Donald Trump. A medida oficializa a investigação e, a partir de agora, as testemunhas serão ouvidas no plenário e o conteúdo será tornado público.

    Apenas dois deputados democratas romperam com o partido e votaram contra o processo, um sinal do quão unificada - e confiante - está a convenção política sobre o impeachment diante das evidências da relação de Trump com a Ucrânia.

    Os republicanos rejeitaram de forma unânime a medida e acusaram o processo de ser uma tentativa de desfazer os resultados das eleições de 2016. “Os democratas tentam destituir o presidente porque temem não poder derrotá-lo nas urnas”, disse o deputado Kevin McCarthy, líder dos republicanos na Câmara.

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    O processo que pode levar ao impeachment de Trump

    É possível que o presidente americano seja deposto? Como ficam as eleições americanas de 2020? Fique por dentro dessas questões com este conteúdo especial

    Em um depoimento a portas fechadas, um assessor do Conselho de Segurança Nacional confirmou que Gordon Sondland, embaixador dos EUA na União Europeia, disse que um pacote de ajuda militar para a Ucrânia não seria enviado até que o país se comprometa a investigar a família Biden.

    O que a votação significa?

    Segundo o jornal The New York Times, esta é a terceira vez na história recente que a Câmara votou sobre um inquérito de impeachment. Mesmo assim, a votação de quinta foi diferente das anteriores, já que não se tratava de autorizar o processo, mas sim de aprovar as regras para a condução dele.

    Como chegamos aqui?

    Os democratas questionaram há pouco tempo as políticas e a utilidade de uma votação como a de quinta, dada a grande probabilidade de o Senado - de maioria republicana - inocentar Trump se a Câmara aprovar o impeachment. Os republicanos perceberam que este era o caso e se sentiram confiantes. 

    O que a votação nos diz sobre a posição dos republicanos?

    Eles ainda estão hesitantes sobre um rompimento com Trump, e não parece que esse cenário mudará em pouco tempo. Contudo, a votação deixou claro que as audiências públicas serão muito diferentes dos depoimentos privados realizados até agora.

    Fique por dentro

    O que é impeachment?

    É o processo de acusar um titular de cargo público de má conduta.

    Qual é a acusação que pesa sobre Trump?

    Ele é acusado de violar a lei ao pressionar o mandatário ucraniano, Volodmir Zelenski, a investigar o ex-vice-presidente Joe Biden, eventual rival democrata de Trump nas eleições de 2020. Uma outra pessoa envolvida - com informações “exclusivas” sobre as negociações de Trump na Ucrânia - se apresentou e hoje conta com proteção sob o caráter de “whistleblower”.

    Para Entender

    Guia do impeachment: veja o passo-a-passo para depor o presidente dos EUA

    Entenda todas as etapas necessárias para remover Donald Trump e saiba quais sãos as diferenças em relação ao processo no Brasil

    O que foi feito diante disso?

    A Casa Branca divulgou uma transcrição reconstruída da conversa por telefone entre Trump e Zelenski.

    Por que isso está acontecendo agora?

    A denúncia do “whistleblower” feita em agosto dizia que funcionários da Casa Branca acreditavam que haviam testemunhado o presidente americano abusar de seu poder para ter ganhos políticos. 

    Como Trump reagiu?

    O presidente disse que a batalha do impeachment seria “positiva” para sua campanha de reeleição. Trump se referiu diversas vezes ao “whistleblower” como “falso” e condenou a imprensa por veicular a denúncia. / NYT

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