LEON NEAL / AFP
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Quem é Boris Johnson, defensor radical do Brexit e novo primeiro-ministro britânico

Forte crítico das estruturas da União Europeia (UE), Johnson começou a carreira como jornalista, quando foi demitido por inventar uma entrevista; conheças as polêmicas do novo premiê do Reino Unido

Redação, O Estado de S.Paulo

23 de julho de 2019 | 11h32
Atualizado 24 de julho de 2019 | 17h57

LONDRES - Boris Johnson, eleito novo líder do Partido Conservador e próximo primeiro-ministro do Reino Unido, é um político carismático, famoso pelo seu senso de humor peculiar e alvo tanto de veneração como rejeição entre as fileiras “tories”.

Do início da carreira como jornalista, quando foi demitido por inventar uma entrevista, à ascenção na política, as declarações polêmicas e o carisma foram sua marca. Forte crítico das estruturas da União Europeia (UE), Johnson chega ao poder com a promessa de cumprir com o Brexit até 31 de outubro, com ou sem acordo, depois de participar de uma campanha interna na qual começou e terminou como favorito.

Com seu despenteado cabelo loiro, o controverso dirigente arrasou na eleição interna entre os deputados "tories" para ser líder do partido, depois da ativação deste processo em junho pela renúncia de Theresa May como premiê em consequência da crise do Brexit.

Johnson é o típico conservador partidário do Estado pequeno e da mínima intervenção estatal nos setores da sociedade. Mas, sobretudo, é um "brexiteer", que enfrentou a política de compromisso de May nas negociações com o bloco europeu, o que lhe levou a renunciar à frente do Ministério das Relações Exteriores em julho do ano passado.

• Defensor do Brexit radical substituirá Theresa May

O novo premiê foi acusado inclusive de ter mentido na campanha do Brexit para o referendo de 2016 ao dizer que o seu país repassava ao bloco comunitário quase 400 milhões de euros por semana.

As origens do novo morador do número 10 de Downing Street, residência oficial do premiê britânico, não são puramente britânicas. Alexander Boris de Pfeffel Johnson nasceu em 19 de junho de 1964 em Nova York, mas sua família retornou pouco depois ao Reino Unido. Seu bisavô por parte de pai foi um jornalista chamado Ali Kemal que serviu no governo de Ahmed Pasha, grande vizir do Império Otomano.

Embora tenha estudado nos melhores colégios e tenha um sotaque inglês associado às classes privilegiadas, Johnson conseguiu romper um pouco com essa imagem classicista para receber o apoio dos londrinos, que o mantiveram como prefeito entre 2008 e 2016.

Boris, como é chamado por todo o mundo, foi aluno da escola de ensino médio de Eton e realizou Estudos Clássicos no Balliol College da Universidade de Oxford, antes de se formar jornalista.

• Vida pessoal polêmica no Reino Unido

Johnson se separou no ano passado da sua mulher, Marina Wheeler, ao divulgar uma nova relação com Carrie Symonds, uma jovem de 31 anos que trabalha para o Partido Conservador. É, antes de tudo, um político polêmico e já foi tachado de racista por fazer comentários inadequados, como quando comparou as mulheres que usam burca com caixas do correio ou como quando afirmou que Tony Blair - ex-primeiro-ministro trabalhista entre 1997 e 2007 - tinha sido recebido em uma viagem ao Congo por "guerreiros tribais" com sorrisos de "melancias".

Mais popular e carismático do que David Cameron - ex-primeiro-ministro conservador entre 2010 e 2016 -, Johnson foi jornalista de meios conservadores como os jornais The Times , onde foi demitido por inventar uma entrevista (leia mais abaixo), e The Daily Telegraph.

Em 2001, entrou na política ao ser eleito deputado por Henley-on-Thames, um povoado nos arredores de Londres que é uma das circunscrições mais conservadoras da Inglaterra.

Dada sua popularidade, o Partido Conservador - que estava na oposição desde 1997 - viu em Johnson uma oportunidade e o apresentou como candidato "tory" à prefeitura de Londres em 2007, vencendo um ano mais tarde o trabalhista Ken Livingstone, e quatro anos depois voltou a repetir mandato como prefeito.

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Agora, com as pesquisas sobre intenções de voto desfavoráveis para os conservadores e o avanço do Partido do Brexit de Nigel Farage, muitos "tories" veem Johnson como a única figura capaz de salvar a legenda da desintegração e ganhar as próximas eleições gerais, previstas para 2022. Ambicioso como poucos, sua irmã Rachel lembrou que, desde pequeno, o maior objetivo de Boris Johnson era ser "o rei do mundo".

• Erro de contas do Brexit  

O seguinte slogan foi escrito em um ônibus que cruzou o Reino Unido durante a campanha do referendo de 23 de junho de 2016: "Nós enviamos 350 milhões de libras para a UE toda semana. Vamos financiar nosso NHS", o serviço de saúde público. Uma avaliação "razoável", segundo Boris Johnson, para quem a saída da UE permitiria "recuperar o controle" desse dinheiro.

Contudo, de acordo com dados da Comissão Europeia, o montante pago pelo Reino Unido foi em média de 135 milhões de libras por semana entre 2010 e 2014: 2,5 vezes menos que os 350 milhões mencionados por "BoJo".

• Obra polêmica 

A ideia era sedutora: construir uma ponte sobre o rio Tamisa. Seriam 366 metros cobertos de árvores e flores. "Um incrível oásis de tranquilidade" em plena Londres, prometeu Boris Johnson em 2014, então prefeito da capital.

Mas o projeto de financiamento, mal montado, fez tudo desmoronar. Apresentado à primeira vista como um "presente" aos londrinos graças à contribuição de fundos privados, o projeto acabou custando dezenas de milhões de libras aos contribuintes britânicos. 

• Sexo, mentira e política

"Besteira", respondeu Boris Johnson em 2004 quando perguntado sobre um caso extraconjugal com Petronella Wyatt, uma jornalista do Spectator, o jornal semanal do qual era então editor.

Casado e pai de quatro filhos pequenos, Boris Johnson era na época uma das maiores esperanças dos conservadores. E então o escândalo aumentou ainda mais: a mãe de Petronella, Lady Wyatt, revelou que sua filha havia engravidado e que teve que fazer um aborto. Flagrado na mentira, Johnson foi excluído da liderança do partido.

• Entrevista inventada

De acordo com o professor universitário Colin Lucas, o rei Edward II "viveu um reinado de devassidão com seu cigano, Piers Gaveston", em um palácio construído em 1325. Esta citação, publicada em 1988 em um artigo assinado por Johnson enquanto era jornalista no Times, apresenta dois problemas: Gaveston foi executado em 1312. Seria, portanto, impossível estar em um palácio erigido 13 anos depois; Colin Lucas nunca proferiu essa frase. O Times afastou Boris Johnson por ter inventado a citação. / AFP e EFE

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