SAUL LOEB / AFP
SAUL LOEB / AFP

Análise: Em debate, democratas trocam ataques pessoais por estratégia anti-Trump

Quinto encontro dos dez principais pré-candidatos na disputa pela indicação do partido à disputa presidencial foi marcado pela união em torno do objetivo de derrotar o presidente republicano nas urnas em 2020

Michael Scherer / Washington Post, O Estado de S.Paulo

21 de novembro de 2019 | 16h03

ATLANTA, EUA - Os 10 principais candidatos na disputa pela candidatura do Partido Democrata à presidência dos Estados Unidos se uniram em torno de duas ideias no debate que durou duas horas na quarta-feira: o presidente Donald Trump tem de ser derrotado nas urnas e todos estão em posição de conseguir isto.

As divisões ideológicas permanecem e as divergências políticas persistem. Mas não são mais um fim em si, à medida que o tema real do debate começa a mudar 75 dias antes da primária em Iowa, que marca o início das votações para definir o indicado pelo partido.

Em Atlanta, os candidatos se concentraram no temor incessante de uma reeleição de Trump face às recentes pesquisas que mostram que o presidente continua a desfrutar de vantagem em Estados do Meio Oeste não obstante as audiências no Congresso que pode levar a uma votação de impeachment.

“Vocês precisam se perguntar aqui, em primeiro lugar, quem tem mais probabilidade de conseguir a indicação democrata para, acima de tudo, conquistar a presidência”, afirmou Joe Biden no início do debate. “E sobretudo, você tem de conquistar a presidência”.

A senadora Elizabeth Warren, de Massachusetts, promoveu seu projeto de um imposto de saúde como uma das “coisas que une” os democratas. O senador Cory Booker, de Nova Jersey é contra esse imposto e afirmou que o foco na tributação e não na criação de riqueza afastará os eleitores. 

O prefeito de South Bend, em Indiana, Pete Buttigieg defendeu sua falta de experiência citando suas raízes no Meio Oeste e não em Washington. Bernie Sanders, de Vermont, alardeou ter recebido mais contribuições de campanha “do que qualquer outro candidato até hoje numa eleição na história dos Estados Unidos”.

“Eu diria que precisamos algo diferente neste exato momento”, afirmou Buttigieg. “Para derrotar este presidente precisamos de uma pessoa que possa competir frente a frente, que venha de comunidades onde ele exerce atração.”

Mesmos as investidas contra outros candidatos foram feitas no contexto da capacidade de se eleger. Meses depois de ataques intensos por parte da deputada democrata Tulsi Gabbard, a senadora Kamala Harris, da Califórnia, teve a chance de responder e decidiu atacar o potencial de Tulsi numa eleição geral.

“O que necessitamos em novembro é de alguém que tenha capacidade de vencer”, afirmou ela.

A senadora Amy Klobuchar, de Minnesota, uma das três mulheres ainda presentes nos debates, afirmou que os candidatos não devem ser julgados pelas características físicas, mas por sua competência e inteligência.

“Se vocês acham que uma mulher pode derrotar Donald Trump, Nancy Pelosi faz isto diariamente”, disse a senadora, referindo-se à presidente de Câmara que se tornou a principal antagonista de Trump no Congresso.

Momento decisivo

O quinto debate democrata foi realizado num momento importante para muitos dos candidatos que estão com dificuldades para continuar na disputa. Desde o primeiro encontro em 22 de junho, dos 22 que se apresentaram, 7 se retiraram e outros 5 lutam para continuar sua campanha sem os refletores de um palanque sancionado pelo partido.

A disputa pela indicação democrata continua aberta. Com mais políticos ainda pretendendo se juntar à luta e vários já participantes que poderão não estar aptos para o próximo debate, quase dois terços dos eleitores em New Hampshire e Iowa - os primeiros a votar - afirmam que ainda não se decidiram e podem mudar de opinião.

Depois de quase um ano de campanha, os debates mensais no geral seguem um padrão familiar, com candidatos com fraco desempenho assumindo a linha de frente e os que estavam na vanguarda no início lutando para manter sua posição.

O debate da quarta-feira, organizado pela MSNBC e pelo Washington Post, foi mais calmo.

A confrontação direta sofrida por Buttigieg, que recentemente surgiu como líder nas pesquisas em Iowa, ficou limitada a ataques por parte de Amy e Tulsi sobre sua pouca experiência. Warren escapou das críticas sofridas no debate em outubro.

Joe Biden continua a ter dificuldade para se expressar e tropeçou quando afirmou imprecisamente ter sido respaldado “pela única mulher negra no Senado dos Estados Unidos” - a ex-senadora Carol Moseley Braun, de Illinois, a primeira negra eleita para o Senado, endossou a candidatura dele.

Bernie Sanders, por sua vez, retomou seus ataques a Biden por ele ter votado a favor da Guerra do Iraque em 2002. Biden atacou o empresário Tom Steyer e seus investimentos, no passado, em usinas elétricas movidas a carvão. 

Já Booker disse que Biden “poderia estar dopado” quando afirmou recentemente que não desejava legalizar a maconha, uma vez que essa posição deve afastar eleitores jovens e negros.

Mas os acessos de fúria dos debates anteriores não se repetiram. Kamala Harris não se manifestou quando teve a chance de repetir um ataque dirigido a Buttigieg por ele não conseguir se conectar com eleitores negros. 

Em vez disto, seguindo a estratégia dominante, ela falou da sua própria capacidade de derrotar Trump. “Nós temos de recriar a coalizão de Obama para vencer”, disse. “E eu pretendo vencer”.

Caminhos divergentes

Até agora os candidatos têm adotado um debate político de duas vias paralelas. Liberais ardentes como Warren e Sanders, ávidos por uma revolta populista progressista, têm apresentado grandes ideias com custos de trilhões de dólares que não se sabe se serão aprovadas no Congresso.

Biden, Buttigieg e Amy são contra, propondo um caminho mais paulatino de mudança progressista como o esboçado pelos ex-presidentes Bill Clinton e Barack Obama.

Aqueles que se definem como agentes da mudança têm de ocultar a profunda insegurança dos estrategistas democratas e eleitores quanto a se conseguirão derrotar Trump.

Dados recentes da Gallup, divulgados esta semana, mostram que somente 36% dos democratas prefeririam um candidato alinhado com eles em muitos assuntos do que um com mais probabilidade de vencer a eleição. Nos últimos meses candidatos mais moderados, como Buttigieg e Biden têm conseguido transformar o debate sobre o Medicare Para Todos num tema para um debate sobre elegibilidade.

“O fato é que neste momento a vasta maioria dos democratas não apoiam o Medicare Para Todos. Ele pode não ser aprovado no Senado agora com os democratas. E pode não passar na Câmara”, advertiu Biden no debate. “160 milhões de pessoas gostam do seu seguro privado.”

Embora exista um amplo apoio a um papel federal ampliado na questão da saúde, a ideia de substituir o seguro saúde particular não é popular, com o apoio de apenas 37% dos eleitores, de acordo com pesquisa feita em janeiro pela Kaiser Family Foundation.

Lição das urnas

As eleições de meio de mandato em 2018 demonstraram que os candidatos democratas que evitaram a questão tiveram mais sucesso em distritos competitivos, muitos deles em áreas ricas, segundo análise de Alan Abramowitz, cientista político da Emory University. Esta preocupação levou vários patrocinadores do projeto Medicare Para Todos, de Bernie Sanders, a reformularem seu apoio.

Kamala Harris, que entrou na disputa alardeando que pretendia “eliminar os problemas do seguro saúde privado, também mudou o discurso, adotando um plano que regulamentaria vigorosamente o setor atual sem eliminá-lo totalmente.

Elizabeth Warren mais recentemente abandonou a estratégia de Sanders, que prevê uma tentativa de levar o país a substituir grande parte do seguro saúde privado tão logo ele assuma a presidência.

Buttigieg também passou por uma metamorfose depois de entrar na campanha. Em tuíte em 2018 ele defendeu o Medicare Para Todos e “qualquer medida que ajude todos os americanos a ficarem cobertos (por um seguro saúde)”. 

Ele chamou atenção no início ao defender mudanças estruturais na Suprema Corte americana para debilitar a maioria conservadora; e no debate de julho anunciou que os democratas deveriam parar de se preocupar com os ataques republicanos contra suas políticas.

Mas à medida que subiu no ranking dos candidatos ele mudou, defendendo políticas mais moderadas e ganhou força em Iowa com uma campanha publicitária que contrasta com seu plano de oferecer um programa de saúde opcional para todos os americanos.

Esse temor de afastar os eleitores e sofrer uma derrota ficou bem aparente no debate. Trump  ainda será mencionado nos palanques democratas este ano, mas ele também nunca esteve ausente dos eventos.

“Não podemos ser consumidos simplesmente por Donald Trump porque, neste caso, vamos perder a eleição”, disse Sanders.

Segundo pesquisa realizada junto aos eleitores em Wisconsin na quarta-feira pela Faculdade de Direito da Marquette University, Trump bate confortavelmente todos os quatro principais candidatos democratas numa disputa hipotética. Trump venceu Hillary Clinton no Estado por menos de um ponto porcentual em 2016.

“Quero discutir sobre como vamos vencer em 2020”, afirmou Steyer. Ninguém no palanque discordou. / TRADUÇÃO DE TEREZINHA MARTINO

Encontrou algum erro? Entre em contato

Comentários

Os comentários são exclusivos para assinantes do Estadão.

O Estadão deixou de dar suporte ao Internet Explorer 9 ou anterior. Clique aqui e saiba mais.