Presidência da Bolívia | AFP
Evo alegou ter sido vítima de um "golpe de Estado" e afirmou que deixava o cargo para evitar ainda mais violência contra seu grupo político Presidência da Bolívia | AFP

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Crise na Bolívia: Guia para entender a queda de Evo Morales

Após 13 anos no poder, presidente não resiste a pressões das ruas e das Forças Armadas e abandona cargo; veja como isso aconteceu

Redação , O Estado de S.Paulo

Atualizado

Evo alegou ter sido vítima de um "golpe de Estado" e afirmou que deixava o cargo para evitar ainda mais violência contra seu grupo político Presidência da Bolívia | AFP

Evo Morales não resistiu à pressão dos protestos e das Forças Armadas e renunciou à presidência da Bolívia. Há 13 anos no poder, ele estava prestes a iniciar seu quarto mandato, após ter vencido as eleições de 20 de outubro, mas denúncias de irregularidades no pleito o afastaram desse cenário.

Em seu anúncio, Evo alegou ter sido vítima de um "golpe de Estado" e afirmou que deixava o cargo para evitar ainda mais violência contra seu grupo político. Junto a ele, outras dezenas de autoridades também renunciaram, levando dúvidas quanto a quem o sucederia no comando do país.

Para Entender

Renúncia de Evo deixa vácuo de poder na Bolívia

Neste momento, ninguém sabe quem comanda o país; senadora opositora reivindica direito de assumir presidência; veja a lista de autoridades que renunciaram

No dia seguinte à renúncia, Evo viajou ao México, país que o ofereceu asilo político. Mas enquanto o ex-presidente deixa sua nação, aqueles que ficaram tentam formar um governo com as peças que sobraram. Entenda, a partir deste compilado de materiais, os pontos que levaram a isso.

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Camacho: quem é o líder opositor que ajudou a derrubar Evo Morales

Luis Fernando Camacho virou personalidade política importante na Bolívia, mesmo não sendo afiliado a partidos ou tendo cargos públicos

Redação, O Estado de S.Paulo

12 de novembro de 2019 | 08h00

“Com a Bíblia, o rosário e a carta de renúncia nas mãos, pedimos a Deus uma Bolívia nova e reestruturada na democracia”. Foi essa a mensagem publicada nas redes sociais de Luis Fernando Camacho, opositor a Evo Morales que ganhou força nos dias seguintes às eleições questionadas por fraude, em 20 de outubro.

Natural de Santa Cruz de La Sierra, uma das regiões mais ricas do país andino, o advogado e presidente do Comitê Cívico Pró-Santa Cruz tem na fé e no discurso religioso um de seus principais argumentos para liderar os protestos que culminaram com a renúncia de Evo no último domingo.

Camacho é uma personalidade política no país, especialmente em Santa Cruz, reduto da classe empresarial majoritariamente opositora a Evo. A região foi apelidada de “governo moral”, enquanto desde o início das manifestações contra a reeleição de Evo, Camacho foi apresentado em Santa Cruz como “o presidente”.

No domingo, ele conseguiu invadir o palácio do governo da Bolívia, horas antes da renúncia de Evo, com uma bíblia e a bandeira do país, posicionando-as uma em cima da outra. No Twitter, ele publicou a mensagem: “Nossa luta não é com armas, é com fé”.

No mesmo dia, aos pés do Cristo Redentor de Santa Cruz, a apoiadores e integrantes de associações de empresários, Camacho fez um discurso televisionado ao público, onde disse que iria mobilizar o andamento de investigações e processos judiciais contra Evo, seu vice Álvaro Garcia e “todos os seus ministros, porque eles formaram parte das mortes da nossa gente. Não é ódio nem ressentimento, se chama justiça divina”. 

O aumento das denúncias de fraude eleitoral na Bolívia, após Evo ter sido reeleito ainda em primeiro turno com uma paralisação de 20 horas da contagem dos votos, fez com que Camacho organizasse grandes comícios em Santa Cruz.

Ele foi o primeiro a pedir, em público, o apoio dos militares bolivianos para ficarem “ao lado do povo” e auxiliarem na retirada de Evo do poder. As declarações fizeram com que as alas governistas o acusassem de articular um golpe militar no país.

Foi ele também quem tentou viajar a La Paz para entregar uma carta de renúncia que Evo deveria assinar, no início de novembro. Ao desembarcar na capital boliviana, Camacho foi recebido por apoiadores de Evo e não conseguiu deixar o aeroporto, fazendo com que ele decidisse retornar a Santa Cruz.

Com cerca de 80 mil seguidores no Twitter, Camacho publica vídeos com mensagens em que fala de Justiça divina, fé e o papel de Deus no processo para derrubar Evo Morales do governo - o boliviano estava no comando do país desde 2006 e foi o presidente que mais tempo esteve à frente da nação de 11 milhões de habitantes.

A caída de Evo também culminou nas renúncias do vice-presidente, Álvaro García, a presidente do Senado, Adriana Salvatierra, e o líder da Câmara, Victor Borda, além dos vice-presidentes da Câmara e do Senado.

Para a professora Denilde Holkzacker, professora de relações internacionais da ESPM, o vácuo de poder favoreceu Camacho, cujo protagonismo foi até maior que o do ex-presidente Carlos Mesa, segundo colocado nas eleições e representante de uma oposição mais moderada.

“Ele (Camacho) vem de um estado fortemente opositor, que é Santa Cruz, tem um grupo de oposição muito forte e, diferente de outros líderes, ele está ligado a grupos conservadores católicos. Ele se destacou muito na mobilização”, disse.

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Análise: Renúncia foi um golpe ou o resultado da vontade popular?

A vertiginosa sucessão de acontecimentos no domingo continuou a reverberar por toda a América Latina

Anthony Faiola e Rachelle Krygier / The Washington Post, O Estado de S.Paulo

12 de novembro de 2019 | 06h00

Os bolivianos acordaram na segunda-feira, sem liderança e atordoados, ante às brasas ardentes das casas dos socialistas, incendiadas após a renúncia do presidente por muito tempo, Evo Morales, o ícone de esquerda afastado do cargo em meio a acusações de que seu partido fraudou as eleições do mês passado. Enquanto o país mais pobre da América do Sul tentava compreender os acelerados eventos do dia anterior, seus cidadãos enfrentavam uma questão-chave: a democracia fracassou ou venceu?

Evo, que transformou a Bolívia durante seus quase 14 anos no cargo, considerou a pressão que o forçou a sair no domingo como um “golpe”. No início do dia, a Organização dos Estados Americanos (OEA) disse ter constatado uma “clara manipulação” das eleições de 20 de outubro. A violência que havia entrado em ebulição desde a votação aumentou. Os chefes das Forças Armadas e da Polícia retiraram seu apoio e a oposição desencadeou uma onda de ataques aos aliados socialistas de Evo.

No fim do domingo, todas as quatro autoridades socialistas da cadeia de comando constitucional - o presidente, o vice-presidente e os líderes do Senado e da Câmara dos Deputados - renunciaram. O que restou do Congresso começou a discutir ontem quem será o líder interino.

Carlos Mesa, o ex-presidente que terminou em segundo com Evo na votação de 20 de outubro, rejeitou a palavra “golpe”. Ele chamou de “ação popular democrática” para terminar um governo que estava tentando se instalar como poder autoritário.

Mesa disse na segunda-feira que o poder legislativo da Bolívia deve selecionar um novo presidente para assumir o posto até que o país possa realizar novas eleições, num prazo exigido de 90 dias. Mesa disse no domingo que nenhum dos integrantes do Movimento para o Socialismo de Morales (MAS) deve ser escolhido como líder interino, mas ele insistiu na segunda-feira que os membros do MAS não devem temer perseguição.

“O claro desejo da oposição democrática é criar um governo democrático, respeitando a constituição", afirmou.

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Crise na Bolívia: Guia para entender a queda de Evo Morales

Após 13 anos no poder, presidente não resiste a pressões das ruas e das Forças Armadas e abandona cargo; veja como isso aconteceu

Jeanine Añez, a segunda vice-presidente, acirradamente anti-EVo no Senado, disse na segunda-feira que aceitaria uma presidência interina, se o cargo lhe fosse oferecido. Alguns oficiais da oposição se uniram a ela, argumentando que constitucionalmente, o cargo deveria caber a ela. Meu “único objetivo seria convocar eleições”, disse ela a repórteres.

No entanto, a Bolívia enfrentava divisões profundas e uma persistente violência - com a forte possibilidade de um agravamento. Da noite para o dia, com o paradeiro de Evo desconhecido, manifestantes da oposição saquearam e queimaram as casas de políticos socialistas - incluindo a de Evo.

Pelo menos 20 funcionários do MAS pediram asilo na Embaixada do México. O prefeito de La Paz, Luis Revilla Herrero, disse que 64 ônibus foram queimados desde domingo. Escolas e empresas fecharam na segunda-feira e o transporte foi suspenso.

Alguns integrantes da oposição estavam claramente ansiosos por vingança contra o governo que dominou o país mais pobre da América do Sul desde 2006. O líder de direita Luis Fernando Camacho convocou, na noite de domingo, para mais dois dias de protestos e disse que apresentaria propostas para processar Evo, seu ex-vice-presidente, Álvaro Garcia Linares, e legisladores do MAS.

“Vamos iniciar os julgamentos dos criminosos do partido do governo, colocando-os na cadeia”, disse ele em um comunicado por vídeo.

Dois membros do tribunal eleitoral - sua ex-presidente Maria Eugenia Choque e ex-vice-presidente Antonio Costas - já foram detidos. Sandra Kettels, uma autoridade eleitoral em Santa Cruz, foi presa na segunda-feira de manhã. O Ministério Público anunciou a emissão de mandados contra todos os funcionários da justiça eleitoral.

 “Uma noite de terror”, declarou o jornal nacional La Razón. Na segunda-feira, irados defensores de Evo montaram barricadas para bloquear as estradas que levam ao aeroporto de El Alto-La Paz, informou a Associated Press.

Evo afirmou no domingo que um mandado de prisão havia sido emitido contra ele. Vladimir Calderón, chefe da polícia nacional, negou no domingo que tal ordem de prisão tivesse sido emitida. Mas Calderón renunciou na segunda-feira, aumentando a confusão no terreno.

Evo e seus opositores culparam uns aos outros pela violência

“Os golpistas que atacaram minha casa e a de minha irmã, ameaçaram de morte os ministros e seus filhos e atacaram um prefeito, agora mentem e tentam nos culpar pelo caos e pela violência que provocaram”, disse Evo em um tuíte na segunda-feira de manhã. “A Bolívia e o mundo são testemunhas do golpe."

Uma questão-chave que se apresenta é saber se a oposição de direita, agora claramente no controle do país, permitiria que os socialistas apresentassem qualquer candidato nas novas eleições depois que a OEA detectou evidências de fraude eleitoral. Evo havia conquistado uma margem de 10% de vitória na votação de 20 de outubro - apenas o suficiente para evitar um segundo turno, no qual suas chances de perder teriam sido elevadas.

Evo, que venceu eleições passadas por largas margens, havia prolongado demais sua permanência no cargo. Ele concorreu ao quarto mandato, apesar de perder um referendo nacional sobre limites de mandato. Mas os socialistas ainda comandam um significativo apoio na Bolívia, e a decisão de barrá-los traz o risco de mais conflitos.

A vertiginosa sucessão de acontecimentos no domingo continuou a reverberar por toda a América Latina. Na Venezuela, disseram analistas, o governo autoritário de esquerda considera os ataques contra socialistas bolivianos como prova de que ceder voluntariamente o poder pode ser perigoso.

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Renúncia de Evo deixa vácuo de poder na Bolívia

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“Na Venezuela, as declarações da oposição dizendo que querem trabalhar com a (esquerda), de que não haverá vingança”, disse Michael Shifter, presidente do Diálogo Interamericano em Washington. “Acho que haverá muito mais ceticismo quanto a isso, depois de ver o que está acontecendo na Bolívia.”

O debate para definir se a democracia foi restaurada ou quebrada se enfureceu na Bolívia e em toda a região. Os socialistas de Evo foram acusados de fraudar uma eleição. Mas os críticos disseram que a decisão dos militares de retirar seu apoio, e a força da multidão que o forçou a sair, eram tudo, menos constitucionais.

As opiniões ficaram ao longo de linhas ideológicas, expondo as divisões políticas entre e dentro das nações latino-americanas.

Algumas nações criticaram a Organização dos Estados Americanos, um órgão semelhante ao das Nações Unidas, sediado em Washington, para o hemisfério, por cruzar os braços, enquanto Evo foi forçado a deixar o cargo no domingo.

“Vamos solicitar urgentemente uma reunião da Organização dos Estados Americanos, porque ontem o silêncio prevaleceu”, disse na segunda-feira Marcelo Ebrard, ministro das Relações Exteriores do México. “Como se pode manter o silêncio diante de um acontecimento dessa gravidade?"

Ele reiterou que o México acredita que o que aconteceu no domingo constituiu um golpe. Evo aceitou a oferta de asilo político do México. "O que não podemos tolerar é que um militar diga a um presidente que ele deve deixar o cargo”, afirmou. “O que aconteceu ontem é um revés para todo o continente”.

A Argentina, dirigida pelo atual presidente de centro-direita Mauricio Macri, adotou uma visão diferente. “Para o nosso governo, não houve golpe”, disse Normando Alvarez García, embaixador argentino na Bolívia, a uma estação de rádio local. “Há uma interrupção da ordem constitucional com base na agitação social." / TRADUÇÃO DE CLAUDIA BOZZO 

 

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Papel de militares foi decisivo em renúncia de Evo Morales, dizem analistas

Analistas ouvidos pelo 'Estado' dizem que Forças Armadas pressionaram Evo a sair do poder após ele ter minado sua legitimidade

Paulo Beraldo, O Estado de S.Paulo

11 de novembro de 2019 | 21h56

As Forças Armadas tiveram papel decisivo na renúncia do ex-presidente da Bolívia, Evo Morales, pressionado por manifestações desde 21 de outubro, um dia depois da eleição marcada por denúncias de fraudes e protestos ininterruptos.

Para analistas, a conclusão é de que Evo minou sua legitimidade ainda em 2017, após uma corte mudar as regras eleitorais na Bolívia, contrariando decisão de um plebiscito no ano anterior em relação ao número permitido de reeleições consecutivas, assim permitindo que Evo disputasse uma nova eleição.

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Crise na Bolívia: Guia para entender a queda de Evo Morales

Após 13 anos no poder, presidente não resiste a pressões das ruas e das Forças Armadas e abandona cargo; veja como isso aconteceu

Na avaliação de Lucas Leite, professor de relações internacionais da FAAP, houve uma ruptura democrática no momento em que o chefe das Forças Armadas exigiu que Evo deixasse o poder. "A entrada dos militares na questão mostra que a política foi colocada de lado. Militares não devem se ocupar de processos de nenhum país considerado democrático", afirmou, dizendo que Evo havia cedido a pressões, como a necessidade de uma nova eleição, e tentava pacificar o país. 

O cientista político Hussein Kalout, pesquisador da Universidade de Harvard, diz que Evo foi praticamente forçado a deixar o poder, mas sustenta que agora é preciso analisar como se portarão seus apoiadores e opositores, já que nenhum dos lados tem apego claro às regras do jogo democrático. “O vácuo de poder será preenchido de maneira constitucional? As novas autoridades conseguirão restabelecer a tranquilidade para organizar novas eleições transparentes, competitivas e limpas?”, questionou. 

Kalout defende que o Brasil ajude a Bolívia a organizar novas eleições e se estabilizar, já que toda e qualquer instabilidade regional respinga em interesses brasileiros, como a dependência energética do gás boliviano. Para isso, diz ser preciso tomar o partido da democracia e da Constituição e não de uma força política. 

"É preciso evitar a propensão do governo brasileiro de condenar automaticamente Evo Morales por todos os males se quisermos nos manter relevantes. Nesta hora, é necessário ter isenção política para estender a mão e ajudar a apaziguar os ânimos, inclusive por meio de apoio e cooperação na organização de novas eleições" disse.

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Renúncia de Evo deixa vácuo de poder na Bolívia

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Para Denilde Holzhacker, professora de relações internacionais da ESPM, a concentração de poder nas mãos de Evo e o fato de não mais responder às expectativas da população fortaleceram o movimento por sua saída. 

"Houve manifestações com relação à falta de políticas públicas mais eficazes, à segurança, à presença do narcotráfico, à manipulação das eleições e à falta de renovação política", disse. "São fatores que geraram um caldo para as grandes manifestações que vemos”. 

Futuro

Para Leite, parte da oposição liderada pelo advogado Luis Fernando Camacho tem discurso reacionário que nega a pluralidade e o multiculturalismo boliviano. "É um certo elitismo que rompe com o que era considerado um governo popular. Há um certo messianismo, com o uso da Bíblia, de armas, e uma contraposição aos grupos menos privilegiados do país". 

América Latina

Na avaliação de Sérgio Veloso, professor do Instituto de Relações Internacionais da Puc-Rio, a América Latina hoje passa por um processo de instabilidade, com o enfraquecimento das instituições democráticas e das economias. "A geopolítica da região está se redesenhando", afirmou. 

Para ele, há um consenso de que o status quo não tem atendimento mais a demandas populares. "A questão é para onde vai o caminho das reformas", conclui. 

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Entenda quem comanda o país após a renúncia de Evo

País lida com vácuo de poder após presidente deixar cargo, assim como as autoridades que poderiam sucedê-lo

Redação, O Estado de S.Paulo

11 de novembro de 2019 | 09h02

LA PAZ - A resposta para o vácuo de poder no qual a Bolívia ficou após as renúncias do presidente Evo Morales e das autoridades que poderiam sucedê-lo constitucionalmente está nas mãos da Assembleia Legislativa (o Parlamento do país) e terá que passar por um acordo político.

Evo e seu vice-presidente, Álvaro García Linera, anunciaram no domingo, em um vídeo transmitido pela TV estatal, que entregavam seus cargos. Os presidentes do Senado, Adriana Salvatierra, e da Câmara dos Deputados, Víctor Borda, ambos governistas, fizeram o mesmo. Entenda o que acontece agora no país.

Já aconteceu algo parecido na Bolívia antes?

Uma situação similar à de agora aconteceu na Bolívia em 2005, quando o então presidente Carlos Mesa renunciou em meio a graves conflitos sociais.

Ele havia assumido a presidência do país em 2003, após a renúncia de Gonzalo Sánchez de Lozada no chamado "outubro negro", uma revolta social contra a decisão governamental de exportar gás boliviano aos Estados Unidos através de um porto chileno.

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Crise na Bolívia: Guia para entender a queda de Evo Morales

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Em meio à crise de 2005, renunciaram a seu direito constitucional de suceder Mesa os então presidentes do Senado, Hormando Vaca Díez, e da Câmara, Mario Cossío, e não havia um vice-presidente que pudesse assumir no lugar do então governante.

Quem ficou à frente da presidência foi o presidente da Corte Suprema de Justiça, Eduardo Rodríguez Veltzé, em junho daquele ano, para convocar em dezembro as primeiras eleições gerais vencidas por Evo Morales.

Esse cenário era permitido pela Constituição vigente até antes de 2009, mas a Carta Magna promulgada naquele ano por Evo não o contempla, afirmou o advogado constitucionalista Gonzalo Hidalgo.

O que diz a nova Constituição?

O artigo 169 da nova Constituição boliviana estabelece a mesma linha sucessória em caso de renúncia de presidente, vice-presidente, presidente do Senado e da Câmara.

"Neste último caso, seriam convocadas novas eleições no prazo máximo de 90 dias", diz o texto. "Em caso de ausência temporária, assumirá a presidência quem exercer a vice-presidência, por um período que não poderá exceder os 90 dias."

Para Hidalgo, o mais importante agora é que as lideranças políticas do país tenham sensatez e não se afastem dos princípios estabelecidos na Constituição.

Por isso, o que deve ser feito agora é "esperar primeiro a aceitação da carta de renúncia do presidente" na Assembleia Legislativa, que deverá analisá-la em uma sessão. Até o momento, não há uma renúncia por escrito de Evo e nem de García Linera.

O que acontece daqui para frente?

Diante da ausência dos presidentes do Senado e da Câmara, Hidalgo considera que a Comissão Mista de Constituição de ambas as casas deve convocar uma reunião de emergência e "definir como será formada agora uma estrutura de direção da Assembleia Legislativa", na ausência até mesmo de um vice-presidente.

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Renúncia de Evo deixa vácuo de poder na Bolívia

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Quem tem maioria no Legislativo é o partido de Evo, o Movimento ao Socialismo (MAS).

O advogado considera importante que em breve possa ser selado um acordo político, porque, embora as duas Câmaras estejam sem presidentes, "há uma representação soberana por meio dos congressistas, e eles têm que tomar uma decisão responsável, uma decisão constitucional".

"Será muito importante a responsabilidade assumida pelos políticos da Assembleia Legislativa até que se chegue a um consenso para uma saída constitucional", acrescentou.

Por que Evo renunciou?

Na manhã de domingo, Evo havia anunciado novas eleições, poucas horas depois de a Organização dos Estados Americanos (OEA) informar que encontrou, em uma auditoria, graves irregularidades nas eleições gerais de 20 de outubro, nas quais o agora ex-presidente se reelegeu para um quarto mandato em meio a denúncias de fraude por parte da oposição.

Depois de uma série de renúncias de parlamentares e ministros, Evo divulgou um vídeo no qual ele e García Linera anunciavam a renúncia de seus cargos. Os dois também denunciaram serem vítimas de um "golpe de Estado". No vídeo, o mandatário afirmou que a OEA tomou uma decisão "política", e não técnica.

Quando parecia que a renúncia de ambos poderia colocar um fim à crise que explodiu no dia seguinte ao pleito, grupos de opositores de Evo resolveram se manter em alerta, e coletivos ligados ao MAS promoveram ações de vandalismo em cidades como La Paz e El Alto. / EFE

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    Analista vê ‘golpe popular’ sem influências para o Brasil

    Para professor emérito da Universidade de Brasília, renúncia de Evo Morales não terá efeito direto no País, mas enfraquece esquerda na região

    Paulo Beraldo, O Estado de S.Paulo

    10 de novembro de 2019 | 21h48

    O “golpe popular” pelo qual passou a Bolívia no domingo, 10, terá pouca influência no Brasil ou em outros países da América Latina. A avaliação é do cientista político David Fleischer, professor emérito da Universidade de Brasília (UnB). 

    Segundo Fleischer, a “ânsia de poder” do ex-presidente Evo Morales, que buscava um quarto mandato e estava no comando do país desde 2006, o fez ignorar a vontade da população, que, em um referendo sobre novas eleições, impôs derrota ao presidente e, mais tarde, passou a protestar nas ruas após a eleição ser alvo de denúncias de fraudes.  

    Não entendo que esses protestos ou que essa renúncia possam ter influências no Brasil e em outros países da América Latina”, afirmou Fleischer, dizendo que nações como Equador ou Chile, que passaram por protestos recentes, vivem processos e realidades particulares. “No Brasil, não creio que passaremos de declarações do ex-presidente Lula lamentando pelo ‘companheiro’”. Apesar de conquistas sociais e econômicas em seu governo, Evo também foi afetado por escândalos de corrupção e acusado de autoritarismo no comando do país de 11 milhões de habitantes. 

    Horas depois da renúncia de Evo, o ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva escreveu nas redes sociais que o boliviano fora alvo de um “golpe” e que a elite não consegue aceitar a democracia e a inclusão dos mais pobres. O presidente eleito da Argentina, Alberto Fernández, também afirmou que o país viveu um golpe de estado “como resultado de ações conjuntas de civis violentos, policiais ‘aquartelados’ e passividade do exército”. Outro líder regional a se manifestar foi José Mujica, ex-presidente do Uruguai, que endossou a avaliação de seus colegas. 

    Segundo Fleischer, mobilizações a favor de Evo no Brasil seriam lideradas por Lula, que enfrenta resistência em grande parte da população. “Onde ele vai, há gente contra”, disse, destacando que o ex-presidente pode reforçar o cenário de radicalização política no Brasil

    O ministro das Relações Exteriores, Ernesto Araújo, discordou da avaliação de golpe. Para ele, a tentativa de fraude eleitoral maciça deslegitimou Evo Morales, "que teve a atitude correta de renunciar diante do clamor popular". Ele escreveu em seu Twitter que o Brasil apoiará transição democrática e constitucional. "Narrativa de golpe só serve para incitar violência", disse. O ministro da Defesa, general Fernando Azevedo e Silva, afirmou ao Estado que a democracia saiu fortalecida do processo

    Atenção

    David Fleischer afirmou ainda que as Forças Armadas do Brasil e o Itamaraty seguramente acompanham atentamente a situação, estão preparados para os desdobramentos e ressaltou que a queda de Evo é favorável ao governo do presidente Jair Bolsonaro, assim como enfraquece a esquerda ligada a Lula, que busca construir uma aliança na região. 

    Para Fleischer, a insistência de Evo em se manter no poder fez com que seu grupo não tivesse uma liderança renovadora e não ouvisse os anseios da população, que protestava desde o resultado da eleição, em 20 de outubro. “Não há uma liderança em ascensão em seu partido. A enorme crise política o fez sofrer um golpe popular, já que até mesmo os militares e a polícia estavam frustrados e pediam sua saída”, disse. 

    Com a renúncia também do vice-presidente boliviano, Álvaro García, dos presidentes do Senado, Adriana Salvatierra, e da Câmara, Victor Borda, a linha de sucessão no país está incerta. Fleischer entende que a situação abre caminho para o segundo colocado na eleição, o ex-presidente Carlos Mesa, após um governo transitório. 

    Bolsonaro pede voto impresso

    O presidente da República, Jair Bolsonaro, defendeu o voto impresso no Brasil, em sua primeira manifestação pública a respeito da saída de Evo Morales do posto de presidente da Bolívia. "Denúncias de fraudes nas eleições culminaram na renúncia do Presidente Evo Morales. A lição que fica para nós é a necessidade, em nome da democracia e transparência, de contagem de votos que possam ser auditados. O voto impresso é sinal de clareza para o Brasil!", afirmou.

     

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    Ânsia de poder foi o calcanhar de Aquiles para o fim de uma era

    O medo de que ele fosse perpetuado no poder começou a incomodar uma parte da sociedade boliviana

    Laura Núñez Marín, EFE

    10 de novembro de 2019 | 21h32

    Evo Morales, o primeiro indígena a chegar à presidência da Bolívia por meio de eleições regulares, deu fim ao seu governo após mais de 13 anos de uma administração cheia de luzes e sombras, que o levou a se tornar o presidente com mais tempo no poder na história dessa nação sul-americana.

     

    Morales, que chegou à presidência com o apoio de setores socialmente marginalizados historicamente, começou a sofrer desgaste após o referendo de 21 de fevereiro de 2016, no qual 51,3% dos bolivianos se recusaram solapar a Constituição para que ele pudesse ser candidato novamente neste ano.

    Mas Morales não se importou e o Tribunal Constitucional endossou sua candidatura para as eleições de 20 de outubro. Esse processo foi questionado pela oposição e pela comunidade internacional e, finalmente, ontem, a Organização de Estados Americanos (OEA) confirmou em um relatório que detectou irregularidades “muito graves”, como manipulação no sistema transmissão por computador e cálculo de resultados e solicitou um novo pleito. 

    Evo, que em 26 de outubro completou 60 anos, é líder do Movimento ao Socialismo (MAS). O político nasceu em uma comunidade andina no seio de uma família humilde. Quando jovem aprendeu a comercializar lhamas. Também foi padeiro, pedreiro e trompetista.  Ele então migrou para Chapare, uma área de produção da folha de coca, no departamento de Cochabamba, onde ascendeu como líder sindical, que o catapultou à presidência em 2006 pela primeira vez.  Em sua despedida neste domingo, prometeu voltar a Chapare, diante de boatos de que vá fugir do país.

    Os anos mostraram contradições entre seu discurso e sua forma de agir, principalmente no cuidado com o meio ambiente ou em sua condição indígena, que desgastou sua imagem.  Havia um Evo Morales que foi a organizações internacionais para falar sobre Pachamana, Mãe Terra e povos indígenas.  E outro, que governou a Bolívia aprovando decretos que autorizavam a queima controlada, causando grandes incêndios, mesmo em espaços de preservação permanente. 

    Sem medo de enfrentar os Estados Unidos, expulsou o embaixador americano do país no início de seu primeiro governo. Também levou, sem sucesso, o Chile ao Tribunal de Haia, no eterno conflito entre as duas nações sobre uma saída para o mar. Anos depois, ele foi repreendido por vender seu país a multinacionais na China ou manter aliados como o presidente venezuelano, Nicolás Maduro.

    Embora cinco anos atrás ele tenha dito que no final dessa gestão gostaria de se aposentar, encontrou uma maneira de defender novamente sua continuidade no poder, de uma forma que foi muito questionada. Neste momento, o medo de que ele fosse perpetuado no poder começou a incomodar uma parte da sociedade boliviana. Após as eleições de 20 de outubro, essa massa descontente, que foi às ruas alegando que havia fraude eleitoral, com episódios violentos que deixaram três mortos.

    Na sua despedida pela TV, agradeceu seu apoiadores. “Muito obrigado por se juntar a nós", exclamou em despedida depois “treze anos, nove meses e 18 dias” no poder desde sua primeira posse, em 22 de janeiro de 2006. Ao final, alertou: “A luta não termina aqui”.

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    Entenda a crise que levou à renúncia de Evo Morales na Bolívia

    Protestos começaram um dia após a eleição em que o então presidente buscava um quarto mandato

    Redação, O Estado de S.Paulo

    10 de novembro de 2019 | 19h27
    Atualizado 14 de novembro de 2019 | 01h25

    A crise política que culminou com a renúncia do presidente Evo Morales, e do vice-presidente Álvaro García Linera, na Bolívia, neste domingo, 10, começou um dia depois das eleições de 20 de outubro. Em um resultado questionado que levou a protestos de rua cada vez mais radicais, o presidente e seu grupo mais próximo de poder, como o vice, não aguentaram a pressão popular. 

    Apesar de ter apresentado conquistas sociais e econômicas durante a campanha, Evo também foi afetado por escândalos de corrupção e acusações de uma guinada autoritária.

    Entenda, abaixo, um passo a passo sobre a crise boliviana. 

    Apuração de votos interrompida 

    No dia da eleição, 20 de outubro, uma primeira contagem rápida apontou que Evo obteve 43,9% dos votos, enquanto o opositor Carlos Mesa conquistou 39,4%, que afirmava que poderia haver fraude. Em princípio, o sistema de contagem rápida de votos do Tribunal Supremo Eleitoral previa um segundo turno entre Evo e Mesa.

    No entanto, após 20 horas sem novas informações sobre o andamento da contagem, o tribunal passou a indicar uma vitória no primeiro turno e, logo depois, declarou o presidente reeleito com 47,08% dos votos, contra 36,51% de Mesa. 

    Em vídeo no Twitter, Mesa afirmou que o tribunal descumpriu com sua palavra ao não divulgar a recontagem dos votos até ter 100% das urnas apuradas. Segundo ele, o órgão liberou apenas um relatório por meio do TREP - sistema de acompanhamento eleitoral do país - quando 80% das urnas estavam apuradas, e interrompeu a recontagem. 

    Missão da OEA monitora apuração

    Um dia depois, o governo da Bolívia e uma missão de observação da Organização dos Estados Americanos (OEA) concordaram em estabelecer uma “equipe de acompanhamento permanente” para a apuração das eleições gerais. 

    Segundo a Constituição boliviana, o vencedor em primeiro turno precisa obter 50% mais um dos votos válidos ou ao menos 40% do total com vantagem de 10 pontos porcentuais sobre o segundo colocado. 

    Tensão

    A situação logo legou a uma escalada nas tensões. Os eventos passam por manifestantes ateando fogo em urnas de votação e sedes eleitorais, sindicatos e organizações empresariais. Em Sucre (sudeste) e Potosí (sudoeste), os manifestantes atearam fogo em tribunais eleitorais. Em La Paz, foram registrados confrontos com a polícia, enquanto a sede do partido governante Movimiento Al Socialismo (MAS) foi atacado em Oruro (sul). 

    Os incidentes também chegaram às cidades de Tarija (sul), Cochabamba (centro) e Cobija (norte), onde a polícia agiu para dispersar os manifestantes. Em Riberalta, no Departamento de Beni (noroeste), uma estátua do ex-líder venezuelano Hugo Chávez, aliado de Evo e morto em 2013, foi destruída.  

    'Princípios violados' e segundo turno 

    Em 23 de outubro, o Conselho Permanente da Organização dos Estados Americanos (OEA) se reuniu para debater a situação das eleições presidenciais da Bolívia. A conclusão foi de que vários princípios que regem uma eleição democrática foram violados e que, diante da margem apertada, a melhor opção seria assegurar um segundo turno eleitoral. 

    Entidades

    Além da OEA, entidades da sociedade civil e a oposição continuaram acusando o presidente boliviano de orquestrar uma fraude para vencer no primeiro turno, com o auxílio das autoridades eleitorais. Evo, por sua vez, denunciou que "estava em processo um golpe de Estado", em referência aos protestos. "Quero que o povo boliviano saiba que até agora suportamos humildemente para evitar a violência e não entramos em confronto", disse. 

    Vitória e protestos

    A apuração tardia deu a vitória a Evo no primeiro turno, o que causou mais protestos no país, com 29 feridos e 57 presos. Segundo os resultados oficiais do Tribunal Supremo Eleitoral, Evo teve 47,8% dos votos e Mesa, 36,51%. 

    Promessa de segundo turno

    Após as manifestações, ele prometeu realizar um segundo turno se uma revisão da contagem de votos que lhe deu a vitória em primeiro turno encontrasse evidências de fraude, em uma tentativa de acalmar protestos e críticas internacionais sobre sua reeleição para um quarto mandato consecutivo. 

    Auditoria

    Em 30 de outubro, a Bolívia e a Organização dos Estados Americanos (OEA) concordaram em realizar uma auditoria do resultado das eleições presidenciais. O ministro das Relações Exteriores acrescentou que a auditoria seria "vinculante", ou seja, sua conclusão seria acatada pela OEA e pelo governo boliviano. 

    Radicalização

    Os protestos se intensificaram após o início da auditoriaAssembleias populares nas cidades de La Paz e Santa Cruz rejeitaram a checagem e exigiram uma nova votação sem Evo. As assembleias populares, com a participação de milhares de pessoas, decidiram manter os protestos nas ruas, greves e bloqueios de estradas até haver novas eleições. O comitê de Santa Cruz também pediu a renúncia imediata de Evo e do vice-presidente, Álvaro García.

    Pedido de apoio das Forças Armadas

    Em um comício em 3 de novembro, Luis Fernando Camacho, chefe de uma poderosa entidade civil na rica região de Santa Cruz, lançou um ultimato a Evo para que ele renunciasse em 48 horas, e convocou os militares a se colocarem "do lado do povo". Camacho, líder do Comitê Cívico de Santa Cruz, leu uma carta dirigida aos chefes das Forças Armadas, a quem pediu para "estarem ao lado do povo" na crise. 

    'Golpe a caminho'

    O ministro das Relações Exteriores da BolíviaDiego Pary afirmou em 4 de novembro que havia um "golpe de Estado a caminho" no país. O ministro não descartou a possibilidade de um segundo turno. Pary afirmou que o governo de Morales se comprometeu com a OEA a "cumprir a decisão que será tomada" após a auditoria iniciada pela organização. 

    Opositor ameaçado

    O líder opositor boliviano Luis Fernando Camacho, que tentava forçar o presidente Evo Morales a assinar uma carta de renúncia, disse em sua conta no Twitter que tinha recebido ameaças do governo. 

    “Torno públicas as ameaças que temos recebido por parte do governo. Não tenho medo, apesar de saber que são capazes de qualquer coisa. Contudo, se acontecer algo, o povo boliviano sabe quem são os responsáveis”, escreveu Camacho. 

    Polícia se rebela

    Inspiradas pela população, unidades da polícia nas cidades de Cochabamba (centro), Sucre (sudeste) e Santa Cruz (leste) se rebelaram contra a polêmica vitória eleitoral de Evo Morales e exigiram a renúncia do presidente, que denunciou um "golpe" em andamento na Bolívia

    "A polícia de Chuquisaca está se unindo aos camaradas já rebelados em Cochabamba, também em Chuquisaca (cuja capital é Sucre) está se rebelando com o povo boliviano", disse a um canal de TV um policial com o rosto coberto na entrada do comando de Sucre. "Não podemos seguir com este 'narcogoverno', com esta democracia injusta."  

    Os agentes do comando de Santa Cruz fecharam a unidade e vários policiais subiram no teto do prédio com bandeiras bolivianas, como os rebelados em Cochabamba.

    Guardas abandonam Palácio Presidencial

    Em 9 de novembro, policiais que faziam a guarda externa do palácio presidencial da Bolívia, em La Paz, deixaram seus postos e se amotinaram em um quartel. O local passou a ser protegido apenas por oficiais e suboficiais. Grupos de policiais estavam se mostrando abertamente descontentes com o governo do país. Dentre suas demandas estão melhores condições de trabalho e a renúncia do presidente.

    Chefe das Forças Armadas pede renúncia

    Em 10 de novembro, o comandante-chefe das Forças Armadas e da Polícia da Bolívia, o general Williams Kaliman, pediu ao presidente Evo Morales que renunciasse em meio a protestos que duravam três semanas. Mais cedo, Evo anunciou a convocação de novas eleições presidenciais e a renovação do quadro de magistrados do Tribunal Supremo Eleitoral (TSE) depois que a Organização dos Estados Americanos (OEA) apontou uma série de irregularidades na votação. 

    Renúncia

    Uma hora após a declaração do general Williams Kalin, Evo Morales anunciou a renúncia pela televisão. "Renuncio a meu cargo de presidente para que (Carlos) Mesa e (Luis Fernando) Camacho não sigam perseguindo dirigentes sociais", disse Evo, referindo-se aos líderes opositores que convocaram protestos contra ele desde o dia seguinte às eleições de 20 de outubro. Morales era o presidente latino-americano há mais tempo no poder. 

     

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    A ascensão e queda de Evo Morales

    Por que a gestão dele teve tanto destaque? Como ele mudou a nação sul-americana? A democracia corre perigo no país? Entenda essas e outras questões

    Redação, O Estado de S.Paulo

    13 de novembro de 2019 | 10h46

    BOGOTÁ - A renúncia de Evo Morales da presidência da Bolívia talvez possa se igualar a sua chegada ao poder. O primeiro chefe de Estado indígena do país mudou a política em uma nação governada durante décadas por descendentes europeus de pele clara, e prometeu reverter séculos de desigualdade. 

    Foi bem-sucedido em muitas frentes, mas acabou se vendo obrigado a renunciar após grupos que um dia o apoiaram se voltarem contra ele.

    Por que a presidência de Evo teve tanto destaque?

    Quando Evo, filho de um criador de lhamas, chegou à presidência por uma esmagadora maioria em 2006, sua vitória foi considerada um feito histórico para a população indígena do país, que não tinha direito a voto até 1952.

    Nesse momento, os 36 grupos indígenas da Bolívia representavam 60% dos 8,5 milhões de habitantes. Para muitos deles, Evo, que é aimará, foi o primeiro líder que se parecia com eles e pensava como eles.

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    Como muitos compatriotas, Evo cresceu em um ambiente de pobreza extrema. Quatro de seus seis irmãos morreram ainda crianças. Durante a campanha eleitoral, deixou de lado o tradicional terno e gravata dos políticos e optou pelas informais camisas de manga curta e até jaqueta de couro, enquanto chamava carinhosamente as mulheres de “irmãs” e os homens de “chefes”.

    Evo prometeu reverter séculos de desigualdade. “Estamos aqui para mudar juntos essas injustiças, esse roubo permanente dos nossos recursos naturais”, além da discriminação, do ódio e do desprezo, disse ele após sua vitória.

    Como Evo mudou a nação sul-americana?

    Sob o mandato de Evo Morales, mais de meio milhão de bolivianos saíram da pobreza, enquanto estudantes, idosos e mães se beneficiaram dos novos recursos.

    A economia cresceu com força graças ao elevado preço dos produtos básicos. Segundo o Banco Mundial, a pobreza moderada, que prejudicava 59% da população do país dois anos antes da chegada de Evo ao poder, caiu para 39% em 2014.

    Evo introduziu uma nova Constituição que levou a um novo Congresso com cadeiras reservadas para grupos indígenas minoritários, e reconheceu o culto à Pachamama (Mãe Terra) no lugar da Igreja Católica. 

    A Carta Magna também “refundou” a Bolívia como um Estado “plurinacional”, permitindo o autogoverno dos povos indígenas. Contudo, apesar dos temores de alguns de que pudesse haver um giro à esquerda na economia, Evo manteve o país dependente de suas indústrias de extração enquanto negociava pontos mais favoráveis que permitiram uma maior distribuição da riqueza gerada pelo gás e pelos minerais.

    O que causou a queda de Evo?

    Não foi um momento facilmente identificável, mas sim uma série de passos em falso. Os mesmos líderes indígenas que levaram Evo ao poder se sentiram cada vez mais desapontados com um presidente o qual sentiram que havia traído suas promessas de proteger o meio ambiente e se afastar da dependência das grandes indústrias, como a de mineração. 

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    Milhares de bolivianos saíram às ruas em 2011 quando Evo seguiu adiante com seus planos para construir uma rodovia atravessando uma reserva protegida da Amazônia. E apesar da melhora dos indicadores econômicos, uma parte importante da nova classe média descobriu que as oportunidades de trabalho não haviam crescido o suficiente e se cansou da corrupção que muitos acreditavam que o presidente não combatia.

    Quando convocou um referendo em 2016 para eliminar o limite no número de mandatos no poder, os eleitores deram as costas a Evo. Mais tarde, causou mais desapontamento ao deixar que o Tribunal Supremo retirasse os limites, o que permitiu a ele buscar sua quarta reeleição este ano.

    A vitória nas eleições de 20 de outubro foi concedida a ele, mas as inexplicáveis falhas na divulgação dos resultados levaram a acusações de fraude eleitoral e semanas de protestos. Os apoios ao presidente ficaram ainda mais prejudicados e, finalmente, uma declaração do chefe do Exército provocou sua renúncia.

    “Se tivesse tentado não forçar o assunto de sua reeleição, provavelmente teria sido lembrado de forma bastante positiva”, explica Alissandra Stoyan, professora de ciências políticas da Universidade Estadual do Kansas.

    Qual seria o efeito da decisão de Evo?

    A renúncia de Evo foi anunciada em um momento de agitação social em toda a América Latina. Cidadãos frustrados organizaram protestos que reuniram milhares de pessoas contra líderes de direita em Honduras e no Chile. Na Argentina, os eleitores voltaram a escolher o lado peronista e rejeitaram um presidente que apoiava reformas de livre mercado.

    Mas o partido de Evo, o Movimento ao Socialismo (MAS), terá que travar agora uma batalha desigual contra uma posição empoderada em uma nova eleição presidencial. “Parece que a América Latina está se tornando mais complexa nos últimos anos e não podemos falar em ‘marés’ como costumávamos fazer”, afirma Jorge Derpic, professor de sociologia da Universidade de Georgia especializado nos movimentos sociais na América Latina.

    A democracia na Bolívia corre perigo?

    Algumas pessoas estão preocupadas porque a Bolívia pode voltar a uma época turbulenta em sua longa trajetória de volatilidade política após quase 14 anos de relativa estabilidade com Evo. Segundo uma pesquisa, o país teve mais de 190 tentativas de golpe de Estado e revoluções desde a sua independência, em 1825, em um ciclo repetitivo de conflito entre as elites políticas das zonas urbanas e os desfavorecidos dos setores rurais.

    Há incertezas sobre quem ocupará o poder antes da realização de novas eleições. Uma senadora de oposição se autoproclamou presidente interina na terça-feira, 12, mas não está claro quanto apoio ela tem.

    Nancy Postero, professora de antropologia da Universidade da Califórnia, é otimista e acredita que a classe média boliviana jovem e formada encontrará uma saída. Ela lembra que há mais de uma década o próprio Evo traçou um caminho rumo à estabilidade após a onda de descontentamento que o precedeu.

    “O povo boliviano escreveu uma nova Constituição, refez a sociedade e criou uma forma totalmente diferente de pensar sobre o Estado”, explica Nancy. “Não tenho dúvida de que isso voltará a acontecer.” / AP

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