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Análise: Como a ação que matou general iraniano pode afetar as eleições dos EUA

Até agora, assuntos externos haviam desempenhado papel limitado nas primárias dos democratas; a morte de Qassim Suleimani pode reconfigurar a disputa

Alexander Burns, The New York Times

03 de janeiro de 2020 | 16h35

O ataque militar americano em Bagdá que matou o general iraniano Qassim Suleimani estremeceu instantaneamente as primárias presidenciais do Partido Democrata nesta sexta-feira, 3, forçando questões de segurança nacional ao primeiro plano de uma corrida dominada até agora pela política interna e provocando até mesmo debates entre os democratas sobre questões de guerra e paz.

Os candidatos presidenciais do partido reagiram ao ataque com uma atitude de união, pelo menos na superfície, com declarações de preocupação a respeito da possibilidade de uma guerra total e do que consideram uma propensão da administração de Trump a tomar ações imprudentes. Enquanto vários lamentaram o papel de Suleimani em direcionar a violência contra os americanos, os democratas expressaram ansiedade em vez de júbilo sobre as circunstâncias de seu falecimento.

O ex-vice-presidente Joe Biden disse que o presidente Trump "atirou dinamite dentro de uma caixa de areia", enquanto o senador Bernie Sanders, de Vermont, advertiu que o ataque "nos aproxima de outra guerra desastrosa no Oriente Médio".

"Nossa prioridade deve ser evitar outra guerra custosa", disse a senadora Elizabeth Warren, de Massachusetts.

Em North Conway, New Hampshire, Pete Buttigieg descreveu o ataque como um "ato extremamente provocador" que tanto a administração de Obama como a de George W. Bush tinham optado por não tomar contra Suleimani.

"Se aprendemos algo no Oriente Médio nos últimos 20 anos, é que matar um ‘cara mau’ não é uma boa ideia, a menos que você esteja pronto para o que vem depois", disse Buttigieg, que de maneira pouco característica vestiu um terno sobre sua camisa e gravata, aparentemente transmitindo a gravidade do momento.

Mas também houve distinções na forma como os principais democratas reagiram, apontando para um debate mais amplo dentro do partido sobre as guerras no exterior e a presença americana no Oriente Médio. Sanders, por exemplo, usou de maneira notória a palavra "assassinato" para descrever a morte do comandante iraniano — um termo com sérias implicações legais e diplomáticas — e apontou que se opôs à resolução de 2002 que autorizava a guerra no Iraque, dizendo nas entrelinhas que Biden a tinha apoiado.

A forma com que os assuntos militares devem dominar as primárias, no mês anterior à convenção partidária do Iowa, provavelmente dependerá dos acontecimentos no Oriente Médio, e do quão severo e visível se tornar qualquer confronto subsequente com o Irã. As relações externas têm desempenhado até agora um papel muito limitado na corrida eleitoral dos Democratas. Houve grandes duelos em debates sobre saúde, tributação, imigração, justiça criminal e controle de armas, mas apenas divergências de opiniões sobre o papel dos Estados Unidos no exterior e sobre a forma adequada de resolver os conflitos militares americanos no Oriente Médio e na Ásia Central.

Em 2020, a possibilidade de um novo e prolongado conflito no exterior poderia muito bem reconfigurar as eleições, mesmo para além da corrida no Partido Democrata. Trump concorreu à Presidência com o compromisso de retirar os Estados Unidos das guerras no exterior, obtendo apoio de setores não convencionais para um republicano, por causa da percepção de que ele seguiria uma política de "EUA em primeiro lugar" de relativo isolacionismo e de interesse próprio nacional.

Mas Trump já havia recebido críticas de seus rivais democratas, e até mesmo dentro de seu próprio partido, por presidir uma retirada caótica da Síria. A explosão de violência em larga escala no Irã e no Iraque poderia complicar profundamente seu objetivo de buscar um segundo mandato com a mensagem de paz e prosperidade.

Na primária democrata, a experiência em política externa tem sido em grande parte considerada como um trunfo de Biden, dada sua estatura global como ex-vice-presidente e sua experiência como presidente da comissão de relações exteriores no Senado. Ele tornou um tema central de sua campanha a restauração das alianças americanas em todo o mundo e criticou Trump por ter transformado os Estados Unidos em piada nos encontros de líderes globais.

Nesta sexta-feira, Biden declarou no Twitter que o mundo "foi colocado em tensão por um presidente errático, instável e perigosamente incompetente". Colocando-se como uma alternativa segura, Biden publicou um anúncio de campanha que o mostrava reunido com as tropas e caminhando ao lado do ex-presidente Barack Obama.

"Cada dia que Donald Trump dirige a segurança nacional americana é um dia perigoso para os Estados Unidos e para o mundo", disse Biden.

Mas um debate cada vez mais intenso sobre política externa pode ter o efeito de destacar o extenso currículo de Biden e também de submeter seu histórico na região a um novo escrutínio. Nos últimos dias, houve sinais de que vários dos principais candidatos democratas tentavam um debate sobre política externa com Biden, mesmo antes do surto de violência no Iraque e da morte de Suleimani ter dominado as notícias.

Sanders tem feito uma campanha consistente baseada em seu histórico antiguerra, e ele tem destacado repetidamente o apoio de Biden no passado à guerra do Iraque, advertindo os democratas que Trump usaria esse histórico contra o ex-vice-presidente em uma eleição geral. Na manhã desta sexta-feira, um assessor de Sanders postou imagens no Twitter mostrando o legislador progressista falando contra a guerra no Iraque em 1991, 1998, 2002 e 2014.

Buttigieg tentou responder perguntas sobre sua própria relativa inexperiência apontando para posições de Biden sobre o Iraque, como um exemplo de que a experiência nem sempre foi um trunfo na campanha ou no governo.

"Ele apoiou a pior decisão de política externa tomada pelos Estados Unidos em minha vida, que foi a decisão de invadir o Iraque", disse Buttigieg em uma entrevista a uma televisão de Iowa.

E em sua declaração nesta sexta-feira, Buttigieg citou repetidamente seu próprio serviço militar para sugerir que ele tinha uma compreensão distinta da situação.

Elizabeth Warren também indicou no passado que tem uma visão cética sobre o envolvimento militar americano no Oriente Médio, e declarou em um dos debates do último outono que os Estados Unidos deveriam retirar as tropas de combate da região. Essa postura pode se tornar uma linha divisória nas primárias, separando progressistas como ela e Sanders de Biden e outros.

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Por enquanto, grande parte do campo democrata estava procedendo com — e recomendando — cautela. O ex-prefeito Michael Bloomberg, de Nova York, divulgou uma declaração que questionava se o presidente havia considerado plenamente "os graves riscos envolvidos". Já a senadora Amy Klobuchar, de Minnesota, pediu à administração federal que consultasse o Congresso sobre uma "estratégia para prevenir um conflito mais amplo".

Há alguns precedentes de eventos no exterior que remodelaram as eleições primárias americanas, geralmente em prol de um candidato considerado como uma figura com experiência. Em dezembro de 2003, a captura de Saddam Hussein no Iraque formou o pano de fundo para a fase final da primária democrata que resultou na nomeação de John Kerry, um veterano da Guerra do Vietnã que trabalhou no Comitê de Relações Exteriores do Senado.

Quatro anos mais tarde, em 2007, o aumento das tropas no Afeganistão e a morte de Benazir Bhutto no Paquistão empurraram a segurança nacional para o centro de uma primária republicana instável, que terminou com a nomeação de John McCain, herói de guerra cuja campanha se concentrou de forma esmagadora nas guerras no Iraque e no Afeganistão.

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Kevin Madden, estrategista político que aconselhou as campanhas presidenciais de Bush e Mitt Romney, disse que a segurança nacional tende a tornar-se uma questão eleitoral — nas primárias e eleições gerais — principalmente em resposta a grandes desdobramentos externos. Ele citou o ataque de Benghazi no outono de 2012 e o massacre da boate de Paris em 2015 como outros exemplos recentes.

"A economia é ingrediente de todo bolo nas eleições presidenciais. Mas o foco na questão da segurança nacional tende a ser impulsionado por grandes eventos", disse Madden. "Cada disputa recente teve um desses eventos onde tudo parece parar e fazer com que todos os participantes, desde os candidatos e as campanhas até os eleitores e a mídia, recalibrem as apostas da eleição através das lentes da segurança nacional e da política externa".

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